terça-feira, 31 de agosto de 2010

CAPÍTULO 27 – A CHAMADA

A relação entre mim e Pedro, por incrível que pareça, melhorou... pelo menos não estávamos mais nos agredindo ou fingindo que estava tudo bem, pelo menos voltamos a nos cumprimentar, ou seja, parecia que o respeito mútuo havia se restabelecido. Pedro estava mais calmo, mas também acho que mais triste, submerso numa tristeza resignada... e isso me enchia de remorso. Consequentemente eu também estava triste por essa situação, por não ter conseguido ser uma boa esposa, nem ter lhe dado um filho.
Deve ser mesmo difícil ouvir da pessoa que se ama (acho que ele ainda me ama, amava... não sei) que ela não ama mais, não sente mais vontade de estar junto. Sei como é isso de outra maneira, porque quem amo, amava... não sei, não me disse que não me queria, simplesmente desapareceu e sinto que meu amor nunca foi correspondido.
Somos, no fim das contas, dois mal amados, que amam as pessoas erradas.
Estou dando um tempo a ele. Pedro disse que precisava amadurecer a ideia do divórcio, então que pense, reflita e voltaremos a conversar como pessoas civilizadas e, se conseguirmos, como amigos que viveram três anos juntos... casados.
Na sexta é o lançamento da exposição de Laís e Pedro estará lá fotografando. Combinamos de não comentar nada com os amigos por enquanto, portanto estarei lá acompanhando-o pacientemente, para evitarmos constrangimentos.
Por falar em Laís, tínhamos combinado de jantar.
Tinha bastante trabalho na agência e isso ocupava minha mente, para que eu não olhasse a todo momento o relógio. Quero muito vê-la porque estou com uma imensa vontade de falar, desabafar, contar o que tive que fazer para me refazer... queria ter com ela a conversa que tive com Júlio. Foi ótimo o desabafo, animou-me a continuar minha guerra interior.
Liguei para Nana a fim de saber se os últimos riscos estavam prontos para serem aprovados. Preparei-me antes porque se sentisse receptividade na conversa gostaria de estender para um papo informal e mais pessoal. Gosto dela e gostaria que fôssemos mais próximas. Porém, não obtive dela o que pretendia. Nana me atendeu um tanto reticente, respondendo apenas às minhas perguntas, a fim de encerrar logo a ligação. Estranhei sua atitude, pois nas primeiras vezes que nos vimos ela foi muito simpática e comunicativa. Combinamos que na segunda-feira ela me levaria as provas finais. Provavelmente não estava num bom dia.

Cheguei primeiro que Laís, pedi uma água e folheava uma revista quando ela, deslumbrante, chegou. Estava, como sempre, vestida para matar num jeans agarrado, salto e blusa generosamente decotada. Era como a personagem sensual de um filme, que chama a atenção intencionalmente, que gosta de se sentir desejada. E eu a desejava como vários olhos que a devoravam enquanto se encaminhava para minha mesa no restaurante. Vê-la chegar me excitou instantaneamente, fez com que eu me esquecesse dos problemas e da consciência. Laís despertava meu ID, minha vontade de cometer o pecado da luxúria. Imediatamente lembrei-me da noite que tivemos... e me deu uma vontade enorme de repetir a dose. Vendo seu sorriso malicioso aproximando-se de mim, acho que pensava a mesma coisa. Ela sabia que vários olhos a acompanhavam e, por isso mesmo, o azul de seu olhar se tornava ainda mais provocante.
— Boa noite, querida. – beijou-me (sexualmente) no canto da boca e cochichou no meu ouvido com a mão acariciando minha cintura: — Você está ainda mais linda hoje.
Sorri encarando-a, pensando no quanto ela instiga meus instintos sexuais.
Sentamo-nos e ficamos nos olhando por algum tempo antes que eu quebrasse o gelo, ou melhor, a onda de calor.
— Sexta-feira está próxima... você deve estar com os nervos à flor da pele... – comentei enquanto o garçom anotava nossos pedidos.
— Agora estou no estágio de relaxar e apenas esperar o grande dia. Só quero passar momentos agradáveis com as pessoas que gosto. – responde-me piscando.
Quando o garçom se afastou, ela passou a mão no meu rosto e o trouxe para o seu. Deu-me um selinho e isso me assustou... ainda não tinha me separado de Pedro, e se alguém visse essa cena?! Claro que muitos viram e, se estavam impressionados com a presença dela, certamente ficaram ainda mais. Senti meu rosto corar e, dessa vez, não foi de excitação.
Claro que também fiquei excitada, mas preciso tomar cuidado, ser prudente, já estava causando estragos demais. Laís sorriu, provavelmente da minha timidez, do meu rosto vermelho, da prudência e do juízo que ainda tenho.
— Você não me contou o que aconteceu quando saiu da minha casa às seis da manhã...
— Muitas coisas aconteceram.
— Temos tempo, querida... sou toda ouvidos...
Contei as diversas discussões que tive com Pedro e a última conversa, em que propus a separação. Laís me ouviu calada e seu olhar me analisava, parecia que vasculhava o que ia no meu mais profundo e inconfessável íntimo... parecia que queria descobrir coisas que nem eu mesma sabia. Não conseguia saber o que pensava a respeito de tudo o que eu contava, apenas me olhava, sorria e vez ou outra tomava um gole do vinho. O jantar chegou e resolvi mudar de assunto, dizer que tinha muito trabalho e isso me ajudava a esquecer um pouco meus problemas pessoais.
— Podíamos jantar e ir para minha casa... – convidou de maneira quase irresistível.
Sorri sem responder. E assim entramos num jogo sedutor, cheio de diálogos um tanto ambíguos, insinuantes. Conversávamos banalidades enquanto comíamos... uma noite agradável em ótima companhia, com boa comida, boa bebida. Falávamos sobre o cardápio daquele restaurante e começávamos a discutir sobre as sobremesas quando meu celular tocou.
Senti meu sorriso se fechar e minha boca secar.
Fiquei imóvel, com o olhar paralisado naquele número, no visor do meu celular.
Senti meu coração disparar, meu estômago embrulhar... uma vertigem. Aquele número que eu sabia de cor tocou, chamou apenas uma vez. Depois de três anos aquele número me salta aos olhos no display luminoso do meu celular.
— Fernanda? – ouvi longe a voz de Laís, que me olhava assustada. Tocou na minha mão e tentou me tirar da perplexidade. — Você está bem? Está pálida, sua mão está gelada... – olhei para ela, mas não sabia o que dizer... acho que precisava de ar, ficar sozinha.
— Fernanda, o que aconteceu?!
— Nada. Foi um mal-estar. Preciso ir embora. – respondi com a voz trêmula e trêmula tirei o guardanapo do meu colo e o coloquei sobre a mesa encerrando o jantar. Laís ficou me olhando sem entender.
— Calma, Fernanda. – fez sinal para o garçom e novamente segurou minha mão. — Não quer esperar um pouco? Você não está bem. – continuou me analisando: — Que ligação foi essa que te deixou assim?
— Não foi nada. – tentei sorrir. — Acho que foi uma queda repentina de pressão, mas prefiro ir embora.
Acertamos a conta e a acompanhei até o carro em silêncio enquanto ela me olhava séria, com o cenho franzido.
O que poderia significar aquela ligação depois de tanto tempo... nem esperou que eu atendesse. Por que isso? Por que cutucar essa lembrança de uma maneira infantil? Depois de três anos sem uma explicação, uma satisfação... simplesmente desapareceu e hoje isso! Meu Deus!
— Fernanda, a ligação te deixou perturbada, não foi? Por que não me conta, querida... não confia em mim?
Meus olhos estavam ardendo. Parei e, sem conseguir encará-la, respondi:
— Era Clarice.
Precisava dizer esse nome/tabu, contar, se não explodiria, se não certamente não conseguiria chegar em casa. Precisava de ajuda.
— É o número dela no meu celular, Laís. Ela ligou para mim.
Laís parou de andar e encostou-se no carro com expressão quase tão assustada quanto a minha.
— Sério?
Não respondi. Fui até meu carro abri-lo para me sentar...
— E por que não falou com você?
— Como vou saber? – peguei o celular novamente e fiquei olhando para ele simplesmente. — Não sei por que está fazendo isso...
Laís apoiou-se na porta e olhou-me séria.
— Ela não podia fazer isso com você agora. Justo agora, que você está conseguindo ficar bem... agora que está conseguindo se libertar dela! – parecia furiosa, realmente preocupada comigo. — Já pensou que provavelmente ela encontrou seu cartão no fundo de uma gaveta ou dentro de um livro depois de três anos e, por estar sozinha hoje, resolveu ligar? Que é muito pouco provável que ela sinta algo por você, caso contrário já teria ligado há muito, muito tempo porque quem está apaixonada não aguenta esperar tanto, Fernanda. – respirou e finalizou: — Ela está apenas se divertindo... não se esqueça que ela não apareceu no encontro, portanto, não faça papel de boba de novo.
Depois dessa metralhada de acusações iradas permaneci em silêncio observando sua reação. Estranha. Não pensei que fosse ficar tão nervosa... mas ela tinha razão. Se Clarice tinha meu telefone esse tempo todo, por que me ligar só agora quando liguei feito doida semanas depois de ter retornado ao Brasil?
— Não farei papel de boba. – consegui responder com a voz embargada.
Laís segurou meu rosto com as duas mãos e me olhou com carinho, enquanto eu tentava conter as lágrimas.
— Vamos dar uma lição nela, minha querida. Não vou deixar que ela te machuque mais... – e me beijou com..., ..., ... paixão???
Fiquei confusa.
Mais ainda...
Ela sorriu com ternura e me aconselhou:
— Diga que não foi ao encontro... Se ela não apareceu, diga a ela que o que combinaram também não foi importante para você.

— Nem sei se falarei com ela...
— Seria mesmo melhor que não falasse.
Estava atordoada demais para continuar ali. Disse novamente que precisava ir embora, afinal de contas, mesmo estando com raiva daquela ligação (ainda mais depois da elucidação de Laís) foi um choque, está sendo um choque. Também é estranha essa reação passional de Laís... preciso ficar sozinha.
Ela insistiu que não me deixaria ir sozinha, mas eu não via necessidade de deixar meu carro ali. Então decidiu me seguir até em casa... foi inacreditável seu gesto. Laís mora no outro extremo da cidade e sua preocupação, seu carinho comigo me impressionaram.
Quando embiquei o carro na porta da garagem, meu celular tocou novamente e quase o deixo cair tamanho é meu nervosismo. Mas era Laís.
— Entregue, mocinha. Pense no que te falei e, se quiser, a qualquer hora, me liga e venho correndo.

***

Estúpida.
Como essas mulheres carentes são fáceis.
Foi só uma ligação, uma única chamada e Fernanda fica daquele jeito. Deus! Onde essas mulheres vão parar assim?!
E ainda tive que dar uma de amante apaixonada que está com medo de perder a amante lesa para um antigo caso de... um dia! Lamentável. Mas acho que interpretei bem o papel, acho que ela pensa que estou enciumada. Porém, não basta que ela pense isso, ela precisa realmente estar magoada com Clarice a ponto de dizer que também não foi ao encontro. Aí sim consigo o que preciso, afastar as duas por motivos de mágoa, raiva e frustração. São esses sentimentos que uma deve nutrir pela outra, pelo menos até que Clarice se convença que sou muito melhor que uma “senhôura” carente e medrosa.
Claro que não me custaria nada ser amante de Fernanda... ela é bonita, gostosa, tem um potencial incrível... As duas não podem se encontrar e preciso pensar numa maneira de impedir que isso aconteça. Preciso conversar com Gustavo.
Que inferno ter que atravessar novamente a cidade.
Bom, de qualquer maneira está sendo divertido esse joguinho de gato e rato no qual sou a cachorra e como os dois... gatinho e ratinho. Incrível como esse destino é engraçado e sensacional ele ter me dado de bandeja essa situação tão sexy, cheia de adrenalina, como em um filme. Quando o lançamento da exposição passar vai ficar muito mais divertido... por enquanto estou estressada com essa festa.
Inclusive é nela que Clarice e Fernanda não podem se encontrar.

continua...

2 comentários:

Anônimo disse...

Oi Mariana, espero que esteja bem e que o encontro tenha acontecido da forma esperada.
Fã declarada de sua escrita tenho acompanhado as postagens com ansiedade, mas tô gostando não da forma como a manipulação das duas delícias está acontecendo. Tá me parecendo muito fácil diante de um sentimento que se mostrou até então tão forte e de raízes tão profundas que lá se foram anos e ainda as duas se querem tanto.. Diz prá mim não que o amor nos torna frágeis e suscetíveis pq sei que sim, mas tanto assim?
Vai admirável, bota as duas cara a cara.
Um beijo, fique com Deus você e os seus.

Ana Maria

Mariana Cortez disse...

Oi, Ana! Tudo bem?
O encontro foi legal, sim. Adorei estar perto de escritoras que li durante minha adolescência... foi demais a tietagem, rs.
Então... o amor, como vc mesma disse nos torna frágeis e eu acho que no caso delas (Clara e Fernanda), inseguras por conta dos desencontros (o amor, às vezes, não te deixa insegura? Vc nunca achou amar mais do que o outro te ama? É mais ou menos isso que queria mostrar). Elas imaginavam se encontrar, fantasiavam isso, e a realidade está mostrando algo diferente (por conta da tosca da Laís, rs). Mas, fique tranquila... tudo vai dar certo, rsrs.
Beijos, querida. Muito obrigada por comentar. Essa história anda levantando questionamentos que acho muito legais... é show qd as leitoras não são "passivas" diante de uma leitura (e que a história chame-as a participar).
Um beijo grande e um ótimo feriado.