sexta-feira, 20 de abril de 2007

DESENCONTROS 4

CAPÍTULO XXIII – A HORA DA DECISÃO ESTÁ PRÓXIMA

Sofia teve uma idéia que, a princípio, Ju achou que não tivesse cabimento. Até discutiram:
_ Você acha que vou pedir para a namorada de Lia se afastar dela?! O que você está pensando, Sofia? Eu não quero ficar fazendo joguinho pra ter Lia de volta!
_ Não é isso, Juliana!!! Pensa um pouco. Você sempre foi tão direta, franca, sempre tomou iniciativas em momentos cruciais... Só estou dizendo que você poderia chamar Izabela para conversar a respeito de tudo isso. Conhecer o “campo inimigo”. – dizia Sofia vestindo-se para se encontrar com Lia. _ Colocar as cartas na mesa, sabe? Uma conversa sincera, sem armas, pra você saber o que ela sente de verdade por Lia e vice-versa. Diga a ela o que você veio fazer aqui, quais são seus planos para você, Lia e Laura... Olhe nos olhos dela, faça com que ela enxergue que você não está brincando.
Juliana ficou pensativa: “é preciso ter muita coragem para encará-la assim, de frente, e dizer que vim buscar o meu amor...”. Andou pelo quarto em silêncio e apenas comentou antes que Sofia saísse:
_ Vou pensar no que me disse.
_ Não pense demais, amiga. Suas melhores atitudes sempre foram as impulsivas. – piscou Sofia antes de bater a porta atrás de si.


Agora já não dava mais para recuar. Foi impulsiva. Pegou o telefone e ligou. Agora Izabela estava a caminho e ela precisava estar bem, segura de si, calma... uma adulta.
Iza, por outro lado, estava nervosa. Foi pega de surpresa – outra vez -, sentia-se como se estivesse caindo numa armadilha, como se as pessoas estivessem fazendo coisas pelas suas costas: “Mas não posso fugir, não dá pra me esconder. Se ela quer conversar, eu vou. Se ela estiver jogando comigo, vou saber.” Olhou mais uma vez o bilhete que Lia lhe deixou, guardou-o no bolso com carinho, pegou a chave do carro e saiu.
No restaurante, Sofia contava histórias cômicas que aconteceram depois que Lia se mudou para a Inglaterra, ou seja, muitas histórias. Lia escutava em silêncio e se divertia, há algum tempo ela não ria tanto... os causos que ocorriam com Sofia e Júlia eram sempre dignos de um filme de comédia. Ambas gargalhavam enquanto bebiam e comiam. Tinham sempre muito que conversar, rir... Eram como irmãs, por mais que o tempo passasse e houvesse uma distância enorme entre elas, a amizade jamais se abalaria.
_ Como você está? – perguntou repentinamente Sofia quando as risadas cessaram.
_ Como você acha que estou? – retrucou a pergunta Lia, dessa vez, muito séria.
_ Confusa.
_ Isso. Confusa. E você não está me ajudando nem um pouco. _ Lia deu um murro de leve na mesa e olhou para o corpo antes de encarar Sofia novamente com um certo ressentimento. _ Você trouxe Juliana sem me avisar, bagunçou a minha vida, Sofia... eu estava bem com Iza...
_ Às vezes uma confusão como esta força você a tomar uma decisão. – disse Sofia desafiadoramente.
_ Eu já tinha tomado uma decisão! Eu vim para cá recomeçar... e reconstruí minha vida! Tenho um emprego legal, amigos e um relacionamento maduro. Izabela me ama, Sofia.
_ E você ama Izabela? – xeque.
Lia desviou-se do olhar da amiga e olhou para fora do restaurante pela janela, para a noite fria e sem estrelas. Sua confusão se intensificava cada vez mais, deixando-a melancólica.
_ Se Juliana não estivesse tão presente, eu a amaria.
Sofia sorriu:
_ Então, Lia!!! Você vai trocar o amor imenso que sente por Juliana só para ter uma vida tran-qüi-la com Izabela?!! – Sofia não podia perder a oportunidade: _ Eu entendo que sua namorada seja legal, um doce, que te ajudou muito num momento difícil, mas você não a ama, ama Juliana, que está aqui... que veio até a Inglaterra te convencer de que vocês merecem tentar novamente uma vida juntas. Ela se arrependeu do modo como rompeu com você. Juliana também ficou mal, Lia, quis te esquecer desesperadoramente, tentou levar essa vida “tranqüila” que você talvez queira... mas não conseguiu porque não é o que realmente ela quer. Por isso ela está aqui.
Lia respirou fundo e encarou Sofia, que tomava mais um gole do vinho após o discurso em defesa de Juliana.
_ Sofia, estou dividida. Não é tão simples assim. Não posso dizer que não amo mais Juliana, mas também não posso ignorar o que sinto por Izabela. – Lia virou meia taça de vinho em um só gole. _ Você não tem noção pelo que estou passando... é difícil, muito difícil... Não sei o que faço!
_ Vamos beber. – sugeriu Sofia chamando o garçom.
_ Tenho uma idéia melhor. – Lia queria se distrair com a amiga, esquecer tudo aquilo por, pelo menos, alguns momentos. _ Vamos beber numa danceteria ótima aqui perto.
_ Você está me convidando para uma noitada?
_ Isso mesmo... para relembrarmos os velhos tempos.


Enquanto isso... a poucas quadras do restaurante, Juliana esperava que, mais uma vez, o interfone tocasse. Não sabia ao certo o que estava fazendo, dessa vez não tinha ensaiado nada... já sabia que ficaria paralisada diante de Izabela, portanto, pouparia os preparativos. Simplesmente não saberia o que dizer. “Por que fui escutar Sofia... não é ela quem tem que passar por isso!”, pensava enquanto seus batimentos cardíacos aceleravam. “Vou acabar enfartando se continuar assim...”.


_ Iza?
_ Oi.
_ Onde você está?
_ Vou ao supermercado.
_ Liguei para avisar que chegarei tarde. Estou com Sofia e quero mostrar um pouco da noite londrina pra ela.
_ Tudo bem.
_ Você está bem?
_ Sim, estou...
_ Ok, kisses...
_ Bye.
Melhor que Lia não soubesse aonde ia.


As duas amigas entraram na boate lotada. Precisaram se desviar de uma multidão de garotos afoitos e hormoniosos para alcançar o bar. Pegaram suas bebidas e circularam para conhecer melhor o lugar. As últimas novidades da música eletrônica estremeciam a pista, convidando Lia e Sofia a, realmente, reviverem os bons tempos em que se esqueciam do tempo e dos problemas enquanto dançavam alucinadamente.
Lia dançava de olhos fechados, segurando o copo, tentando ficar leve... mas via flashs de Iza e Ju em sua cabeça. Tinha vontade de ficar com as duas, de fazer sexo com as duas, amava as duas e não queria decidir nada: “Estou ficando louca!”, e bebia mais.


O interfone tocou.
A campainha tocou.
Juliana abriu a porta.
_ Olá.
_ Oi.
Ficaram instantes se analisando como se estivessem num ringue, prontas para a briga. A segunda impressão ainda era mais estranha quando se tratava delas. No aeroporto mal tiveram coragem de se olhar, apenas impressões rápidas e raivosas. Agora se encaravam; “Esta é Izabela”, “Esta é Juliana”, olhavam-se como quem já tinham as cartas na mesa... nada a esconder... eram adversárias e ponto. Mas Lia não era o prêmio. Ou era? Depois de segundos eternos, ambas pensando sobre mesma coisa, Ju acordou e deu licença para que Iza entrasse com sua postura um tanto arrogante e... folgada. Cada um usa as armas que tem...
_ Desculpa te ligar... é que eu precisava falar com você.
_ Eu não vejo por quê conversarmos, mas estou aqui. – encarou-a Iza com seus olhos muito claros, seu cabelo premeditadamente bagunçado e todo seu estilo, só seu.
_ Temos um assunto em comum. – provocou Juliana enfrentando o olhar duro de Iza.
_ Lia não é um assunto. – enfrentou Iza aparentando mais dureza do que o real por causa de seu português carregado de sotaque britânico.
_ Eu sei, ela é a mulher que amo. – não se intimidou Juliana que parecia mesmo estar de volta com sua chama impulsiva e cheia de vida. Olhava para Iza com firmeza e sinceridade. Seus olhos brilhavam e Iza, por um instante, quase descobriu porque Lia havia se encantado por ela, aquela mulher prepotente que veio desarrumar sua vida. Olhou ao redor do quarto de hotel para tomar fôlego. Pensou em acender um cigarro, mas resolveu que não queria armar uma cena, queria simplesmente dizer porque aceitou o convite para ir até lá.
_ Eu não sei por que me chamou aqui, mesmo assim quero dizer que você pode ter todos os motivos do mundo para estar aqui em busca de Lia, mas não abrirei mão dela. Ou, talvez, abra, se ELA me disser que volta com você. – Iza tocou no ponto. Repentinamente, após a última frase, Ju mudou de expressão, o brilho de seus olhos sumiu quando baixou o olhar e afastou-se de Iza, que permanecia imóvel. Depois de um instante se preparando para dizer o que tinha que dizer, disse:
_ Foi justamente para isso que te chamei: para dizer que vou embora depois de amanhã e, se ela decidir ficar com você, fique tranqüila, nunca mais me intrometerei na vida de vocês. – disse finalmente com a voz embargada, mas firme.
Iza ficou observando os movimentos de Ju que tinha os olhos cheios de lágrimas, mas permaneceu certa do que tinha que dizer e voltou a olhar nos olhos da namorada de Lia.
_ Na verdade eu queria saber se você a ama. Se eu percebesse que não, faria qualquer coisa para tirá-la de você. – aproximou-se mais se esforçando para não chorar. _ Mas vejo que você ama Lia... se ela decidir ficar, não sofrerá.
_ Você não a amava quando a fez sofrer? – perguntou Iza de maneira cortante, mas, no fundo, começava a sentir um inexplicável respeito por aquela mulher corajosa. Ju, desconcertada, esboçou um meio-sorriso:
_ Sim, mesmo quando fiz Lia sofrer eu a amava.


As duas já haviam dançado, bebido e conversado muito quando foram ao banheiro. Lia estava apertada e Sofia nem tanto. Oportunista, pegou o celular e discou para Juliana.
_ Ju! Você precisa vir para cá!
_ Onde você está???
_ Não interessa. Estou com Lia e acho que ela adoraria te ver agora.
_ Como assim não interessa, sua louca!!! Como posso encontrar vocês se nem sei onde estão.
Lia estava um pouco zonza. Desabotoou a calça e sentou-se. Não queria pensar, só curtir a noite com Sofia. Mas... sentia uma saudade enorme de Iza... e de Ju...
Quando saiu do banheiro, Sofia a esperava sorridente e voltaram para o bar.


Iza chegou em casa às 2, jogou a chave do carro em cima da televisão e atirou-se cansada sobre o sofá. Olhava para o nada esperando o sono que não vinha... lembrava da manhã maravilhosa que teve com Lia. Como era sensível, carinhosa... como a conhecia tanto em tão pouco tempo. Pensou em ligar para ela, ir encontrá-la onde estivesse, mas desistiu quando pensou em encontrar também Sofia: “chega, por hoje já deu”. Pensou em Juliana com raiva, mas reconheceu que ela era muito determinada. “Mas também sou”, disse em voz alta para se auto-afirmar. Sentiu uma vontade de chorar só em imaginar sua Lia indo embora. “Isso não vai acontecer”.


Juliana se arrumou correndo: “Não posso perder nenhuma oportunidade de estar com ela”. Vestiu seu vestido mais provocante, colocou por cima uma jaqueta de couro cru, espirrou o perfume que Lia adorava, chamou um táxi e saiu.
Antes de Sofia ligar para ela havia chorado por pensar na possibilidade de Lia ficar definitivamente na Inglaterra, ficar com Iza, “aquela branquela tão bonita, de personalidade tão forte e determinada”. Parou com raiva de pensar nas qualidades dela, mas tinha que admitir que Iza era uma boa pessoa e amava muito Lia: “Eu pensei encontrar alguém que só estivesse curtindo um tempo com a garota-bonita-e-estrangeira, mas não é só isso, Izabela ama Lia e tudo fica mais difícil agora...”, pensava enquanto o táxi fazia o percurso até a boate. Passava os dedos entre os cabelos longos e lisos preocupada: “Preciso me preparar caso Lia não volte...”, pensava e, instantaneamente, pensou na outra razão de sua vida: Laura, o principal motivo para voltar e não se sentir tão mal: “que saudade da minha filhinha... também não sei mais viver sem ela. As mulheres da minha vida...” O táxi chegou ao seu destino.
Lia conversava com um rapaz próximo à pista enquanto Sofia se divertia treinando seu inglês na rodinha de novos amigos ingleses, franceses e espanhóis. As duas já estavam meio altas e só queriam se divertir. Porém, Sofia não se desviava da entrada da boate onde logo mais encontraria Juliana.
Logo que viu Ju entrar, deu um grito e levantou desajeitadamente o copo em direção à amiga. Com o escândalo que Sofia fez, Lia virou-se e suas pernas, de repente, tremeram... e sentiu-se molhar de um desejo indesejado, incontrolável: Juliana.
Ela, num vestido colado e de decote generoso, jogou o cabelo para trás e tirou a jaqueta para guardá-la na chapelaria. Lia acompanhava, hipnotizada, os passos daquela mulher, e até havia se esquecido do cara com quem conversava.
Sofia trouxe Juliana pela mão e Lia se arrepiava gradativamente.
_ Amiga, Ju me ligou para saber se eu iria demorar e não resisti, convidei-a. – justificou-se Sofia na maior cara-de-pau do mundo. Tanto Juliana quanto Lia pensaram a mesma coisa: “Mentirosa”. A cupido tomou o resto da bebida e com a expressão mais maliciosa do mundo olhou para as duas:
_ Vou pegar outra coisinha dessa aqui! – disse saindo, apontando para o copo vazio.
As duas não puderam evitar o olhar e menos ainda o embaraço. Lia estava mais zonza – sentia um calor, suas faces ardiam. Juliana estava determinada a ir para o “tudo ou nada”, aproximou-se de Lia e tirou o copo de sua mão:
_ Posso?
Lia não dizia nada, só a olhava deslumbrada. Ju a fixou e sorriu. Aquele era o lugar ideal para usar de seu charme, fazer o que Lia gostava... aproximar-se de seu ouvido e falar com sua voz pausada e sensual:
_ Na verdade foi Sofia quem ligou pra me dizer que vocês estavam aqui... Perguntou se eu queria ver você... Não pensei duas vezes. _ Ju dizia aquilo muito próxima de Lia, já que estavam muito próximas da pista (um ótimo pretexto). Sentia o cheiro de sua ex-mulher e ficava cada vez mais excitada. O perfume de Lia a enlouquecia. Encostou-se tanto que seu seio tocou o braço de Lia e uma corrente as faziam entrar num transe... e parecia que ninguém mais estava ali. Ju arriscou roçar o nariz no pescoço de Lia e pegar em sua mão, mas...
_ Preciso ir ao banheiro. – interrompeu a investida de Ju e saiu trombando em algumas pessoas. Juliana meneou a cabeça negativamente e deu um murro de leve na parede. Porém, não se sentiu vencida: “Precisa ser agora”.
Subiu para o banheiro apressada, mas antes encontrou Sofia no caminho, tomou a bebida dela de um só trago e prosseguiu.
Entrou impulsivamente sem dar importância para as pessoas que entravam e saiam. Lia estava diante do espelho secando o rosto e a viu entrar quase correndo. Nem sentiu quando foi puxada com força para dentro de uma das cabines sem ter tempo para possíveis protestos. Ju trancou a porta e a empurrou contra a parede mirando a boca daquela mulher maravilhosa, daquela mulher que já foi sua por anos... e por quem ainda sentia tanto amor, como se ainda estivesse nos primeiros meses de namoro.
Antes que Lia reagisse àquela invasão, Ju a beijou com paixão, com a força do seu desejo. Suas mãos sabiam muito bem aonde ir, conhecia perfeitamente aquele corpo grudado ao seu, sabia de cor as partes de Lia que deveria tocar para deixá-la louca. E as tocou... mostrava para a ex-mulher que ainda sabia, que não havia esquecido de absolutamente nada. Suas mãos passeavam por Lia que gemia baixinho sem poder resistir. Ju começou lentamente a abrir o zíper da calça de Lia, mas antes parou o beijo e olhou nos olhos dela:
_ Eu te amo!
Voltou a beijá-la com sensualidade e Lia não agüentava mais tanto desejo reprimido, há mais de um ano, pela mulher que simplesmente a expulsou de sua vida sem explicações. Aquele amor que ela teve que sufocar para não morrer de tristeza. Agora explodia. Tudo vinha, toda a emoção de ser tocada novamente por Juliana, que tanto amava e odiava. Apertou Ju em seus braços, percorreu seu corpo tão bonito, tão conhecido... que já foi tão seu... Sentia vontade de chorar e chorou quando Ju entrou nela e Lia explodiu de prazer e amor. Não sabia ainda se estava se aproximando da ex-mulher ou se libertando definitivamente dela. Só sentia suas pernas amolecerem e as lágrimas correrem serenamente.
Ju também sentiu o amor explodir em seus dedos e no desejo de Lia. Sentia-se realizada por ter (não sabia por quanto tempo) Lia novamente assim, tão entregue a ela. Acariciou seus cabelos cacheados, beijou seu pescoço e sussurrou em seu ouvido:
_ Você é minha mulher.


Eram 4 da manhã quando Lia abriu a porta de seu apartamento. Acendeu a luz e olhou em volta. Foi até o quarto e encontrou Iza adormecida. Sentiu, repentinamente, um mal-estar e correu para o banheiro porque tudo ao redor girava e precisava colocar para fora tudo aquilo... toda aquela culpa, aquele remorso... aquele gosto de traição. Será que era uma traição? Ela já tinha a resposta que precisava.

(continua... com Mari Cortez e Lavinia Motta)

CAPÍTULO XXIV – NÃO SE PODE TER TUDO (FINAL) – LAVINIA MOTTA

Às leitoras de DESENCONTROS, gostaríamos de explicar as duas últimas partes postadas simultaneamente.
Propomos que as leiam seguidamente, pois entendemos que o conto merecia dois fins... e achamos que vocês pensam da mesma forma.

Um abraço a todas e esperamos que gostem.

Quando Lia chegou em casa, Izabela estava dormindo no quarto, toda coberta pelo edredom e envolvida em sonhos que mais pareciam pesadelos: perder seu grande amor. Apesar de ansiosa para conversarem, Lia tomou seu banho e esperou na sala até que Iza acordasse.
Deitou no sofá de forma que pudesse ver a neblina londrina e visualizar o amanhecer através da janela. Sua mente vagava por lugares comuns, não pensava muito sobre a decisão que tinha acabado de tomar, a decisão que mudaria sua vida. Às vezes, era melhor ser banal para não enlouquecer.
Iza precisava ir ao banheiro. Olhou no relógio ao lado da cama: quatro da manhã e nada do calor do corpo de Lia. Depois da conversa que teve com Juliana, sua cabeça não parava de latejar. Havia tomado um remédio quando chegou, mas a dor voltara. Procurou alguma aspirina no banheiro, mas a última ela tomou. Teria que atravessar a sala até a cozinha, um percurso curto, mas infinito para ela naquela situação.
_ Oi.
Izabela tomou um susto e engasgou com a água.
_ Nossa, que droga Lia! ... _ tentou manter a calma enquanto se enxugava. Afinal, para quem está dividida, qualquer deslize é um voto de Minerva. _ Você chegou agora?
_ Não. Já tem uma hora. Eu fiquei aqui na sala, não queria te acordar pra gente conversar...
_ Agora estou acordada. Por que a gente não conversa logo, agora?
_ É... também estou ansiosa.
Izabela acabou de tomar o resto de água que sobrou no copo. Parecia que a pílula havia travado em sua garganta e, de repente, uma secura no céu da boca...
Lia tinha treinado uma fala direta. Sem rodeios e expectativas de um fim glorioso ou trágico demais. Foi na frente. Pensou em segurar a mão delicada de Iza e o fez.
Sentaram uma de frete à outra. Lia via a neblina da cidade atrás de Iza e parecia que a natureza participava daquela hora tensa. Uma visão providencialmente cinematográfica.
Olhavam-se e Izabela sentia que sua vida mudaria. Não conseguia suportar aquele silêncio, aquela troca de olhares e via nos olhos de Lia certa culpa. Culpa de quê? Iza nunca poderia imaginar e Lia também não contaria que esteve com Juliana na boate, que foi tocada e que seu corpo tinha reagido de forma gloriosa ao toque da mulher que nunca esqueceria. Alguém precisava se manifestar naquele vazio de palavras. Lia deveria ser essa pessoa.
_ Eu sai com Sofia hoje. Sabe, relembramos os velhos tempos de boates, bebedeiras... “mulheres” (claro, ela não falaria tudo o que estava em sua mente)... gargalhadas por nada. Foi realmente divertido. Senti tanta saudade da minha casa, do meu povo, dos meus pais... No final das contas percebi que a noite, a madrugada, o álcool serviram muito mais para eu pensar na minha vida, no meu passado e no que tenho agora do que para a diversão... Você entende o que quero dizer?
Claro que entendia. Iza estava longe de ser burra ou uma medíocre. Sentia que Lia não conseguia chegar diretamente ao ponto, estava se esforçando e queria que Iza chegasse lá primeiro que suas palavras. A dor de cabeça tinha melhorado, mas seu coração estava acelerado. Sua vontade era sacudir Lia e arrancar uma verdade definitiva para aquela situação, mas, foi doce, precisava ser calma para sua própria saúde. Além da verdade, queria um cigarro mais que tudo. Porém, também queria demonstrar segurança.
_ Sim, Lia. Eu entendo perfeitamente que...
_ Por favor, não tome conclusões precipitadas. Eu queria poder ser direta agora, Iza. Mas, não dá. Eu preciso expressar exatamente o que sinto porque não é só uma decisão de ficar ou ir: é um resumo do porquê estou aqui agora com você.
_ Eu não quis te magoar. Continue _ depois dessa, ela não conseguiu esperar pela verdade, teve que buscar alívio na fumaça e nas toxinas do cigarro. Lia não se importaria...
_ Enquanto Sofia conversava, a saudade passava e só ficava a alegria de estar ali com ela. Nós temos tantos momentos de alegrias e tristezas juntas e é tão bom tê-las, porque quando a saudade chega, eu tenho com o que me defender...
_ Agora você me confundiu, Lia. Você pede pra eu não me precipitar em uma conclusão, mas você vem com esse papo de saudade... saudade do Brasil, de seus pais... sua amigas que querem que você fique com ela... a Juliana.
_ Mas você não percebe?! É isso, Iza! Saudade dá, a gente vê, visita e passa, até aparecer de novo. Eu pensava que sentia saudade da Juliana. Mas, depois que conversamos, eu percebi que tinha saudade da Juliana antiga. E, agora aqui com você, percebo que não tenho saudade do tempo em que estávamos juntas. Têm coisas que não voltam. O passado que eu tive com Juliana é uma coisa que não volta e, mesmo que isso fosse possível, eu não gostaria que voltasse, porque agora estou com você e...
_ E...
_ E eu te amo.
Em quase um ano de namoro, aquele tinha sido o primeiro “eu te amo” de Lia. Com uma força incrível, Iza remediou a vontade de pular em Lia e beijá-la para sempre, porque sabia que ela ainda iria falar mais.
_ E eu te amo tanto, Iza... e foi tão difícil perceber isso, porque eu tinha deixado tantas coisas pendentes com Juliana... sabe? Eu não fui justa com ela, e a minha injustiça me dava a ilusão de razão, de senhora da verdade e, por isso, traída e muito magoada. Precisou que ela viesse aqui para me mostrar a verdade e apontar minha injustiça. Quando ela fez isso, eu me senti mal, quis me redimir, mas há poucas horas, eu tomei consciência de que seu eu soubesse desde o começo que o erro partiu de mim, por não ter dado a ela uma chance lá atrás, eu teria esquecido tudo de uma forma tão mais fácil e rápida. Entende? O que quero dizer é que, por fim, se eu tivesse sido correta com Juliana, eu teria acabado o namoro por falta de amor ou de confiança, não por ódio. Foi esse ódio que não me deixou em paz um só dia. Como eu poderia esquecer Juliana se a raiva me fazia lembrar dela todos os dias? Entende?
_ Entendo.
Izabela teve vontade de chorar. Mesmo que as palavras de Lia não fizessem sentido depois de tanto tempo (parecia uma conclusão tão óbvia para ela), seus olhos transmitiam angústia por tentarem se fazer compreensíveis. E se fizeram.
_ Agora, Iza, eu vejo que não faria sentido uma vida com Juliana, porque mudamos muito nesse tempo todo. Nós duas crescemos com dor e amor no final das contas. Dor pela separação, Juliana tem uma filha, eu tenho você. E... meu Deus! Você me deu tanto e eu só sabia receber, mas agora eu sei com a convicção que tive só uma vez na minha vida: eu te amo! Se eu fosse, estaria cometendo uma injustiça comigo mesma.
_ Eu também te amo. Amo muito. E se você fosse, eu ficaria perdida. Eu não poderia dormir mais na nossa cama, ver nossos amigos, morar na nossa casa...
Abraçaram-se com uma emoção que só aquele momento poderia proporcionar. O sol nascia nas costas de Izabela e iluminava a verdade no rosto de Lia.
_ Pensei que eu nunca mais fosse ver o sol nascer aqui. Olhar como ele rompe a neblina fria é tão bom, me traz uma felicidade...
Beijaram-se agradecidas pelo amor, pelo sol, pela vida que teriam em comum por um tempo que elas fariam, por quantos anos, dias, meses quisessem. Não fizeram amor naquele instante porque teriam muito tempo pela frente, aquela era hora de fazer as pazes com sorrisos. Eram donas dos próprios corações e, como senhoras de si, sabiam a quem entregar seus sentimentos. Confiaram-os reciprocamente.


Juliana estava de volta, com a filha nos braços, e um sorriso imenso de amor por aquele pedacinho de gente que era metade carne sua. Se Lia não estava ali com ela, Ju poderia induzir sua decisão.
Ainda a amava muito, mas decidiu perder as esperanças por uma questão de sanidade mental e, consequentemente, pela felicidade da filha. Compreendeu, após vários murros em ponta de faca, que certos desencontros não poderiam ser revistos. Uma vez teve um encontro com Lia, e ele foi único. Únicos também foram os que teve pela frente, alguns soube aproveitar, outros passaram e também se tornaram desencontros, e, por uma sorte que bate raramente na mesma porta, agarrou um.

Fim.

CAPÍTULO XXIV – NÃO SE PODE TER TUDO (FINAL) MARIANA CORTEZ

Juliana aproximou-se depois de algum tempo de Sofia, que estava num canto qualquer da danceteria observando o movimento, já um pouco impaciente:
_ Vamos embora.
_ E a Lia?
_ Foi embora.
Os olhos vermelhos de Ju denunciavam tempestade. Como ali não havia condição nenhuma de conversarem, pagaram a conta e saíram imediatamente. Juliana, ainda tonta, encostou-se na parede do lado de fora e recomeçou a chorar copiosamente. Sofia não podia fazer mais do que ficar ao seu lado e esperar que a amiga melhorasse, pelo menos, para poder contar o que aconteceu.
A tristeza da amiga chocava Sofia que não sabia como agir: “Será que tudo isso foi em vão? Fazer com que Ju viesse até aqui não valeu de nada?!” Uma ponta de remorso a invadia... sentia-se, em parte, culpada por todo aquele sofrimento.
_ Pelo amor de Deus, Ju, me diz o que aconteceu!
Juliana ainda se recuperava do estouro. Uma explosão dentro dela que só deixou restos e um buraco enorme sem fim.
Quando, impulsivamente, beijou Lia, sentiu todo o amor que sempre teve por ela pulsar em seu corpo. Sentir o corpo de Lia tão junto ao seu, beijar sua boca tão conhecida, sentir sua respiração forte fez com que Juliana chegasse à conclusão de que jamais conseguiria viver bem se não tivesse Lia ao seu lado.
Quando Lia, repentinamente, desgrudou-se dela e saiu correndo do banheiro, empurrando quem estivesse pela frente, Ju sentiu que estava perdendo definitivamente seu amor. Vê-la distanciar-se com tanta pressa era como vê-la escapar-lhe das mãos para sempre; como se Lia tivesse decidido ficar... com Izabela.
Aquela ponta de certeza deu lugar a um desespero profundo, um vazio, um vácuo, um abismo imenso. Sentou-se em cima da tampa do vaso, debruçou-se sobre as pernas e chorou. Precisava extirpar parte daquela dor para que pudesse abrir espaço a uma força que não sabia de onde viria. Mas... sabia. Sabia, sim. Quando pensou em sua filha soube que sua força estava nela e teria que modificar concretamente sua vida para adequar-se a uma rotina sem Lia. Isso a confortava e fazia com que parasse gradativamente de chorar: “É preciso saber quando parar e desistir”, pensou erguendo a cabeça com o rosto lavado de lágrimas doídas... e que doeriam por muito, muito tempo. Secou-as com a palma das mãos e abriu a porta diante de uma fila enorme que reclamava a demora da “bêbada” que saiu meio tonta trombando em outros bêbados.
Agora estava ali, em mais uma crise de choro, com sua amiga Sofia, que tanto a ajudou... para nada:
_ Mas, valeu por tê-la novamente, pelo menos por alguns segundos... valeu a pena ter vindo só para poder tocá-la mais uma vez.
Sofia também estava inconsolável. Sentia-se péssima: “Ainda bem que vamos embora amanhã. Chega!”. Estendeu a mão para a amiga e juntas foram em busca de um táxi.


Lia estava sentada no sofá com as pernas estiradas em cima de um banco quando Iza acordou. Era 8h de um sábado frio, escuro e silencioso.
Ela tinha ficado ali, quieta, para tentar melhorar do enjôo, do mal-estar; precisava pensar no quê e como dizer, queria se livrar da culpa, do remorso... Queria sumir!
Fugiu... ou melhor, tentou fugir de Juliana... saiu correndo após sentir seu corpo arrepiado novamente por conta dos carinhos dela. Tentou fugir... mas ela continuava ali feito “coisa inerente”, grudada no pensamento de Lia, no prazer que escorria por ela. Sentia-se sufocar... Saiu daquele banheiro correndo porque pensou, por um segundo, em Iza e todo aquele instante fantástico tornou-se num pesadelo cheio de culpa.
A hora inevitável da decisão. Sem mais rodeios. Pensar assim fazia com que seu estômago doesse e sua cabeça girasse. Ter uma decisão e ter que machucar muito alguém que também amava era a dor mais profunda que já havia sentido.
_ Ainda está aqui? – surpreendeu-se Izabela ao encontrar Lia na sala. _ Por que não foi para a cama? – perguntou massageando os ombros de Lia e beijando sua nuca.
Só percebeu que a namorada não estava bem quando a sentiu soluçar. Deu a volta em torno do sofá, retirou as pernas da namorada do banco e ajoelhou-se diante dela.
_ O que foi, Lia? O que aconteceu?
Lia olhou-a profundamente, acariciou com ternura o rosto daquela mulher apaixonante, que a iluminava, a enchia de paz e a fazia rir. Seu cabelo emaranhado, sua camiseta velha de dormir, seus olhos tão claros, transparentes como ela... Através deles enxergava toda a sua sinceridade, maturidade, inteligência... enxergava seu amor por ela, Lia, que a amava... mas não tanto como amava Juliana e isso a entristecia porque queria corresponder à altura o amor de Iza.
Iza parecia que decifrava os pensamentos melancólicos da namorada... sentia a dor de Lia e, instantaneamente, sentia a sua dor, e seus olhos logo ficaram inundados.
_ Preciso te dizer uma coisa, mas não sei se vou conseguir. – iniciou Lia com a voz embargada e, só por essa introdução, Iza se preparou, sentou-se ao seu lado com segurança. Entendia, mesmo sofrendo, que aquela situação era muito difícil para Lia e tentou ajudar:
_ Seja lá o que for me diga... eu sei que teríamos esta conversa.
Lia olhou novamente para Iza com as vistas embaçadas e sua voz quase não saia.
_ Sabe quando você quer tudo e não pode... precisa escolher e é como se tivesse que abrir mão de uma parte de você?
Iza começou a chorar, mas tentou sorrir.
_ Não tinha passado por isso até agora. Mas posso dizer que é horrível a sensação de ser uma das partes. – Iza apertou a mão de Lia, olhou-a com carinho... e firmeza e: _ Ainda mais quando essa parte é a que você abrirá mão...
Iza observou as lágrimas de Lia escorrerem pelo rosto lindo, que ela tanto amava, viu quando seus olhos e seu nariz ficaram vermelhos; os soluços a deixavam tão frágil que Iza não resistiu e a abraçou com força. Izabela amava tanto Lia que a deixaria ir, não seria capaz de prendê-la se sabia que ela “pertencia” à Juliana... não se prestaria a esse papel, preferiria preservar o amor que Lia sentia por ela... não era o amor intenso que Iza tinha, mas não deixava de ser um amor verdadeiro.
Mesmo pensando assim, Iza tinha a impressão de que jamais se recuperaria quando Lia saísse por aquela porta que agora olhava enquanto agarrava-se ao abraço mais apertado... da mulher que provavelmente sempre amaria. “Como não amar Lia pra sempre?!!”, perguntava a si mesma dando mais força ao curso das lágrimas. Queria sentir raiva dela, um ódio que a fizesse expulsá-la de seu apartamento a pontapés... mas não conseguia.
Assim que Lia saiu, após deixá-la no sofá e ter ido arrumar suas malas, Iza desabou... desmoronou em sua parcela de dor. O amor dói... porque só pode ser entre duas pessoas.
Decidiu que ficaria bem... procuraria Ricardo para chorar as mágoas, curtiria sua dor-de-cotovelo e depois sairia para a balada... acenderia um cigarro e conheceria novas pessoas. Assim é a vida e, um dia, ela se sentiria feliz com outra pessoa, e teria notícias de que Lia estava feliz... com Juliana ou seja lá com quem fosse. Talvez um dia fosse até o Brasil visitá-la com sua futura namorada que ainda não existia... Mas tudo isso eram apenas planos... por enquanto.


_ Tudo pronto?
_ Sim.
_ Não se esqueceu de nada?
_ Nada.
_ Então vamos. – Sofia bateu a porta do quarto do hotel e desceram até a recepção onde um táxi as esperava para levá-las ao aeroporto. O avião sairia a aproximadamente duas horas.
Ju ainda estava mal... seus olhos um tanto inchados, sua expressão cansada e triste. Antes de sair do quarto ligou para Renato e soube que Laurinha estava ótima, mas parecia sentir a falta da mãe: “Já estou voltando, meu bebê!”, prometeu à filha em pensamento enquanto vislumbrava a beleza de Londres pela janela do carro.
Estava muito quieta desde a noite passada... queria ficar em paz, em silêncio para se fortalecer... Voltaria de mãos vazias, mas preparada para uma nova vida.
Sofia estava sempre ao seu lado e entendia seu momento. Também ficava em silêncio e a confortava apenas, não era preciso dizer nada.
Ao chegarem no aeroporto, apresentaram-se e, em seguida, foram tomar um café para esquentar um pouco aquele frio que as invadia... em todos os sentidos.
_ Daqui a algumas boas horas estaremos em casa... você com Laurinha... – arriscava uma conversa Sofia antes de queimar a língua com o café. _... eu com Júlia... – talvez não devesse ter falado a última parte. Não sabia bem o que dizer.
_ Não vejo a hora de estar com ela. Morro de saudades da minha filhinha. – sorriu apática Juliana que contornava com o dedo a asa da xícara.
_ Tudo vai ficar bem, amiga. – tentou animar Sofia, tocando a mão de Ju que a olhou com determinação.
_ Claro que vai.
Mudaram de assunto e falaram muito sobre as palestras que assistiram no congresso e sobre os lugares que conheceram em Londres. Quando estavam prestes a partir, dirigiram-se à pequena fila formada no saguão de embarque. Cada uma delas carregava uma bolsa de viagem, as malas já tinham sido despachadas. Juliana pegava a passagem e o passaporte no bolso de sua jaqueta quando ouviu uma voz atrás de si.
_ Ju.
Juliana parou o movimento pela metade e olhou para trás. Quando viu Lia a poucos metros ficou, por um momento, sem reação... boquiaberta, tentando certificar-se de que aquilo não era um sonho. Escutou Sofia dizer longe: “Não acredito!” e então teve certeza de que não era só ela que via Lia ali parada sorrindo.
Saiu da fila e aproximou-se de Lia.
_ Espero que não tenha vindo só pra se despedir. – ironizou Juliana com os olhos brilhantes, cheios de um choro prestes a explodir de alegria.
Os olhos de Lia não brilhavam menos e seu sorriso era maravilhoso... aquele mesmo sorriso que Juliana amava.
_ Acho que preciso conhecer Laura... mas não posso ir agora... ainda preciso resolver certas coisas no meu trabalho.
_ Pensei que tivesse te perdido pra sempre... mas, quando você volta, então?
_ Daqui duas semanas, até eu terminar a campanha que está pendente e pedir demissão.
_ Demissão?
_ Eu te amo, Ju, não tenho como fugir disso.
Juliana largou a bolsa no chão e abraçou Lia com força, com todo seu amor. Em seguida, beijaram-se pouco se importando com as pessoas que passavam observando a cena romântica entre as duas mulheres... como uma cena final de um filme inglês, ou melhor, hollywoodiano.
Sofia chorava feito tonta na fila esperando pelo fim feliz.


Passadas duas semanas, a demissão foi dada com relutância após frustradas propostas para que Lia continuasse na agência. Após uma calorosa despedida de Ricardo e da nem tão amistosa Rita, Lia estava de volta ao Brasil. Obviamente que se apaixonou por Laurinha e vice-versa... Laura derretia-se ao ouvir a voz de Lia quando chegava da (nova) agência. No início, Renato resistiu em permitir que Juliana e Lia criassem Laura juntas, mas depois reconsiderou e chegou à conclusão de que uma briga por esse motivo só prejudicaria a filha. Ele ficava com ela nos fins de semana ou quando quisesse e precisasse.
Aos poucos, Ju percebia o quando Lia havia mudado, não era mais aquele poço de ciúmes, porém, era impossível tornar-se “colega” de Renato. Sabia que Iza foi muito importante para ela, sabia que entre as duas ainda existia um sentimento forte... tinha consciência de que Lia havia ficado muito dividida e quase decidida a ficar com Izabela... Mas, não sentia ciúmes por isso, afinal Lia estava ali, com ela, e agora eram uma família. Lia, por sua vez, também reparou nas mudanças de Juliana... na maturidade que finalmente chegara e na tranqüilidade que veio junto. Não era mais aquela mulher instável, que enjoava constantemente das coisas e que queria provar de tudo desesperadamente sem nunca se prender a nada... nem a ninguém. Ainda carregava no olhar uma certa malícia e na personalidade a impulsividade... isso era a essência de Ju... mas agora era mãe e Laurinha a colocou nos eixos.
Lia e Ju prepararam um almoço para as madrinhas de Laura, que ficava passeando de colo em colo por horas, até chorar, comer e dormir. Sofia e Júlia, como sempre, estavam ótimas e hilárias contando seus causos cotidianos. Passaram um dia divertidíssimo para comemorar a volta de Lia e a felicidade de todos.
Já tarde da noite, Lia saiu do banho e encontrou Ju observando Laura no berço. Aproximou-se devagar e abaixou-se junto a sua mulher para também observar sua filha.
_ Ela é linda não é?
_ Sim, parece com você.
_ Não pensei que um dia eu pudesse ser tão feliz: ter uma filha tão linda e você aqui do meu lado.
Saíram de fininho e foram para o quarto.
_ Fica comigo pra sempre?
Lia sorriu enlaçando Juliana pela cintura.
_ Você sempre diz isso quando quer uma coisa.
Ju sorriu maliciosamente e mordeu o lábio inferior olhando para Lia que não resistia a suas provocações. Beijaram-se apaixonadamente e Ju, aos poucos, foi abrindo o roupão de Lia que ainda tinha o corpo molhado. Deslizou suas mãos por sua mulher e a fez suspender a respiração quando lhe tocou partes conhecidas que a deixavam louca de desejo. Lia puxou Ju para a cama e tirou seu pijama com pressa... toda a pressa do mundo para recuperarem todo aquele tempo em que ficaram longe dos carinhos que só elas tinham, só elas conheciam. Fizeram amor durante toda aquela noite e as demais que viriam.
Tiveram uma vida feliz, com todas as suas alegrias e dificuldades.
ENCONTRARAM-SE novamente e era isso que importava.

Fim.

Gostaríamos de agradecer imensamente a atenção, o carinho e a paciência de todas as leitoras que acompanharam a história de Lia, Juliana e Izabela em DESENCONTROS, mesmo com a demora de postagem de capítulos. Não foi proposital, mas, no fim, deu tudo certo.
Um abraço a todas.
14/3/2006

Um comentário:

LRbueno disse...

Fim para todos dos gôstos...rs muito bom!