Estava em crise declarada com Pedro.
Acho que com meus pais também porque fugia deles como o diabo foge da cruz. Sentia-me sozinha, sem ter com quem desabafar. Talvez pudesse conversar com alguém se o motivo da crise com meu marido fosse simplesmente a divergência sobre ter um filho. Mas não é só isso, essa crise sempre existiu e não é pontual, é complexa, acho que vem desde o momento em que o conheci para tentar despistar quem sou realmente. Em vez de ficar com aquela primeira garota que me excitou há oito anos, decidi começar o namoro com um homem, o homem com quem meus pais simpatizavam.
Quando ouço por aí conversas em tom de curiosidade e sarcasmo sobre pais de família que abandonaram tudo para viver com outro homem, sinto-me extremamente incomodada porque os entendo. Eles explodiram, não aguentaram mais viver a farsa... foram tentar ser felizes depois de tentarem anos a fio ser quem os outros queriam que eles fossem. Medrosos? Sim. Foram. Mas nunca é tarde demais para tomarem coragem, mesmo que para isso tenham que ferir profundamente pessoas próximas. É o preço quando já se foi longe demais.
Quando me via diante dessas conversas pensava: “eis uma integrante do bando aqui, disfarçada”. Como é difícil carregar todo esse peso sobre minhas costas, mas também sei que esse é o preço para quem prefere se acomodar na covardia.
Se eu me mantivesse firme quando voltei ao Brasil... se não tivesse ficado tão frágil e cedido às pressões de todos para que eu me casasse com Pedro. Se... se... se... minha vida é feita de “ses” que ficaram para trás, porque “ses” são possibilidades que se foram.
Sair disso agora? Dizer “não quero ter filhos com você porque não te amo o suficiente e, por favor, me dê o divórcio porque me sinto desde sempre atraída por mulheres” só me fará mais infeliz. Sentir-me livre para quê se não tenho ninguém do lado de fora da minha prisão me esperando. Prefiro continuar prendendo Pedro. É, aos poucos vou me dando conta de que sou uma verdadeira filha da puta egoísta.
Se ao menos eu me apaixonasse novamente... Provavelmente, se isso acontecesse, eu me libertaria de mim mesma.
Telefone.
— Alô.
— Fê? Laís, tudo bem?
Uma luz no fim do túnel.
— Oi! Estava pensando em você. – era como se estivesse mesmo.
— Ontem, lá no cinema, te achei abatida... aí pensei que aquela conversa que rolou no restaurante, sábado, tivesse alguma coisa a ver. Quer conversar?
Pensei por um instante nessa proposta repentina.
— Seria ótimo. Preciso mesmo dividir com alguém... mas hoje fico no escritório até às sete.
— Bom, hoje é segunda... – pensou. — Podemos nos encontrar para jantar, o que acha?
Mais um momento de silêncio.
— Ótimo.
Fiquei ansiosa. Pensar que teria Laís como confidente me deixava nervosa. Primeiro: ela não é minha amiga, apenas a conheci por meio de Gustavo e Pedro, então poderia concluir que ela é mais amiga de Pedro do que minha. Segundo: sinto-me atraída por ela. Confidenciar problemas íntimos é chamá-la para perto e não sei se quero mais problemas na minha vida. Mas, se pretendo me libertar, acho que preciso sair da toca em que me enfiei e voltar a enxergar o mundo, ir para a toca de outras pessoas interessantes.
Fui.
Escolhemos um restaurante calmo para que pudéssemos conversar em paz. Estava encantadora num vestido liso, preto, frente única. Seus cabelos estavam arrepiados com gel ou pomada, parecia que tinha acabado de sair do banho. Levantei-me, nos beijamos, nos sentamos e ela pediu bebida. Tirou um cigarro do maço, acendeu-o como fazem aquelas mulheres fatais e:
— Fiquei preocupada. Fui insensível... falei tudo aquilo e não percebi que vocês ainda não decidiram o que fazer sobre a gravidez. Desculpa, Fê.
— Imagina, não foi culpa sua.
— Quando a vi ontem no cinema sozinha achei mesmo que algo estivesse acontecendo. – tragou, bebeu e curvou-se um pouco mais sobre a mesa para que eu pudesse ouvi-la. Olhou-me nos olhos. — Sei que não somos amicíssimas, mas gosto de você. Acho você uma mulher inteligente, divertida, linda, agradável... – pausa para um pigarro dela e um riso sem graça meu. — Enfim, se quiser posso ouvi-la... se eu não puder fazer nada.
— Obrigada, Laís, você é mesmo um achado. Pensei que tivesse muitos amigos porque vivo rodeada por eles, mas nenhum me despertou a vontade de desabafar, de contar coisas íntimas. Não senti confiança em me abrir, me expor.
— Então posso me sentir lisonjeada... – sorriu com o canto da boca olhando-me intensamente.
Laís era um tipo ambíguo. Ao mesmo tempo que me parecia sincera, tinha a impressão de que havia uma intenção por trás de algumas de suas atitudes.
A quantidade de amigos e inimigos tinha o mesmo peso em sua balança. Alguns diziam que era dissimulada, que nunca dava ponto sem nó, que fazia muitos ex-amigos de escada para sua ascensão. Outros diziam que era uma pessoa batalhadora, perseguida, mal compreendida por ser ousada, fora dos padrões. Mas sua característica determinante é ser uma conquistadora assumidíssima, com orgulho. Ainda não tenho uma opinião sobre ela. O que vejo diante de mim é uma mulher perturbadora preocupando-se com meu problema, não sei se para o bem ou para o mal. Mas por que ela me faria mal? Achei superdelicado de sua parte ter me ligado para estarmos aqui agora.
— Obrigada por se preocupar. – comecei meio tímida a fim de observar melhor sua reação. — Acho que venho passando por uma fase difícil e, agora, os nervos estão à flor da pele.
— Imagino que deva ser difícil quando um casal diverge em questões delicadas. – tomou outra dose do uísque. — Mas só imagino porque prefiro ter minhas questões e resolvê-las comigo mesma.
— Nunca pensou em dividir questões com alguém? – continuei tentando dar uma de detetive.
— Só as imediatas, tipo: na sua casa ou na minha? – rimos um pouco da piada, mas ela se preocupava mais em ficar me observando. — Gosto de ter o controle sobre minha vida e, quando a dividimos com alguém, existem duas possibilidades: ou nos tornamos completamente responsáveis pelas duas vidas – se já não bastasse uma – ou perdemos o controle, ficamos a mercê do outro.
— É uma explicação bem didática... – comentei encarando-a a fim de que ela percebesse que não me intimidava. Mas intimidava.
— Pode ser, mas funciona. – ficamos um instante em silêncio. — Não quero criar uma situação embaraçosa novamente, mas, no seu caso, em qual das duas explicações didáticas você se encaixa?
Touché.
Realmente não sabia se ela queria me ajudar ou me espezinhar.
Mas, vamos lá.
— Talvez eu tenha afrouxado um pouco além da conta as rédeas da situação.
Ela continuou me olhando, pedindo que eu continuasse... e eu não queria me mostrar tão frágil. — Não quero ter um filho porque o que eu queria há três anos não é mais o que quero atualmente.
— E Pedro não está por dentro dessa mudança de planos... – concluiu como se fosse minha analista.
— É, mais ou menos.
Ficamos um instante em silêncio. Ela fumando e olhando ao redor e eu olhando para minhas mãos que seguravam a taça de vinho. Por mais que eu tentasse mostrar a segurança que todos dizem que tenho, meu medo transpirava e sentia-me pequena perto daquela mulher que soprava a fumaça do cigarro com tanta altivez, independência... E se eu confiasse nela?
— Acho que Pedro nunca esteve por dentro de nada que acontece comigo. Mas, não por culpa dele... culpa minha mesmo, que me tranquei, deixo que meus sentimentos e pensamentos íntimos fiquem só comigo. – dei outra risadinha sem graça, como os tímidos que acham que os outros não querem ouvir o que estão dizendo. — Desculpa, nem sei por que estou dizendo isso...
— Porque estamos aqui para isso... para que diga o que pensa, diga o que quiser.
— Por que está fazendo isso por mim?
— Já disse. Porque gosto de você. – apagou o cigarro com força no cinzeiro e olhou-me novamente com força. — Acho, sinceramente, que por trás dessa sua insegurança e medo de viver existe uma mulher bem interessante. Você não foi assim a vida inteira, não é? Estou falando alguma besteira?
Laís é bastante perspicaz, enxergava em mim muito do que os outros não viam.
— Não. Acho que fui perdendo as forças com o tempo... – ela estava me deixando confusa... e nua... porque começava, de maneira tão habilidosa, a desvendar em mim tudo o que só eu sabia. Só eu. — Não sei... não sei porque me rendi ao controle dos outros quando o que quero é tão diferente... tão simples...
— O que você quer, Fernanda?
— Quero liberdade para fazer o que eu quiser.
Permaneceu séria encarando-me sem piscar.
— Por que não toma as rédeas da sua vida novamente para ser livre?
— Porque não tenho o motivo para isso.
— Qual é o motivo?
Hesitei. Parei para poder pensar. Não conseguia mais raciocinar direito. Acho que o fato de estar colocando tudo para fora estava me deixando leve a tal ponto de perder o controle das palavras. Expor-me inteira em cima de uma mesa de restaurante para uma amiga metida à analista era forte... e eu quase sentia náuseas.
— Um amor. – lancei como flecha em fogo que ardia dentro de mim há três anos. Quem olhou com força agora fui eu e acho que era o vômito que faltava para que eu me tornasse forte novamente. — O amor por uma pessoa que conheci na Espanha e desapareceu. O motivo que eu tinha para jogar tudo para o alto não tenho mais.
Laís roeu uma das unhas ainda me observando um tanto perplexa.
Tempo para ela pensar...
— Nossa...
Foi o que ela disse.
— A perda desse amor fez com que eu me rendesse, que desistisse de viver porque não tinha um motivo, entende?
— Mais ou menos. Na verdade, acho que não. Mas... como você o perdeu?
— Laís... eu não O perdi, eu A perdi.
— Nossa...
Foi o que ela disse.
Deixou sua mão cair sobre o copo de uísque e sua expressão perplexa intensificou-se enquanto se ajeitava melhor na cadeira a fim de ouvir os detalhes que vieram depois.
Pois é, contei tudo, ou melhor, tudo o que eu conseguia dizer por meio de palavras. Recobrei, como num passe de mágica, a segurança que deixei lá no aeroporto, naquele 11 de março de 2004, às 8h da manhã em meio a vozes de alto-falante dizendo que eu tinha que partir sozinha – mais sozinha do que nunca. Conforme fui dizendo, aliviando minha alma, comecei a me sentir bem por explodir e abrir a ferida, a fim de deixá-la exposta para que outra pessoa a visse (de outro ângulo, de outra distância) e entendesse o motivo do meu ostracismo.
Laís escutou-me imóvel, deixou que eu falasse até que o silêncio determinasse o término da história.
— Nossa! Que história! – o cigarro tinha queimado em seus dedos. — Mas, passaram-se três anos, Fê! Você tem um número de celular que nunca atende. – silenciou por um instante me observando. — Já pensou na possibilidade de ela ter curtido muito apenas aquela noite e depois não querer mais nada. Não que você não seja atraente o suficiente para anos de desejo, não é isso, mas... algumas pessoas não gostam de se apegar...
Será que aquilo era um consolo?
— Não sei... pode ser. – não estava a fim de defender Clarice, pois... até pode ser que Laís tenha razão.
— Acho que você deveria conhecer pessoas... para voltar a se apaixonar.
Sem que eu esperasse, segurou minha mão e a apertou me olhando nos olhos. Acho que encontrei no seu olhar a impressão que tenho quando a vejo tão prestativa: “havia alguma intenção por trás de algumas de suas atitudes.” Mas agora, depois de ter me escutado, percebia algo mais, uma certa inquietação, uma névoa, uma sensação de reflexão naquele olhar. Parecia que ela estava digerindo tudo o que acabei de contar.
Não que isso, nessas circunstâncias, fosse totalmente ruim. Sentir sua mão quente sobre a minha acendeu meu corpo inteiro e, mesmo sabendo que Laís é uma galinha, talvez eu a quisesse beijar para sentir meu desejo voltar. Mas...
— Mas sou casada, Laís!
— E daí? Desculpa o clichê, mas, você não está morta.
— Não sou adepta da infidelidade como... – ops! Quase saiu.
— Como eu? – ela sorriu cínica.
— Você quem disse... – também fui cínica.
— Talvez eu seja a pessoa que te mostrará que há vida “pós-amor-español”. – disse com sotaque castelhano, ainda me observando com olhos insinuantes e sorriso cafajeste.
Eu apenas correspondi ao sorriso.
— Preciso ir. – chamei o garçom. — Muito obrigada por me ouvir, me sinto bem melhor.
— Estarei sempre à disposição. – piscou. — Mas, é sério, pode confiar em mim, posso ser um tanto dada aos prazeres carnais, mas sei guardar um segredo.
continua...
sábado, 24 de julho de 2010
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2 comentários:
Dona Mariana, as doses homeopáticas de seu conto estão mais para cutucar a ferida do aliviar a dor... Tem certeza de que não quer postar diariamente, tipo, duas, três, quatro vezes ao dia? Não?! ok, ok, ok...
Ana, sua fã de n.° 3.000.345.342..1/2
Oi, Ana!
Putz... eu bem que queria só escrever, aí conseguiria fazer isso que vc disse. Mas sou uma assalariada que precisa postar 2 vezes na semana e ter sempre uma carta na manga, pra ter tempo de escrever sem que vcs, leitoras, me alcancem rsrs.
Muito obrigada por estar acompanhando.
Vc não é uma fã, é mais uma amiga que tenho na net.
Beijo.
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