Era começo de outono.
Chovia aquela garoa fina, fria, que dava vontade de ficar em casa assistindo filme que não exigisse nenhum esforço mental, comendo um balde de pipoca. Escurecia e resolvi me aprontar para o jantar.
Pedro fez reserva num restaurante de São Paulo. Já imaginava o caos numa fila para guardar o carro. Sábado. Paulistano sente necessidade de fazer um programa no fim de semana só para provar que não está trabalhando. Certamente, se eu ficasse em casa embaixo de cobertas, aproveitaria para ler alguns relatórios com o note sobre o colo. Bom, o que as outras espécies humanas não sabem é que muitos paulistanos saem no fim de semana também para falar de trabalho. Este é o caso. Pedro quer fechar um negócio com uma artista amiga nossa e decidiram tratar disso num lugar informal, sem tensão. Ok.
Meus pais queriam que fôssemos almoçar com eles amanhã, mas dei uma desculpa qualquer porque ultimamente há um assunto que persiste em todos os nossos encontros, e está me incomodando: gravidez.
Mamãe e papai querem um neto.
Pedro quer um filho.
Fernanda não sabe se quer.
Evito bastante essa conversa, mas sinto que pouco a pouco o cerco vai se fechando. Driblo meus pais, mas Pedro está muito próximo e começa a querer conversar seriamente sobre isso.
— Oi, querida! Já está pronta? – acabou de chegar correndo da chuva, com alguns pingos grossos no casaco. Eu ainda estava de pijama.
— Quase.
Caminhei preguiçosamente para o banheiro.
Ultimamente ando bem preguiçosa nos fins de semana. Durante os dias úteis não tenho tempo de ter preguiça porque o trabalho exige muito da minha atenção, mas aos sábados e domingos não me sinto estimulada em fazer muita coisa.
Tédio?
Acho que sim. Fico me perguntando o que move nossa vida: trabalho, família, amigos... amor (está em último na minha lista... Posso considerar-me frígida?). Preciso de felicidade mais constante. Um filho me trará felicidade? Deus do céu, não posso cair nessa! Depois só ficam faltando cachorro e quilos de chocolate. Não posso suprir meu tédio dando à luz uma criança! Que monstro egoísta eu seria.
A necessidade de ser mãe não me vem. Já não deveria ter vindo? Assim como a primeira menstruação, o primeiro beijo, a primeira transa... Para tudo não há um momento? Sou mulher, teoricamente com o instinto maternal natural em mim. Meu momento de querer ser mãe não chega e acabo fracassando na minha obrigação de mulher-esposa-mãe-procriadora-da-espécie. Céus, o que é isso?
Até quando vou deixar outras pessoas regerem minha vida?
— Amor, já está pronta?
— Queria tê-lo como fotógrafo da exposição. – dizia Gustavo com gestos largos, arriscando queimar alguém com o cigarro entre os dedos. — Você é um cara sensível e é meu amigo, ninguém melhor que você para registrar o evento. Quero foto nos melhores jornais.
— Claro que faço as fotos, mas acho que preciso conversar com...
— Olha ela aí! – levantou-se Gustavo a fim de puxar a cadeira para a artista do momento.
Laís é uma mulher perturbadora. Perturbadoramente atraente. Beleza exótica... um queixo quadrado que não combinava muito com a boca grande e o nariz fino, pequeno e arrebitado, mas o conjunto era perfeito. A altura, o corte curto de cabelo, que o deixava propositadamente despenteado, o modo como se vestia impunha uma curiosidade por parte das pessoas, dava a ela a liberdade de ser quem quisesse ser. Mas, mais que aparência, ela tinha uma personalidade, um gênio, um temperamento – sei lá o nome que dão para figuras complexas – forte e misterioso. Talvez por isso fosse artista... seu comportamento, suas atitudes eram livres e suas obras eram assim.
Apesar de não sermos amigas e só ouvir o que algumas pessoas diziam a seu respeito, nos conhecemos há algum tempo, talvez três, quatro anos. Gustavo é seu amigo-empresário-agente-secretário, que é amigo de longa data de Pedro. Os dois artistas começaram juntos: Pedro com a fotografia e Laís com as artes plásticas. Os dois se deram bem, mas Laís, agora, vivia um momento especial: faria sua primeira exposição individual. Estava eufórica, ansiosa, e por isso ficava ainda mais... poderosa, excitante.
Atração?
Sim. Sinto-me atraída por sua beleza e força. Óbvio que também por saber que ela é bissexual. Mas nada que me faça perder a cabeça... acho. Às vezes sinto falta do corpo feminino, das mãos, do toque, do beijo, dos seios, da cintura, do quadril... Mas não tive outro toque que não fosse o de Clarice, e é desse especificamente que sinto falta. Qualquer outro corpo de mulher sobre mim seria apenas uma tentativa de suprir a falta que ela me faz.
— Como vai, Fê? Estava com saudades.
— Eu também, querida! Faz tempo que não nos falamos. – conversamos amenidades por algum tempo até que Gustavo nos puxou para o verdadeiro objetivo do encontro.
Ficaram acertados que, dali a um mês, Pedro fotografaria a exposição num coquetel oferecido apenas para amigos e profissionais da área. Eu assistia àquela conversa com uma simpatia meio indiferente, reparando em Laís, Gustavo e Pedro, nas pessoas ao redor, no lugar. Não me excluíam da conversa, mas ela não era minha. De qualquer forma, notei que Laís estava sempre me observando com um riso escondido no canto da boca, e por isso era interessante estar ali.
Quando o assunto da reunião acabou fizemos um breve silêncio, tomamos mais um gole de nossas bebidas, Gustavo e Laís acenderam mais um cigarro e:
— E então, Fernanda, como vão as coisas? – perguntou Gustavo arrumando-se na cadeira.
De repente me liguei que não tinha muito o que contar. Foi chocante quando abri as gavetas em mim e não encontrei nada de interessante para mostrar. Deprimente. Acho que estou mesmo ficando deprimida... levando uma vida vazia.
— Bem... – sorri, afinal ninguém sabia do monte de pensamentos complexos sobre minha existência que eu estava tendo naquele exato momento. — Nenhuma grande novidade. – terminei batendo os dedos sobre a mesa.
— Pedro contou que vocês estão pensando em ter filhos... – declarou Laís deixando aquele sorriso escondido sair, suas pernas estavam cruzadas e suas coxas estavam à mostra, a taça de vinho suspensa a caminho da boca.
Olhei de canto de olho para Pedro, que me observava incomodado.
Filho da mãe! Nós nem conversamos a respeito e ele já está espalhando para os amigos. Senti meu sangue ferver. Não sabia o que responder, mas não poderia aceitar aquilo pacificamente, não poderia engolir mais aquele sapo sem reagir.
— Na verdade, não conversamos seriamente a respeito. – respondi encarando-o enquanto seu rosto enrubescia.
Laís e Gustavo se olharam rapidamente. Laís bebeu do vinho observando a vermelhidão de Pedro e Gustavo soprou a fumaça do cigarro com força para cima.
Outro silêncio, outro gole, outro trago. Tempo para Pedro reagir.
E reagiu:
— Pois é, não conversamos seriamente sobre isso, mas acho que é o passo natural quando um casal está bem e deseja formar uma família... – seu rosto continuou vermelho, mas agora acho que não era por conta do embaraço.
— Perpetuar a espécie. – completou Gustavo tentando ser divertido, mas conseguindo apenas ser irônico.
— Sinceramente, acho isso uma besteira. – completou Laís com seus rompantes habituais sem reparar nas expressões faciais que a rodeavam. Fez sinal para o garçom e continuou: — Hoje em dia... nesse mundo caótico. Não sei se quero um filho meu por aqui, não tenho um espírito materno que mantenha uma criança na linha por muito tempo... e eu teria de mantê-la o máximo que eu conseguisse, para preveni-la desse monte de estupidez, teria de ter muito tempo para explicar que ela não pode se transformar numa boba. É muito difícil... Os casais não podem apenas ser felizes?!
— Também acho isso. – concordei enfaticamente. Até aquele momento nunca tinha exposto minha opinião, apenas me esquivava, mas, agora, depois daquela afronta, meu sangue ainda estava quente e tinha vontade de bater em Pedro. Se não bato com minhas mãos, bato com palavras: — Vivemos outros tempos. Pensar que só porque somos um casal temos que ter filhos... um pensamento tão retrógrado.
— Não vejo assim. Acho que é um caminho natural... um homem e uma mulher se casam e querem ter um filho para criarem juntos. – debateu Pedro cada vez mais nervoso... tentando disfarçar.
— Gays podem ter filhos, então não seja tão pragmático quando diz “um homem e uma mulher se casam...” – polemizou Laís começando a gostar da conversa.
— Quis dizer, ter filhos pelos meios naturais: homem insemina, mulher engravida e dá à luz.
— Essa é a única maneira de ter filhos? Um casal de gays não pode adotar uma criança e educá-la, e tê-la como filha?
— Pelo amor de Deus, não é essa a questão! Não estou falando de gays e de heteros, estou falando na possibilidade de EU e MINHA esposa termos um filho.
— Mas parece que Fernanda não está muito convencida disso. – Gustavo sempre se divertiu com esse tipo de situação. Seu papel sempre foi alimentar a fogueira.
— Só não me senti confortável de Pedro ter dito que pretendemos ter filhos sem, ao menos, discutirmos seriamente sobre isso. – resolvi lavar a roupa suja porque estava realmente explodindo. Ele fechou a mão sobre a mesa, suspirou olhando para cima, como quem pede calma a um deus das pequenas causas.
— Pensei que fosse seu desejo também.
— Acho melhor irmos embora, Gustavo. – Laís finalmente se tocou que rolava uma discussão de casal ali. Também colocou lenha na fogueira, mas me ajudou.
— Desculpa, Laís, não foi minha intenção...
— Não me peça desculpas... acho que vocês devem conversar a respeito. Eu quem fui distraída em tocar nesse assunto... mas, como deveria saber...
Gustavo fez sinal para o garçom, cancelou a bebida que Laís tinha acabado de pedir e fechou a conta. O silêncio, que no decorrer do encontro era apenas para beber e fumar, tornou-se embaraçoso, pois o clima ficou pesado, nem eu nem Pedro queríamos falar e Gustavo e Laís queriam falar de nós quando virássemos as costas.
Entramos no carro irritados. Era como se uma bomba fosse explodir quando um de nós começasse a falar. Ficamos assim até o primeiro farol vermelho.
— Que estúpida toda aquela conversa. – comentou Pedro tentando dar à sua voz um tom mais calmo, acompanhado de uma risadinha forçada. Eu não estava calma e só esperava ele começar para detonar a bomba.
— Estúpido você, que contou uma falsa novidade a eles.
O farol abriu e ele continuou parado. Seu rosto voltou a avermelhar.
— Não entendo você, Fernanda! Estamos há mais de dois anos juntos e você sabe que eu sempre quis ter filhos... e você também queria antes de nos casarmos!
— Pode ser que eu não queira mais. Só acho o cúmulo da indiscrição você ficar falando sobre nossa vida sem antes a resolvermos entre nós!
As ruas estavam desertas, um carro passou por nós em alta velocidade e buzinou, só então Pedro deu partida e chegamos em casa em novo silêncio. Deitamos sem nos dar “boa-noite”.
continua...
domingo, 18 de julho de 2010
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