segunda-feira, 23 de agosto de 2010

CAPÍTULO 25 – CRISES

Depois de mais um dia de trabalho, cheio de reuniões que ocuparam minha mente, voltei para casa carregando pensamentos e sentimentos que me afligiam (ultimamente andava bastante inquieta, perturbada) e tentando administrar uma consciência pesada.
Estava me sentindo a pior das pessoas: por ser egoísta desde o início, casando-me com Pedro mesmo sabendo que não seria feliz, nem o faria feliz... eu seria incapaz disso porque amava outra pessoa, porque me encontrei nela, e descobri que nada do que vivia era real, intenso, comparado aos poucos momentos que tive com a pessoa que, de verdade, amei. Por ser falsa e nunca mostrar a Pedro como sou, sem a máscara. Sou carente de paixão, carente de tesão, de sexo bem feito porque sou homossexual e, consequentemente, ele não atende às minhas necessidades como mulher. Sempre fingi, mesmo quando tentava me convencer de que estava tudo certo... não está... nunca esteve... e ele nunca soube disso. Por ser traidora, porque na primeira oportunidade dormi com a amiga de faculdade dele, sem pensar nas consequências, no quanto isso pode machucá-lo, no quanto isso me faz leviana. Muitos erros para uma pessoa só. Estou perdida, sem rumo e preciso me reencontrar de alguma forma.

Quando Pedro chegou eu já estava em casa.
Não voltamos mais ao assunto de minha noite fora de casa, mas também não voltamos a assunto nenhum. Ele chegava, tomava banho, jantávamos em silêncio, apenas trocando monossílabos patéticos e cada um ia para um canto da casa: eu, geralmente, para o escritório e ele para sala ou quarto. No outro dia era igual.
Dessa vez queria conversar, queria começar a dizer que não faz sentido essa situação, que a separação é inevitável.
Preciso recomeçar do zero e permitir que ele se livre de mim.
Quando abriu a porta eu estava estática diante dele. Na verdade, andava de um lado para outro esfregando as mãos, ensaiando o modo de começar essa conversa... ansiosa e angustiada. Ao ouvir o barulho da porta parei diante dela e meu coração disparou como um despertador: chegou a hora.
— Oi. – espantou-se por me ver feito estátua na sua frente, mas logo recobrou a frieza e passou por mim.
— Pedro, preciso conversar com você. – disse antes que subisse as escadas. Ele parou, abriu um botão da camisa e respirou fundo voltando para se sentar no sofá. Ficou me olhando em silêncio e isso me constrangia, minava minha coragem, era como se ele enxergasse tudo sem que eu precisasse falar.
— Acho que chegou mesmo a hora, não é? De sermos sinceros um com o outro. – disse encarando-me sério, mas com tranquilidade no olhar.
— Não podemos mais ficar assim. – não sabia como dizer, então melhor ser direta: — Queria propor a você o divórcio.
Pedro debruçou-se sobre os joelhos e passou a mão pelos cabelos desalinhados. Um nó se formou em minha garganta.
— Como chegamos a este ponto, Fernanda?
— Eu não sei... – minha voz saiu trêmula.
— Você sabe... tenho certeza, porque tentei muito cuidar para que isso não acontecesse.
Ele tinha razão.
— Não estou feliz.
— Por quê?
— Não sei... preciso mudar minha vida, quero recomeçar... não posso continuar dessa maneira...
— Por que nunca me disse o que estava acontecendo? É claro que você sabe o motivo da sua infelicidade, caso contrário você está doente...
— Pode ser que eu esteja...
— Por que nunca quis minha ajuda? Eu te amava tanto.
Lágrimas inundaram meus olhos, mas não queria deixar que elas caíssem. Andei pela sala antes de responder sua pergunta de forma sincera... devia isso a ele.
— Não sinto mais amor, Pedro... só um vazio, uma vontade de encontrar um motivo para voltar e me sentir feliz.
Ele me olhou e logo se desviou para o chão. Era um golpe, eu sei. Era dolorido demais dizer isso, mas ele precisava saber.
— Você, em algum momento, me amou de verdade?
— Eu o amei antes de nos casarmos.
Ele sorriu chocado com a revelação.
Na verdade eu tinha uma visão do que era amor. O amor que sentia por Pedro era meu parâmetro e para mim estava bom. Até conhecer Clarice e me convencer de que, perto do que ela me causou, o amor que sentia por Pedro era muito pequeno. Portanto, quando me casei já não sentia amor nenhum, apenas uma amizade, um carinho, a sensação de estar protegida ao lado dele e pensei que isso fosse suficiente... achei que este incômodo, esta insatisfação que sinto agora nunca fosse me incomodar, mas está me matando e fazendo Pedro infeliz.
— Então o casamento estragou tudo... Você vive comigo há três anos sem amor, Fernanda?
— Desculpa, Pedro... mas pensei que o companheirismo que tínhamos supriria essa necessidade.
— Existe outra pessoa?
Desviei-me de seu olhar e talvez isso tivesse respondido sua pergunta.
Agora não consigo dizer. Não tenho coragem de dizer que antes de nos casarmos conheci uma mulher que mudou minha vida, que tinha combinado com ela voltar para o Brasil, terminar com ele para viver com ela... mas ela não apareceu no lugar marcado, então resolvi voltar e me casar.
Entrei em crise na época, desmanchamos, mas fiquei com medo de ficar sozinha... foi aí que o erro começou de fato... e continuei errando até aqui.
— Não. – e continuo mentindo.
Pelo seu olhar, deve ter notado que minha afirmação foi manca, insegura.
Levantou-se, suspirou e:
— Amadureça a ideia que também vou fazer isso. Preciso pensar... pense também. Pense que você pode estar entrando numa depressão, querendo fugir de você mesma... a gente volta a conversar.
Subiu as escadas devagar enquanto eu enxugava minhas lágrimas que explodiam num choro intenso.

***

Não estava apaixonada por Laís, ela não teve influência definitiva na minha decisão. Simplesmente eu não aguentava mais. Até quando uma pessoa consegue viver uma vida que não sente ser sua? Meu limite chegou. Não consigo mais.
Pode ser que esteja doente mesmo, mas para me salvar disso preciso encontrar uma maneira de viver, nem que para isso tenha que regredir na idade e passar alguns dias dormindo fora de casa... não sei... só sei que não posso ficar assim.
Laís me ajudou a enxergar, fez com que eu percebesse que uma transa me dava muito mais tesão do que a vida que eu levava. Não posso permitir viver com tão pouco. Quero me sentir livre, inclusive de Clarice, para voltar a almejar uma paixão, um amor, uma felicidade intensa, mesmo que seja por tempo determinado... melhor do que viver uma vida morna pra sempre.

Peguei meu travesseiro e fui dormir no quarto de hóspedes.
No outro dia, quando acordei, Pedro já não estava em casa.
Tomei um banho, um café e logo Júlio chegou para a série de exercícios.
— Desculpa falar, querida, mas você está com o aspecto horrível... – foi o que me disse depois de alguns minutos, quando comecei a alongar.
— Obrigada por me dizer, Júlio... eu já sei.
Depois de um instante de silêncio...
— Se quiser me contar, fique à vontade.
— Queria te fazer uma pergunta... – ele me encarou esperando, mas sem deixar de me alongar. — Você sofreu quando teve que assumir seu relacionamento com Marcelo?
Claro que ele entendeu. Continuou me alongando.
— Sim. Muito. Não foi fácil assumir minha homossexualidade... para mim e depois para as pessoas que conviviam comigo. Eu não sou afeminado, então fica mais difícil porque não é evidente minha orientação sexual. Quando conheci Júlio e nos apaixonamos tive que escolher entre me esconder e não mostrar o quanto estava feliz com alguém ou escancarar e aguentar o tranco. – parou de me alongar e me olhou profundamente. — Foi barra dizer para meus pais e assumir para a sociedade... mas sobrevivi e hoje penso que faria tudo novamente.
— O Marcelo foi seu primeiro amor?
— Não. Primeiro eu me assumi, depois fui em busca de um amor. Conheci alguns, mas nenhum como o Marcelo. – continuou me observando: — Ou seja, é preciso primeira se aceitar, ter uma relação de amor com você mesma... depois as coisas vão acontecendo naturalmente.
Peguei a barra pesada de sua mão.
— Era isso que eu precisava saber...
— Quer dizer que você me faz esse questionário e não vai me dizer o que está rolando?... Muito legal, você... – comentou sorrindo enquanto fazia a contagem de uma de minhas séries. Quando terminei sentei-me e enxuguei o suor:
—Resolvi me aceitar, Júlio... depois de anos e anos tentando lutar contra, não dá mais.
— Está apaixonada?
— Não... quer dizer... estive...
Ele ficou me olhando com uma das sobrancelhas arqueadas.
— Bom, aconteceu uma vez e quando estava determinada a assumir tudo mudou e eu recuei.
— E o que te fez mudar de ideia?
— Estou me envolvendo com uma pessoa... não estou apaixonada, mas estar com ela me fez enxergar que não posso continuar fugindo de mim, que preciso ser quem sou pra ser feliz. – respirei fundo. — E para isso tenho que começar de novo... por isso não posso mais ficar com Pedro.
— Você disse tudo isso a ele.
— Não tudo, já foi doloroso demais dizer que não o amo.
Necessitava urgentemente conversar com alguém e ninguém melhor que Júlio. Os amigos que eu tinha nem imaginam que passo por isso, pra eles sempre fui bonita, rica e realizada... casada com um marido bonito, rico e realizado.
Olhar para Júlio me tranquilizava porque me identificava com ele, confiava nele porque de alguma forma éramos cúmplices... fazíamos parte da mesma “turma”. Ele segurou minha mão e diria algo quando meu celular tocou.
— Oi, Laís. – senti prazer em ouvir sua voz. Seria fantástico se conseguíssemos nos ver para que eu pudesse contar tudo o que estava acontecendo. — Jantar na quarta? Claro... estou livre..., ... Pode ser lá, sim. Ok. Nos vemos então. Beijo.
— É ela, não é? – perguntou assim que eu desliguei sorrindo maliciosamente.
— É... – sorri sem graça.
— Então malha e melhora essa cara porque amanhã à noite vai ter festa!

continua...

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