terça-feira, 17 de agosto de 2010

CAPÍTULO 23 – LIBERDADE X CORAGEM

Foi uma noite muito louca. Em toda minha regrada vida nunca transgredi tanto. Considerando que tenho 35 anos, acho que demorei tempo demais para fazer isso: o que me deu vontade de fazer. Claro que vou ter que arcar com as consequências desse surto de liberdade e provavelmente pareça ridículo que uma mulher da minha idade, ou seja, aparentemente adulta, durma fora de casa deixando o marido esperando acordado (pelo menos espero que ele ainda se preocupe comigo). Mas, o que posso fazer se me descobri mais tarde do que seria considerado habitual? Que culpa tenho se a liberdade chegou até mim aos 35 anos?
Bom, a culpa é toda minha, mas se o preço é bancar o que vier pela frente, ok, estou disposta. Chega de me preocupar com que os outros vão dizer, não vou mais me esconder para ser conveniente.
Foi bom. Foi mais que bom... foi... libertário, como uma luz que ilumina as ideias e esclarece que ainda posso ir em busca de sentimentos e emoções mais complexos e profundos.
Eu tive tudo isso com Clarice, mas me foi dado e tirado com tanta rapidez que não houve tempo de saborear o quanto emoções e sentimentos intensos trazem sentido à vida e a deixa muito mais alegre. Agora Laís me oferece novamente fortes emoções. Não incluo os sentimentos porque o que aconteceu ontem foi causado pelo desejo e prazer que me trouxeram a gostosa sensação de liberdade, da qual não quero abrir mão.
Estacionei o carro na garagem de casa às seis e meia da manhã e liguei o celular. Lá havia mais de doze ligações de Pedro. Agora sim, sentia culpa, conforme o momento de encará-lo se aproximava. À medida que me encaminhava para a porta de entrada sentia-me péssima por ter de sacrificar a felicidade de alguém para ter a minha. Sentia-me mesquinha... egoísta. Já me lamentei por ter “usado” Pedro para me esquivar das minhas verdades, mas agora eu iria machucá-lo de fato.
Mas, será que ele é feliz? Feliz em ter apenas parte de mim? Será que ele já percebeu que nunca me entreguei completamente ao nosso relacionamento? Talvez seja um consolo pensar que também vou libertá-lo, para que viva um amor inteiro.
Meu coração batia forte, e não era de excitação.
Girei a chave com cuidado e abri a porta.
Dei de cara com meu marido cochilando, sentado no sofá. Ele despertou quando ouviu o barulho da porta se abrindo.
— Fernanda! – pulou do sofá em minha direção. — O que aconteceu?!
Parei diante dele sem coragem de dizer nada.
— Você está bem? Liguei milhares de vezes para seu celular, por que não atendeu? – sua expressão, a princípio, era de preocupação, mas depois de me tocar e constatar que fisicamente eu estava bem, sua angústia transformou-se em impaciência por conta do meu silêncio.
— Você não vai dizer nada? Fiquei aqui a noite inteira preocupado, esperando notícias suas!!!
— Passei a noite na casa de Laís. – tentei trazer naturalidade à minha voz. — Desculpa, Pedro. Jantamos, bebemos um pouco além da conta e acabei dormindo.
— O quê? E não podia ter atendido o celular, não podiam ter me avisado?!! – Pedro agora estava furioso.
— Meu celular estava descarregado... não pensei que... Desculpa, Pedro.
— Desculpa, desculpa! Você nunca fez isso, Fernanda! Que irresponsabilidade é essa? O que está acontecendo?
Estava de saco cheio dessa gritaria. Queria dormir.
— Pedro, eu só dormi na casa de uma amiga...
Ele continuava furioso, mas repentinamente silenciou me observando com desconfiança.
Preciso conversar com ele sobre nós, mas não consigo agora.
— Podemos conversar melhor, assim que eu tomar um banho...
— Não tenho tempo agora. – analisou-me demoradamente e em seguida saiu batendo a porta.
Mergulhei debaixo do chuveiro anestesiada. Um turbilhão de pensamentos dentro de mim. Não conseguia parar de pensar e não queria mais pensar... estava cansada, precisava desligar. Saí do banho enrolada na toalha e caí sobre a cama desfeita.

Desliguei.

Acordei às onze da manhã com uma sensação de ressaca, os pensamentos estavam um pouco mais calmos, não se atropelavam. Acho que agora consigo refletir... mas preciso trabalhar. Liguei para a agência a fim de saber meus horários de reunião e avisar que chegaria logo após o almoço.
Ontem parece que vivi um sonho, que nada aconteceu realmente – ir até a casa de Laís, jantar com ela e fazer sexo com ela. Sentia-me perdida... um pouco como naquele dia, já no Brasil, dentro do meu quarto, relendo pela centésima vez o bilhete que Clarice deixou no meu bolso antes de partir. A diferença é que agora sou eu quem tem o poder de conduzir as coisas, não estou esperando por ninguém para tomar a decisão de mudar minha vida.
Preciso de um tempo sozinha, mas preciso trabalhar.

Quando passei apressada para minha sala, Rogério, meu assistente, veio ao meu encontro com uma pilha de papéis para serem assinados.
— Tudo bem, Fernanda? – perguntou diante de minhas olheiras e expressão cansada.
Sorri amarelo sem responder e assinei o que considerei mais importante.
— Ana Paula já chegou? – quis saber enquanto dava uma olhada nos e-mails.
— Sim, está te esperando na sala de reunião.
— Ok. Por favor, mande café e água para nós.
Levantei-me e fui me encontrar com a bela ilustradora. De repente estou me transformando numa piranha lésbica que passou a noite em claro transando com uma e já está se lembrando da beleza morena da outra. Bati na porta e entrei.
Ela estava fazendo anotações na agenda e, quando me viu entrar, acho que se assustou um pouco com minha aparência, afinal hoje eu não estava num bom dia para ser A executiva poderosa. Ana estava linda num jeans que moldava suas pernas bem torneadas e numa camisa branca e jaqueta de camurça marrom. Levantou-se e estirou a mão em minha direção.
— Boa-tarde, Fernanda.
— Oi, Paula, tudo bem? – apertei sua mão e sorri sinceramente porque aquela mulher me transmitia leveza e confiança. Era agradável estar em sua companhia e agradeci mentalmente por ela estar ali.
— Tudo ótimo. – respirou fundo, abriu sua pasta e retirou esboços das imagens da campanha. — Trouxe riscos e provas para você olhar. – sentei-me ao seu lado e esperei que ela me passasse o material.
Olhei alguns riscos e algumas ilustrações coloridas e analisei-os em silêncio. Realmente eram muito bons, só precisavam de alguns ajustes, que pedi a ela rasurando as próprias provas para explicar o que eu queria. Ela aceitou a maioria das alterações e contestou outras, argumentando de modo que me convenceu.
O café chegou e paramos um pouco.
Estava num dia sem assuntos. Hoje, definitivamente, não sou uma boa companhia, mas Ana estava se esforçando para fazer com que aquela reunião fosse agradável. Eu também queria que fosse, mas não tinha forças.
Diante do silêncio que se instaurou, ela tomou um gole do café e sorriu me observando.
— Nada como uma xícara de café forte para recarregar as energias.
— Eu teria que tomar um balde. – sorri desanimada enquanto ela continuava me observando, acho que analisava a causa do meu estado.
— Não deve ser fácil cuidar de uma conta imensa como esta. – eu sabia que ela estava me analisando, e agora especulando.
— Se todos os problemas fossem as contas... – não sei por que disse isso. Escapou a lamentação para alguém que mal conheço.
— Claro. Há sempre mais contas... contas de trabalho, contas de família, contas de conta...
— É... também há contas perdidas que não recuperamos mais.
— Sim, nem todas conseguimos pegar.
Aquela conversa maluca, em códigos me pareceu engraçada porque nos entendemos perfeitamente. Eu não me sentia atraída por Ana Paula, apesar de ela ser belíssima, mas gostaria de ser sua amiga. Resolvi tentar.
— Você é muito talentosa, Ana. Posso chamá-la assim?
— Como quiser, meus amigos me chamam de Nana.
— Como não conheci você antes? Quero dizer, você é ilustradora e eu publicitária... geralmente as pessoas dessas áreas se conhecem.
— É que antes eu trabalhava mais com artes plásticas. Mas talvez você tenha ido ao Festival Ilustra, de 2004. Foi lá que ganhei meu primeiro prêmio e, consequentemente, notoriedade.
— Eu me lembro do festival e, agora, me lembro do seu nome como ganhadora, mas na época estava na Espanha.
Ana, subitamente, pareceu desconfortável. Mexeu-se na cadeira, cruzou os braços sobre a mesa, inclinou-se e encarou-me curiosa.
— É mesmo? O que foi fazer lá? – encarei-a um pouco confusa com a pergunta. Mas rapidamente Ana percebeu a indiscrição e, gaguejando, tentou consertar o inconveniente: — Desculpa, não foi isso que quis dizer... é que... adoro a Espanha! Tenho muitos amigos lá da área de arte... – parou a frase no meio e não entendi muito bem, pareceu-me que ela queria que eu complementasse a ideia ou desse prosseguimento à conversa. Achei estranho seu modo de me olhar.
— Gostei muito de lá, sim. – senti-me um pouco intimidada com seu olhar indagador. Sorri e tentei evitar um embaraço. — Há mais ilustrações para eu aprovar? – ela ainda me olhava, mas parecia que estava longe. — Ana?
— Oi, desculpa.
— Tudo bem?
— Sim. – ela juntou o material e o colocou na pasta com pressa. — Vou fazer as alterações que me pediu e marcamos outra reunião para a próxima semana. – levantou-se desastradamente, pendurou a bolsa no ombro e enfiou a pasta debaixo do braço. — Lembrei-me de um compromisso inadiável, me desculpa.
— Não precisa se desculpar, já terminamos.
Ana Paula saiu feito uma louca em crise.
Estranha...

— Alô!
— Clara?
— Fala, Nana.
— Estou chegando aí.
— Aconteceu alguma coisa?
— Aconteceu, me espera.

continua...

3 comentários:

Mariana Cortez disse...

Olá, meninasss!!!
Esse é maiorzinho (o cap., rs).
Bom, agora a história das meninas Clara e Fernanda está chegando ao que podemos chamar de "clímax", rs.
Estou ansiosa por isso...
Beijos, queridas!

Mariana Cortez disse...

Ahhh... Pri!!!
Segue mais um quadradinho do chocolate, rsrsrs.
Beijos.

Franciele disse...

Esperando ansiosa o proximo capitulo, muitas emoções.