Acho que dormimos umas duas horas mais ou menos. Acordei com o barulho das comissárias distribuindo a refeição. Levantei os olhos e olhei para meu lado esquerdo, onde Clarice dormia serenamente. Seu pescoço pendia para seu lado direito, ou seja, quase encostava a cabeça em meu ombro. Não me incomodaria se ela fizesse isso... não me incomodaria de velar aquele sono profundo e risonho, colado numa fisionomia de expressão leve... parecia que estava mesmo numa “biblioteca”. Clarice era muito bonita. Acho que me questionei, mais uma vez, por alguns minutos, o motivo de todo aquele encanto. Eu não sabia. Já havia me encantado por outras mulheres, mas não achei que tivesse sido o suficiente para arriscar queimar minhas tantas e rígidas tradições familiares; sempre pensei na paixão homossexual como uma doença: repouso longe da pessoa enamorada e logo passa, logo cura.
Mas... só podia ser uma paixonite louca o que sentia naquele momento por Clara, aquela mulher tão diferente que me fazia rir, sentir carinho e vontade de tocar. Só podia ser isso. E, de certa forma, isso me assustava porque...
— Chegamos?
— Não. Pelos meus cálculos ainda temos algumas horas pela frente...
— Você está acordada há muito tempo me olhando?
A pergunta veio como uma flecha e eu desmontei. Guarda zero... nenhuma barreira, nenhuma defesa, sem tempo para estratégias, ela poderia fazer comigo o que quisesse. Mas não fazia!
— Desculpa.
— Por quê?
— Por lhe constranger.
— Não me constrange.
Aquela conversa estava ficando estranha e eu não estava mais conseguindo relaxar, nem ser criativa nas minhas respostas, nem brincar com as palavras. Clarice estava encolhida na poltrona, suas mãos se juntavam em forma de apoio para seu rosto... e me observava com “olhos de ressaca”. Isso me deixava mais inquieta, a calma dela diante de mim. Da mesma maneira que eu queria que todo aquele jogo de sedução (só podia ser sedução tudo aquilo) terminasse, sentia-me completamente seduzida a continuar olhando para os olhos negros e grandes e, agora, sonolentos que me olhavam sem um pingo de incômodo.
Não me desviei deles, mas, aos poucos, ia perdendo o fôlego.
— Você é muito bonita, Fernanda. – disse com a voz baixa e um pouco rouca, calma como se tivesse me dito aquilo um milhão de vezes depois de acordar. Poucas vezes me senti num momento tão íntimo. Senti a adrenalina percorrer minhas veias... estava num estágio de imensa excitação.
— Obrigada. Você também é muito bonita. – ela sorriu.
— Queria muito te dizer uma coisa, mas tenho medo de estragar o que estamos construindo... e estamos ainda no primeiro tijolinho... – agora eu sorri.
— É a segunda vez que você pede meu consentimento para alguma coisa.
— É... é preciso saber em que terreno estou pisando. Da primeira vez você foi muito gentil em trocar de lugar comigo... mas, agora... não sei se você vai escutar bem o que quero te dizer.
— Você arriscou levar um NÃO da primeira vez... Vai ter que arriscar de novo.
Clarice ficou séria e seus olhos perderam o aspecto de calma. Eles brilharam, estavam vivos novamente e maiores que o normal. Sua seriedade me transmitiu tensão.
— Então lá vai.
Gelei.
— Estou extremamente atraída por você. Talvez o fato de eu ser gay tenha facilitado minha conclusão, ainda bem porque temos só 12 horas de viagem e preciso ser rápida ou nunca mais te verei.
Agora eu a sentia nervosa.
— Você pode se virar e fingir dormir e eu tentarei aceitar como um sinal de recusa. Pode me dizer um NÃO simplesmente e eu tentarei aceitar, mas não podia deixar de dizer o que estou sentindo.
Respirei fundo. Estava tremendo. Olhei-a profundamente e disse bem próxima a ela... e não sei como consegui:
— Clarice, antes de mais nada, preciso ser honesta com você... – ela, pela primeira vez, baixou os olhos como se não quisesse “presenciar” uma possível rejeição. Mas, não era bem isso... — Estou prestes a me casar. Namoro há três anos um cara e... – ela voltou a me olhar daquele jeito: — Não faça isso.
— Não farei nada que você não queira, Fê.
— Você também me atrai, mas...
Ela se mexeu na poltrona, passou as mãos pelo rosto, pela nuca, olhou-me nos olhos, naquele momento com sofrimento até.
— Podíamos passar o dia juntas. Amanhã cada uma seguirá seu destino... Se quiser desapareço de sua vida amanhã, mas fique comigo hoje.
Nossa! Não sabia o que dizer. Toda aquela situação era tensa, excitante demais, de tal modo que não me aguentava em mim. Me senti molhar, sentia a sensação da adrenalina percorrendo todo meu corpo numa excitação quase insuportável. Que coisa!
— O que acha? Por favor, fala alguma coisa porque não aguento mais sem saber... – ela implorou me olhando intensamente, tão próxima que estávamos a centímetros da boca da outra. Sentia seus olhos me queimarem, seus lábios tremiam, faíscas de desejo saindo de cada gesto e palavra.
— Venha comigo. – puxei-a impulsivamente pelo corredor do avião. O senhor sentado ao nosso lado parecia estar dopado, só dormia, nem percebeu quando passamos por ele apressadas.
Fomos até o banheiro... Aquele cubículo mesmo. Empurrei-a como pude e fechei a porta atrás de mim. Ficamos, por segundos apenas, nos olhando tão próximas dentro daquele lugar que tive minha felicidade completa naquele pequeno instante. Sem pensar em toda aquela loucura e na loucura da minha atitude extrema, puxei-a pela cintura fina e a beijei com uma vontade que esperei toda minha vida para extravasar. Meu salto atrapalhava, tive que me abaixar um pouco para alcançá-la e ela erguia um pouco os pés para poder me abraçar com força.
Sentir seus lábios delicados, que sugavam os meus era maravilhoso. Sentir suas mãos em minha nuca e sua coxa entre minhas pernas me fazia morrer em seus braços. Invadi sua boca com minha língua furiosa de um desejo que já era descontrolado... Ela a recebia com pressa e vez ou outra ouvia sua respiração forte e gemidos que me enlouqueciam.
— Temos que voltar. – eu disse sorrindo depois de quase perdermos a respiração no beijo.
— Não quero sair daqui. – ela me puxava e beijava meu pescoço com sensualidade enquanto escorregava suas mãos por baixo de minha camisa. — Não quero nunca mais sair daqui.
— Ficaremos num lugar muito mais confortável. Hoje quero passar meu dia com você.
Voltamos para nossos respectivos lugares e esperei, ansiosamente, que aquela viagem terminasse logo para que eu a levasse para uma cama.
continua...
terça-feira, 15 de junho de 2010
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3 comentários:
Oi Mariana,
Sempre fui fã de seus contos. Adorei descobrir seu blog e me deparar com essa história maravilhosa e super envolvente. Como sou bastante impaciente geralmente espero os contos serem concluídos para então copiar e ler, mas nesse caso não estou aguentando esperar...rs... Beijos e Parabéns!
Que belo conto, Mariana!
Já estava ansiosa para ler um novo conto seu. rsrs...
Abraço.
Oi, meninas! Também estava ansiosa pra voltar a postar... faz tempo, né? Mas, enfim... a história está aqui e no Livre Arbítrio, e vou tentar não me ausentar tanto.
Obrigada por acompanharem O EMBARQUE.
Beijos. Bom jogo do BRASIL!!! :D
Mari Cortez
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