terça-feira, 10 de agosto de 2010

CAPÍTULO 21 – UM TRIÂNGULO E O JOGO DE XADREZ

Eu sabia.
Incrível como esse mundo é mesmo pequeno, e dá voltas, jogando evidências e coincidências aos nossos pés. Incrível...
Clarice voltou da Espanha toda remendada e, com o passar dos meses, anos, achei que os ferimentos também haviam atingido seu modo de ser porque voltou mudada, diferente e eu não conseguia atingir meu objetivo: tê-la para mim. Mas, então, há pouco tempo, por meio de intensas e incansáveis “pesquisas”, descobri que a mudança vinha de outro tipo de ferimento: um coração partido. Antes de ela embarcar eu estava conseguindo, mas ela teve que ir para aquele mestrado idiota, do outro lado do mundo, e tudo aconteceu. E voltei à estaca zero.
Eu, como peça em um jogo de tabuleiro, numa jogada do destino, fui parar próxima à mulher que feriu os sentimentos de Clara. Fernanda. Como eu poderia imaginar que a esposa de meu amigo de faculdade fosse ter um caso relâmpago com a mulher por quem estou apaixonada? Como imaginar que Fernanda, toda convencional, certinha, burguesinha, ardesse de amores por outra mulher? E a hipócrita fica se escondendo atrás da máscara “família tradicional”. Bom, mas ela está tentando mudar, é fato. Eu mais do que qualquer pessoa testemunho essa mudança... e até a estou ajudando. Claro, o que me custa ajudar uma mulher como Fernanda (linda!) a sair do armário, e ainda ser uma das primeiras a prová-la? Afinal, a primeira foi Clarice, sempre disputando minhas presas...
Estava sentada na poltrona da sala escura de meu apartamento pensando em tudo que me aconteceu nos últimos dias e planejando o que fazer quando a campainha tocou.
— Oi, Gustavo.
— Que cara é essa? – entrou e foi direto para o bar servir-se de bebida. Eu já estava com a minha e voltei a me sentar sem cerimônia. — Deveria estar feliz, o lançamento da exposição tão próximo...
— Descobri por quem Clarice sofre todos esses anos.
Gustavo virou-se para mim com aquele brilho no olhar. Ele, assim como eu, simplesmente ama uma novidade, ainda mais quando tem a ver com a vida de outra pessoa. Mas, agora, o que está em jogo é o amor de Clarice... e esse jogo não vou perder.
Ele agachou-se à minha frente com o copo de uísque na mão.
— Ela apareceu depois de três anos?
— Não. Eu a descobri, mas ela não sabe que conheço Clarice. – sempre me diverti atiçando a curiosidade de Gustavo. Quanto mais suspense melhor. Eu sorria com o canto dos lábios e o olhava intensamente para não perder nenhuma de suas reações.
— Quem é ela, Laís? – já estava desesperado. Tomei mais um gole da vodka calmamente, acendi um cigarro e voltei a encará-lo.
— Não quer arriscar um palpite?
— Não faço a menor ideia de quem é? Você conheceu alguma mulher ultimamente? – tomou mais de sua bebida e tirou o cigarro de minha mão para tragar.
— Posso dizer que a conhecemos há algum tempo. Mas, intimamente, só a conheci ontem à noite. – sorri maliciosamente e triunfante. Gustavo entendeu e gargalhou maquiavelicamente.
— Eu conheço a pessoa em questão?! E você já comeu o caso de Clarice?!
— Já. Deliciosa... – soprei a fumaça com força para cima lembrando-me da noite maravilhosa que tivemos. Fernanda nasceu para amar mulheres.
— Quem é, Laís? Não deixe seu amigo aqui nesse estado de desespero! – suplicava Gustavo virando a última dose.
— Prepare seus ouvidos. – disse aproximando-se de seu pescoço para fazer a revelação bem ao pé do seu ouvido. — O nome dela é Fernanda.
Ele me olhou com o cenho franzido, sem entender.
— Quem é Fernanda?
— Qual é a única Fernanda que você conhece, Gustavo?
Ele pensou e:
— A única que conheço é a mulher do... – quando me viu sorrir com olhos brilhantes, interrompeu a frase e meneou a cabeça incrédulo.
— Não, não pode ser... – observou-me e, como mantive firme meu olhar: — Fernanda, mulher do Pedro, teve um caso com Clarice na Espanha??? – mais uma gargalhada: — O cara levou um chifre internacional da mulher com outra mulher!!!
— Eles não estavam casados na época.
— Não estavam casados, mas estavam noivos. Queria ver a cara dele se soubesse...
— SE soubesse. – puxei-o pela gola da camisa e olhei séria bem fundo dos seus olhos cínicos. — Ele não vai saber de nada... pelo menos por enquanto.
Seu sorriso sarcástico já dizia o quanto ele me conhecia.
— Está tramando alguma coisa, não é?
— Elas não podem se encontrar.
— Então porque você e Fernanda estão tão próximas se Clarice é seu objeto de desejo?
— Preciso ter Fernanda sob minhas vistas. Ela ainda é obcecada por Clarice... não posso deixar que se esbarrem por aí. – apaguei o cigarro e sorri sem olhar para Gustavo. — E ela é tão bonita, beija e transa tão bem que seria um desperdício deixá-la por aí.
— Cuidado, você pode ficar sem as duas.
— Não me interessa por muito tempo Fernanda, mas Clarice vai ser minha.


continua...

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