Ela me levou a um restaurante no centro de Madri. Muito charmosinho, aconchegante. Tinha a cara dela, um lugar bonito, mas não simplesmente bonito, tinha estilo. Clarice tinha muito estilo, personalidade, e foram essas características que me chamaram a atenção antes que eu ficasse assim.
Assim como?
Não me lembro do nome do restaurante agora, mas acho que nem observei... Talvez ela tivesse me dito, mas algumas coisas que ela dizia eu não ouvia. Minha cabeça estava a mil, tinha coisas decisivas na minha vida a resolver, decisões sérias a tomar, sentimentos a sentir, emoções a arrebatar, sensações a me entregar. Tudo acontecia tão rápido, rápido como num curta-metragem, num capítulo-piloto. Não tínhamos tempo e o que precisava ser conversado era muito sério.
Sério?
É, sério.
Tudo aquilo que eu estava sentindo tinha um nome e, naquele momento, além da emoção da loucura realizada, estava apavorada.
Sabe por quê?
Porque eu estava apaixonada por Clarice!
M-E-R-D-A!!!
Não nasci para o sexo casual. Estava feliz, mas também preocupada. Uma pessoa calculista sempre calcula os riscos, os medos, mesmo que a emoção prevaleça, a razão está sempre à espreita. Por outro lado, não queria fazer ou dizer nada que a afastasse de mim, acho que meu maior medo era perdê-la. Mas, eu estava apaixonada... e precisava dizer antes que fosse tarde.
Tomávamos coquetel numa mesa do segundo piso diante de uma vista linda. Madri era uma bela cidade, mas só conseguia enxergar a beleza de Clara, num vestido azul de gola oriental e sapatos de boneca. Chamava a atenção por onde passava. Alguns rapazes, e algumas mulheres, vez ou outra, a observavam... mas acho que ela não os notava.
— Preparada para sua palestra? – perguntou para quebrar meu silêncio, interromper meu amontoado de pensamentos.
— Não. – rimos. — Mas não estou preocupada com isso. – tomei um gole da bebida, bati com a ponta dos dedos na mesa impaciente. Não queria que a angústia e a precipitação me dominassem. Por segundos ouvi a música que estava tocando... linda. Tentei disfarçar meu nervosismo e conversar sobre coisas leves para conhecer um pouco mais a pessoa que me dava a impressão de já ter me mostrado tudo o que eu precisava saber para amá-la.
— Essa música é linda, não acha?
— Sim, é do Coldplay, mas não entendo quase nada do que eles cantam. Sou melhor em espanhol... – respondeu rindo e acenando para o garçom. Assim que ele se aproximou pedimos os pratos e um vinho.
— A música fala de um amor prestes a acabar, mas ele quer tentar novamente, não se conforma com a separação... “...tenho que lhe achar, dizer que preciso de você, dizer que a abandonei...”... é melancólica...
— E o que o “the scientist” do título tem a ver com isso?
— Ele diz que questões ou soluções da ciência não traduzem seu sentimento. Acho que ele quer dizer que a racionalidade jamais ofuscará seu amor e não resolverá o que vai em seu coração.
Após minha tradução simultânea com direito a interpretação do texto, Clarice me olhava com ternura e isso me embaraçou, fiquei vermelha, senti calor e acho que ela percebeu.
— Você é muito sensível, Fernanda. Você é uma mulher forte, séria, mas consigo ver através da sua aparência uma mulher doce, cheia de amor... e sensibilidade. – ela dizia sustentando o queixo com uma das mãos, sorrindo com seus olhos negros.
— Então você já consegue enxergar o que vai dentro de mim... – provoquei-a me libertando do embaraço.
— Sim. Porque também sou sensível... Acho que nessa vida, para se dar bem, é preciso enxergar além das aparências, conhecer o essencial. Esse mundo é muito superficial, Fê... preciso de um mundo paralelo onde eu possa ver as pessoas e o mundo em que vivo o dia a dia de outra maneira. Por isso estudo arte, é uma outra visão de mundo...
Seus olhos brilhavam. A garota me fascinava cada vez mais. Parecia que nos conhecíamos há anos.
De verdade eu estava apaixonada e precisava dizer. Dane-se.
— Eu queria muito fazer parte de seu mundo paralelo. – comecei por meio de metáforas idiotas. Ela sorriu, esticou o braço para tocar minha mão. Arrepiei. Mas logo o garçom se aproximou com os pratos e o vinho. Ficamos em silêncio nos olhando enquanto ele nos servia. Meu sangue fervia, perdia todo o controle de mim.
Quando ele se foi eu não sabia mais como retomar a conversa, mas ela soube:
— Depois do que aconteceu nessas últimas horas posso dizer que você é, no momento, meu mundo paralelo... – repentinamente Clara ficou séria e, outra vez, esticou sua mão para tocar a minha.
Dane-se.
— Não sei se você vai se assustar com o que vou dizer, mas, já que tudo está acontecendo tão absurdamente rápido, inusitado, louco, não posso perder tempo medindo palavras ou tentando observar por meio dos seus gestos se você sente a mesma coisa... – agora era a hora... Mas ela me interrompeu:
— Estou apaixonada por você.
Era exatamente o que eu iria dizer!
Sorri um tanto aliviada. Baixei os olhos e me senti tremer. Sua mão ainda segurava a minha e acho que ela percebeu quando comecei a suar.
— Não sei o que fazer, Fernanda, não estava nos meus planos me apaixonar por uma mulher quase casada.
Quando voltei a olhá-la, meus olhos estavam cheios de lágrimas. Ela me passou o guardanapo de pano. Fiquei em silêncio por algum tempo até que anunciei minha decisão:
— Clara, não tem mais sentido levar a vida que eu levava depois de tudo que nos aconteceu. – olhei-a profundamente. — Volte comigo para o Brasil... Vou resolver minha situação e poderemos..., ... não sei, nos conhecer melhor, sem nos preocupar em magoar ninguém.
— Vai ser mais uma loucura, você sabe... – ela concluiu sorrindo serenamente. — Mas eu topo.
Tive vontade de beijá-la arrebatadoramente ali mesmo, mas apenas brindamos com o vinho, nos aproximamos e trocamos um breve selinho diante da plateia do restaurante. Estava pouco me importando. Foi o melhor jantar da minha vida.
Voltamos correndo para o hotel. Estávamos meio altas por conta de uma garrafa e meia de vinho e, consequentemente, a libido saía pelos poros. Assim que entramos no elevador, Clara me empurrou contra a parede e me beijou, colocou sua perna entre as minhas e minhas mãos passearam por aquela coxa firme, subi até seu sexo pulsando... sugava seu pescoço com tanto tesão. Ela abriu minha calça, mordeu meu lábio: “Quero você...” Ela me teve, eu a tive. Fizemos amor a noite inteira. Olhei no relógio quando estávamos exaustas: eram cinco horas da manhã.
continua...
quinta-feira, 24 de junho de 2010
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