terça-feira, 13 de julho de 2010

CAPÍTULO 12 – QUASE O PRESENTE

Três anos se passaram desde que encontrei este bilhete no bolso do meu casaco a caminho de Ávila. E, se não fossem os indícios (meu nome na lista de passageiros daquele voo, os contratos que fechei nas reuniões que fiz, meus pais e o Pedro me esperando no aeroporto quando retornei com o coração em pedaços, com vontade de chorar) acharia que estava ficando louca... que tudo o que aconteceu foi coisa da minha cabeça.
No começo foi assim – pensei que tivesse tido alucinações –, mas eu tinha um número de telefone, e tentei ligar várias vezes durante semanas, mas ninguém atendeu depois daquele dia em que me senti deslocada do mundo, caída nua num lugar qualquer depois de viver dias de sonho.
Não tenho nenhum outro meio de contato, conversamos tanto e não tivemos tempo de dizer onde trabalhávamos, endereços, mais telefones... amigos que poderíamos ter em comum, os lugares de São Paulo que frequentávamos. Nossa conversa foi logo de cara tão além do convencional, tão maior que os assuntos que entretêm os desocupados, que esquecemos de falar o que, agora, seria fundamental para eu saber se tudo aquilo não foi uma farsa.
Vez ou outra sou tomada por uma revolta, vontade de contratar um detetive, de conseguir na justiça permissão para ver a lista de passageiros que viajaram naquele dia de Barcelona para Madri. Vontade de colocar o mundo de pernas para o ar... levantar todos os tapetes do universo para saber se há alguma pista, uma mísera pista de onde possa estar Clarice neste momento. Eu iria atrás dela. Se ela não me recebesse, invadiria seu lugar de trabalho, a esperaria na saída, seguiria seus passos até sua casa e gritaria, espernearia e vomitaria desaforos: “Como você foi capaz de fazer com que eu acreditasse numa vida realmente feliz e depois sumir como uma fugitiva, uma piranha covarde que foge!!!” Gritaria isso e mais, e depois sairia recolhendo meus cacos para me reconstruir em outro lugar.
Mas aí, vem quase que ao mesmo tempo a insegurança, o medo de saber a verdade, se essa verdade for apenas e simplesmente o fato de ela não ter querido mais que uma noite, uma aventura. Melhor viver sem essa verdade... assim minha vida não se torna vazia, preencho-a com a esperança. Ela deve ter tido algum motivo... não quero (quero) saber qual foi.
Tive que me reconstruir do mesmo jeito, com a dúvida: devo odiá-la ou não? Não consigo odiá-la porque ela não me explicou, não se defendeu.
Houve manhãs em que acordei desesperada, com a forte sensação de que ela estava morta naquele atentado terrorista (mesmo sabendo que, no momento em que aconteceu, ela estava em um avião), por isso não consegui falar com ela. Passava o dia angustiada, prestes a perguntar para cada pessoa que eu encontrasse se havia visto, em algum momento de 2004, uma mulher com aspecto de menina universitária, que sempre usa um rabo de cavalo mal feito e tem olhos negros enormes e brilhantes capazes de cativar rapidamente quando acompanhados do sorriso.
Chorei muitas vezes por conta dessa aflição, e tive noites de insônia em que recapitulava cada momento que tivemos juntas, chegando à conclusão de que tudo foi real e que eu não tinha explicação por tudo ter terminado.
Os afazeres e as pessoas do meu dia a dia foram suavizando a dor. Meu trabalho, meus amigos, meus pais... o Pedro.
Ele estranhou, óbvio, minha súbita mudança. Entramos em crise, pedi um tempo, terminamos, voltamos. Ele segurou minhas barras, tentou quebrar o muro que se formou entre nós, mas não conseguiu.
Mesmo assim, casamos.
Depois de quase dois anos tentando me reencontrar, achei que a resposta talvez estivesse em Pedro. Quando não conseguimos encontrar as respostas que procuramos, começamos a acreditar em sinais, nos tornamos místicas e espiritualizadas repentinamente, acreditando que tudo o que acontece é um complô dos deuses para nossa felicidade.
Quando já não tinha forças para acreditar num reencontro entre mim e Clarice, comecei a acreditar que nosso desencontro serviu de sinal: eu e ela não tínhamos de ficar juntas. Era um sinal de que tudo seria um desastre se insistíssemos. Minha felicidade estaria no casamento com Pedro. E resolvi seguir a vontade dos “deuses”... e dos outros.
Não sinto a felicidade que senti em meus dias plenos, mas acho que não sou infeliz.
Acho que estou na média das felicidades: nem muito, nem pouco... o suficiente para tocar a vida com uma certa acomodação sem culpa. Pedro é um bom marido, alguém com quem gosto de estar e que gosta de mim. Continuo trabalhando, indo à casa de meus pais, jantando com nossos amigos, viajando, indo ao cinema, teatro, museu... e vez ou outra – todos os dias – penso, nem que seja por segundos, nela. Ela, a lembrança de Clarice também faz parte do meu dia a dia, e acho que será assim para sempre.

continua...

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