Laís foi pontual, às seis da tarde estava me chamando pelo interfone.
Estava um pouco nervosa porque nós duas sabíamos que a intenção do encontro não era apenas ver a exposição para que eu pudesse escrever o artigo. O galpão e as obras eram apenas um pretexto. Tenho certeza de que o pessoal buzinava bastante no ouvido dela: “olha, Clarice está a fim de você... olha, Clarinha está na seca faz um tempão, trata de dar conta, viu?”. Conheço bem a turma da qual faço parte. Do mesmo modo, ouço há tempos vozes que sussurram sempre: “nossa, como Laís é linda! Como você ainda não fez nada?!”. Pensar nas vozes e imaginá-la lá embaixo arrumada me esperando me deixava... não sei... num misto de nervosismo e excitação, afinal, parecia minha primeira vez. Que louco isso.
Assim que a porta do elevador se abriu, vi Laís na portaria. Estava realmente linda, mas... diferente. Ela sempre gostou de vestidos estilosos, saltos altos, maquiagem, sempre pareceu estar vestida para um grande evento mesmo quando estava conosco no shopping. Agora usava um jeans, uma sapatilha e um casaco de lã... seu cabelo estava levemente penteado, sem pomadas e afins... básica. O batom destacava sua boca grande e seus olhos continham o azul deles moldados por sobrancelhas escuras.
Ela me olhava fixamente como se também estivesse surpresa. Infelizmente eu não podia colocar salto, calçava all star, vestia uma saia de tecido leve e uma camisa delicada. Sou pequena, preciso me sobrepor às roupas que visto. A mulher lindamente básica sorriu e veio até mim:
— Clara, você está linda!
— Você já me viu assim antes... – tentei fazer daquilo um momento normal, não tão especial. Acho que estava com medo de algo além do que estava sendo, mas ela parecia que não tinha um pingo de medo.
— Então vou mudar o sentido da frase: Clara, você é linda!
Tremi. Droga.
— Você também está... linda, sim... mas, diferente...
— Provavelmente porque não estou em cima de uma plataforma... – sorriu enquanto caminhávamos devagar para o carro. Ela ficava por perto, mas não me segurava. Gostava da maneira como ela agia para que eu pudesse fazer as coisas sozinha.
— Acho que é isso.
Assim que entramos no carro começou a chover e pegamos trânsito até chegarmos ao galpão. Ficamos alguns momentos em silêncio, outros cantando a música que tocava no rádio... outros falando besteirinhas... outros nos seduzindo...
— Espero que no dia do lançamento não chova assim, senão estarei perdida. – comentou Laís preocupada.
— Vai dar tudo certo. – olhava para fora do carro e via pessoas correndo da chuva.
— Bom, mas hoje não quero pensar na exposição. – o azul de seus olhos me inundou. Tentei ser forte, mais para fazer o jogo da sedução do que para dar uma de difícil.
— Mas estamos indo para o galpão... Não vou ver a exposição antes de todo mundo? – perguntei com um sorriso malicioso, mas, impressionantemente, não via cinismo em seu olhar.
— É diferente. Hoje quero dividir o que acho belo com você, não estou pensando em pessoas elegantes zanzando pelo galpão nem em holofotes. – sorriu ternamente.
Eu sorri sem graça. Acho que perdi a prática da sedução.
Chegamos quase uma hora depois. Dessa vez Laís pediu que eu ficasse dentro do carro. Abriu um guarda-chuva e deu a volta no veículo para que eu não me molhasse, segurou minha mão e entramos no imenso galpão ainda sendo preparado para a grande festa que aconteceria daqui a menos de um mês. No entanto, ele estava preparado para a festa de hoje: uma mesa redonda posta sob luz de velas para duas pessoas. Isso não fazia parte da exposição.
— Já que você recusa todos os meus convites para jantar, achei que poderia trazer o jantar até aqui.
Nossa!
— Acho que você pensou em tudo... – respondi andando pelo galpão a fim de ver suas obras.
— Pensar, pensei... só não sei se tudo que pensei se concretizará. – disse caminhando atrás de mim, olhando para as mesmas imagens que eu.
Conversamos sobre arte, sobre o que ela pensava a respeito da arte, e sobre as expectativas para sua primeira exposição individual. Queria todos os detalhes vindos dela, já que eu escreveria tudo sobre isso, que eu via em primeira mão.
Conheci um pouco melhor Laís, descobri que, por trás da mulher fatal, existe alguém sensível, intenso, emocional. A frieza que seu modo de conquistar transmite me pareceu, na verdade, uma carcaça, uma defesa... mas ela não estava se mostrando fria comigo, muito pelo contrário. Falou-me de seus planos, medos e inseguranças, se expôs, confidenciou-me emoções, sensibilidades que não pensei que fizessem parte dela. Confesso que fiquei surpresa... Mas também percebi que aquele momento de intimidade estava funcionando como moeda de troca: ela se abria comigo, mas queria saber mais sobre mim. Deixei que ela falasse e observava seu jeito de me olhar, que acabava dizendo-me mais do que suas palavras.
— Hoje quero ser só a Laís, não Laís “a artista plástica mais representativa da nova geração”, como disse o jornal bambambam sei lá de onde. – disse sorrindo enquanto me servia já na mesa de jantar.
— Por isso desceu do salto? – provoquei enquanto bebia um pouco do vinho.
— Não. Não quis colocar salto para não ficar tão mais alta que você... – sorriu um pouco embaraçada. — ... e porque sei que você adora saltos e, por enquanto, não pode usá-los. Queria estar mais próxima de você. – não sei se entendi bem o que ela quis dizer, mas houve uma sensibilidade tão grande naquela fala que me comoveu.
— Não precisava fazer isso, Laís... estou bem.
— Só quero me sentir mais próxima, para que você perceba que não sou sempre Laís, “a artista...
— ... plástica mais representativa da nova geração.” – falamos juntas e brindamos à Laís Laís, não aquela que sai estampada nas páginas de jornais e revistas.
Contei sobre meu novo emprego, sobre minha intenção em voltar a fazer mestrado e a tocar a vida. Ela aproximou sua cadeira da minha e trouxe seu copo com vinho. Meu corpo inteiro sentiu um choque. Um termômetro qualquer lá embaixo, dentro do meu jeans, devia estar acusando febre intensa.
— Que bom que voltou... – comentou Laís séria me olhando nos olhos. E eu nos olhos dela.
— Estou aqui há um bom tempo, já.
— Você estava presa em algum lugar... não sei onde porque nunca me disse, mas acho que agora começa a voltar... – dizia baixinho, quase com o nariz no meu pescoço. Obviamente ela percebia que eu estava toda arrepiada e isso dava a ela mais estímulo para continuar sussurrando próxima ao meu ouvido. — Volta para mim, Clarinha... volta para eu te mostrar que aqui, comigo, também pode ser especial.
Fechei os olhos para sentir o cheiro de seu perfume e deixar meu corpo reagir sem pudor. Senti seus lábios nos meus delicadamente, beijou o canto de minha boca, meu rosto, meus olhos, meu nariz... depois desceu para meu pescoço e sua mão, ainda segurando o copo, deslizou sobre minha perna embaixo da mesa. Tirei o copo que segurava e recoloquei sua mão entre minhas pernas.
— Vem comigo. – disse olhando-me intensamente. Levantou-se, ajudou-me a levantar e conduziu-me até um espaço quase vazio do galpão. Lá havia apenas um colchão, dois grandes candelabros com velas acesas, um de cada lado da cama improvisada, e pétalas de rosa vermelha jogadas ao redor. O ambiente era incrivelmente romântico. Jamais pensei que algo assim pudesse vir de Laís.
— Faça um balanço da decoração depois. – advertiu-me antes que eu dissesse qualquer coisa. Envolveu-me num abraço aconchegante e beijou-me com desejo e intensidade. Seu beijo era extremamente sensual, sugava meus lábios, minha língua... deitamo-nos no colchão e ela começou a desabotoar minha camisa com cuidado enquanto nos olhávamos com todo o tesão enrustido, da época em que disputávamos as menininhas da faculdade, o tesão de década que agora se derramava ali naquele colchão rodeado de luz branda e pétalas de rosa.
Meu corpo vai muito bem, obrigada. Todas as reações, todas as vontades concentradas no centro, no clitóris explodindo. Sentia-me molhada, sentia-me salivar por Laís, todo o instinto animal ali, guardado há três anos e prestes a me inundar de sensações que sempre amei sentir. É ótimo transar como se fosse a primeira vez, mas já sabendo o que vou sentir.
Laís primeiro me comia com os olhos, depois lambia e chupava minha pele como se estivesse com muita sede. Foi delicada nos momentos oportunos, mas completamente feroz quando deveria ser. Adorei. Explodi como tantas outras vezes e foi ma-ra-vi-lho-so. Mesmo ainda não tendo a habilidade de antes, consegui escalar seu corpo lindo, macio, e olhei-a nos olhos antes de me enterrar entre suas grandes e torneadas pernas. Chupei Laís inteira com um desejo enorme, como se me satisfizesse do mais delicioso banquete. Sinceramente, não conseguia sentir por Laís a ternura da paixão adolescente, mas a atração era absurda, animalesca. Por um momento quase pensei em Fernanda, mas não poderia fazer aquilo nem comigo nem com Laís. Briguei com parte dos meus pensamentos rebelados, fechei os olhos e pude sentir a mulher que estava ali comigo, maravilhosa, morrer nos meus braços.
Fizemos sexo à noite inteira.
Acho que, em menos de duas horas, tirei o atraso de anos.
Laís é insaciável, deliciosa, capaz de me levar à loucura várias vezes num mesmo orgasmo. Fiquei acabada, como se tivesse levado uma surra, mas, ao mesmo tempo, leve... e grata por ela ter me dado tanto... e eu a ela.
Ficamos em silêncio. Ela abraçada a mim fazendo carinho no meu cabelo espalhado pelo travesseiro.
— Acho que precisamos ir... – eu disse finalmente sentando-me no colchão, para apreciar melhor aquele corpo nu deitado próximo a mim.
— Acha mesmo? – sorriu Laís passando as mãos pelo cabelo. — Ficaria aqui o resto da vida.
— Calma, mocinha, faz tempo que não faço nada do que fizemos aqui a noite inteira. – ela me puxou pelo pescoço e me beijou.
— Você é muito mais do que eu imaginava.
continua...
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
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