sábado, 24 de julho de 2010

CAPÍTULO 15 – VIVER E SE DIVERTIR

— O que ela contou? – perguntou Nana assim que entrou com sacolas cheias de frutas, frios, pães e sucos para o café da manhã de domingo. — Vocês sempre têm tanto para conversar que fui embora.
— Ela finalmente fará a individual no Galpão das Artes e convidou-me para escrever sobre as obras. Quer que eu vá lá antes de todos dar uma olhada.
— Só você e ela? Sei... – piscou enquanto arrumava a mesa.
Nana sempre me disse que Laís tinha como meta me tirar desse jejum de anos. O pessoal dizia que eu havia me retornado virgem e apostavam em quem seria a “primeira” novamente. Laís encabeçava a lista. Na verdade, acho que já percebia nela um tratamento especial direcionado a minha pessoa antes mesmo de eu ir para a Espanha. Eu estava solteira, ela, aparentemente, também e talvez... Estudamos juntas, mas nunca fomos tão próximas. Na época éramos meio rivais: ela “pegava” as menininhas da parte sul da universidade e eu as da parte norte... tipo demarcação de território. Que bom que crescemos...
— Não pense besteiras, Nana... não quero nada com Laís.
— Você não precisa querer nada sério porque duvido que ela queira, mas poderia voltar a praticar com ela, não acha? – sentamo-nos. — Você não pode manter uma castidade até reencontrar Fernanda.
— Por que, não?
Nana mordeu a torrada abarrotada de requeijão, mastigou enquanto organizava as palavras para argumentar com firmeza. Eu a conhecia bem.
— Porque você pode demorar ainda mais a reencontrá-la. – colocou sua mão sobre a minha: — Clarinha, pode ser que ela esteja casada, ela estava noiva, não estava? Pode ser que ela tenha filhos, uma vida totalmente diferente. Pode ser que ela não sinta mais o que você sente... – Nana sempre me dizia as verdades mais doloridas.
— Sei disso. Mas, não sinto vontade de ter outra pessoa agora...
— Eu queria ter namorado você há sete anos com a cabeça que você tem agora... – riu me provocando. — Imagina você fiel e amorosa há sete anos... – do riso foi à gargalhada.
— Fui totalmente apaixonada por você e por suas pernas há sete anos.
— Sim, sim... eu atendi bem a alguns dos seus fetiches...
Daí em diante foram só lembranças de um namoro intenso, divertido e breve.
Nana foi minha..., ..., ... quinta namorada, talvez. Mas foi a única que não quis me matar quando concluí que não queria mais. Tornamo-nos amigas depois de algumas semanas de insultos e ressentimentos. Um dia nos reencontramos numa festa qualquer e declarei a ela, com toda a sinceridade do mundo, que a amava demais e faria um esforço enorme para ficar longe de suas pernas porque queria que fôssemos boas amigas. Nunca fui muito fiel. Na época eu queria tudo e não podia deixar as oportunidades passarem, e elas se postavam bem diante do meu nariz.
Ela foi uma grande e bela oportunidade de olhos castanhos, pele morena, cabelos cacheados e corpo escultural, sustentado por pernas ma-ra-vi-lho-sas. Nana foi minha obsessão por meses, até o dia em que a tive... e foi tão bom, mas passou, e quando passou eu a quis mesmo assim, como a tenho hoje. Nana é a pessoa mais bondosa que conheço, a única ex que não me virou as costas.
— Você poderia conhecer outras pessoas, não precisa conhecer mais a fundo Laís. – retomou o assunto enquanto me ajudava a caminhar até o sofá. — Clara, precisa sair, se divertir mais, você ultimamente fica muito aqui nesse apartamento enorme que faz eco quando a gente fala.
— Eu sei... mas não tenho vontade, acho que estou envelhecendo e ficando rabugenta.
— Nossa! Trinta e um anos é o ápice da gostosura, querida... ainda mais com a experiência que você tem.
— Será que eu ainda sei fazer?
— Tenho absoluta certeza de que sabe... e deve ter uma desesperada aí dentro querendo dar.
Acho que ando meio para baixo mesmo. Desde que saí – novamente – da casa dos meus pais e voltei a me virar, fico muito tempo sozinha, sem muito entusiasmo para fazer coisas das quais gostava antes do acidente. Não faço outra coisa que não seja fisioterapia, trabalhos rápidos como freela e pensar. Pensar demais faz mal, incha a mente de questionamentos insolucionáveis. Se eu tivesse um plano, se eu tivesse uma maneira de procurar Fernanda... Só um número de celular que não recebe ligações dela há três anos. Pensar, pensar... não me leva a nada, só reforça meu sentimento, minha frustração, ganho uma tristeza que não tinha.
— Bom, vou à exposição...
— Mas a exposição ainda é no próximo mês.
— Vou antes de todo mundo, esqueceu?
Ela abriu um meio sorriso safado.
— E quando será essa exposição exclusiva?
— Quando eu quiser.
Nana foi correndo pegar o telefone e voltou já discando o número de Laís.

Laís não estava mais atenciosa comigo à toa. Sempre houve uma vontade mútua de deixarmos a rivalidade para trás e provarmos uma da outra. Coisa de criança... ou de galinha mesmo. A questão é que, de uns tempos para cá, ela se dedica muito a encontrar maneiras de nos “esbarrarmos” por aí.
Pensando na possibilidade de me divertir e matar minha curiosidade, acho que não seria mal passar algum tempo com ela.
Acho que Nana está certa, preciso voltar à vida... não que eu desista de Fernanda, mas preciso estar bem quando a reencontrar. Preciso ver gente, voltar a pesquisar para ter minha bolsa de estudos de volta, trabalhar além dos trabalhos ocasionais, sei lá... sair desse tédio e parar de ficar me lamentando. Quero voltar a ser o que era antes. Fernanda me conheceu diferente do que sou hoje.
— Você tem razão, preciso dar uma agitada.
— Eu conheço a chama dos teus olhos. – sorriu. — Marcou? Quando?
— Na terça me encontro com Laís, mas se rolar um barzinho hoje, estou dentro.

Não rolou barzinho, mas fomos ao cinema. Fazia mesmo muito tempo que não ia a um shopping subir escadas rolantes e ver vitrines. Entramos em algumas lojas e compramos roupas, tênis e sapatos. Preciso usar calçados confortáveis porque, agora, o meu fraco são os pés ainda bastante desajeitados e doloridos. Minha bengala ganhou novos adesivos, virou mural para meus amigos.
Além de Nana estavam Luana, Marcelo e Júlio. Sentamo-nos num restaurante para beber alguma coisa e esperar o horário do filme. Conversávamos sobre a exposição de Laís quando ela e Gustavo chegaram. Mais um “encontro casual”? O chaveirinho inconveniente estava sempre por perto. Não gosto de Gustavo, sei que é inofensivo sozinho, mas simplesmente não vou com a cara dele. Prefiro ele e Laís separados, mas estão sempre juntos, e parece que, juntos, sempre estão tramando algo... conversinhas, risinhos, intrigas. Nunca me afetaram, mas não gosto disso. Minha relação com ele é estritamente profissional: de vez em quando ele me vende alucinógenos... e é só.
— Não acredito que essa belezinha saiu da toca. – exclamou Laís sorridente puxando a cadeira de outra mesa para se sentar próxima a mim. Deu-me um beijo estralado no rosto e vi quando Nana cutucou Júlio e sorriram.
Entreguei-me momentaneamente àqueles olhos azuis moldurados por rímel. Seu sorrido sempre aberto, aqueles cabelos sempre bagunçados que davam a ela um ar de menininha levada.
— Resolvi voltar à vida.
— Eu te ajudo voltar à ela.
Sorriu novamente e pediu ao garçom uma bebida. Laís é muito louca, acho que se droga bastante, mas isso não fica nítido, é um caso de viciada blasé, que jamais sai caindo do salto por aí. Gustavo, seu empresário sanguessuga deve cuidar para que ela não saia da linha em público.
— Comento sempre com Nana que você precisa voltar à velha forma de antes.
Ah! Comentou com Nana... Olhei para ela lá no outro lado da mesa. Estava conversando ao pé do ouvido com Luana.
— Sei que você passou por uma barra, mas... passou querida, passou.
É, passou. Olhamo-nos demoradamente. Senti uma onda de calor repentina e desviei-me de seu olhar. Lembrei-me do calor que senti quando olhei assim para Fernanda naquele avião e... não sei se queria sentir isso por outra pessoa. Mas, será que agora vou ficar reprimindo meus desejos a fim de não compará-los com meu sentimento por Fernanda? Preciso me libertar.
Fomos ao o cinema depois de algumas doses de cerveja. Compramos pipoca, refrigerante e tudo que é legal para se comer dentro da sala escura. Júlio empurrou Laís para meu lado e Nana cuidou para que Gustavo ficasse na outra extremidade. Em alguns momentos ela encostava seu braço no meu e me arrepiava. Achei engraçado isso, parece que voltei no tempo das primeiras sensações excitantes: encostar o braço, respirar perto da boca da outra ou do pescoço, falar pertinho do ouvido... tudo isso estava me excitando como se fosse a primeira vez. Acho que estava voltando realmente à vida, aos prazeres, às paixões momentâneas. De repente me deu uma vontade de beijar sua boca grande, convidativa... mas não fiz nada, só curti o toque entre as peles.
Quando tudo terminou e andávamos pelas laterais das cadeiras a fim de sair (eu atrapalhava bastante a agilidade da saída por conta dos meus passos lentos), perdi Laís de vista, só fui encontrá-la novamente lá fora.
— Pensei que tivesse corrido de mim... – arrisquei uma deixa.
— Imagina, linda! Fui apenas cumprimentar uma amiga que estava do outro lado da sala. — Não vou deixar você escapar. – cochichou baixinho no meu ouvido e piscou. — Posso deixá-la em casa. Aliás, primeiro deixo Gustavo em casa e depois te levo para a minha, o que acha?
Rápido demais.
— Não... acho melhor você ir para sua casa e eu para a minha com Nana. Mas nos vemos na terça. – Laís me encarou em silêncio por alguns instantes antes de sorrir maliciosamente e fazer um sinal afirmativo com a cabeça.
— Posso te pegar às seis.
— Claro. Te espero.
O pessoal ainda queria esticar para um bar, mas achei melhor não ir. Muita calma, eu ainda estava voltando, mas em doses homeopáticas... a sensação ainda era estranha, parecia que eu agredia a “memória” de Fernanda voltando a viver plenamente. Sentia-me mesmo como se tivesse enterrado Fernanda, que tudo que fizesse de prazeroso fosse “in memorian”, e isso me atormentava. Mesmo sabendo que nada daquilo foi realmente culpa minha, outro lado do meu ser teimava em me fazer culpada... Não sei explicar. Como se, se eu me divertir estarei esquecendo Fernanda e estarei apagando tudo o que passamos juntas naquele dia.
Algumas barreiras haviam se levantado em mim, provavelmente culpa da minha fragilidade, insegurança, baixa autoestima durante o tempo em que estive na cama, na cadeira de rodas, enfim. Tenho que reconhecer que senti medo de, por uma peça do acaso, encontrar Fernanda e ela me ver daquele jeito. Apavorava-me a ideia de ela sentir pena de mim, me vendo feia e tão diferente daquele dia em que nos encontramos. Há três anos meu medo era maior que a vontade de encontrá-la, mas, agora, que estou muito melhor, bem com minha nova condição, posso investir tudo o que tenho e posso nessa busca.
Claro que estou diferente, mas meu amor não mudou. Claro que sempre terei essa bengala me acompanhando e claro que não poderei mais correr na esteira da academia, nem andar de bicicleta, mas voltei a ser forte, divertida, bonita e sem modéstia. Estou pronta.
Vou contratar um detetive, sei lá!
Vou colocar minha criatividade para funcionar!
Mas, agora, melhor eu ir dormir.

continua...

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