Quando a campainha tocou, dei um pulo do sofá e deparei com uma Nana lívida. Sua voz ao telefone já tinha me prevenido de que algo sério tinha acontecido, sua cor diante de minha porta confirmava minha suspeita e me deixou assustada.
— O que aconteceu, Nana?!
Ela passou por mim, em silêncio e muito nervosa, remexendo a bolsa. Fechei a porta e cruzei os braços esperando que ela se acalmasse.
Mas Nana não encontrava sei lá o quê na bolsa imensa e remexia, remexia, até que, impaciente, a virou em cima da mesa de centro e um milhão de quinquilharias caiu de lá.
— Espero que você não esteja procurando uma agulha... – comentei tentando ser divertida, mas ela nem me ouviu.
De repente retirou daquele monte de coisas um pedaço de papel.
— Você reconhece isso? – estirou-me um cartão.
Quando o tirei de sua mão e li o que estava escrito, tive que me apoiar no encosto do sofá e me sentar: era o cartão que Fernanda havia me dado antes de ir para Ávila. Agora eu estava pálida, com a boca seca e pernas sem forças.
— É o cartão de Fernanda. – disse num fio de voz depois de algum tempo.
Nana agachou-se na minha frente e com as mãos nos meus joelhos me olhou com seriedade.
— Agora você tem o que precisava: informações sobre ela.
Tirei os olhos do cartão e a encarei pasmada.
— Como você conseguiu isso, Nana?! – ela deu um meio sorriso.
— Por uma imensa coincidência ou ironia do destino, estou trabalhando para essa mulher, Clarinha. – disse pausadamente, como se aquele reconhecimento tivesse que ser seu também. — A agência dela é a responsável pela campanha da universidade.
— Universidade em que estou dando aula... – concluí em estado de choque. Foi tão forte o impacto que comecei a tremer e meus olhos se encheram de lágrimas. — Ela está tão perto... – consegui dizer enquanto tentava impedir o choro. — Como ela está?
Nana baixou os olhos e levantou-se. Respirou fundo e deu uma volta pela sala. Ela também estava tonta com isso porque sabia o quanto essa descoberta significava para mim.
— Ela realmente é uma mulher muito bonita. Eu te disse que fiquei impressionada na primeira vez que a vi... Hoje ela parecia muito cansada. É tudo que posso dizer, Clara... não conversamos nada que não fosse trabalho.
Voltei a ler o cartão: Fernanda Lemos. Os telefones, o endereço da agência Circuito. Deus, estava tudo ali! Eu só precisaria ligar. Ir até lá. Não sei o que fazer agora que tenho o que mais queria durante tanto tempo.
— Clara, por favor, vá com calma. – pediu-me Nana como se houvesse lido meus pensamentos. — Não tome nenhuma atitude precipitada.
Peguei minha bengala e levantei-me devagar. Nana começou a jogar todas as suas coisas de volta para a bolsa.
— Você vai embora? – perguntei assustada. Não queria ficar sozinha agora... senti medo do que tinha nas mãos.
— De jeito nenhum. – respondeu minha amiga segurando minha mão. — A menos que você queira ficar sozinha.
— Não quero. Quero que você me ajude a decidir o que fazer. – nunca me vi num estado tamanho de fragilidade, insegurança.
Nana pensou, observou-me por alguns instantes intermináveis e:
— Agora podemos pesquisá-la na internet. Fernanda é muito conhecida no meio, deve haver mais informações sobre ela.
Queria que toda essa burocracia evaporasse e eu pudesse sair correndo daqui (modo de dizer) direto para o endereço desse cartão. Passaria a noite na porta da agência e esperaria Fernanda chegar. E no momento que ela chegasse, uma borracha apagaria esses três anos e seguiríamos os planos feitos naquelas poucas horas em que nos conhecemos e nos apaixonamos.
Mas não era tão simples assim porque essa lacuna de tempo permitiu que muitas coisas mudassem... Agora eu saberia o teor dessas mudanças.
Sentei-me diante do computador com o cartão na mão. Abri a página do Google e digitei “Fernanda Lemos – publicitária”. Nana estava ao meu lado.
Logo veio uma lista imensa de ocorrências desse item. Cliquei num link que me levou a uma reportagem que a destaca como talento na área de comunicações e diz que ela é uma das sócias da agência Circuito. Há uma foto dela: Fernanda. Deus, como ela está bonita! Seu olhar seguro, de mulher forte e decidida, transmitia poder e confiança, típico dos profissionais que encabeçam matérias ou capas de revista de negócios, investimentos e dinheiro. Mas um dia eu soube o que havia por trás da imagem dessa grande empresária de sucesso. Havia outros links, todos destacando sua trajetória de publicitária e os prêmios que ganhou. Entrei no site de sua agência, vi quais eram seus clientes, seus sócios... Só não sabia o que mais queria: se ela ainda se lembrava de mim.
— Clara, procure-a no orkut ou no facebook. Se ela estiver num desses sites você terá informações pessoais sobre ela.
Hesitei por um momento. Era estranha demais essa situação.
Meus batimentos estavam alterados, o que sentia era um misto de medo, alegria e confusão. Uma adrenalina, um frio na espinha... estava sem chão, como se toda minha vida estivesse nos dados daquele cartão e como se cada atitude minha determinasse o desenrolar dessa história, para o bem ou para o mal.
Daí vinha o meu medo. Medo de me decepcionar.
Mas, como uma dádiva, Nana adentrou minha casa trazendo-me a emenda da ponte que se rompeu lá em Madri, em 2004. Era como ganhar na loteria, encontrar o bilhete premiado, a agulha no imenso palheiro do tamanho do mundo... o destino maquinava a meu favor e isso era um grande sinal.
O meu medo e a minha alegria só podiam me levar à confusão. Por isso mal consigo respirar, por isso estou na dúvida entre recuar ou me atirar.
— Quer um tempo, Clarinha? Quer deixar o choque passar? – perguntou Nana percebendo meu receio.
Senti-me como se tivesse que tomar uma medida extrema e rápida: pular ou não pular.
— Não. – abri minha página no facebook e pensei em digitar seu nome na busca.
Porém, se tomei a decisão de pular e mergulhar nessa descoberta, precisava ser objetiva: digitei, então, o nome da agência. E lá estava ela, a agência Circuito e, em sua página encontrei os links que me levavam aos sócios dela e, dentre eles, estava Fernanda ao alcance de um click.
Cliquei.
Fernanda Lemos. Havia recado de seus amigos, era uma página relativamente freqüentada. Cliquei finalmente em informações e lá vi a lista essencial, o que eu precisava saber para levar outro choque. No item relacionamento ela dizia que era casada.
Nana apertou minha perna e olhou-me cautelosamente assim que leu o mesmo que eu. Dei um meio sorriso como se não esperasse outra coisa.
— Claro que ela estaria casada, imagina que estaria solteira por todo esse tempo... – tentei imprimir a esse comentário dolorido um tom de naturalidade que, óbvio, não convenceu Nana.
— Você está solteira todo esse tempo por causa dela. – seu tom era acusador, indignado.
— EU não fui ao encontro Nana. EU não apareci enquanto ela me esperava. – estava nervosa.
— VOCÊ não apareceu porque quase morreu! – ela também estava. Tentei desviar meus olhos do dela porque começava a sentir vontade de me esconder e dar conta dos meus sentimentos sozinha. Mas Nana pegou delicadamente meu queixo e trouxe meu olhar para o dela novamente. Eu tinha que encarar a situação tal como era. — Clara, Fernanda tinha muito mais pistas para te encontrar do que o contrário. No entanto, ela se casou, tocou a vida durante esse tempo em que você enlouquecia sem saber como ir atrás dela. – parou um pouco, fechou os olhos por um instante, como se meu olhar triste a ferisse, mas continuou: — Eu já tinha te alertado que talvez ela não sentisse o mesmo que você (ver). Clarinha, se ela te amasse como você a ama, ela teria vindo atrás de você para saber o motivo de você não ter estado lá no local marcado.
— Mas nas primeiras semanas depois do atentado eu estava incomunicável. – não sei por que tentei argumentar, mas tentei me agarrar ao frágil fio de esperança.
— Fernanda teve muito tempo para pesquisar. Ela tinha seu telefone, ela teve todas as informações das primeiras semanas após o atentado para ter cogitado que talvez você tivesse sido uma das vítimas... e ido atrás, e se certificado. – suspirou diante dos meus olhos cheios de lágrimas suplicando que ela parasse. — Ela tinha como ter te encontrado antes de você ter encontrado ela.
Ficamos em silêncio.
Nana parecia aliviada por ter dito tudo o que pensava e eu me sentia pesada, como se o mundo tivesse desabado nas minhas costas.
Minha vida, mesmo incompleta, tinha encontrado uma maneira de se adaptar e voltar a se organizar. Agora estava tudo um caos novamente.
Se naquele item eu lesse o status solteira sentiria-me livre e alimentaria minhas expectativas, imaginaria que nela também havia uma lacuna, uma ponte rompida. Agora, diante de suas fotos, que eu abria no site que deixava a vida as pessoas expostas como uma vitrine, via uma Fernanda sorridente, aparentemente feliz, abraçada a um bonito homem sobre a legenda: “Eu e Pedro aproveitando as férias.” Isso me deixava vazia. Talvez mesquinhamente triste por saber que não fiz parte daquele momento feliz, que ela havia dado rumo à vida enquanto fiquei esperando reencontrá-la.
Depois de alguns minutos ausente, Nana reapareceu com a bolsa pendurada no ombro.
— Clarinha, acho que agora você precisa ficar sozinha. – e deu-me um beijo na cabeça. — Mas não vá ficar se torturando diante de fotos felizes. Se precisar me ligue a qualquer hora.
continua...
sábado, 21 de agosto de 2010
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