Óbvio que não dormi.
Revirei o que consegui sobre a vida de Fernanda na internet. Fui a todos os sites de relacionamento que conhecia para tentar encontrar mais informações sobre ela, mas Fernanda sabia bem dosar o que poderia ser exposto e não consegui muito mais do que encontrei com Nana ao meu lado. De qualquer forma, o que li e vi me deixou desanimada.
Fiquei horas observando uma das fotos, analisando cada detalhe de sua fisionomia para saber se realmente ela estava feliz naquele momento em que abraçava o marido (Pedro) numa mesa de restaurante no Chile. É... devia estar bem feliz, pois o sorriso era largo... seus olhos verdes sorriam junto, e eu estremecia só de lembrar que já havia tocado aquela pele macia, já tinha olhado profundamente naqueles olhos e aquela boca já sorriu na minha.
Na maioria das fotos ela estava com o marido. Observei cada detalhe dos cenários, das roupas e pude constatar que ela tocou a vida, que provavelmente nossa história não a tenha marcado como marcou a mim. Bom, mas como esquecer se, além de todo o amor que senti, carrego as marcas físicas, que me acompanharão pelo resto da vida.
Li os recados, os depoimentos... e tomei um susto quando encontrei em meio aos seus amigos Laís. Como assim?! Como ela estava tão próxima e eu não sabia! Como elas se conhecem? Fiquei abismada com as coincidências e com as evidências de que mais cedo ou mais tarde nos conheceríamos, seja por meio de Laís, por meio de Nana ou de mais algum amigo em comum. Já sei como ter mais informações, investigar... Se eu tivesse contado para Laís provavelmente teria chegado à Fernanda mais rápido. O mundo virtual deixa esse mundo ainda menor...
Os recados sempre eram no intuito de marcar algum encontro porque os amigos estavam com saudades, sempre comentando a vida corrida que Fernanda levava e não tinha tempo para eles, enfim... recados que, de alguma forma, cobravam sua atenção. Os depoimentos eram sucintos, mas carregados de palavras carinhosas. Posso concluir, portanto, que ela, como imaginei, é querida, mas que não dedica muito tempo às pessoas que gostam dela.
Não vi crianças, nem seus pais nas fotos... parece que não tem filhos. Havia um e-mail para contato... pensei em enviar-lhe uma mensagem. Eu a escrevi milhões de vezes, mas acabei desistindo. Desisti, por enquanto, quando os primeiros raios de sol adentraram meu quarto.
***
Levantei-me depois de horas sentada diante da tela, tomei um banho, fiz um café e saí para a Universidade.
Sentia-me fora de órbita, sem domínio total dos meus gestos e das minhas palavras. Estava dando aula, mas parecia que minha voz saía mecanicamente porque meus pensamentos estavam longe: em Fernanda, em um jeito de abordá-la, em como resolveria minha vida a partir de então.
Eu precisaria ser mesmo muito fria para não tomar nenhuma atitude precipitada.
Na hora do almoço peguei um táxi e fui me encontrar com Laís.
Ela já estava lá e isso me surpreendeu, novamente. Incrível como Laís descia do pedestal na minha presença... isso me envaidecia, me comovia até. Acho que ela sente algo por mim, algo além da necessidade/objetivo de transar comigo porque se mostra disposta a mudar – desde tirar o salto alto para estar à minha “altura” até chegar no horário marcado (coisa que sei que ela nunca fez). Não que ela tenha que mudar por minha causa, claro que não, mas fica evidente um esforço em querer me cativar cada vez mais. Assim que me viu levantou-se e sorriu encantadoramente e, como um “cavalheiro”, puxou a cadeira para que eu me sentasse depois de estalar um beijo no meu rosto. Seu perfume era maravilhoso.
— Querida, estava ansiosa para te ver, pena não ter conseguido marcar algo antes porque estou alucinada com o lançamento...
— Eu sei, Laís. Você precisa se concentrar para o grande dia... está muito próximo.
— Mas, de qualquer maneira, não estava conseguindo pensar em nada além de você.
Putz.
Não sei como assimilar essa declaração. Fiquei mais corada pelo fato de eu quase não ter pensado nela do que pela declaração em si. Gosto de Laís, mas meus pensamentos ficaram cheios de Fernanda, ainda mais agora que estamos tão próximas. Sorri sem graça e desviei o assunto... não queria ter que dizer coisas que não sentia.
— Bom, os textos que fiz para suas obras já ficaram prontos. Hoje à tarde encaminharei para que você os leia e, se estiverem ok, terão de ser confeccionados o quanto antes para serem afixados na abertura de cada seção.
— Não os lerei agora, confio na sua leitura crítica. Eles serão uma surpresa para mim também, no dia do lançamento.
Hoje Laís estava realmente a fim de galantear. Ela me olhava profundamente, com olhos azuis brilhantes e sorriso nos lábios carnudos moldados por batom vermelho. Assim que fizemos nosso pedido, ela apertou minha coxa por debaixo da mesa e avançou em busca de um beijo, mas eu não queria beijá-la em pleno restaurante, não queria que ela achasse que estávamos namorando, não queria beijá-la quando minha cabeça estava completamente longe dali e quando meu corpo não sentia a excitação adequada naquele momento.
Esquivei-me um pouco e sorri, novamente, sem graça. Ela percebeu e seu sorriso esmoreceu um pouco.
— Está acontecendo alguma coisa? Você parece preocupada... – lançou a observação depois da minha atitude um tanto arredia.
Acho que o melhor que posso fazer por mim e por ela é ser sincera, afinal, minha excitação era outra: era a pressa da curiosidade em saber qual a ligação dela com Fernanda.
O garçom trouxe os pratos e as bebidas e, enquanto nos servia, ficamos nos olhando em silêncio. Percebia que Laís tentava decifrar o que ia no meu pensamento, que me deixava com expressão mais séria e inquieta. Eu a observava tentando saber qual sua reação quando eu lhe contasse a verdade e ficasse claro que não estou tão interessada nela como ela pode estar em mim. Resolvi ir direto ao assunto assim que nos deixaram a sós.
— Laís, quando estive na Espanha conheci uma pessoa... acho que nunca te contei detalhes a respeito... – a reação foi imediata. Parece que Laís interrompeu o gole do suco pela metade e me olhou assustada, porém... tentou disfarçar.
— Não, nunca me contou. – recolocou o copo sobre a mesa e depois de alguns segundos olhando para ele, voltou a me encarar séria. — Na verdade, pensei que você tivesse superado isso.
— Foi difícil para mim. – não sei como dizer... — É que eu queria reencontrá-la para saber como ela está, sei lá... até para tirar certas impressões que tenho.
— Eu não sei o que aconteceu, Clara... não entendo o que está falando.
É, eu estava sendo evasiva, me perdendo em palavras soltas.
— Marcamos um encontro na Espanha, mas não pude ir por causa do atentado... por isso nunca soube como poderia ter sido se eu tivesse ido, entende? – ela ficou em silêncio me observando de modo que me intimidava. Mas, de qualquer forma, não poderia deixar escapar a chance de dizer que ela, Laís, conhecia a pessoa em questão e que eu pretendia reencontrá-la.
— O mais irônico disso tudo é que descobri que você a conhece.
Laís, que levava uma garfada da salada à boca, interrompeu o percurso e sorriu incrédula.
— Eu a conheço?! Como eu a poderia conhecer, Clara?!
— Sim, conhece. – respirei fundo para prosseguir... Laís parecia irritada. — O nome dela é Fernanda Lemos. Encontrei-a no seu facebook. Entrei no perfil dela e me certifiquei disso... você a conhece.
Ela arregalou os olhos e sua expressão era de pura surpresa.
— Não acredito! Mas..., ... Fernanda?! Fernanda Lemos, a publicitária toda fingida a certinha, caretinha, casada há anos com Pedro, meu amigo de faculdade?! – perguntou em tom de fofoca, que me incomodou.
— Essa mesmo...
Laís ficou pensativa e, de repente, estalou os dedos como quem se lembra:
— Ahhh, então é você!!!
Eu? Ela sorria maliciosamente e parecia que o “jogo” tinha se invertido, parecia que, agora, quem tinha as novidades era ela. Fiquei aguardando imóvel o que ela tinha a acrescentar àquele comentário carregado de significados.
— O que tem eu?
— Meu Deus, como pude ser tão burra!! Como não liguei uma coisa na outra!! – Laís me olhava sorrindo e meneando a cabeça numa negativa que estava me irritando. — Um dia eu e Fernanda nos encontramos num restaurante, pois Pedro, às vezes, trabalha para mim. Então, entre uma bebida e outra (e ela já estava bem alta), começou a me confidenciar loucuras e acabou me dizendo que já tinha tido uma experiência homossexual... – ela dava um tom malicioso a tal revelação que Fernanda lhe fez e isso me perturbava, mas eu precisava saber.
— E o que mais ela disse?
Finalmente (e para desespero meu) Laís garfou uma porção da salada e mastigou calmamente enquanto sua expressão mostrava que tinha sacado a sacada do ano. Acho que nunca me senti tão exposta. As duas falaram de mim e...
— Ela disse que foi muito divertido.
... me senti o objeto de gozação de um assunto.
— Divertido?
— É, Clarinha... disse que foi a melhor viagem de trabalho que ela fez. Contou que se divertiu bastante e que vocês tinham combinado de se encontrar e voltar juntas ao Brasil. – deu uma pausa, tomou mais do suco e sua expressão, agora, estava séria. Olhou-me em silêncio e hesitou em dizer: — Clarinha... ela não foi ao encontro.
Inclinei-me para mais perto dela para ouvir novamente o que ela disse.
— Ela me disse que foi ótimo o que vocês passaram juntas, mas que jamais deixaria de ter a vida que tem para mergulhar numa aventura.
Fiquei pasmada... não consegui disfarçar.
Depois de alguns instante de tenso silêncio:
— Desculpa, Clarinha.
— Obrigada por ter me contado.
— Se eu soubesse dessa coincidência antes, teria te contado há mais tempo... para que você se desligasse logo dessa mulher que jamais deixará o status que tem, nem as relações que construiu. Certamente, tudo o que vocês viveram, para ela, não passou de uma aventura exótica. – ela parou e ficou me analisando em silêncio. — Ela é acostumada a esse tipo de “aventura”... – finalizou Laís fazendo as aspas com as mãos.
— Como assim?
— Até para mim, que sou uma pessoa bem liberal, ela extrapolou quando teve um caso com o amigo de Pedro, marido dela e meu amigo de faculdade. Descobri e fui dizer umas poucas e boas para ela porque, porra, o Pedro é meu amigo! – fez uma expressão de nojo. — Desde então não nos falamos. Não quero nenhum contato com ela e vou tirá-la de minha lista de amigos imediatamente.
Voltei a comer em silêncio, chocada, com um nó indissolúvel na garganta.
Como Fernanda pode? Não posso acreditar que o que ela me disse foi mentira, nem que o modo como me olhava era falso, raso. Não era. Não é possível que alguém pudesse fingir tanto, ser tão leviana... não conseguia aceitar isso. E se Laís estiver inventando tudo isso?! Ela realmente parece interessada em mim. Nada mais natural vindo dela! Conheço um pouco seu lado de intrigas, junto ao seu fiel escudeiro Gustavo. Mas... Laís realmente sabe... Fernanda contou a ela, caso contrário, como saberia do nosso combinado, do encontro?
Despertei com Laís segurando minha mão.
— Querida, esqueça Fernanda. Ela tem um outro estilo de vida, não tem nada a ver conosco. – e chegando mais perto, de modo que pudesse me olhar profundamente: — Me deixa fazer você feliz.
***
Deixei Clarice em casa tentando disfarçar minha vontade de esmurrar alguém... mais especificamente a mim mesma por não ter pensado, por ter sido burra demais. Como deixei Fernanda na minha lista de amigos depois que descobri que as duas se conheciam? Imbecil. É essa exposição que não me deixa pensar direito... se eu estivesse em sã consciência jamais daria uma gafe dessa.
Clarice estava calada, provavelmente chocada com tudo que eu disse, muito a fim de que ela acreditasse. Visivelmente triste, decepcionada. Doía-me fazer isso, minha querida, mas é para nosso bem...juntas.
Voei para casa tentando entender como ela descobriu. Será que ficou fuçando meu perfil, me investigando?
Cheguei, subi para meu apartamento, larguei a bolsa em qualquer lugar e me joguei no sofá para pensar. Não é só o lançamento que me preocupa.
Bom, é fato que agora ela sabe que nos conhecemos... e é certo que elas vão se encontrar mais cedo ou mais tarde porque Clarice é curiosa e não vai simplesmente desistir assim... por isso preciso estar atenta. Fernanda não pode saber que conheço Clarice... Vou minando as expectativas de Clarice enquanto encontro uma maneira de ir trabalhando a imagem de Clarice para Fernanda. Caso elas se falem, se encontrem, chegarão à conclusão de que aquilo que elas dizem terem vivido não passou de um momento.
Vou confirmar meu jantar com Fernanda.
***
Entrei em casa sentindo um vazio imenso.
Passei esses últimos anos imaginando o que Fernanda sentiu quando não apareci no local e na hora marcados, e me dói agora saber que ela pode ter sentido, no mínimo, uma ponta de remorso por também não ter ido.
Na verdade, nunca tinha cogitado a ideia de ela não ir... engraçado. Talvez porque em nenhum momento passou pela minha cabeça não estar lá, por isso sofria tanto imaginando o que ela pensava de mim... Mas ela não deve estar pensando nada, não deve nem se lembrar... ou melhor, lembra-se como uma “aventura exótica”, como disse Laís.
Preciso assimilar tudo isso porque, neste exato momento, parece que a vida que levo desde aquele dia perdeu todo o sentido. Eu me recuperava para ir em busca de Fernanda e dizer que estaria lá se o acidente não tivesse acontecido para dar continuidade a tudo que combinamos. Estava pronta para dizer que ainda a amava e que se dependesse de mim poderíamos começar de novo.
Agora preciso encontrar outro motivo muito forte para continuar me empenhando.
À tarde inteira e parte da noite andei por todo o apartamento tentando arrancar da minha cabeça a ideia de tirar tudo isso a limpo diretamente com ela. Voltei para a frente do computador decidida a fazer alguma coisa. Mesmo que seja verdade o que Laís me contou, preciso falar com ela.
Pensei novamente em enviar-lhe um e-mail. Às vezes é muito melhor escrever, pensar e pesar as palavras sem a emoção do instante... dizer com cuidado, revisando, apagando e reescrevendo. Mas eu me privaria de sentir sua reação, de ouvir sua voz... preciso escutá-la.
Peguei o celular e, gradativamente, fui ficando nervosa a ponto de teclar o número errado duas vezes. Meu coração parecia que iria saltar do peito a qualquer momento.
Quando disquei o número dela e chamou pela primeira vez, a campainha tocou. Tive que desligar... era minha mãe.
continua...
domingo, 29 de agosto de 2010
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