sábado, 3 de julho de 2010

CAPÍTULO 10 – QUANDO É MELHOR NÃO ACORDAR

Meu estado foi grave até o momento em que abri os olhos. Os médicos disseram aos meus pais que o estado crítico havia se alterado: ainda era delicado, mas eu não morreria. Talvez ficasse tetraplégica, mas ainda não era um diagnóstico definitivo. Quando o ortopedista veio até mim – ergueu minha pálpebra para enfiar aquela luzinha e pediu que eu seguisse seu dedo indicador com os olhos – me disse num rápido espanhol: “Você tem condições de ter de volta seus movimentos...”.
Meus olhos não se encheram de lágrimas.
Não tinha em mim o sentimento adequado para aquela ocasião. Sentia um misto de raiva do destino, da vida, uma pena da minha puta sorte besta e uma vontade de mandar todos à merda. Se fosse para eu voltar daquele jeito depois dos dias inacreditáveis que tive era melhor não voltar... poderia ter sido uma mulher bomba naquela linha do metrô.

Era como viver um pesadelo.
Quando tive a exata noção do trabalho que teria para voltar a ser eu mesma, pensei em desistir. Sentia-me cansada, achava-me um “joguete” nas mãos do destino que, nos momentos antes do atentado, deu-me tanto e, no segundo seguinte, arrancou-me até o que eu já tinha por direito adquirido, como andar, correr, gesticular... Que sacanagem!
Quando meu corpo começava a doer ou formigar, desejava morrer, jogar-me da cama ao chão e ficar lá, só para não ter de sentir mais nada. Tinha ataques de nervos por não conseguir expressar nada, nem um pouco da angústia que me dominava por não me mexer. Logo eu que sempre achei que dormir era perda de tempo... que adorava caminhar, conversar, trabalhar... agora ali presa naquela cama sem saber se um dia teria meus movimentos de volta. Dormir era a única maneira de fugir daquele sonho ruim.
Mas aí pensava em Fernanda. Tudo tinha ficado mal resolvido. O que ela pensou a meu respeito quando não cheguei no horário marcado? Como ela se sentiu embarcando sozinha depois de tudo o que passamos e combinamos? O que ela pensou duas semanas após nosso encontro frustrado? Eu nem ao menos liguei...
Quando me fazia essas perguntas, voltava atrás na ideia de desistir. Não poderia deixar de procurá-la para explicar o que aconteceu. Nem que fosse a última coisa que eu fizesse (dramática assim mesmo porque minha situação era essa), o que não poderia era deixar que ela pensasse que sou uma vaca.

Os médicos me disseram que, se eu sentia dor tinha chances de me recuperar. Perdida estaria se não sentisse nem isso... Certamente seria um repolho dali para frente. Avisaram-me que logo seria iniciada uma etapa completamente nova e importante em minha vida: a da fisioterapia.
Meu pai já estava providenciando seções diárias para quando eu voltasse ao Brasil.
Enquanto isso passava meus dias em observação na UTI. Minha mãe ficava comigo a maior parte do tempo. Como todas as mães amorosas, ela largou tudo para estar ao meu lado. Lia para mim os jornais da Espanha e do Brasil, falávamos sobre banalidades, fazíamos planos para quando eu estivesse melhor. Mesmo quando eu comentava que ela estava muito cansada e abatida, sorria e dizia para não me preocupar, que estava imensamente feliz por eu estar ali conversando com ela... Mamãe sempre me lembrava das coisas que ainda tinha que fazer, então me lembrava que teria que encontrar Fernanda.

continua...

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