Dá preguiça acordar de um sono profundo e demorado. É como querer dormir novamente, mas o corpo grita porque não aguenta mais ficar deitado, precisa de vida, agito. Esse pensamento é metafórico. Hoje acordei com vontade de pensar em códigos.
Nunca fui de dormir, queria sempre estar nos lugares ou em alerta constante, porque o mundo não dorme, gira ininterruptamente, e eu queria fazer parte de tudo como arroz de festa. Mas aí veio a tragédia daquele horroroso atentado e tive que me aquietar até poder voltar ao meu pique de antes sozinha – não poderia obrigar os outros a viverem minha vida inquieta.
Demorei a dormir, noites e noites acordada correndo o mundo em pensamentos, agitada num pesadelo constante. Tive que conversar muito com a analista que há em mim até chegar à conclusão de que meu corpo não corresponderia a toda aquela angústia, portanto, nada mais poderia ser feito: teria de parar e recomeçar. Dormi mais de dois anos, transformei-me num monge tibetano, feições calmas, serenas, sorrisos ternos (dentro de mim havia um Tsunami)... esperei que tomassem decisões por mim, fizessem o que só eu poderia fazer. Tudo isso pacientemente, sem me desesperar, esperando a hora certa de ter minha independência de volta.
Sinto que chegou a hora.
Mesmo estando ainda com meus pés lentos e um tanto inseguros, o resto do meu corpo está disposto a ir adiante, e minha mente quer recuperar o tempo. Não que ele tenha sido perdido, realmente domei minha ansiedade e descobri em mim Clarices para todos os momentos, mas quero o tempo paralelo que não tive. Explico: antes eu fazia várias coisas ao mesmo tempo; durante três anos me dediquei exclusivamente à minha saúde física. Agora estou bem, quero mais, quero tudo que era meu de volta!
Certamente Fernanda influenciou minha dormência. Por um bom tempo achei que ficar quieta seria meu protesto, meu “luto”, porque o motivo da minha última e intensa alegria não estava mais próximo. Bom, fiquei mal, mas, agora, tanto tempo se passou que me cansei de ficar triste.
Eu queria Fernanda, quero Fernanda, mas preciso viver... enxergar vida lá fora e tentar ser feliz como fui naqueles dias na Espanha. Talvez não consiga porque alguns acontecimentos são mesmo únicos, mas tenho que tentar.
Será que aquele momento não era propício para meu amadurecimento amoroso? Juro que mudaria minha vida por aquela mulher elegante.
O destino me empurra para a galinhagem e, quando insisto em ser mulher de uma só, olha o que acontece?!
Vou cair no mundo novamente. Laís que me aguarde.
Hoje eu a verei. Ela quer tanto me ver... eu também estava começando a querer muito tê-la, ops!, ou melhor, vê-la.
Mas, antes disso, meu dia será longo.
7h. Acordei um tanto excitada com meus planos e com os exercícios de minha imaginação a respeito de Laís. Poderia ficar mais tempo na cama e testar como anda o nível da minha libido, no aspecto científico da experiência, claro. Mas teria que ir a uma entrevista de emprego. Isso é mesmo uma grande novidade e um estímulo para começar, a partir de hoje, uma nova etapa. Um emprego efetivo. Um possível trabalho como professora universitária. Quem diria... no tabuleiro da minha vida, eu estava voltando a mexer as peças.
Já me sinto totalmente apta a voltar para uma intensa rotina. Depois, vou em busca de minha bolsa de mestrado novamente. Talvez eu faça a pós-graduação aqui mesmo, para não ter que viajar de avião nunca mais.
Tentei falar com Nana para que ela tivesse a oportunidade de me dizer frases sinceras de incentivo, mas não a encontrei. Tive que me olhar no espelho e fazer eu mesma essa parte. Gostei da experiência de me ver bem diante de mim. Minha pele voltou ao normal depois de erupções vulcânicas chamadas acne terem-na invadido; meu cabelo estava sem corte, mas logo mais resolvo isso; meus dentes continuam brancos e acho que meus olhos voltaram a brilhar. Enfim, uma linda mulher, não do quilate da Julia Roberts, mas bonitinha, ajeitadinha, limpinha, inteligente... e ainda tem gente por aí querendo pegar!
Chega de narcisismo.
8h. Chamei um táxi que me deixou na frente da universidade. Peguei minha bengala e subi calmamente uma rampa que me levaria à portaria. Era a primeira vez que saía sozinha desde o acidente... e eu me sentia completamente segura.
9h. Fui indicada por uma amiga do mestrado, por isso a reunião foi relativamente rápida. A pró-reitora me fez uma proposta interessante: começar com uma grade reduzida no início, até eu desenferrujar, por um salário razoável. Conversamos sobre meu currículo e planos para o ano letivo entusiasmadamente e isso ajudou para que tudo desse certo. Talvez ela tenha ficado surpresa por eu não estar pensando em me aposentar por invalidez... tantas pessoas a fim de não terem o que fazer e eu com sede de trabalho... enfim, quase havia me esquecido de que existem na vida outras grandes paixões.
10h30. Saí de lá combinada a começar na próxima semana e, para comemorar, resolvi caminhar até uma livraria próxima para alimentar minha estante de novidades. Fiquei por lá curtindo a chance de estar, numa manhã de plena terça-feira, folheando livros, revistas, HQs descompromissadamente, num dia agradável de sol brando em céu azul. Rever o mundo sem estar acompanhada é enxergá-lo com outros olhos, sem a interferência das opiniões alheias. Essa situação me fez lembrar do primeiro dia que saí de casa sozinha, aos 12 anos... primeira vez que peguei o ônibus sozinha para ir ao shopping encontrar os amigos. Depois de todo esse tempo sendo levada aos lugares, sinto-me novamente livre e independente.
11h. Depois de reabrir as portas de meu universo paralelo com a leitura de textos diversos, corri para casa porque estava atrasada para minha seção de fisioterapia. Marcelo estava me esperando na recepção do prédio quando cheguei esbaforida, quase usando minha bengala como terceira perna.
— Hummm, estou vendo que a mocinha está bem atiradinha! – brincou meu fisioterapeuta e amigo observando feliz, mas com certa cautela, meus movimentos independentes.
— O atraso provoca a aflição que provoca a pressa que faz com que eu tente correr.
— Ainda não te aconselho as maratonas, mocinha. – segurou-me pelo braço e fomos juntos para o elevador. — É sério, Clarinha, não abuse para não cair... se quebrar mais algum osso, vai levar mais um tempão para consertar... você só chegou até aqui porque está indo com calma. – censurou-me com seriedade.
— Eu sei, Marcelo... vou tentar, só não aguento mais ficar em casa.
Abri a porta, larguei minha bolsa e fui vestir roupas apropriadas para ser amassada na fisioterapia.
Marcelo foi indicado pelo namorado, Júlio, que é meu amigo há décadas. Esse cara me recolocou na linha. Mesmo sabendo que esse é seu trabalho, sinto-me imensamente grata por ele recompor tão bem meu corpo. Tornou-se um grande amigo porque viu de perto meus momentos de dor e minha recuperação, Marcelo sabe dos meus assuntos mais íntimos, que não são tantos, nesse tempo de amizade.
— Vou me encontrar com Laís hoje. – confidenciei enquanto ele massageava meus pés e sorria maliciosamente.
— Ihhh, é hoje, minha donzela!!
— Não sei... mas acho que ando muito fácil ultimamente...
— Minha querida, você tem é que voltar a viver a vida, tem que voltar a gozar mesmo!! Vira de costas... – pediu para massagear meu ombro. — E vou dizer uma coisa, acho a Laís um mulherão... e é caidinha por você, todos que a conhecem sabem disso. Ela pode ser uma galinha, mas acho que ela pararia com essa biscatagem se estivesse com você.
— Você acha?! – pensei um pouco e virei-me para ele. — Não sei se quero isso, não sei se quero algo sério com ela...
— Você quer é voltar a vadiar também, não é?
— Talvez...
Depois de uma hora sentindo muita dor, fui salva pelo gongo: Júlio tocou a campainha e Marcelo saiu correndo para atendê-lo. Tinham combinado de irem às compras, como um casal satisfeito com a rotina que planejaram para si.
13h. Falei com meus pais por telefone. Nana me ligou em seguida para me dizer as frases estimulantes que eu procurava pela manhã. Conversamos um pouco e soube que ela teria que levar a uma agência algumas ilustrações que fez para uma campanha publicitária. Por coincidência, esta campanha seria para a universidade em que fiz entrevista logo cedo. Era um trabalho grande e minha amiga estava ansiosa com a possibilidade de divulgar seus riscos para um público maior. Dessa vez, fui eu quem disse os ditos estimulantes e de confiança para a autoestima de minha fiel escudeira.
14h. Liguei o computador para relaxar. Li algumas notícias do dia, respondi e-mails, entrei na minha página do orkut, fucei o perfil de alguns amigos e me veio a ideia de xeretar a vida exposta de Laís. Naquela página ela não era Laís, pois já era conhecida publicamente e não ficaria bem se expor como uma simples mortal numa rede de relacionamentos on-line. Para os amigos ela era simplesmente L. Li seu perfil com mais cuidado, depoimentos, recados de pessoas que sutilmente imploravam sua atenção. Tem uma lista imensa de contatos, mais de quinhentos. É possível uma pessoa ter mais de quinhentos amigos? Muito popular... Havia Simone, Kátia, Roberto, Antônio, Manu, Janaína, Nara, Luís, Jade... uma infinidade de nomes e rostos.
Ops! Telefone.
— Alô.
— Clarinha, é Laís.
— Nossa, estava pensando em você. – não sei se era bem isso, nem sei se queria dizer isso, mas estava com a página de orkut dela aberta em minha frente.
— Sério?! Estou ansiosa para hoje à noite. Já estou com a chave do galpão para irmos ver as obras.
— Te espero no horário combinado, então.
— Só liguei para confirmar. – sua voz estava mais sensual que o normal. Será que ela ligou para me atiçar ainda mais?
— Está confirmado.
Desligamos e fui direto para o chuveiro. Tenho que ter tempo de me preparar.
De repente, enquanto pensava em várias coisas durante o banho, inclusive no perfil de algumas pessoas, veio-me uma ideia: e se Fernanda tivesse um perfil?
Fiquei desesperada, angustiada, com a possibilidade de descobrir algo sobre ela por meio da internet. Mas, digitar apenas Fernanda não me levaria a lugar nenhum! Preciso me lembrar do sobrenome, do nome que havia naquele cartão.
continua...
sexta-feira, 30 de julho de 2010
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