sábado, 26 de junho de 2010

CAPÍTULO 8 – DE VOLTA A MADRI

Acordei às seis da manhã. Na verdade, não dormi. Meus hormônios estavam em reboliço, não conseguia relaxar, fechar os olhos e dormir simplesmente, minha cabeça não parava de pensar vários pensamentos simultaneamente. Desde que cheguei à Ávila falei com Clarice poucas vezes, estivemos atarefadas e os horários de nossos compromissos eram incompatíveis.
Consegui uma sociedade para a agência e boas contas para os próximos dois anos. Clara disse que sua apresentação foi elogiadíssima e estava sendo rondada para novas pesquisas. Estava radiante minha menina, dizia coisas que eu não entendia, mas nem precisava entender, só de ouvi-la tão feliz... Por fim me disse que talvez encontrasse uma amiga de turma naquela noite, beberiam e, no dia seguinte, estaria de volta a Madri para retornarmos juntas ao Brasil.
Entreguei o carro no aeroporto às sete.
Combinamos de nos encontrar no embarque. Já tínhamos a passagem, estava tudo certo. Despachei a bagagem e sentei-me de frente a porta da sala de embarque. Tentava não estar tão ansiosa, mas era inevitável. Não tirava os olhos daquela porta a fim de ver uma mulher linda, baixinha, de cabelos lisos sobre os ombros atravessá-la.
Abri um livro, li duas linhas. Tirei o casaco, olhei ao redor. Fui até o café: sete e quarenta e cinco. “Ela teria que estar aqui já...” andei pelo saguão, perdi meu lugar, voltei ao café, guardei o livro.
De repente notei uma confusão, pessoas com expressão aflita. Ouvi muitas sirenes ao longe, tentei entender o que estava acontecendo. Já passava das oito e nada de Clarice... Nada do voo também. Algumas pessoas corriam, policiais. Mais sirenes. Perguntei para uma funcionária o que estava acontecendo e ela me respondeu que houve um acidente no metrô, mas que não sabia exatamente o que era. Já estávamos na sala de embarque e não nos deixavam sair.
Liguei para o celular de Clara. Nada. Tocava até cair na caixa postal.
Liguei mais uma vez, duas, três. “Não é possível!”
Ouvi a chamada para o voo.
Fiquei aflita. “Pelo amor de Deus, Clara, atende!”. Nada.
Fui até a funcionária e perguntei se poderia trocar a passagem para mais tarde e ela disse que este seria o último voo, pois havia acontecido um atentado terrorista no metrô de Madri. Ainda me apressou dizendo que já tinham chamado para o embarque pela última vez.
Liguei mais uma vez.
“Será que aconteceu alguma coisa??? Mas... ela viria direto de Barcelona para cá!!! Ela não estava no metrô!!!” Voltei para a funcionária e expliquei a situação. Disse que uma amiga que viria no voo de Barcelona, às sete da manhã, me encontraria ali para voltarmos ao Brasil. A funcionária checou os voos e me disse que o avião que veio de Barcelona havia chegado no horário.
Não entendia. Como podia ser aquilo? Se o avião chegou às sete, porque ela não estava ali comigo?
Liguei.
Nada.
Estava ficando desesperada.
— Por favor, señora!
Fui em direção à rampa desnorteada. Tentei me acalmar “calma, Fernanda, se ela teve algum contratempo, pegará outro voo, vai entrar em contato...”
Entrei no avião com a esperança de vê-la na poltrona ao lado da minha “uma surpresa talvez...”. Mas não havia ninguém. “Ela desistiu.”

continua...

Um comentário:

Uyara disse...

Aiii que aflição!! Para Fernanda e para mim que tenho que esperar a próxima postagem! rsrsrs.
Simplesmente fantástico, o conto.
Parabéns!