sábado, 12 de junho de 2010

CAPÍTULO 3 – AINDA NO AVIÃO

— Acho que o universo conspirou quando te colocou do meu lado. – ela sorriu novamente depois de se sentir numa... biblioteca. — Você deve ser assistente de Freud incumbida de curar meu medo de aviões por meio da técnica de conversas absurdas...
— Você está dizendo que meu papo é absurdo?!
— Ainda não sei, mas seu método de entretenimento com certeza. – ela gargalhava divertida e me fazia rir. — Mas, de qualquer maneira, muito obrigada! Pela primeira vez não tive dor de barriga ao sentir o avião decolar.
Não entendia muito bem o que acontecia comigo tão derretida por aquela pirralha, mas acho que deuses, o universo, ou sei lá o quê realmente queriam dizer algo, ou mostrar alguma coisa.
— Agora que você já se sente numa biblioteca poderíamos nos apresentar.
— Nossa!! Claro!! Desculpa... como sou sem educação. – colocou o livro de lado e estirou a mão firme: — É um enorme prazer, meu nome é Clarice.
— Eu sou Fernanda. – sorri sinceramente. Sem armas, sem defesa, sem (muitas) estratégias – é com elas, as estratégias, que trabalho, mas não estava trabalhando ali. Sorri com carinho e, pela primeira vez, percebi que Clarice me cativava. Era gostoso conversar com ela, melhor ainda apertar sua mão que, apesar de pequena, era forte, segura... assim como seus olhos e sua voz. Nem me lembrava que estava cansada.
— Fer-nan-da... – disse pausadamente. — Gosto desse nome.
— Que bom. Pensei que te causasse alguma reação fóbica... – provoquei sorrindo.
— Não zombe da minha deficiência emocional... – ironizou com expressão de menininha travessa... ainda segurando minha mão.
— O que está lendo? – mudei de assunto retirando minha mão da dela um tanto embaraçada. Fazia tempo que não me embaraçava...
— Cecília Meireles.
— Hummm, sua biblioteca é rica... Há mais algum exemplar tão bom quanto esse por aqui?
— Queridaaa, estamos num avião!
— Estou respeitando sua deficiência emocional e embarcando em sua fantasia acadêmica. – rimos mais uma vez relaxadas.
— Dependendo do que esteja tocando no seu ipod eu te forneça um livro decente...
— Você gosta de ouvir o quê? – perguntei enquanto tirava meu blazer.
— MPB, jazz, blues, rock...
— Estou ouvindo algumas músicas de Itamar Assumpção cantadas por outros cantores de MPB...
— Então você é digna de estar numa biblioteca de verdade. Que tal a de Barcelona?
Não sei se era impressão minha, mas acho que Clarice me olhava de uma maneira estranha. Será que meu gosto musical determinou essa mudança ou eu não tinha percebido antes? Ela me analisava, via seus olhos se movimentando em direção a cada parte de mim... em alguns momentos posso até afirmar, com minha modéstia embaixo do braço, que ela se distraía olhando para mim.
— Você estará lá?
— Onde?
— Na Universidade de Barcelona... não é de lá que estamos falando?
— Ah, sim...
Eu disse que ela estava distraída.
— Vou falar sobre minha tese que trata de arte contemporânea.
— Sério?
— É. Nada de mais... Não vou encher seus ouvidos com vocabulário técnico-esnobe-acadêmico.
Ficamos em silêncio. Olhei ao redor e havia um senhor dormindo na poltrona ao nosso lado. Pensei em deixar a conversa para ela continuar... precisava saber se só vinha de mim um súbito interesse por aquela relação que nasceu depois de uma troca de lugar no avião.
— E você? O que deve fazer uma mulher em roupas de reunião executiva na Espanha?
— Uma reunião, claro! – dei um meio-sorriso e nossos olhos fixaram-se mais uma vez... Não tive vontade de me desviar deles. — Estou indo em busca de negócios para a empresa onde trabalho. Mas... não vou encher seus ouvidos com vocabulário técnico-publicitário-estratégico.
— Você utiliza estratégias de propaganda além do campo profissional? – perguntou séria.
— Como assim? – entendi a pergunta, mas queria que ela falasse mais para que, naquele momento, eu pudesse analisá-la. Isso era uma estratégia. Eu deveria ter vergonha de confessar isso.
— Você acha que consegue coisas fora do contexto profissional por meio de estratégias?
— Acho que elas me ajudam a conseguir, mas não determinam nada.
— Para utilizar estratégias é preciso ser muito racional, não é?
— Sim.
— Sou péssima estrategista.
Acho que entendi esse comentário.
— Já esteve em Barcelona outras vezes então...
— Já... já dei outros vexames como este com outras pessoas...
— E elas foram tão legais como eu? – nem sei por que fiz essa pergunta besta. Esperando confete, dona Fernanda? Sim. Esperando confete de Clarice... e os impulsos iam fugindo do meu controle com menos de cinco horas de viagem. Pelo amor de Deus, estou afundando em minhas próprias estratégias!!
Acho – pode ter sido impressão de quem já começava a fantasiar coisas – que ela levou um susto com minha pergunta, mas se recompôs e respondeu: — Não. Você é mesmo muito gentil... Você é uma pessoa legal de se conhecer.
— Tudo isso graças à minha técnica de entretenimento. – brinquei para quebrar um possível “clima”. Mas, será que estávamos em um “clima”? Ou só eu estava entendendo isso porque queria entender... porque fazia tempo que não me encantava com alguém assim. Acho que estou viajando, literalmente.
— É sério. Faz tempo que não conheço alguém tão interessante...
Acho que estávamos num clima.
Os sintomas de uma inibição começaram a se manifestar fisicamente. De repente senti um calor! Desabotoei um pouco a camisa e dobrei parte das mangas. Passei a mão por meu cabelo que vez ou outra caía no rosto, sorri um tanto sem graça... não sabia o que dizer. Ela não parava de me olhar. E continuou em sua missão de me intimidar cada vez mais:
— Você sabe que existe afinidade entre algumas pessoas, não é? Acho que temos afinidade... acho que formaríamos uma ótima dupla cômica. – sorriu.
— Tenho certeza.
Ela se mexeu na poltrona, afrouxou o cinto, sentou-se em cima de uma das pernas para que pudesse virar-se mais para mim. Suas pernas eram grossas, de uma pele morena bonita... tinha um jeito particular de se expressar, de gesticular, de explicar o que queria dizer. Nessa nova posição ficávamos mais próximas e sentia dela um leve cheiro de perfume.
— Posso te fazer uma pergunta indiscreta?
Senti um frio na espinha.
— Pode.
— Quantos anos você tem?
— Não se pergunta a idade para uma mulher.
— Mas mulher perguntando para outra pode...
— Então não é uma pergunta indiscreta...
— Vai responder?
— 32.
— Tudo issoooo!!!! – ela se espantou controlando a altura da voz, berrou cochichando (dá para entender?), com a testa franzida. Clarice parecia minha amiga íntima, sentía-se íntima e isso me deixava feliz e, de certa forma, à vontade.
— É, sei que já sou idosa.
— Não é isso. Pensei que tivesse uns 29... uma jovem executiva, dessas workaholics que só pensam em trabalho e ganham o primeiro milhão aos 30.
Não tive como conter a gargalhada. Alguém lá por perto fez sinal de silêncio.
— Muito bom saber o que pensa sobre minha pessoa, mas já passei dos 30 e nem estou perto do primeiro milhão. Mas... muito obrigada por me dar 29.
— Não por isso.
— E você?
— Ainda não tenho meu primeiro milhão, mas tenho tempo...
Ela sorriu maravilhosamente maliciosa: — Tenho 28.
— Nem tanto tempo assim... em dois anos você pensa no quê? Em ser reitora da Universidade de Barcelona?
— Você acha que acadêmico ou artista intelectual fica rico alguma vez na vida? Espero viver das glórias de minhas pesquisas. – rimos e percebi que ela também estava cansada. Só então me lembrei do meu cansaço... e me deu sono, mas não queria perdê-la.

continua...

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