quinta-feira, 1 de julho de 2010

CAPÍTULO 9 – DEPOIS DAQUELE DIA

Quando abri os olhos, as luzes me ofuscaram.
Após o choque, fechei-os novamente. Aquela claridade repentina parecia me cegar. Sentia que voltava de um sono profundo... como se tivesse sido largada, nua e sem consciência, num parque, num lugar qualquer.
Senti alguém tocar minha pele, meu braço imóvel. Reabri os olhos calmamente, e as luzes que vinham como lanças voltavam a ser lâmpadas tampadas pelo rosto de uma mulher que me observava de perto com expressão de desespero: era minha mãe.
Quis perguntar o que havia acontecido, mas senti algo que passava pela minha garganta e me impedia de falar. Só então tive uma leve impressão do meu estado naquele momento: estava toda estropiada num quarto de hospital, com um tubo enorme que passava por minha garganta meio anestesiada... Só isso pude deduzir. Minha mãe estava preocupada. Talvez eu estivesse morrendo porque não sentia meu corpo... nada, parecia que não existia mais estímulo, nem reação.
Mas depois que meu cérebro voltou a trabalhar no mundo real, e não mais só no mundo das ideias, lembrei-me que estava ali por causa de um acidente. Estava a caminho do aeroporto para me encontrar com Fernanda. Fernanda, aquela mulher com quem viajei até a Espanha, aquela mulher que cedeu seu lugar para que eu não ficasse próxima da janela do avião, aquela mulher com quem conversei durante horas. Foi com ela que passei uma noite maravilhosa, foi com ela que fiz amor...
A mulher por quem estava apaixonada estava me esperando para voltarmos juntas ao Brasil... e eu não fui, não avisei!!!
“PRECISO LIGAR, PRECISO ENCONTRÁ-LA PARA DIZER QUE TUDO ESTÁ DE PÉ, O COMBINADO ESTÁ DE PÉ!!!
Por favor, mãe, me tira daqui, me dá o celular, liga para Fernanda e diz que tive um problema, mas logo estarei lá!!! ELA PRECISA SABER, EU PRECISO AVISÁ-LA DE QUE NADA MUDOU!!!”
..., ..., ...
..., ..., ...
Apaguei.
Depois de ver as lágrimas escorrendo pelo meu rosto e meu corpo exaltado, reagindo freneticamente, sem nenhuma coordenação motora, como se estivesse tendo uma convulsão, minha mãe, apavorada, chamou a enfermeira que injetou na minha veia uma dose cavalar de tranquilizante.
Mamãe não ouviu meus pedidos, não entendeu minha aflição. Eu berrava o mais alto que podia por meio de pensamentos confusos e doloridos. Queria me levantar, queria fazer alguma coisa para poder evitar... Mas quantos dias teriam se passado? Quanto tempo? “Hein, mãe?!! Há quanto tempo estou aqui neste hospital sendo observada por você com expressão de desespero? PELO AMOR DE DEUS, FAÇA ALGUMA COISA!!!”
Quando percebeu minha exaltação, chamou a enfermeira novamente, mas me contive para não ser forçada a dormir, não poderia deixar que o tempo me escapasse de novo. Fiquei imóvel, apenas meus olhos denotavam a angústia que me sufocava mais do que aquele tubo miserável.
Tentei me acalmar. O que aconteceu já estava feito.
Fechei os olhos, deixei que os pensamentos parassem de gritar.
Aos poucos comecei a sentir dor e desconforto, vi minha mãe e, depois, meu pai conversando com dois médicos.
Não pude ouvir o que diziam, mas acho que não era coisa boa, pois meu pai balançava a cabeça em uma negativa triste. Depois se aproximou de mim todo amoroso, fez carinho na minha testa e meus olhos se encheram de lágrimas (era a única maneira de me comunicar). Naquele momento, além de uma dor imensa no meu coração partido, sentia todo meu corpo formigar.

Nos dias que se seguiram, na UTI, minha mãe me contou que houve um atentado terrorista no metrô de Madri. Várias linhas foram atingidas, inclusive aquela em que eu estava.
Voltei mais cedo do congresso com uma amiga portuguesa e dormi em sua casa em Madri. Quando fui ao encontro com Fernanda tudo aconteceu. Dezenas de pessoas morreram e outras centenas ficaram feridas. Eu faço parte da segunda estatística.
Minha mãe disse que não imaginava que eu estivesse em Madri, e sim em Barcelona (foram os planos iniciais...). Quando minha amiga portuguesa ligou para ela dizendo que eu era uma das vítimas do atentado, ela e meu pai pegaram o voo que conseguiram para a Espanha.
Agora estavam ali comigo.
Tati, minha amiga, foi me ver e disse que nada sobrou, minha bagagem foi perdida ou queimada e, obviamente, meu celular não existe mais... nem o cartão que Fernanda me deu.

continua...

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