Três anos se passaram desde aquele dia.
Muito tempo perdido sem saber o que teria sido se eu conseguisse chegar ao aeroporto. Tudo suspenso. É isso que sinto. Parou e acho que ficará estagnado até eu a encontrar de novo.
É, eu ainda não desisti de encontrá-la.
Minha vida jamais voltará ao normal se eu não encontrá-la para dizer que não foi culpa minha nossa vida ter mudado tanto, não causei o estrago, foi aquele atentado imbecil que me impediu de chegar até ela, foi ele que quase me deixou sem corpo, sem os movimentos que dizem quem sou, por causa dele minha vida tomou outro rumo e objetivo: ficar bem fisicamente (este é o rumo) para encontrar Fernanda (este é o objetivo). Tudo o que faço desde que voltei a pensar e lembrar é por Fernanda... e por mim, claro: encontrá-la e dizer que continuo planejando sobre nós. Claro que ela pode não acreditar em mim (mas talvez fosse uma postura incoerente, pois ainda tenho como provar o desastre... a bengala que me apoia é uma boa prova), dizer que é tarde, que muito tempo se passou, que não dá para voltar atrás, enfim... Pode ser que ela não queira mais me ver depois de conversarmos, mas terei feito o possível, o que estivesse ao meu alcance para tê-la de volta. Se não conseguir recuperá-la, voltarei a viver de um jeito diferente do que espero, mas voltarei a viver porque esclareceremos tudo. Assim espero.
Estou quase recuperada. Meio manca ainda, meu pé esquerdo, depois de infinitas seções de fisioterapia, ainda permanece sem a força necessária para me sustentar. Adquiri uma bengala simples, toda mimosa, para que eu não pareça doente.
Ninguém melhor do que eu para avaliar o avanço. Meus pais e amigos estiveram comigo, mas a dor era minha... e a vontade de voltar a andar e segurar com firmeza as coisas com as mãos também é minha. Se não fosse pelo rumo que decidi dar à minha vida, talvez levasse o dobro do tempo em me recuperar... talvez não me recuperasse nunca mais... mas não é o caso.
Depois que tive consciência de minha situação (entubada, comunicando-me apenas com os olhos e sem força nos membros), centrei-me em permanecer lúcida, pois precisava, antes de mais nada, voltar para o Brasil.
Fiquei na casa de meus pais por quase dois anos. Minha mãe largou tudo, carreira e estudos por minha causa, foi minha enfermeira, cozinheira, motorista... tudo, ela fez tudo por mim quando eu não conseguia fazer nada. Meu pai gastou até as tampas para me pagar fisioterapeutas, remédios, alucinógenos (bom, os alucinógenos ficaram por minha conta). Meus amigos me traziam jogos, papo-furado e alucinógenos (eles me traziam a lucidez de que eu precisava para esquecer).
Fiquei na cama durante meses sem movimentos, emagreci, perdi massa muscular, minha pele ficou horrível, fiquei feia. Minha mente permaneceu sóbria, mas, por alguns momentos, surtava e chorava porque achava que jamais conseguiria ir ao banheiro sozinha. Tomava remédios para dor e um dia decidi que não os tomaria mais porque nenhuma dor era maior que a que eu sentia por não ter alcançado Fernanda naquele dia.
Nunca pensei que fosse me sentir assim.
Em outros tempos (ou se não fosse um sentimento verdadeiramente forte e inédito) eu já a teria esquecido. Talvez, depois de algum tempo lúcida, até achasse proposital o desencontro... já tínhamos dormido juntas, já tinha tido o que queria, não precisaria enfrentar o embaraço de dizer que uma noite bastou.
Mas não bastou. E o desencontro foi como o rompimento de uma ponte em mim, a continuidade da minha vida amorosa está ali, parada sobre a ponte rompida. Se avanço agora caio no abismo do desconhecido novamente, sem a perspectiva de encontrar alguém como Fernanda. Talvez eu tenha que me jogar, caso nunca mais volte a vê-la.
Sempre me joguei no desconhecido e conheci pessoas e transas interessantes, mas Fernanda fez com que eu quisesse conhecê-la, quisesse um caminho menos instável, obscuro... sei lá. Só sei que o que aconteceu foi forte e não consegui contar a ninguém.
Nunca tive problemas em contar minhas aventuras e paixões avassaladoras.
Acho que por isso não contei dessa vez, porque para meus amigos pareceria mais uma aventura, mais uma paixão que sinto desesperadamente e, logo depois, passa. Não é só isso, não é simples. Preciso encontrar Fernanda para emendar a ponte rompida em mim. A única coisa que fiz, assim que tiraram aquele tubo miserável de minha garganta foi – depois de acostumar-me com a ideia de que eu ainda tinha voz –, pedir para minha mãe que me comprasse outro celular com o mesmo número do anterior, que foi destruído no metrô. Ela conseguiu, mas já havia passado mais de um mês. As chances de Fernanda me ligar certamente tinham diminuído 50%... depois me convenci de que diminuíram 100% porque não recebi nenhuma ligação de um número desconhecido que me fizesse pensar que era ela.
Enfim...
Fui para a cadeira de rodas. Meus amigos sempre me empurravam, literalmente, para as baladas e eu gostava, me divertia, bebia e esquecia um pouco a dor e minha péssima condição. Nos dias em que acordava com vontade de sentir dó de mim mesma eu alucinava (alucinógenos) para esquecer um pouco minha vida e depois dormir por horas seguidas.
Perdi a bolsa do mestrado. Depois de algum tempo comecei a pegar uns freelas, tirava uma grana e não enlouquecia. Voltei a mexer os dedos e a digitar, voltei a comer sozinha, a folhear livros sozinha, discar números de telefones sozinha.
— Desde que voltou para o Brasil, você está estranha...
— Não me diga... na verdade, desde lá, acho que estou meio torta...
— É sério, Clarinha. Não sei explicar, mas não é no aspecto físico... mas, também não sei dizer se foi por tudo que você passou... esses meses, anos de tratamento intenso, essa loucura toda. – Nana era minha amiga, muito amiga a ponto de decifrar alguns de meus pensamentos e sacar meu estado de espírito. Não tinha contado para ela o que aconteceu antes do acidente. Não sei por quê. Provavelmente porque nada do que eu dissesse faria com que ela entendesse o que sentia... mas acho que, mesmo assim, agora precisava de alguém que me ouvisse. Nana, naquela manhã, me analisava com mais detalhe, me pesquisava calada, pensativa; tragou o cigarro, pensou um pouco mais... — Essa coisa de você não desgrudar desse celular, como se esperasse uma ligação a qualquer momento... toda vez que ele toca você fica pálida! – tragou. — Quer saber, acho que aconteceu alguma coisa lá na Espanha...
Vou contar.
— Tenho esperança de que alguém ligue.
Nana abraçou as pernas sobre a cadeira e inclinou-se curiosa, prestes a desvendar o grande mistério.
— Depois de tanto tempo?
— Pois é, fui meio lenta, mas agora que estou melhor decidi encontrá-la.
— Encontrá-LA? Encontrar UMA pessoa ou UMA mulher? – levantou-se da cadeira e aproximou-se do sofá em que eu estava sentada. — Desembucha, Clara, fala logo sobre o que te atormenta!
Contei. No começo ela achou a história engraçada e me olhava como quem dizia: “Mais uma aventura de Clara, a Pegadora”, mas depois, conforme tentei dar às palavras o tamanho do sentimento e, depois, da frustração, sua expressão se transformou numa seriedade quase sofrida, solidária... talvez porque meus olhos estivessem cheios de lágrimas ao fim da confissão.
— Nossa, Clarinha! – conseguiu dizer após estender-me um lenço de papel e eu soar o nariz. — Por que não me contou antes? Por isso esse seu ar distante, uma preocupação constante que, de alguma forma, você transmite desde que voltou.
— Não sei bem por que não contei. Acho que queria me sentir minimamente recuperada para encarar o fato de que tenho que reencontrá-la para seguir adiante. E só eu posso fazer isso... e preciso estar bem para que isso aconteça.
— Foi sério mesmo, minha amiga. – Nana me analisava com a expressão séria, talvez houvesse também um pouco de pena naquele olhar. — Imaginar que a galinha da Clarice foi abatida...
— Abatida em todos os sentidos... quase virei canja. – aproveitei a deixa para brincar e quebrar aquele clima melancólico. Rimos, tomamos mais do café, rimos mais. Até que ela voltou ao assunto. Agora, se bem conheço Nana, ela não largaria o assunto.
— Mas, quais pistas você tem sobre ela?
— Nenhuma. – sorri desanimada. — Tudo foi tão rápido, intenso, que não conversamos sobre nada que me leve até ela.
— Não é possível. – Nana levantou-se e começou a andar de um lado para outro, matutando alguma ideia. — Deve haver um meio... e se houver nós vamos descobrir.
Quando Nana começou a me interrogar a fim de encontrar as tais pistas, o telefone tocou. Ela atendeu e retornou com o aparelho na mão... e um sorriso malicioso nos lábios.
— Laís para você.
continua...
terça-feira, 13 de julho de 2010
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