terça-feira, 13 de julho de 2010

CAPÍTULO 11 – A OUTRA VERSÃO

Quando entrei naquele avião o efeito dos tranquilizantes já havia passado. Sempre desligava para suportar o pavor de voar. Tinha me dopado no aeroporto, mas o voo demorou tanto que já estava boa.
Sabia que minha poltrona era a da janela, já tinha me preparado: cara de coitada e um discurso para solicitar a troca de lugar. Ouvir um “não” me forçaria a tomar outra dose cavalar de dopantes... um “sim” talvez fizesse com que eu dormisse após a angústia inicial.
Fui na direção do meu lugar e parei ao lado de minha companheira de poltrona, uma mulher elegante, que vestia roupas sóbrias. Parecia executiva e desenrolava o fio de seu ipod sem perceber minha presença. Só depois de alguns segundos ela ergueu os olhos e aí percebi que ela já tinha me visto sim, só não queria me olhar. Notei, pela sua cara de tédio, má vontade em olhar alguém que estacionou ao seu lado sem dizer nada.
— Você quer passar? – perguntou depois de me observar com olhos de sono.
Quase me sentei sem negociar, mas não custaria tentar... o máximo que poderia acontecer era ela dizer um “não” e eu achá-la uma chata pelas próximas 12 horas da viagem.
— Na verdade eu... eu... Bom, na verdade eu queria te pedir uma coisa. – ela me olhou como se quisesse me matar... mas eu já tinha começado... — Mas, claro que se você não quiser, não tem problema. – dei uma pausa porque senti meu sangue subir à face diante de um olhar que, aos poucos, se transformava do tédio para o paciente. — É que, me perdoa, mas morro de medo de altura e não consigo ficar perto da janela do avião... mas era o último lugar disponível...
— Você quer trocar de lugar comigo?! – interrompeu-me repentinamente em contraste com seu olhar quase meigo.
— É, eu pretendo pedir isso... se você não se importasse... se não fosse muita cara de pau de minha parte.
Ela pegou a bolsa, levantou-se, chutou delicadamente os sapatos para o lado e sentou-se na poltrona da janela sorrindo, provavelmente rindo do meu medo infantil. Imagina que uma executiva como ela, poderosa e linda teria medo de voar...
Eu poderia sentir vergonha, mas não me envergonho facilmente, então me sentei e agradeci. Meu rosto ainda ardia, mas pensei que fosse apenas o calor do momento.


Realmente bonita aquela mulher.
Nunca namorei executivas, pensei enquanto tirava meu livro da mochila e me ajeitava na poltrona. Já namorei patricinhas, bicho-grilos, punks e “normais”, mas não alguém tão... executiva. Parecia uma workaholic desde que nasceu, mas enxergava uma esperança para aquela moça de corpo bem torneado dentro daquele vestuário tão formal. Ela desenrolava o fio do ipod... ouvia música, não aproveitava a viagem para ler relatórios. Que bom! Talvez ela gostasse só de música clássica... Tudo bem, pelo menos ela se distraía.
Não me parecia arrogante. Parecia de saco cheio por estar naquela roupa desconfortável... estava sem os sapatos. Tinha os cabelos lisos e sedosos, tratados com cuidados de um bom xampu (senti o cheiro quando me sentei ao seu lado). Usava um perfume suave, que não fazia questão de se fazer notar, e isso também era bom. Tinha olhos verdes calmos, porém impostos, que me olhavam firmes. Acho que ali morava seu provável sucesso profissional (será que amoroso também?). Sempre tive mania de avaliar as pessoas partindo da primeira impressão. Mas, quem não faz isso? E depois se surpreende com a segunda, terceira impressões... ou se decepciona?
Tinha bom humor. Aliás, um humor inteligente, e adoro ser desafiada a respostas interessantes. Em poucos minutos travamos um papo-furado ótimo, que tratava de algo sem nexo, viagens de navio para a Espanha... viagem aos olhos dela... Acho que a viagem seria ótima. Nunca pensei numa viagem ótima de avião.
Só voltei ao chão (figurativamente falando) quando o piloto começou a dar as boas-vindas. Instantaneamente meus nervos se retraíram e outro tipo de calor me invadiu (existem vários tipos de calor). Odeio essa sensação! Prestes a pagar um mico ao lado de uma mulher que também me causava uns calores.
Ela percebeu minha fobia, óbvio, e tentou manter contato. Provavelmente precisava fazer a boa ação do dia e, como o dia já estava acabando, ela não perdeu a oportunidade. E como foi gentil me dizendo coisas do tipo: “Faz tempo que não acontecem acidentes aéreos no Brasil...”.
Me manteve com a mente ocupada, procurando respostas inteligentes para suas provocações. Só quando me disse que o avião já estava no ar há algum tempo fiquei imensamente grata e sinceramente comovida com a disposição de uma mulher em ser tão generosa com uma pobre moça fóbica como eu.
Finalmente nos apresentamos: Fernanda.
— Fer-nan-da... – eu disse pausadamente. — Gosto desse nome.
Segurei sua mão e senti sua pele fina. “Prazer, Fer-nan-da...”, pensei enquanto sentia seus dedos finos, com um anel de ouro branco no anular, envolvendo os meus. Olhei-a firme, queria que ela enxergasse em mim uma atração que se formava aos poucos, de uma maneira gradual e agradável. Queria saber se ela gostava de gostar de mulheres.
Talvez não.
Fernanda, delicadamente, retirou sua mão macia da minha... Recuei.
Falamos do livro que eu estava lendo, perguntei qual música ela gostava de ouvir e me surpreendi com seu gosto original, refinado. Comecei a perceber que Fernanda não era tão diferente de mim (segunda, terceira impressões...). Éramos diferentes na opção profissional e isso nos dava uma “carcaça” distinta: ela, uma publicitária de sucesso, que iria para uma reunião na Espanha e eu, uma acadêmica em ascensão, que palestraria sobre arte contemporânea na Universidade de Barcelona. Cada uma de nós, naquele momento, utilizava-se de estratégias para saber quais os pensamentos que iam pela mente escorregadia da outra, que tentava manter a razão no comando.
Inverti o “jogo” e perguntei sobre suas estratégias.
Será que estávamos jogando? Infelizmente eu ainda jogava: jogo de palavras, jogo de olhares e sensações... mas, inegavelmente, em questão de horas estava quase me apaixonando. Sou assim, que posso fazer?! Me apaixono, me encanto pelas pessoas que me surpreendem, e Fernanda fazia isso com uma facilidade que me assustava.
— Você utiliza estratégias de propaganda além do campo profissional? – perguntei séria.
— Como assim? – perguntou Fernanda com um olhar atento, como se observasse o que eu fosse dizer.
— Você acha que consegue coisas fora do contexto profissional por meio de estratégias.
— Acho que elas me ajudam a conseguir, mas não determinam nada.
— Para utilizar estratégias é preciso ser muito racional, não é?
— Sim.
— Sou péssima estrategista.
Isso mesmo. Meu jogo dura até o ponto em que me encontro fragilizada, e meu estado de fragilidade se manifesta quando o tesão surge. Sentia isso naquele momento: tesão em conversar com uma mulher tão interessante, tesão em ouvi-la, tesão em olhar para seus olhos que me analisavam, tesão naquele momento mágico, louco, fora dos acontecimentos da rotina.


Momentos assim não podemos deixar passar.
— Já esteve em Barcelona outras vezes então... – Fernanda mudou o rumo da prosa. Eu sorri como quem entendeu o desvio.
— Já... já dei outros vexames como este com outras pessoas...
— E elas foram tão legais como eu?
Opa! O que era isso? Acho que terei nova chance.
Não esperava a pergunta, mas gostei dela... fez com que o tesão aumentasse, vontade de perguntar se ela estava sentindo o mesmo calor estranho que eu.
— Não. Você é mesmo muito gentil... Você é uma pessoa legal de se conhecer.
— Tudo isso graças à minha técnica de entretenimento. – ela se desvencilhou meio sem graça. O que será que havia? Será que ela tinha medo? É comprometida? Persisti.
— É sério. Faz tempo que não conheço alguém tão interessante...
Acho que iniciamos um clima.
Mas também estávamos muito cansadas. O papo rolava há horas. Tínhamos momentos breves de silêncio sem o constrangimento inicial... voltávamos com outras perguntas, curiosidades, outros assuntos. Eu queria dizer tudo que conseguisse e bebia dela todas as palavras que me dava com atenção e prazer. Tínhamos pouco tempo e queríamos nos descobrir, mas o cansaço nos venceu e dormimos. Não queria dormir.
Não sei se sonhei, mas tive a sensação boa de estar dormindo num lugar confortável, envolta num corpo aconchegante, sensação de leveza e bem-estar... Acho que acordei sorrindo e me deparei com os olhos de Fernanda.
Meu sangue voltou a correr quente e apressado nas veias. Voltei a sentir o tal calor, o tesão veio mais forte, consequentemente a determinação também porque, depois de deixar um pouco daquelas 12 horas escaparem num sono, estava decidida a terminar (ou começar) com aquilo.
— Chegamos?
— Não. Pelos meus cálculos ainda temos algumas horas pela frente...
— Você está acordada há muito tempo me olhando?
Estava mesmo decidida a focar o rumo daquela conversa. Senti Fernanda reagir à minha pergunta tão direta.
— Desculpa.
— Por quê?
— Por lhe constranger.
— Não me constrange.
Minha vontade era pegar seu rosto em minhas mãos e beijar sua boca com delicadeza. Tentei manter a calma e usar um pouco a cabeça, respirei e permaneci serena observando aquela mulher linda.
— Você é muito bonita, Fernanda.
— Obrigada. Você também é muito bonita. – respondeu sem tirar os olhos de mim.
— Queria muito te dizer uma coisa, mas tenho medo de estragar o que estamos construindo... e estamos ainda no primeiro tijolinho... – meu coração começou a acelerar e meu ar faltar. Ela sorriu calmamente:
— É a segunda vez que você pede meu consentimento para alguma coisa.
— É... é preciso saber em que terreno estou pisando. Da primeira vez você foi muito gentil em trocar de lugar comigo... mas, agora... não sei se você vai escutar bem o que quero te dizer.
— Você arriscou levar um NÃO da primeira vez... Vai ter que arriscar de novo.
Deus... minhas mãos suavam e minha boca secava. Achei que fosse ter um troço antes de dizer o que estava decidida a dizer. Era questão de vida ou morte, era como lançar tudo o que eu tinha de melhor em mim naquele momento... o que estava em jogo era minha felicidade total ali, naquela poltrona de avião. Nada mais importava. Sou assim.
— Estou extremamente atraída por você. Talvez o fato de eu ser gay tenha facilitado minha conclusão, ainda bem porque temos só 12 horas de viagem e preciso ser rápida ou nunca mais te verei.
Disse. Eu disse, e ainda precisava aperfeiçoar o meu dito para que aquela declaração não se tornasse atrapalhadamente patética.
— Você pode se virar e fingir dormir e eu tentarei aceitar como um sinal de recusa. Pode me dizer um NÃO simplesmente e eu tentarei aceitar, mas não podia deixar de dizer o que estou sentindo.
Não conseguia mais dizer nada, estava exausta, apenas observava sua expressão, seus gestos nervosos, as linhas de seu rosto que se movimentavam, seu olhar aflito.
— Clarice, antes de mais nada preciso ser honesta com você... – baixei meus olhos e queria tampar os ouvidos para não ter que ouvir o NÃO. Minha vida estava naquela frase prestes a ser dita. — Estou prestes a me casar. Namoro há três anos um cara e... – olhei-a com um fio de esperança: — Não faça isso.
— Não farei nada que você não queira, Fê.
— Você também me atrai, mas...
Ajeitei-me na poltrona. Queria poder falar mais alto, queria poder estar mais próxima dela, pegar sua mão...
— Podíamos passar o dia juntas. Amanhã cada uma seguirá seu destino... Se quiser desapareço de sua vida amanhã, mas fique comigo hoje.
Minha felicidade era naquele momento, não me importava amanhã. Precisava ter uma coisa de cada vez.
— O que acha? Por favor, fala alguma coisa porque não aguento mais sem saber... – implorei porque a situação era urgente. Senti sua respiração ofegante, vi seus olhos brilharem. Havia ali, em Fernanda, a mesma angústia que a minha, o mesmo desejo... tinha certeza.
— Venha comigo. – ela me puxou com força pelo corredor do avião.
Fomos até o banheiro. Fernanda empurrou-me e fechou a porta. Nos olhamos com sofrimento até que senti suas mãos em volta do meu corpo. Passei meus braços pelos seus ombros e a puxei para o beijo tão desejado, tão necessário para que eu me mantivesse viva depois daquele turbilhão imenso que se deu dentro de mim. Estava exausta de tesão, de vontade daquela mulher que alucinou minha vida em menos de 12 horas, no lugar que mais me apavora. Seu beijo era urgente, o meu apressado a fim de tê-la o máximo que eu conseguisse, pois, naquele instante minha total felicidade estava ali.
— Temos que voltar. – ela disse sorrindo grudada em minha boca.
— Não quero sair daqui. Não quero nunca mais sair daqui.
— Ficaremos num lugar muito mais confortável. Hoje quero passar meu dia com você.
Voltamos para nossos lugares meio desarrumadas. Sentia-me sem equilíbrio, como se estivesse embriagada. E estava.
Sabe quando entramos numa expectativa medonha? Num estresse extremo, quase insuportável? Que nos trava, nos deixando sem saber o que fazer, o que dizer e pensar? Sufocadas diante de uma situação sem poder fazer nada porque há outras pessoas próximas e precisamos esperar o momento oportuno para explodir?
Estava assim. Era muita explosão para um corpo só!
Voltamos para nossas respectivas poltronas em silêncio, assimilando o que acabamos de fazer. Passamos pelo senhor que deve ter se dopado mais do que eu pretendia porque não acordou nem uma vez... e olha que fizemos bastante barulho.
Estava meio zonza, não sabia muito bem o que era tudo aquilo, parecia um sonho, um sonho louco. Estava ao lado de uma mulher fantástica, que eu tinha como inatingível, que parecia superior às minhas expectativas – e era –, mas era atingível. Via-me idealizando uma noite de amor com ela, mas seria apenas um amor romântico, impraticável, ideal. Eu passaria semanas e meses imaginando como seria. Mas eu a teria. Era fato, concreto. Ela estava sentada ao meu lado, estática como eu, e sei que tudo o que imaginei poderia concretizar há menos de uma hora.
Tinha que reconhecer que a excitação era maior que o receio.
Chances de me arrebentar no fim disso tudo? Quase todas.
Mas nunca fui mulher de pensar demasiadamente nas consequências de minhas loucuras.
Ela vai se casar. Ouvi isso e registrei. Isso podia significar várias coisas que não queria pensar naquele momento porque estava no primeiro estágio da imensa paixão: a atração. Se eu passasse para os demais estágios... estaria perdida.
Iríamos pousar.
Minha coluna quase quebrou tamanha a tensão que eu carregava sobre os ombros. Só então Fernanda saiu do seu torpor, pediu com carinho para segurar minha mão e começou a dizer coisas que me tiravam da tensão ruim e me levavam para uma tensão boa... Uma tensão tesão, que arrepiava, fazia com que meus seios ficassem duros e meu sexo molhado de desejo.
Chegamos ao aeroporto e comecei a pensar onde poderíamos ficar em Madri... Não tinha a mínima ideia porque sempre fiquei na casa de amigos. Mas Fernanda foi a trabalho e tinha hospedagem para aquele dia. Paramos na frente do hotel.
Fiquei boba com o lugar, lindo, enorme, além das minhas possibilidades de acadêmica.
— A minha sugestão possível era um albergue...
Deixei minha mochila e mala em qualquer lugar, pouco me importava se aquele lugar era legal ou não. Aproximei-me de Fernanda, afastei fios de cabelo do seu rosto enquanto dizia o quanto achava louco tudo aquilo.
Não ouvi o que ela dizia... na verdade nem a mim eu ouvia, só sei que disse algumas coisas irrelevantes e talvez engraçadas. Queria apenas ganhar tempo para observá-la antes de me aproximar e beijá-la com doçura, sem a pressa do desejo... naquele momento teríamos tempo, não o suficiente, mas o necessário para conhecê-la com cuidado e amor.
Ela foi me guiando até o banheiro enquanto nos beijávamos, suas mãos seguravam minha nuca e minha cintura e eu me sentia flutuar. Deixamos as roupas pelo meio do caminho e Fê abriu o chuveiro. A visão da água caindo sobre seu corpo nu foi demais, cena inesquecível. Fernanda era linda, uma paisagem... eu precisava tirar as gotas de água do meu rosto para vislumbrá-la e me entregar com intensidade a tudo aquilo. Abracei-a por trás e senti meu sexo roçar suas nádegas apetitosas, me esvaia em fluidos enquanto a ensaboava e conhecia, naquele momento sem as roupas, seus seios, seu quadril, suas coxas, suas costas... uma infinidade de beleza, me sentia anestesiada com o frio na barriga e as sensações que me percorriam como nunca antes. Fê virou-se para minha boca e a mordeu, e passou a me conhecer também e a me excitar ainda mais. Quando não aguentava mais pedi a ela que me levasse para a cama.
Parecia que Fernanda já me conhecia, parecia que ela sempre quis aquilo... quero dizer, sempre quis fazer amor com uma mulher. Mas... mas especificamente comigo porque parecia que sempre nos esperamos e nos queríamos. Impressionante como era meiga e como era claro que já havíamos feito tudo o que estávamos fazendo em pensamento. Já estava tudo ensaiado, já tínhamos feito amor diversas vezes em nossa fértil imaginação.
Segurei-a, pedi entre sussurros que me devorasse, mas antes queria mostrar a ela como tínhamos feito amor em pensamento, queria mostrá-la como é belo o amor entre duas mulheres... queria ser a primeira a dar o prazer extremo.
Fernanda gozou e relaxou em minha boca repleta dela. Um gosto bom, o gosto suave de tudo que vem dela... Ela gritou, olhou para mim e me lancei ao seu olhar de descanso após uma escalada desesperada ao perfeito: aquilo era a perfeição.
Abracei-a com cuidado e beijei seu rosto com o hálito dela. Virou-se, suspirou e me beijou com – não queria me arriscar em dizer, mas... – com amor.
Depois de um breve silêncio senti sua boca roçar meu pescoço e sua mão acariciar meu seio. Iríamos rumo ao perfeito novamente, não tínhamos tempo para longos descansos, era preciso urgência. Fê tateou meu corpo e pesquisou com habilidosa malícia meus pontos críticos, aqueles que antecipam o gozo. Virou-me de costas, beijou minha nuca, minhas costas e isso era uma covardia porque eu morria do tesão que me torturava... e eu gostava... adorava. Observou-me de cima, apertou minha bunda, foi até meu sexo por trás e começou a acariciá-lo até encontrar meu ponto máximo, o mais crítico dos críticos e comecei a gemer instantaneamente. Ela foi calma, metódica até perceber o momento da explosão. Antes disso, virou-me de frente para ela, olhou-me nos olhos, transbordando códigos que queria tanto entender, e mergulhou entre minhas pernas para terminar nossa busca. Fernanda me chupou maravilhosamente... quase chorei de emoção porque nunca ninguém havia me dado o que ela me deu.
Após o vislumbre do perfeito senti medo: medo de não ter aquilo novamente.

Dormimos. Não sei quanto tempo, mas acordei achando que tudo tivesse sido um sonho dopado. Que eu acordaria ainda dentro do avião prestes a pousar, e do meu lado haveria um bruta-monte roncando.
Não era sonho. Fernanda estava atada a mim como se sempre dormíssemos daquela maneira. Senti-me segura, protegida, extremamente feliz.
— Não acredito que dormi... – disse vendo-a velar meu sono outra vez.
— Você não queria dormir?
— Queria velar seu sono como você vela o meu...
Acariciei seu rosto e o beijei.
— Queria que todos os dias fossem assim.
Nossa! Essa frase me encheu de alegria porque não a esperava. O que aquelas palavras queriam dizer? Bom, exatamente o que disseram, sua tonta! Acordar todos os dias enroladas, juntas. Precisava confirmar a recíproca:
— Eu também.
Ela me perguntou se eu tinha namorado. Conversamos sobre o impulso que tivemos. Não me julgo, não a julgo. Se não fosse o que fizemos, continuaríamos nos procurando, levando uma vida sem grandes surpresas ou emoções, um dia após o outro. Não me perdoaria por não viver o que vivia ali, naquele momento, mesmo que o momento fosse breve. Fernanda mudou minha vida.
Não queria sofrer por antecipação, então, antes que assuntos inconvenientes me perturbassem puxei-a da cama a fim de levá-la para a noite em Madri.

Levei-a a um restaurante que eu já conhecia. Sempre que visitava alguns amigos em Madri parávamos ali para beber, conversar. Queria que Fernanda me conhecesse o máximo que eu pudesse mostrar no tempo que teríamos porque, talvez, ela se apaixonasse por mim como estou apaixonada por ela. Isso mesmo. Doente de paixão... já fui correndo para o segundo estágio: paixão após a atração. Sabia que isso aconteceria.
Perdida... isso sim.
Precisava mostrar a Fernanda que eu era simples, que gostava de um pouco de conforto, sem exageros, só para que me sentisse aconchegada, por isso a levei lá... era assim: bonito sem ser pretensioso. Acho que ela gostou. Olhou-me com a alegria e com a simplicidade que aquelas roupas executivas-formais-chiques ofuscavam. Agora eu a via melhor: uma linda mulher de baby look, blusa de lã com zíper e capuz, calça jeans justa ao seu corpo... e botas que a deixavam mais alta, a fim de mostrar uma mulher de trinta e poucos anos. Linda, uma beleza natural, lavada... queria poder admirar essa beleza para sempre.
Tinha começado a ficar preocupada, mas não queria que a preocupação se transformasse em angústia e antecipação pelo que poderia acontecer: o fim. Afinal ainda tínhamos algumas horas e não queria começar a sofrer antes da despedida. Mas..., ..., ... eu ficaria aos pedaços com certeza. Deixar a pessoa que eu mais queria no mundo partir sem mim seria uma dor nova. Já tinha terminado bons relacionamentos, já chorei a dor de cotovelo, mas nunca passei pelo sofrimento de deixar um amor ir embora no ápice da paixão. Do jeito que ficarei (eu sei que ficarei) escreveria um fado medonho, cheio de uma dor quase suicida.
Mas não poderia pensar assim. Não naquele momento em que Fernanda era pura luz e me enchia de felicidade em estar ali, com ela, que era olhada, admirada, cobiçada por outros olhos além dos meus. Mas ela era minha, pelo menos até o amanhecer.
Me dei conta de que estava há vários minutos pensativa. Os olhos dela me flagraram pensando tantas coisas... tantas...
Começamos a papear e nossos ouvidos foram levados para uma música. Sempre tive trilhas sonoras para acontecimentos importantes de minha vida, mas essa música não poderia ser... ou poderia... porque falava de separação, mas também falava em tentar de novo e esquecer o que passou. Desde sempre acreditei na força de um acaso que joga xadrez com nossas vidas, então acreditei que tudo daria certo quando Fernanda, olhando firme nos meus olhos explicou-me o que significava o título daquela canção.
— Sim. Questões da ciência não falam tão alto quanto meu coração. – traduzi a parte que entendi no meu péssimo inglês.
Comecei a desvendar Fernanda tomando goles de vinho. Comecei a me preparar para a luta. Eu a queria, tentaria buscá-la para ser só minha. Fizemos amor... não foi só a fome do sexo, foi a vontade da entrega total, até a essência. Eu sei e vi, e senti, e me dei... e queria tudo, tudo... explodiria novamente, derramaria meu amor e ele poderia ficar lá derramado sem correspondência, mas decidi lutar por ele até o fim.
— Fê... preciso de um mundo paralelo onde eu possa ver as pessoas e o mundo em que vivo o dia a dia de outra maneira. – precisava começar de algum ponto até chegar ao estou-apaixonada-por-você.
Um frio na barriga começou a me fazer flutuar quando percebi que Fernanda se aproveitava da minha fala para conduzir a conversa para o mesmo ponto que eu. Estava nervosa porque sentia o momento de uma conversa definitiva e acho que não estava preparada para uma resposta diferente da que eu esperava. Engoli seco, estirei meu braço e segurei sua mão, para que ela sentisse o meu calor e o meu nervosismo, eu precisava dizer que:
— Estou apaixonada por você.
Escapou.
Ela dizia algo, mas não conseguia ouvir mais nada. Eu precisava dizer assim, atropelando tudo. Fernanda sorriu enquanto eu me recompunha. Pigarreei, limpei minha garganta para voltar a falar sem nó, dialoguei rapidamente com meu coração solicitando batimentos menos rápidos e não tão barulhentos, pois não conseguia ouvir Fernanda falar.
Fui sincera e abri, escancarei que não estava preparada para me apaixonar por alguém quase casada, quando ela me disse com olhos cheios de lágrimas.
— Clara, não tem mais sentido levar a vida que eu levava depois de tudo que nos aconteceu. – olhei-a profundamente. — Volte comigo para o Brasil... Vou resolver minha situação e poderemos ficar juntas...
Foi o dia mais feliz da minha vida.

— Te encontro aqui depois de amanhã às oito.
— Estarei aqui esperando por você.
— Ávila é longe?
— Não. Alugarei um carro e vou dirigindo.
— Não acredito que terei de viajar de avião novamente.
Trocamos mais algumas palavras e nos despedimos num abraço forte. Coloquei no bolso de seu casaco um bilhete escrito no guardanapo do restaurante em que estivemos.
Fernanda foi um marco para mim também no que se refere aos assuntos da aviação. Antes os voos eram insuportáveis, agora eles eram insuportáveis ao quadrado sem ela ao meu lado para dizer coisas esdrúxulas a fim de me distrair. Estávamos novamente no aeroporto e eu não queria ir para Barcelona, queria ir para Ávila de carro com ela.
A vida não é só prazeres.
Um saco constatar isso quando estava apenas no meu primeiro dia de segundo estágio para um amor longínquo. O tempo pode ser mesmo muito cruel com mulheres como eu.
Trocamos telefones. Olhamo-nos mais uma vez nos olhos, senti vontade de beijá-la, mas não a beijei, apenas senti sua mão macia tocar meu rosto com carinho. Fechei meus olhos e viajei por segundos no futuro que teríamos. Nos abraçamos forte e nos separamos.
Sentei-me na poltrona do corredor. Fechei novamente os olhos e imaginei minha história com Fernanda daquele instante em diante. Esperava que ela tivesse coragem de resolver tudo e enfrentar as consequências de sua escolha. Afinal, não seria nada fácil, depois de 32 anos de vida “regrada” e aparentemente “normal” aos olhos dos outros, tomar a atitude de mudar radicalmente e viver da maneira que ela quiser.
Acho que Fernanda não era feliz. Não quero ser pretensiosa, mas acho que a ajudei de alguma forma a enxergar a vida que ela vivia, mas não protagonizava. Fernanda apenas assistia a alguns acontecimentos de determinados campos de sua vida... não interferia neles, não tomava rédea porque tomar conta da própria vida seria mostrar-se como ela é... e Fernanda É gay, e isso implicaria muita confusão num mundinho seu que parecia sempre ser conforme as “regras”.
Talvez eu a estivesse prejulgando, como fiz assim que bati os olhos nela, mas eram pensamentos meus... meu jeito de tentar organizar as coisas dentro de mim. O mais importante foi que foi ela quem tomou a iniciativa de “resolver” tudo para ficarmos juntas, ela quem estava se desmontando para se reconstruir forte e fiquei feliz por fazer parte disso. Estava me fortalecendo para recebê-la e, juntas, faríamos tudo dar certo.

Minha apresentação foi fantástica, modéstia a parte. Consegui me expressar de maneira que todos me entendessem e me olhassem como uma futura mestra e doutora em arte contemporânea. Meu orientador disse que havia mais alguns projetos que eu poderia integrar para ajudar a desenvolver e, provavelmente, emendaria meu trabalho de mestrado num doutorado. Um professor de uma universidade brasileira até me ofereceu trabalho, mas pedi um tempo para pensar: “Calma! Uma coisa de cada vez!”
Contei tudo para Fê, que também fez ótimos negócios em Ávila. Mas, na verdade, não estávamos muito a fim de falar de trabalho... estávamos querendo falar de amor!
Assim que desliguei o telefone, Tatiana surgiu radiante da multidão de “intelectuais”.
— Vamos comemorar antes de partir?
Fomos para um bar. Tati era uma amiga portuguesa da faculdade que se mudou para Madri e fazia mestrado em Barcelona. Era especialista em literatura espanhola contemporânea.
Bebemos, comemos e conversamos muito até surgir a proposta que mudou, outra vez, minha vida:
— Topas voltar hoje comigo para Madri?
Eram seis horas da tarde em Barcelona. Estaria em Madri antes das nove, dormiria tranquilamente na casa de Tati e logo cedo pegaria um metrô até o aeroporto. Achei que seria uma ótima ideia.
Acordei atrasada no dia 11 de março de 2004. Despedi-me de Tatiana e corri para a estação.
Entrei no metrô às sete horas da manhã. Estaria no aeroporto antes das oito.
Depois disso tudo se apagou.

continua...

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