sexta-feira, 30 de julho de 2010

CAPÍTULO 18 – REFLETINDO A ROTINA

— Você disse que não conversamos seriamente sobre o assunto, mas toda vez que quero fazer isso você me deixa falando sozinho! O que está acontecendo, Fernanda?
— Eu preciso de tempo, Pedro! Tempo! Por favor, para de ficar martelando esse assunto porque...
— Esse assunto, não é um as-sun-to, é nosso filho!
— Não é nosso filho porque ainda não foi concebido. Estamos conversando sobre a possibilidade de ser um filho.
— Você fala disso como se estivesse tratando de uma de suas contas da agência.
— E você não está respeitando o tempo que te pedi, está, como sempre, tentando resolver as coisas passando por cima de mim...
— Essa não é uma questão só sua.
— Eu não aguento mais isso!!!
Virei as costas e fui tomar um banho.
De verdade não aguento mais. Acho que vou pedir o divórcio, ficar de uma vez por todas livre e ir viver minha vida longe dessa casa, dessas pessoas que me pressionam sem saber de nada!
As discussões que tenho com Pedro a respeito da gravidez já estão tão maçantes e repetitivas que já não me abalo como no começo. Sinto que estamos perdendo o respeito um pelo outro porque não me emociono mais, não me sinto mais afetada pelo que ele dispara contra mim, e são acusações cada vez mais pesadas, cheias de uma raiva que vai se enraizando... e eu sempre tento atingi-lo com mais força quando tenho oportunidade, por puro gosto. Minha vida antes monótona agora está se tornando um inferno.
Quando voltei para o quarto ele já estava dormindo, ou fingindo que dormia. Peguei um livro na estante e desci para a sala.
Desmoronei no sofá e fiquei olhando pela janela a vista privilegiada que eu tinha da cidade de São Paulo. Apoiada naquela visão eu fazia um levantamento do meu dia e de como queria que fossem os outros. Não dá mais para esperar, preciso tomar decisões, fazer alguma coisa para parar com essa autodestruição emocional.
Conversei com Júlio hoje, foi uma conversa legal.
Olha só como estou ultimamente: desabafando com meu personal trainer... Acho que encontro nele uma forte identificação, talvez por ele ser gay assumido, muito bem resolvido. Não que eu seja assim, tão resolvida... aliás, nada resolvida. Não tente se enganar, Fernanda, só estamos nós aqui nesta sala escura e vazia. Tenho que confessar claramente para mim que sinto inveja de Júlio por ter uma vida amorosa aberta com outro homem, por simplesmente não fazer da opinião dos outros um referencial para sua vida. Um homem alto, forte, moreno, completamente apaixonado pelo fisioterapeuta que conheceu numa dessas academias por aí... O fato é que estão juntos e felizes, e isso é admirável. Queria estar leve como ele, mas estava tensa. Logo pela manhã saí de uma reunião longa e cansativa numa universidade que contratou os trabalhos da agência. Conta grande, grande investimento que inclui ínfimos e sórdidos detalhes e exigências descabidas. Saí exausta e vim direto para casa malhar (para ficar ainda mais exausta?) para o segundo tempo da batalha. Júlio apertava meus ombros e dizia que eles pareciam uma pedra... e eu só queria que ele fizesse massagem o dia inteiro, sem a parte dos exercícios. Ele pegou mais leve hoje, conversamos mais e acabei contando que Pedro quer o filho/filha que eu não quero dar.
Depois de suar ele me deixou para encontrar seu amor e eu o deixei para tomar banho e almoçar. Pedro chegou, trocamos poucas palavras e saí de fininho para não correr o risco de pisar mais forte nos ovos – ultimamente eu pisava em ovos quando conversávamos –, não nos despedimos, fui direto para a agência receber uma candidata para a vaga de ilustrador de nossa campanha para a tal universidade.
Nos corredores pigarreei, esfreguei as mãos e preparei meu olhar decidido, a mulher das grandes estratégias... grande coisa... mas tinha que ser assim, as pessoas me conheciam assim: Fernanda, a profissional decidida, segura, vencedora. As aparências enganam, o teatro da vida é mesmo muito interessante.
Entrei na sala de reuniões e me deparei com uma morena linda, vestida em camisa e calça social, usando acessórios de bom gosto. Um colar, uma pulseira, brincos e unhas bem feitas... o perfume, o sorriso, a boca com batom... linda! Mostrou-me a mesma segurança que pretendi mostrar a ela. Mostrou-me seu teste e alguns trabalhos anteriores, todos muito bons, muito típicos dela. Ana Paula tinha traços característicos, artísticos, muito bonito seu trabalho. Apertamo-nos as mãos e combinamos o contrato.
Terminada a matança do leão de cada dia, voltei para casa. Entrei no carro e me lembrei de Clarice. Em algum momento do meu dia sempre penso nela, é automático. Se vejo uma bela mulher me lembro dela... pensei em Ana Paula, pensei em Clara. Olhei para minha bolsa, tirei meu celular. Fazia três anos que não discava aquele número, quase três anos porque tentei durante algumas semanas depois daquele dia. Sabia o número de cor... mas depois de ouvir tantas mensagens de número indisponível ou fora da área de cobertura, fiquei com medo de tentar mais e mais e mais uma vez, e ouvir sempre a mesma voz automática. O celular vibrou em minhas mãos e outro número me veio às vistas: era mamãe. Desliguei. Melhor voltar logo para casa.
Agora estou aqui olhando São Paulo tão silencioso daqui de cima, fora de minha cama, de meu quarto porque lá não me sinto mais à vontade. Algo precisa acontecer... para algo acontecer preciso fazer alguma coisa. Chega de esperar.

continua...

5 comentários:

Anônimo disse...

Jesuscristim, robaram boa parte desta postagem!Que safado dum ladão! Denunciou? Já "deu parte"? ... Pensando bem, claro que deu parte...deu parte da postagem pró ladrão.
Ôooo dona Marinana, assalariada tudo bem, tb sou, aliás tô mais para assaltariada, mas que economia, ein? Tudo bem que a escrita é tão boa que tamanho quase não é documento, mas num sabadão??? ...rs
Pentelhação de fã a parte, gostei da postagem titiquinha :-) sim. Beijão Mariana, bom final de semana prá vc e para os seus.
Ana

Mariana Cortez disse...

Hahahaha... é que no word parece que rende mais, entende?
A dose precisa ser homeopática para que o clímax seja especial... entende também? rsrsrs
Na terça, pelas minhas contas, vai ser maior.
Brigada, Ana. ótimo fim de semana pra vc também.
Beijo.

Anônimo disse...

Prezada Dona Mariana, a Microsoft Brasil solicita que atualize imediatamente a data em seu computador: Hoje, terça-feira, 03 de agosto de 2010.
Solicita também que passe a utilizar as seguintes configurações de página no word: A4, arial, tamanho 5 (para facilitar a visualização no canto inferior direito da tela clique sobre o sinal + quantas vezes for necessário). Menos de 16 páginas por documento fará com que seu computador trave.
Atte,
Suporte

Mariana Cortez disse...

Atualizado, com letras maiores, com mais linhas e capítulo novo em primeira mão, rsrsrs.
Beijos!!

Anônimo disse...

Yes! Yes! Yes!
Já falei que a senhora escreve maravilhosamente bem? Já?! Todo mundo diz isso?! Não é novidade?! Ok,ok,ok... Mas que num tem 16 páginas em fonte 5, tem não!!!!... Sou chata?! Ok, ok, ok...rsrs... Brigadão Dona Mariana, pelo gostoso início de final de semana. Beijo, sua fã 3.000.999.123....1/4.
Ah, já li e já acabou.