sexta-feira, 20 de abril de 2007

DESENCONTROS 2

CAPÍTULO X - QUANDO BOAS NOVIDADES COMEÇAM A TEMPERAR A VIDA...

_ Iiiiiiiza!!! – gritou mais alguém quando a viu de longe. O primeiro possível encanto se quebrou e ambas despertaram daquele meio entorpecimento.Uma senhora gorda, sorridente, muito branca e com laquê no cabelo aproximou-se de braços abertos e envolveu Izabela num abraço aconchegantemente apertado. No Natal todos os parentes inusitados reaparecem mesmo.Quando deu por si, após o abraço perturbador, Izabela estava sendo arrastada pelas tias que não a viam há tempos e, obviamente curiosas, iniciaram o típico interrogatório que ela já conhecia: “Só algumas perguntas mudam...”. Logo estava rodeada pelas tias de Natal que atacavam: “Por que cortou o cabelo... ele era tão lindo!”, “O que andou aprontando durante esse tempo em que sumiu?”, “Por que uma menina tão bonita como você não arruma logo um marido?”, “Você continua fazendo objetos estranhos ou está trabalhando?”Mesmo metralhada por tantas perguntas, Iza as respondia com humor, sorria, fazia graça, inventava histórias insólitas para escandalizar as tias que ficavam boquiabertas. Divertia-se de verdade. Quase todos da família achavam seu comportamento excêntrico, mas ninguém sentia antipatia por ela porque era alegre, divertida, espontânea, não se aborrecia com facilidade e compreendia as limitações das pessoas – esse era seu grande trunfo. Porém, sua docilidade não inibia sua impulsividade, não a impedia de fazer loucuras como, por exemplo, largar tudo para percorrer parte da Europa com uma mochila nas costas sozinha. Era figura constante nas festas mais animadas – em todos os sentidos – e clandestinas de Londres (quem disse que não se podia beber até tarde na terra da rainha?).Iza tinha uma filosofia simples de vida, que algumas pessoas diziam apenas da boca pra fora, mas ela seguia ao pé da letra: aproveitar todos os momentos e fazer sempre o que tiver vontade. Sempre teve o pensamento livre e isso refletia em suas atitudes._ Deixem minha “blossom” em paz!!! – brincou David puxando a neta pelo braço com irreverência. Iza saiu da rodinha que a cercava – “que bom que fui salva” - e procurou Lia com os olhos, mas não a encontrou: “será que ela já foi embora?!”. Seu avô colocou uma mão por cima de seus ombros e ambos seguiram para um lugar mais calmo a fim de conversarem.Enquanto isso, Lia observava o belo jardim da sacada de um dos quartos do casarão. Fazia frio, mas o vento gelado compunha de maneira indispensável aquele cenário melancolicamente perfeito. Sentia-se em um quadro impressionista, acompanhando atenciosamente os efeitos que a luz natural exercia sobre aquela pintura deslumbrante. Debruçada sobre o parapeito, observava serenamente o murchar das flores coloridas, o passar de nuvens carregadas e a neve caindo suave como flocos de algodão. Lia queria guardar aquilo, aquela cena que a fazia feliz, trazia a ela tranqüilidade, uma paz inexplicável. Talvez, naquele dia, naquela sacada, ela tenha tido a luz da perspectiva de dias melhores... dias em que ela poderia viver sem pensar tão intensamente em Juliana. De repente, sua mente estava vazia e ela se sentia ótima por isso acontecer: mente vazia, mente sem Juliana... possibilidades de novas descobertas, uma nova vida.“Quero fechar o ciclo, começar um novo ano com novos planos... com o pensamento leve... quero uma nova vida cheia de outras possibilidades, descobertas, novidades... preencher a lacuna, deixar definitivamente de sofrer.”_ Sozinha. Não acredito que numa casa com tantas pessoas você está aqui sozinha... – bronqueava Ricardo com duas taças de vinho na mão. Ofereceu uma para a prima e ficou observando aquele olhar... _ Você sempre transmite tanta segurança nesse seu olhar... mas no fundo minha priminha carrega tantas dúvidas...Lia tomou a taça da mão de Ricardo e sorriu:_ Você, por acaso, analisa a personalidade das pessoas pela íris dela?Os dois começaram a rir._ É que te conheço, sua tonta... sei um pouco o que se passa nessa sua cabeça oca._ Duvido._ Ah é?! Garanto que estava aqui se lamentando, triste por conta de acontecimentos que já passaram há meses._ Engano seu.Ricardo arqueou uma das sobrancelhas e tomou um gole enorme do vinho._ Sério?!! Então me surpreenda!Quando Lia revelaria seus planos para um ano novo, uma mulher desvairadamente sorridente, com um copo de uísque na mão e já sem a gravata, entrou no quarto._ Eu estava procurando vocês! Não queiram fugir das minhas tias devotas da fofoca familiar... se eu entro na berlinda vocês também têm que entrar.Os três começaram a rir e os primos abriram espaço para que Iza se apoiasse, entre eles, no parapeito._ Você é sempre a vítima preferida das “tias de Natal...” – zombou Ricardo empurrando Iza com o ombro._ Tias de Natal? – perguntou Lia com uma expressão de interrogação._ Tias que só aparecem no Natal... eu mal me lembrava delas, já tinha me esquecido até de suas fisionomias!!! – Ricardo já estava bem alegre por conta das taças e taças de vinho. Izabela também já começava a ficar alta... concordou com o tio e iniciaram uma gargalhada sem fim. Começaram o bombardeio venenoso de adjetivos para as tias de Natal. Iza se lembrou de alguns micos que as senhoras pagaram em natais anteriores e contava com tanta graça e com tantos detalhes hilários que Lia e Ricardo se contorciam de rir. A festa acontecia em uma das sacadas do casarão... as gargalhadas eram ouvidas a quilômetros de distância, nem a música natalina tocada ao piano, justamente por uma das tias, abafava os risos contínuos que vinham de cima.De repente, Rita apareceu:_ Então são vocês!!! – aproximou-se sorrindo das gargalhadas dos três, que mal conseguiam falar. _ Imagino o tanto de veneno que deva estar escorrendo dessas palavras malignas..._ Não tia, você não imagina. – repentinamente Iza ficou séria e encarou Rita intensamente. Esse rompante fez com que Ricardo e Lia também parassem de rir sem entender o que estava por acontecer. Iza aproximou-se muito de Rita:_ Estávamos aqui falando das TIAS... essa espécie de parentesco que só aparece nos natais para metralhar meninas inocentes como eu com perguntas-clichês.Ricardo e Lia explodiram numa risada gostosa, contagiando Rita que ainda não havia entendido muito bem do que se tratava aquela teoria._ Acho melhor vocês maneirarem no vinho... – recomendou depois de algum tempo. Ricardo abraçou a mulher com carinho e a beijou no pescoço. Rita sorriu maliciosamente: _ Vou roubar um pouquinho seu TIO... daqui uns quinze minutos eu o devolvo... – Ricardo piscou para as meninas e os dois saíram abraçados.Lia e Iza voltaram para o parapeito mais contidas depois do acesso de risos. Ficaram por um momento observando a paisagem, mas Iza logo analisou Lia pelo canto dos olhos: “Que mulher bonita! Que olhos negros são esses?! Pele bem cuidada, boca lindamente contornada... corpo em cima... Linda!”_ Quando chegou aqui? – perguntou logo para quebrar o gelo. Não queria ficar numa situação embaraçosa com aquela garota monumental logo de cara. Lia, antes de responder, tomou o último gole do vinho e sorriu. Suas bochechas estavam vermelhas por conta do álcool._ Faz três meses... Três meses que passaram voando e, ao mesmo tempo, me parecesse que duraram um ano. – respondeu um tanto melancólica e Iza alcançou o estado de espírito daquela mulher que agora tinha um ar desprotegido, como quem precisasse de algo... algo que ela ainda não sabia o que era._ Estamos diante de um paradoxo, então... Paradoxos remetem à confusão... – comentou Iza séria, olhando fixamente para os olhos negros de Lia, que se voltou novamente para a paisagem._ Você é perspicaz..._ Sempre. – sorriu virando o copo de uísque.Voltaram a ficar em silêncio por alguns instantes. Tempo suficiente para que Lia pudesse avaliar o comentário da menina dos olhos de David: “Esperta... ela é muito mais que uma aparência exótica. Tão carismática, alegre... Izabela exala alegria...”_ Por que some por tanto tempo, deixando suas tias tão... angustiadas?! – perguntou irônica para não prolongar o silêncio. Iza sorriu, mas continuou olhando para o jardim._ Eu não sumo. Só tenho muito o que fazer. Eu sempre quero tanto de tudo que não consigo ficar muito tempo no mesmo lugar. – Iza, de repente, puxou Lia pela mão: _ Vamos, quero te mostrar uma coisa.Lia sentiu o aperto forte da mão de Iza, uma mão que era macia, delicada, mas continha força, firmeza. Deixou-se guiar... mas antes de prosseguirem, Iza abriu outra garrafa de vinho, apanhou duas taças e só então saíram pela porta dos fundos._ Estamos fugindo? – perguntou Lia divertida._ Não. Só não quero que minhas tias nos vejam...Ainda dentro da propriedade de David, ambas caminhavam lado a lado, tranqüilamente. Ficaram um bom tempo em silêncio admirando a pequena trilha que as levaram a um pequeno lago._ Faz muito tempo que não venho aqui. – disse Iza caminhando em direção de uma grande pedra próxima ao lago. Sentou-se e Lia a acompanhou. _ Eu sempre vinha aqui quando estava confusa.Lia sentiu algo após essa declaração. “Ela prestou atenção no que eu disse... entendeu mesmo pelo que estou passando... Que amor é essa menina!”_ Eu já estive algum tempo muito confusa... quando comecei a me descobrir, a perceber que não gostava do que a maioria das pessoas gosta. Me senti tão pressionada a renegar quem eu era para manter as aparências que quase pirei. Então eu saia correndo como uma louca e vinha para cá... ficava horas olhando para esse lago, me olhando no reflexo da água como narciso... mas eu não me admirava, eu queria me descobrir. – olhou carinhosamente para Lia com uma ponta de sorriso: _ E descobri._ O que você descobriu?_ Que eu não preciso agradar ninguém porque ninguém vive a minha vida. Eu faço minha vida, eu tomo as decisões, eu faço o que eu quiser do que é meu. E então, as pessoas vão ter que entender meu jeito se quiserem me amar._ E demorou até você descobrir isso? – perguntou uma Lia fascinada pelos olhares intensos de Iza._ Um pouco... sei lá... acho que nunca termina a descoberta...Abriram o vinho:_ Qual é a sua confusão?Lia hesitou, baixou os olhos e, de repente, visualizou a última cena que teve com Juliana... o momento em que a mulher que ela mais amou disse que a havia traído e que estava farta da vida que levavam juntas. A arrumação apressada das roupas nas malas, o bater da porta para nunca mais abri-la. Lia sentiu o nó se formar na garganta, mas não podia permitir que isso acontecesse, “não hoje”, não poderia deixar que todo aquele álcool que percorria por suas veias se transformasse em pura depressão._ Deixei tudo para trás para esquecer o que me fazia mal.Iza a olhou séria. “Ela não quer dizer... tudo bem...” – percebeu a transformação na expressão de Lia e não queria agravar o mal-estar. Lia a encantava tanto que jamais deixaria que aquele primeiro encontro fosse estragado, ofuscado por confissões infelizes._ Então, um brinde a sua nova vida na Inglaterra!!!! – levantou-se e ergueu a taça cheia de vinho. Lia sorriu e também se levantou... brindaram. _ Sabia que para o brinde ser realmente válido você precisa tomar três goles enormes na garrafa?_ Claro que não... você quer me embebedar... – respondeu Lia voltando a sentar em cima da pedra._ É verdade, Lia... isso é provado cientificamente. – Iza agarrou a garrafa e sentou-se muito próxima de Lia. “Que olhos!!!” _ Hoje é Natal... minhas tias estão a alguns passos daqui... não vou conseguir enfrentá-las sóbria! Me ajude, Lia, eu preciso de você!!! – suplicava Iza e Lia não resistia aos seus encantos._ Tome primeiro os goles e eu bebo em seguida.E assim as duas, por meio de um pretexto ridículo, ficaram bêbadas às margens do laguinho. Iza explicava a relação do homem com o Cosmos e Lia sentia um calor quase que insuportável. E ela estava com muuuuuito frio há algumas horas...Foi assim que Lia encerrou um ciclo e iniciou outro...Enquanto isso, Juliana dava entrada na maternidade... (continua com Mari Cortez...) CAPÍTULO XI – SERÁ QUE QUALQUER TIPO DE TRAIÇÃO É IMPERDOÁVEL? Estavam num plantão meio sem sentido. Nunca tiveram que trabalhar na última semana do ano, mas, como havia trabalho extra, tinham que fazer horas extras. Renato queria que Juliana já tivesse pedido a licença para passar o oitavo mês de gravidez tranqüila, sem os estresses da editora, mas Ju não queria... quanto mais trabalhasse, menos pensaria em Lia e isso era tudo o que queria. Obviamente, não sacrificaria a saúde de seu bebê, mas se sentia bem disposta, não via a necessidade de ficar em casa sem fazer nada e tendo os pensamentos todos gritando em sua cabeça. Agora, ela e Sofia estavam na editora trabalhando... havia um silêncio porque, claro que boa parte dos funcionários estavam àquelas horas em um lugar qualquer que não fosse a capital. As pessoas “certas” sempre tiram férias nos melhores momentos. Por que será que isso acontece?!!A editora estava quase às moscas e os poucos que faziam as tais horas extras quase não conversavam por falta de assunto ou pura preguiça.Ju e Sofia trabalhavam uma de frente para a outra e já eram tão íntimas que o silêncio não as incomodava... ficavam bem... estavam entediadas. Vez ou outra Sofia levantava para esticar as costas e buscar água para ela e Juliana, que bocejava e, muitas vezes, sentia-se incomodada com o tamanho da barriga. Dava uma volta, ia ao banheiro, lavava o rosto, olhava-se no espelho, mas não se demorava muito se olhando... não estava muito a fim de se autoquestionar ultimamente, sabia que havia mudado muito, muito mesmo, mas não queria discutir isso com o espelho agora. Quando o bebê mexia avisava discretamente Sofia, que se levantava apressadamente e vinha encostar o ouvido na barriga da amiga e acariciá-la para sentir os pontapés visíveis no mundo do lado de fora. Sofia gritava para todo o editorial que despertava e se aproximava. Era o momento máximo de descontração. Ninguém fica muito feliz em trabalhar em vésperas de Natal.Mas, logo o bebê se acalmava e todos voltavam para seus respectivos lugares, diante de seus respectivos computadores.No dia 24, 10h15... Ju colocou a mão na barriga e olhou para Sofia:_ Acho que estourou._ An??_ Estourou._ Estourou o quê??_ A bolsa._ Que bolsa??_ A bolsa, Sofia!!!!Sofia arrancou os óculos, que estavam escorregando pelo nariz, e deu um pulo descontrolado da cadeira:_ Ai, meu Deus!!! – evocou enquanto corria para perto da amiga feito uma alucinada. _ Você tem certeza??? – fez a primeira pergunta cretina enquanto colocava a mão na barriga da amiga, que queria se levantar. _ NÃO!!! Não levanta!!! Meu Deus, o que se faz numa hora dessas???_ Se vai ao hospital. – respondeu Juliana tranqüilamente._ Pessoal, a Ju estourou!, quer dizer... estourou... a bolsa, a bolsa estourou!!!Os homens do editorial levantaram-se rapidamente e vieram atender uma Juliana serena. Uma das capistas abriu a agenda de Ju para ligar para seu médico e um dos meninos foi até o estacionamento buscar o carro. Enquanto isso Sofia parecia uma barata tonta, correndo de um lado para o outro... pegando a bolsa da amiga, tirando o telefone do gancho sem saber para quem ligar, perguntando se Ju estava bem..._ Sofia, por favor... controle-se. Eu só preciso que você me ajude a chegar no carro e que fique comigo no hospital. Ah! Liga para o Renato.Sofia tentou, mas esqueceu o número. Sem transtornos, o grupo de amigos chegou com Juliana ao hospital. Duas enfermeiras a colocaram em uma maca porque Ju começou a sentir fortes contrações. Sofia estava ao seu lado, segurando sua mão... totalmente desesperada._ Você ligou para o Renato?_ Pedi para a Júlia ligar... logo logo estarão aqui._ Obrigada._ Vai dar tudo certo, Ju!_ Eu sei, Sofia... acalme-se, amiga!Passaram para o centro cirúrgico e Sofia ficou para trás com o olhar aflito.Em menos de meia-hora Renato e Júlia chegaram correndo. Júlia era só felicidade e Renato pura preocupação. Conversou com o médico e pediu para assistir ao parto. Estava visivelmente emocionado... também não sabia muito bem o que fazer. A enfermeira pediu que ele vestisse a roupa apropriada para entrar no centro cirúrgico, mas ele a vestiu ao contrário. Júlia morria de rir dele e de sua namorada, que estava completamente tonta._ Vocês são muito cômicos. – disse arrumando a roupa de Renato, que, em seguida, foi com uma das enfermeiras para a sala de parto._ Amor, deixa de ser neurótica... a Ju vai ter um bebê, ela não está morrendo!_ Mas... mas... – e começou a chorar. Júlia a abraçou com carinho e foram tomar um café. O parto foi normal. Laura nasceu às 12h20 com 2 quilos e 800 gramas. Na hora Juliana sentiu a maior dor do mundo, fechou os olhos e fez força... só conseguia pensar que logo veria o rostinho de sua obra mais linda, de sua missão mais completa. Renato apertava sua mão e acariciava sua testa com os olhos cheios de lágrimas. Depois ele desmaiou. Enquanto a mão dele estava com ela, Ju queria que fosse outra, uma mais delicada, a que ela precisava naquele momento, a que lhe transmitiria o amor que ela precisava... queria que Lia estivesse ao seu lado, estivesse acariciando seu rosto e olhando em seus olhos aquele olhar seguro, tranqüilizador. “Aí tudo seria perfeito.”Quando recebeu Laura nos braços, toda a sua sensibilidade veio à tona num turbilhão de emoções. Chorou muito de felicidade... com certeza jamais foi tão feliz, ter Laura nos braços era o ápice do que pode existir de melhor na existência de uma pessoa. Como um serzinho tão pequeno poderia produzir tanto amor? Ju a abraçou com todo o carinho do mundo, sentiu-se tão plena que nesse momento se esqueceu completamente que nem tudo estava tão bem. Seu sorriso era tão luminoso que Renato achou que todos os seus problemas estariam resolvidos. “Laurinha chegou para iluminar nossa vida”._ Eu queria contar isso pra Lia... tenho certeza de que ela ficaria feliz... – comentou Júlia na cafeteria._ Enlouqueceu, né, Júlia?! Lia não sabe nem que Juliana esteve grávida!_ É, eu sei. Sei também que ela nunca vai nos perdoar por esconder isso. Ainda não me conformo por ter compactuado com essa mentira._ Não mentimos, omitimos..._ Dá no mesmo: é traição.Júlia levantou-se e foi até o berçário. Não aceitava ter que esconder isso de Lia, sua amiga há anos. Juliana também era... mas... não era certo, Lia tinha que saber que tudo entre elas terminou por conta da gravidez de Ju, mas que Ju ainda ama desesperadamente Lia e que se afastou para não a magoar tanto por conta de uma traição..._ Será que qualquer tipo de traição é imperdoável? – perguntou-se baixinho enquanto tentava identificar Laurinha entre as demais crianças. Do outro lado, Lia dormia profundamente, tão fundo quanto um porre pode afundar. Só se lembrava do momento em que retornaram para o casarão, muito tarde, depois de horas de besteiras ditas, de risadas dadas... As pessoas já as procuravam preocupadas e David, quando as viu, não demonstrou muita receptividade. Lia teve seu primeiro momento de puro prazer, de descontração, de uma alegria verdadeira. Adorou conhecer Iza, tão divertida e inteligente... conversaram durante horas sobre diversos assuntos: música, cinema, livros, e perceberam que tinham gostos muito parecidos, mas, ao mesmo tempo, Lia sentia que eram extremamente diferentes no que diz respeito à personalidade, ao temperamento. O senso de liberdade de Iza era tão grande que passava a impressão de descomprometimento, de uma certa irresponsabilidade. Talvez estivesse aí o grande mistério de Izabela: ela realmente era a irresponsável que suas tias de Natal pensavam ou não era nada do que sua aparência pudesse dizer? “Acho que quero desvendar o mistério que é Izabela”.Ela mal se lembrava como chegaram em casa, nem as horas... nada. Nem tomou o planejado banho... deitou-se por “um minuto” e lá ficou por 14 horas.Sonhou com uma criança que corria em sua direção. Era uma menininha linda de olhos claros e cabelos castanhos. Conforme se aproximava, seus traços se tornavam mais nítidos e Lia tinha a impressão de conhecê-la; mas, quando Lia abriu os braços para esperar pela criança, a menininha desviou-se dela e abraçou a mulher que estava imediatamente atrás de Lia: era Juliana.Assustou-se e sentou-se repentinamente na cama. Mas, antes de descobrir o que aconteceu, sentiu tudo rodar e saiu correndo para o banheiro: “Porre dos infernos!!!”, pensava enquanto o álcool saia... vocês sabem por onde.Abriu o chuveiro, arrancou a roupa amassada e mergulhou na água quente, fechou os olhos, apoiou-se na parede e deixou que a ducha caísse sobre sua cabeça. “Foi um sonho, um sonho que me trouxe Juliana de volta. Será que jamais me livrarei dela?! Deus do céu!!! Ela já tem uma vida lá, eu preciso reconstruir a minha aqui!!!”, pensava indignada. Sem querer, sentiu a vontade de ligar para Júlia e Sofia e saber como Juliana estava. Fazia mais de oito meses que estavam separadas, ela havia dispensado qualquer notícia, esforçava-se tanto para esquecê-la... “aí vem um sonho estúpido e me traz ela novamente...”Vestiu-se mal-humorada e desceu às 14h para comer algo. Esperava não encontrar Rita aborrecida com ela por ter tomado um porre com sua sobrinha meio louca._ Bom dia... aliás, boa tarde. – disse assim que encontrou o casal na cozinha conversando. Foi até o armário pegar um analgésico para a dor de cabeça._ Boa tarde. Você está bem?! – perguntou Rita séria, mas não parecia zangada._ Não muito... bebi demais..._ Deu pra notar. – resmungou Ricardo ironicamente. Lia não estava para brincadeiras._ Rita, queria pedir desculpas..._ Não precisa. Você e Izabela já são bem grandinhas, sabem o que fazem. Só quero te alertar para uma coisa: Iza é um encanto, mas também pode não ser sempre uma boa companhia..._ Ihhhh, vamos parar com isso. – interveio Ricardo bem-humorado. _ Como você mesma disse, amor, as duas já são bem grandinhas e Lia precisava mesmo tomar um belo de um porre para comemorar os três meses de sucesso aqui.Lia comeu calada e voltou para o quarto pensativa. “O que Iza pode ter de tão misterioso, além da persistência em ser ela mesma? As pessoas a censuram tanto, não acredito que ela seja uma rebelde sem causa... tão doce, educada, nem disse uns desaforos para aquelas tias fofoqueiras. Eu sempre fui bem rude com minhas ‘tias de Natal’, mas Iza nem se incomoda, não se abala com comentários estúpidos, diverte-se com eles... É realmente uma mulher interessante, tem um charme, sua maneira de conversar, de fazer com que eu confidenciasse minha profunda confusão... Claro que não disse muita coisa, mas ela me passou a impressão de ser confiável. E me fez rir muito. Poderia ser uma ótima amiga... mas, sei lá... ela me chamou a atenção de uma outra maneira: ‘Girl with shoes that cut, and eyes that burn like cigarettes!’ Me atrai de alguma forma, sua liberdade, a sensação de leveza... A maneira como me olhou naquele dia no pub... Acho que a quero conhecer melhor.”_ LIA, telefone!!! – gritou Ricardo.Lia, que estava deitada na cama olhando para o teto com uma bolsa de gelo na cabeça, levantou-se num pulo – mas se arrependeu em seguida por ter se levantado tão bruscamente - e foi até o primo que estava com o telefone na mão e com uma expressão sarcástica:_ É Izabela. – sorriu maliciosamente. Lia tirou o telefone de sua mão fingindo-se de desentendida._ Alô._ Olá, bela adormecida! Qual será a boa de hoje?_ Boa? Estou péssima! – disse distanciando-se do primo. Iza gargalhava do outro lado da linha._ Esqueci de lhe ensinar um remédio tiro e queda para a ressaca... mas, não faltarão oportunidades... – disse com voz pausada no seu português com sotaque. Talvez Lia tenha percebido alguma “má” intenção por trás disso. _ Sério que não faremos nada? Amanhã preciso trabalhar, queria aproveitar o dia..._ Trabalhar? Pensei que a maioria das pessoas não trabalhassem entre o Natal e o Ano-Novo..._ Disse bem, Lia: a maioria... eu não sou a maioria...“Mais frases enigmáticas...”, pensou Lia enquanto “saboreava” a voz sonora, bonita de Iza._ Só se for um programa bem light..._ Passo aí às 8, então.Despediram-se e Lia ficou com o telefone entre as mãos pensando no que Iza poderia estar planejando quando Ricardo se aproximou em silêncio._ Parece que viu passarinhos verdes, azuis, amarelos..._ Pára, Ricardo... o que você pretende com isso? – perguntou Lia um pouco irritada. Ricardo tinha a mania de ficar vigiando seus passos e, agora, até seus pensamentos._ Quero que você conheça alguém legal._ Bom, mas parece que Iza não é considerada uma boa companhia..._ Besteira deles... Iza é uma ótima pessoa, só não faz o que todos esperam que ela faça._ E o que querem que ela faça? – “talvez eu tenha a chance de descobrir mais sobre ela.”_ O mesmo que meus tios queriam que você fizesse: namorasse, casasse, tivesse filhos, fosse submissa ao seu marido... essas coisas._ Mas... ela é... – “vamos direto ao ponto.”_ Não sei, nunca explicitou nada, mas parece que ela ficou bem interessada em você..._ Cara, você nem sabe de nada e fica profetizando... Presta atenção: pára de ficar querendo arrumar amores pra mim. No momento certo vou me apaixonar pela pessoa certa. Você é péssimo cúpido._ Você está com o humor horrível hoje, hein? Izabela olhou-se no espelho com um sorriso no rosto quando desligou o telefone. Estava em seu quarto bagunçado, com roupas espalhadas por todos os cantos, papéis e livros em cima da cama, pelo chão. A bagunça de Iza organizada por ela. Tinha acabado de acordar, vestia uma camiseta regata branca e calcinha – trajes que salientavam seu belo corpo, uma sensualidade inerente aos seus seios de tamanho médio, cintura fina, bumbum de um tamanho ideal; toda ideal no seu 1,65m... nem parecia uma inglesa em seus padrões atípicos -, colocou os óculos e apanhou um livro qualquer, folheou, mas logo parou, tirou os óculos, andou pelo quarto e parou diante da janela: “Qual será a grande confusão de Lia? Qual é a névoa que embaça aquele olhar negro maravilhoso, que ainda não brilha como deve brilhar? O que a faz sofrer tanto?”, perguntava-se enquanto olhava a rua e as poucas pessoas que passavam diante de sua janela. Espreguiçou-se, passou as mãos por sua cabeça de cabelos emaranhados... voltou-se novamente para o espelho: “Finalmente, parece que você encontrou alguém com seu nível de mistério... Mas preciso ir com calma... não posso assustá-la, nem sei se ela gosta de meninas. Na verdade, acho que não gosta, acho que ela terminou o noivado no Brasil e, decepcionadíssima com os homens resolveu passar uma temporada em Londres. Então posso mostrar a ela que há outra opção... muito melhor por sinal!”, divagava enquanto acendia um cigarro, tragava com força e observava o fluir da fumaça.
Iza chegou na casa de Ricardo às 20h30. Lia já a esperava e começava a ficar um tanto aborrecida: “Logo no primeiro encontro?!” – andava de um lado para o outro no quarto. Estava vestida casualmente, nada de grandes produções, afinal combinaram um programa leve. Na verdade, Lia queria apenas jogar conversa fora, relaxar sob as frases bem formuladas de Iza, sob seus pensamentos dignos de reflexão.

CAPÍTULO XII – RELACIONAMENTOS E NOVOS AMORES

Tinham chegado e Lia reconheceu na hora o lugar. Era o pub onde se viram e tentaram se conceituar poucos meses atrás. Ela olhou para Izabela com surpresa e Iza correspondeu com o sorriso de quem acaba de dar uma grande cartada e limpar tudo da mesa.
_ Então, que tal o pub? _ a ironia que soava da voz macia de Izabela era irresistível à verdade.
_ Ai que vergonha! _ “Meus Deus, eu estava meio bêbada aquele dia, e acho que insinuante também...!”
_ Vergonha por quê? _ o pub estava lotado e todo decorado para o natal. Sentaram em uma das poucas mesas vagas no fundo do bar e Izabela já se adiantou nos pedidos.
_ Por que você me reconheceu e não falou nada ontem. Deve ter me achado uma alcoólatra...
Lia foi interrompida com a gargalhada de Izabela.
_ Se você for uma alcoólatra, o que sou então? Não seja boba: você também me reconheceu e nada disse ontem.
_ É, isso bem que é verdade...
_ Então, somos duas fingidas e agora vamos nos divertir. Pronto, nossas bebidas.
_ Mas eu não pedi ainda.
_ Eu já pedi para nós duas: uísque, do melhor!
_ Credo! Desta vez vê se não esquece de me passar o nome dos remédios “tiro e queda”. Vou passar mal assim.
_ Relaxa, este é o segredo pra curar a ressaca do dia anterior.
_ Qual? Tomar outro porre?
_ Exatamente.
Como se controlar perto dela? Lia estava encantada com a suavidade de Izabela, com aqueles sorrisos que lhe moldavam os lábios finos e faziam um contorno vermelho mágico em seu rosto. Conversavam, riam, bebiam. A bebida acabava e pediam mais. Izabela acendeu um cigarro e soprava devagar a fumaça enquanto ouvia Lia falar de seus projetos no trabalho. Lia deu um tempo quando sentiu a firmeza do álcool na cabeça e pediu uma Coca-cola. Izabela continuou em seu uísque e parecia estar mais sóbria que qualquer pessoa naquele pub. Passava a mão nos cabelos com o cigarro preso entre seus dedos finos e muito brancos.
_ Então, por que “Izabela”?
_ Coisas do meu avô. Ele já vivia no Brasil há alguns anos e adorava o nome. Teria colocado em minha tia, se a mãe dela não quisesse tanto fazer uma homenagem à santa de devoção. Então, quando eu nasci meu pai fez o favor.
_ Belo favor. É um nome lindo. Aliás, quem era seu pai na festa ontem?
_ Ah, ele não estava lá. Ele foi com minha mãe visitar meus avós na Irlanda e passaram o natal por lá. Sabe, nós não nos damos muito bem.
_ Oh.... desculpe, eu não sabia. Se não quiser falar...
_ Não, tudo bem. Eu até gosto de desabafar um pouco. Claro, se isso não te chatear.
_ Não chateia. Gosto de conversar com você. _ “e gostei muito desse seu sorrisinho tímido que eu ainda não conhecia. Será que ela tem mais sorrisinhos na manga?”.
_ Thanks.... não é uma história longa e é recente. Meu pai queria que eu fizesse Direito ou Economia e trabalhasse no mercado financeiro com ele, mas eu resolvi fazer História para trabalhar com pesquisas na universidade. Ele não aceitou, disse que nunca gastaria o dinheiro dele com “isso!”. Então, precisei trabalhar para pagar meu curso em uma faculdade não tão boa quanto a que eu queria. Mas eu estudo muito pra não cair o nível e comecei um estágio em um museu de arte clássica, que é no que pretendo me especializar. É só. Não nos falamos muito desde então, e já tem dois anos. Tive que sair de casa para ter um pouco de paz.
_ E sua mãe?
_ Temos uma ótima relação. Ela não queria que eu saísse de casa de forma alguma. Mas eu não tive muita escolha. Ou eu ficava ouvindo eventuais piadinhas do meu pai, ou eu me concentrava naquilo que amo. Ela passou para o meu nome um apartamento até legal que ganhou como “herança antecipada” dos meus avós.
Lia tentava procurar as palavras para desfazer aquela melancolia. Izabela virou o resto do uísque e deu uma forte tragada para terminar de uma vez o quarto cigarro. Olhou para Lia, que ainda tentava juntar as letras.
_ Mas não se preocupe, estou muito bem assim. Apesar de muitos acharem que estou no caminho errado, que eu deveria ser uma expert do mercado e saber as tramas do Direito Econômico.
_ Ah, também não é assim. Pelo que vi, só as “tias de natal” é que se incomodam tanto assim. _ riram um pouco para quebrar o gelo da melancolia.
_ Você que pensa. _ Lia percebeu o olhar firme que Izabela jogou para dentro do copo vazio. Uma curiosidade coçava em sua boca. Precisava perguntar...
_ Como assim?
Lia não gostou daquele sorrisinho. Sorrisinho de surpresa, irônico, magoado.
_ Você não percebeu nada mesmo, não é? _ parou de falar por um instante e olhou para os olhos de Lia. _ Você não percebeu o jeito como tia Rita interrompeu você, tio Ricardo e eu no quarto?
Sim, Lia lembrava da cena, e no começo até ficou assustada com a frieza quando Rita os abordou e, muito mais, com a resposta da sobrinha. Mas, ainda não entendia por que.
_ É simples, Lia: Rita não gosta muito de mim. Ela é um pouco mais velha que eu e sempre teve ciúmes de mim com o vovô. Quando fiz quatorze anos, fiz intercâmbio e morei com eles no Brasil. Fiquei lá por dois anos, sempre em conflito com minha tia. Quando Rita nasceu, meu avô já tinha certa idade e a esposa dele também. Ela foi criada mais como neta do que como filha: cheia de mimos, sem muitas repreensões, sem limites definidos. Ela não gostava que eu andasse com as amigas dela, não gostava que eu chegasse perto dos meninos que ela ficava. Estudávamos na mesma sala e era visível para mim a forma como ela queria me excluir do grupo, mas ela não conseguia tirar as pessoas de perto de mim. Todos tinham curiosidades, queriam saber de tudo, sabe? Eu: a garota estrangeira... essas coisa
_ Sei como é. Também fiz intercâmbio aos dezesseis anos aqui na Inglaterra. E isso explica seu ótimo português. _ “a risadinha tímida outra vez”.
_ Então. Depois que eles voltaram para cá, acho que ela começou a ter ciúmes de mim com o Ricardo.
_ Por isso você se afastou tanto deles assim? Eu pensei que ela tivesse entrado na brincadeira também ontem.
_ Não me afastei de gram’pa por isso, mas porque estou sem tempo mesmo de ir lá sempre que quero. Mas dela e do Ricardo não tenha dúvidas que sim. Ela não entrou na brincadeira, fez que sim para não chatear o marido e não impressionar você.
_ Nossa! Agora eu me impressionei! _ deram uma risadinha e pediram outra dose.
_ E tem mais: acho que ontem a “blossom” perdeu um pouco de crédito.
Lia arqueou uma sobrancelha como se fosse o próprio ponto de interrogação.
_ Você também não deve ter reparado como meu avô não foi muito receptivo quando voltamos do lago.
_ Não.... quero dizer, sim! Isso eu repararei. Fiquei até constrangida por estar completamente bêbada na casa dele logo na primeira vez que vou lá.
_ Eu conheço meu avô, ele não estava com aquela cara por isso. Mas pelo fato de eu estar lá com você, que pela primeira vez estava na casa dele, em vez de estar com a família na ceia. Mas, ainda assim, eu acredito que a “titia” deve ter dito algo a mais para ele não nos dizer nada além de “a ceia já foi servida”. Ele teria me repreendido pelo atraso, mas também teria brincado, perguntado o que tinha achado do lago que é a paixão dele, e até comentado que somos loucas de ficar lá fora naquele gelo. Entende?
_ Tudo isso só pode ter uma conclusão....
_ A Rita não é bem o que parece ser.
Izabela a interrompeu e se adiantou na fala. Será que Lia deveria contar para ela o que Rita pensa a seu respeito? Talvez fosse melhor não. Afinal de contas, conhece a esposa de seu primo há um bom tempo e, por mais encantadora que Izabela fosse, a conhecia pouco mais de 24 horas.
_ Não sei como ela não morre de ciúmes de você com Ricardo. Vocês são tão próximos.
_ É porque ela sabe que somos mais que primos. Somos irmãos. _ e um pensamento simultâneo lhe veio: “É claro que ela também sabe que eu não gosto muito do sexo oposto para namorar”.
_ É, pode ser. Mas, então, vamos falar de coisas mais agradáveis? _ Lia compreendia a resposta de Iza, mas sentia que havia algo escondido, algo que ficou só em seu pensamento.
_ E o que é agradável para você?
Iza soltou uma rápida e sonora risada. “Muitas coisas”, disse. “Você, por exemplo, é muito agradável, até mais que agradável, eu diria”, mas não disse, só pensou. A conversa fluía. Ficaram lá por mais uma hora, entretidas com o uísque, com a coca-cola, com a conversa agradável e até com os cigarros de Izabela.
_ Está tarde. Acho que devemos ir. _ Izabela olhou para o relógio. Passa de meia-noite. _ Amanhã eu trabalho, já você, tem a semana de folga.
_ É verdade. Perdi a noção completa da hora. A conversa ficou muito agradável. Você entra que horas no trabalho?
_ Às 13. Vou ficar em casa estudando pela manhã. Estamos de recesso na faculdade.
Pagaram a conta e saíram. As ruas ainda estavam cheias de gente, apesar do frio. Os assuntos nunca morriam. Havia uma movimentação maior em uma calçada. Parecia uma boate. Izabela parou no sinal e Lia observava as pessoas entrando, dando ingressos para os seguranças, saindo. Logo percebeu que era uma boate gay. “Se ela não tivesse que ir, bem que poderíamos parar para dançar um pouco”. Só dançar, ainda era muito cedo para mais coisas, pelo menos para Lia.
_ Parece bem animado ali, não é?
_ Sim, ali é bem animado mesmo. _ Lia não notou muito interesse da parte de Izabela sobre seu comentário. Parecia aborrecida por ter que parar no sinal. Ou talvez estivesse chateada por ter que parar naquele sinal?
O sinal tinha aberto, mas Izabela não saiu. Ficou observando uma mulher que atravessava a faixa rindo muito, e abraçada a outra mulher um pouco mais nova. A feição de sua motorista mudou completamente. Ela aproximou o peito do volante como se quisesse ver melhor a cena. Algo não parecia estar certo ali. A mulher virou-se, ainda rindo, em direção ao carro e, de repente, parou de rir quando viu Izabela. Realmente algo não estava certo ali. Ficaram se encarando até o pescoço da mulher não poder mais virar. Izabela parecia nervosa, a mulher assustada. Lia olhou firme para ela.
_ Tudo bem, Iza?
_ Ah... sim, sim. Está tudo bem. Vamos embora.
Iza tentava desviar a atenção de Lia com mais conversa agradável e por um momento ela esqueceu a cena e voltou a rir. Logo chegaram em casa.
_ Adorei a noite. Quando você tiver um tempinho, poderíamos repetir a dose.
_ Ah, claro que sim. Eu te ligo e te levo em um lugar mais legal que o de hoje.
_ Certo. Então, boa noite.
_ Boa noite.
Lia saiu do carro. Era visível que Izabela não estava tão agradável quanto no começo da noite. Estava incomodada com algo, ou talvez com alguém. Antes de entrar em casa, deu uma olhada para trás e viu Iza atendendo o celular. Ela mexeu os lábios poucas vezes antes de desligar e jogar o aparelho no banco do carona. Arrancou o carro e por pouco não cantaram os pneus.

Lia trocou de roupa. Quase uma da manhã. Resolveu ligar para suas amigas e desejar feliz natal. À tarde só tinha conseguido ligar para os pais.
_ Alô. _ Sofia atendeu com uma voz de poucos amigos. Estava cheia de sono. Olhou no relógio, quase quatro da manhã.
_ Acorda, Sofia! Feliz Natal!!
Sofia pulou da cama e ligou a lâmpada. Júlia acordou em seguida para protestar a luz na cara. “É a Lia, amor!”, Sofia logo justificou a falta.
_ E aí, como vocês estão? Acabei de chegar de uma baladinha.
_ Hummm, baladinha. Com quem?
_ Com uma amiga. Só amiga, ouviu?
_ Sei. Mas me conta, como foi seu natal.
Lia falava sem parar. Estava empolgada, alegre, cheia de planos. Contou quem era sua nova amiga e suas novas descobertas sobre Rita.
_ Me deixa falar com ela também, So.
_ Lia, a Júlia quer falar com você um pouco. Beijos, amiga. Vê se liga mais vezes, só a gente que liga pra você.
_ Certo, beijos.
Sofia pôs o telefone contra o peito, virou-se para a namorada e disse baixinho “cuidado com o que você vai falar”. Júlia a olhou séria, “posso cumprimentar minha amiga?”, e recebeu o telefone. Sofia saiu do quarto e ouviu Júlia falando animadamente com Lia.
_ Jú, como está Juliana?
_ Por que você me pergunta isso agora, Lia?
_ Não sei, eu sonhei com ela noite passada. Sonhei que tinha uma menininha linda que corria para me abraçar, mas não me abraçou. Abraçou Juliana que estava atrás de mim. Acordei muito assustada.
Júlia sentiu o nó na garganta. “Meus Santos! O que adianta mentir se ela já sente a verdade?”. Pensou em falar. Ia falar, se Sofia não tivesse chegado no quarto com um copo de água na mão. Júlia teve que disfarçar.
_ Ela está bem, Lia. Está com Renato.
_ Ah tá. Eu já desconfiava que eles seriam muito felizes juntos.
“Não, minha amiga, eles não estão e nunca serão felizes juntos. Juliana precisa de você. Até Laura precisa de você! Acorda pra isso, Lia!”.
_ Mas, então, como está o trabalho? _ Júlia tentou mudar o assunto, mas a voz de Lia já não era a mesma.
Conversaram mais um pouco. Lia tentou se animar, mas quando desligou o telefone ficou pensativa demais. Melancólica demais. Quem sabe lembrar da ótima noite que teve não ajude a melhorar um pouco. É, um pouco ajuda, mas não apaga a lembrança de Juliana. Não desmancha de sua mente a imagem dela e Renato, como um casal feliz.

_ Izabela. Que bom que você veio. _ a mulher do sinal estava pálida, receosa. Trouxe uma bebida para Izabela.
_ Pode guardar a bebida para sua amiga, Nadine! Você pensa que sou idiota? Não pode sair comigo para passarmos o natal juntas, mas veio aqui, uma boate gay, com uma sujeitinha que nunca vi na minha vida! Acho bom a gente conversar e quero explicações.

(continua com Mari Cortez...)


CAPÍTULO XIII – FRAGMENTOS DOS ÚLTIMOS ACONTECIMENTOS

_ Cuidado. Ela dormiu.
Laura tinha chorado muito naquela noite e Renato foi cuidar da filha. Quando Juliana chegou no quarto, ele estava sacudindo de leve o bebê todo embrulhado nos braços. Quando Renato olhava para Laura, seu rosto ficava mais doce que o habitual, iluminava-se de tanto amor. Era um pai nato.
_ Deu muito trabalho desta vez? _ Juliana sussurrava enquanto a tomava com cuidado dos braços dele e a ajeitava dentro do berço.
_ Nada. Não me importo de perder algumas horas de sono pra ficar com nosso bebê.
Juliana ainda estava em pé do lado do berço e sentiu os braços de Renato em sua cintura. Estava tão encantada olhando aquele serzinho dentro do berço, chupando o dedinho, que não se importou com o beijo demorado que ele deu em seu pescoço. Ao contrário, estava agradecida por aquele momento e retribuiu segurando as mãos dele em sua cintura.
Ficaram por mais algum tempo imóveis, observando em transe as feições de Laura, antes de irem se deitar. Dormiram abraçados, como de costume, mas naquela noite Juliana quis ser abraçada.


_ Então é isso? Você quer terminar quase um ano de namoro por conta de um mal-entendido?
Izabela não podia suportar o cinismo e a cara-de-pau de Nadine. Por pouco não a expulsou aos gritos de seu apartamento. Mas, manteve a calma e tentou ser a mais fria possível.
_ Escuta aqui: eu te vejo cheia de intimidades com outra em uma boate gay, em pleno natal sendo que você se recusou a sair comigo porque disse que iria viajar para a casa de seus pais. Agora, se você acha isso pouca coisa, então temos visões muito diferentes mesmo.
Nadine ficou em silêncio, dessa vez ela não escaparia. Tinha feito coisas parecidas outras vezes, mas nunca tinha sido descoberta. Gostava muito de Iza, talvez até a amasse, mas não conseguia ser fiel. Viu quando ela se levantou e foi em direção ao quarto. Pensou em segui-la e tentar resolver tudo na cama, mas a situação era muito grave para ela e conhecia a seriedade da namorada. Depois de alguns minutos Izabela voltou com uma sacola.
_ O que é isso, Iza?
_ Todas as suas coisas que estavam aqui. Não quero mais olhar para tudo isso e me lembrar de você. Se possível, não quero mais te ver também. Agora se você me dá licença, quero salvar o meu natal e ter um ótimo ano-novo.
_ Por que isso tudo, Iza? Essa fala não combina com você.
_ Não combina? E o que fica melhor para mim, então? Ser uma corna compreensiva e entender a sua traição?_ começou a gritar. Detestava quando as pessoas se faziam de vítima. Detestava ainda mais o cinismo delas. _ Você sabe muito bem que sou a pessoa mais liberal do mundo, que não sou a típica namorada neurótica de ciúmes, mas tudo tem limite, Nadine. Estava na minha cara, não há a mínima condição de continuar...
Nadine saiu sem argumentar. Izabel a acendeu um cigarro e ficou na janela para ter certeza de que Nadine tinha ido embora. Estava nervosa, com vontade de chorar, mas segurou. Tomou um banho e se deitou. Ficou ainda por um tempo olhando para o teto, sem enxergar qualquer coisa no escuro, mas pensava no rosto de Lia. Queria repetir a dose, o encontro, mas não sabia como, afinal de contas, Lia viu toda a cena e percebeu o quanto ela tinha ficado nervosa. Izabela não sabia como contar e explicar para Lia o ocorrido. Também não sabia se deveria contar. Tão pouco sabia o que pretendia fazer dessa relação.


_ Então, como foi a noite ontem? Encheu a cara novamente?
_ Pra que perguntar se dá pra ver na minha cara? Bom dia pra você também, Ricardo.
_ Bom dia... quase boa tarde, na verdade. _ Ricardo lhe deu um beijo no rosto e deu a Lia uma xícara de café amargo. _ Mas, pode me contar direitinho como foi a noite.
Lia deu uma golada da bebida e fez cara de nojo.
_ Não tem mais açúcar nesta casa? Isso tá horrível!
_ Bebe que é bom!
_ Só se for bom pra fazer úlcera! Vamos, me passa o pão.
Riram e ficaram conversando banalidades. Rita tinha saído e Lia se sentia mais solta para brincar com o primo, ainda mais depois das revelações da ovelha negra da família. E, ao pensar nela, Lia imediatamente sorriu puxando um canto dos lábios.
_ Que cara é essa?
_ Credo, você tem um olho que dá até medo. Capta tudo!
_ Não é isso, é que te conheço muito bem pra saber que algo de bom aconteceu. Você não fica com essa cara há tempos. Pode falar, Iza não é o máximo?
_ O máximo eu não sei, mas ela é muito legal. Rimos muito, conversamos coisas sérias, bebemos, etc.
_ Etc? Dá pra ser mais precisa?
_ Não tem precisão, Cá. Por que você tem que achar que tem algo? Só nos divertimos e pronto, como amigas. Aliás, eu nem sei se ela gosta de mulheres...
_ Acho que sim...
_ Hã?
_ Somos bem amigos. Apesar de ela nunca ter me contado, um dia me apresentou uma “amiga” muuuito íntima, portanto...
Ficaram por mais algum tempo ali. Ricardo teve que sair e Lia ficou sozinha em casa. A cena que ela tinha visto estava na cara, agora era certo. Mesmo assim, não conseguia pensar em Iza além de uma amiga. Bem, isso era o que dizia sua consciência em voz alta, mas no fundo, a via de forma diferente.


_ Lia está saindo com alguém. – comentou Sofia à mesa com Júlia. Estavam se preparando para visitar Laurinha.
_ Isso é bom, mas acho que não a ajudará muito. – respondeu Júlia passando manteiga na torrada sem olhar para a namorada que parou com a xícara próxima da boca.
_ O que você quer dizer com isso?
Júlia deixou a torrada sobre o prato e encarou Sofia:
_ Quero dizer que não adianta Lia sair com outra pessoa se ela não consegue se desligar de Juliana. Ontem, a primeira coisa que ela me perguntou foi como Ju está e eu tive uma vontade absurda de contar a verdade.
_ Não cabe a nós fazer isso, Jú!!! Quantas vezes vamos voltar a esse assunto?! – interferiu Sofia impaciente.
_ Pra quê porra servem os amigos então?! – alterava-se Júlia. _ Sofia, a Lia sonhou com a Laurinha, sonhou com uma criança correndo pra Juliana... O que significa tudo isso??? Lia não está bem lá, nem Juliana aqui...
Sofia, calmamente respirou, tomou o último gole de café e encerrou o assunto levantando-se:
_ Vamos visitar Juliana e você não vai dizer nada sobre o que conversamos aqui, Júlia, por favor.


Iza acordou com alguns raios frios de sol que atravessavam a fresta da janela em seu rosto. Espreguiçou-se e olhou para o relógio: 10 da manhã. Tomou um banho, enrolou-se na toalha e sentou-se diante da escrivaninha abarrotada de papéis amassados. Acendeu seu cigarro matinal sem pressa. Seu primeiro pensamento foi Lia, não o término de seu namoro já desgastado e sem atrativos. “Acho que não amava mais Nadine... não doeu mais do que minha excitação em ter Lia...”, sentiu-se surpreendida com esse pensamento: “Mas, nem sei se tenho alguma chance... nem sei se ela gosta de mulheres! Eu posso estar pensando tudo errado, posso estar sendo precipitada em achar que posso tê-la... não posso me apaixonar antes de saber...”. Balançou a cabeça negativamente e olhou as anotações de suas aulas, mas não conseguia se concentrar. Fechou os olhos e lembrou-se da noite anterior, antes do incidente desagradável, quando teve os sorrisos de Lia, todas as suas frases, sua meiguice... “Preciso vê-la de novo!” – pegou o telefone impulsivamente, mas parou de digitar os números: “Não pode ser assim... calma, Iza, não seja tão impulsiva, vocês acabaram de se ver... ela precisa sentir saudades”. Iza tinha novos planos para o próximo ano: “Quero Lia, quero tirar a nuvem que embaça aquele olhar maravilhoso”.


Lia havia voltado para seu refúgio, não estava muito disposta a ser socialmente simpática. Olhava um ponto qualquer de seu quarto... estava distante, longe dali. Pensava em Juliana, na dor que ainda a invadia quando, de alguma forma, a sentia presente. Saber que ela e Renato estavam juntos a fazia sofrer... não tanto quanto antes, quando a dor era quase insuportável. Hoje sentia-se mais forte, mas queria, no fundo, que Juliana estivesse triste, sozinha... sofresse um terço do que ela sofreu. E o que a fazia pensar que não sofreu?
Enfim, o sonho, saber notícias dela por Júlia a fez lembrar e sentir ainda forte uma dor que já estava ficando pra trás. Mesmo assim estava mais resistente a ela, conseguia, depois de muito tempo, sentir-se feliz ao lado de alguém. Iza era responsável por essa recuperação, por essa nova vontade que crescia em Lia... de se apaixonar novamente. “Os momentos em que não penso em Juliana são justamente aqueles em que estou com Iza, vendo-a contar suas experiências, vendo-a sorrir e me olhar de maneira tão intensa que me desarma e faz com que eu sinta algo estranho, algo bom que me aproxima cada vez mais dela...”, pensava sorridente. “Por que não? Por que não arriscar? Eu já sei que ela gosta de meninas... mas ela pode estar comprometida com alguém... aquela garota de ontem... não sei, alguma coisa estranha aconteceu ali...” Lia se convencia cada vez mais que Iza era a cura para o seu mal e estava disposta a apaixonar-se pela rebelde mais doce que ela conheceu.
O telefone tocou.


Quando Júlia e Sofia chegaram ao apartamento de Juliana, Laurinha estava nos braços do pai. Ju estava sentada no sofá enquanto suas amigas rodeavam Renato e diziam coisas desconexas com vozes distorcidas para o bebê sonolento. Juliana achava graça em ver Júlia e Sofia babando por sua “sobrinha torta”. Adorava as duas, suas amigas queridas que estavam sempre ao seu lado. Ju sabia que a vida seria muito mais difícil sem elas, tê-las por perto quando tudo aconteceu fui fundamental para que ela se recuperasse, não totalmente, mas o suficiente para ter uma gravidez saudável e um casamento tolerável com Renato. Elas eram bem resistentes às horas intermináveis de choro e lamentações... estavam sempre por perto, sabia que estavam perto de Lia também...
Quando o trio-babação percebeu que Laurinha havia dormido, deixaram Renato colocá-la no berço. Sofia foi com ele e Júlia sentou-se perto de Juliana que dobrava as roupinhas que havia ganho das amigas.
_ Como você está, amiga? – perguntou Júlia.
_ Há muito tempo não me sinto tão feliz, Jú. Ter a Laurinha aqui é demais... ela é a minha vida.
Júlia sorriu e segurou a mão de Ju que se derretia em corujices. De repente se deu conta do quanto a amiga havia mudado: de garota impulsiva, extrovertida, ativa a uma mulher séria, um pouco melancólica mesmo quando dizia estar muito feliz. Não era a Juliana que conhecia.
_ Como está você e o Renato?
_ Bem. Agora temos uma filha... é um motivo muito forte pra tentarmos.
Júlia não resistiu:
_ Ontem conversamos com Lia. – parou para observar a reação da amiga e viu seus olhos brilharem de curiosidade, apesar de ela tentar disfarçar.
_ E como ela está?
_ Disse que está bem... conheceu uma pessoa... – sentiu Juliana suspender a respiração, encará-la quase com olhos de desespero.
_...
_ Disse que é apenas uma amiga, mas não sei... – Ju continuava muda, meio atordoada. Foi então que Júlia aproximou-se ainda mais da amiga e apertou mais forte sua mão: _ Ju, a Laurinha já nasceu... está na hora de pensar em você, do que você precisa pra ser realmente feliz.

(continua...)


CAPÍTULO XIV – JOGOS DE SEDUÇÃO

Lia aproveitou seus dias de folga para ler, deixar suas anotações em dia e conversar muito com Ricardo. Também começou a reparar mais em Rita e, em alguns pontos, concordou com as observações de Iza. Às vezes, tinha a sensação de que a prima estava incomodada com sua presença, mas logo refutava essa sensação diante de algum sorriso ou brincadeira da parte dela. Mas, voltando a Iza... a garota rebelde havia sumido, não ligou desde o natal, ou seja, fazia cinco dias que não se falavam. Lia pensou em ligar, retribuir o convite para sair... qualquer coisa desse tipo, mas desistiu... pensou demais. Pensou na possibilidade de estar usando ela para esquecer Juliana, na possibilidade de se abrigar e se esconder atrás de alguém forte para escapar dos próprios problemas... Pensou e chegou à conclusão de que Iza era muito legal para ser apenas um divertimento, uma “válvula de escape”, um estepe... “ela não merece isso...” Mas, também pensou que tudo poderia ser muito divertido se ficasse claro que não haveria compromisso. Quando ficou feliz com essa possibilidade e quis ligar, o telefone tocou:
_ Lia?
_ Iza?
_ Como passou esses dias todos sem mim?
Lia adorou ouvir aquela voz insinuante, meio risonha, meio rouca de quem havia acabado de acordar.
_ Tenho que confessar que sem você por perto meus dias andam um tanto entediantes... – riram e ficou no ar o silêncio denunciador de um embaraço eminente. Sabe quando duas pessoas “flertam” e tentam pensar rapidamente na próxima fala para que o diálogo se torne um jogo gostoso de insinuações? Pois é, elas brincavam disso e, como ambas eram muito inteligentes, ainda não se podia dizer quem era a melhor.
_ Acho que você precisa de alguém que agite sua rotina...
_ Acho que é preciso que a pessoa certa agite minha rotina...
_ É preciso um talento especial para se agitar uma rotina...
_ Então preciso da pessoa certa com um talento especial...
_ Eu sou essa pessoa. – arrematou Iza com charme e uma determinação desconcertante, deixando Lia, do outro lado da linha, um pouco sem-graça e ao mesmo tempo excitada, mordendo o canto da boca e pensando rapidamente no que poderia dizer depois disso. Ela já sabia que Iza gostava de garotas e agora tinha a nítida impressão de estava sendo testada.
_ Como pode garantir? – voltou ao “jogo”.
_ Posso te mostrar.
Iza sorria e esperava a próxima deixa daquela garota que a estava tirando do sério. Precisava de uma vez por todas saber se teria alguma chance real de beijo na boca com Lia. Ainda não tinha certeza se estava apaixonada ou se o que sentia era uma atração irresistível por aquela boca bem contornada por batons de tons claros e olhos grandes que diziam sempre mais do que suas poucas palavras. Pelo tom das respostas de Lia tinha quase certeza de que poderia ir em frente...
_ Você não parece muito disposta a isso...
“Como não???”
_ Como não?
_ Desapareceu por dias...
“Hummm, sentiu minha falta...”
_ Estava um pouco ocupada com projetos para tirar alguém da rotina. – na verdade, Iza queria muito ter ligado, contado o que estava se desenvolvendo nela, em seus pensamentos um tanto confusos, porém, muito mais ousados. Até ligou para ela um dia depois do natal por um impulso condenável. Desligou quando ouviu o primeiro “alô” doce de Lia.
_ Espero que tenha conseguido seu intento. – Lia brincava, passeava pelo quarto e sentia seu corpo arder pela primeira vez depois de muito tempo. Agora tinha um foco nítido... um que não fosse Juliana.
_ Ainda não sei se consegui. Preciso testar... quer ser minha cobaia?
_ Vai doer?
_ Te garanto que não... Podemos fazer algo hoje à noite, preparo minha receita para tirar alguém da rotina aqui em casa. Cozinho pra você.
“A garota rebelde tem dotes culinários?! Interessante...”
_ Não sabia que tinha dotes culinários...
_ Você não sabe de muita coisa sobre mim...
Combinaram às 8 da noite. Lia iria até o apartamento de Iza disposta a se divertir, disposta a relaxar na companhia de alguém agradável, que a fazia rir, a fazia sentir-se leve e à vontade.


Já era muito tarde quando Laura começou a chorar e Ju levantou-se para vê-la.
Curvou-se diante do berço e balançou delicadamente o bebê que voltou a dormir. Permaneceu ali, puxou a cadeira e sentou-se para observar melhor a filha. Sua camisola um pouco larga, seu cabelo bagunçado e sua expressão melancólica, mesmo com um sorriso terno nos lábios e olhos brilhantes que refletiam o amor que sentia por Laura, não disfarçavam a mulher triste em que havia se transformado Juliana. Ela sabia disso... sabia que havia mudado muito, que deixou de se importar consigo... que não enxergava mais grandes perspectivas de melhora.
A conversa rápida que teve com Júlia a angustiou, fez com que se sentisse pior... quando Júlia contou que Lia havia conhecido outra pessoa teve vontade de mandá-la sair aos berros, de ligar para Lia e dizer desaforos... teve uma enorme vontade de chorar, esmurrar a porta, gritar, bater em si mesma.
“_ Ju, a Laurinha já nasceu... está na hora de pensar em você, no que você precisa pra ser realmente feliz.” – foi a última frase que Júlia disse antes de Sofia aparecer e fazer com que ambas mudassem o rumo da conversa.
Levantou-se e foi enxugar as lágrimas próxima à janela, abriu-a para que pudesse sentir a brisa da noite, a brisa que pudesse varrer sua tristeza e trazer lucidez ao seu coração tão apertado e aos seus sentimentos tão confusos. “Eu queria tanto que desse certo com Renato... Lia já tem outra pessoa, preciso reconstruir minha vida... Tenho que me conformar, tenho que me desligar dela de uma vez por todas...” – doía em Ju pensar na possibilidade de nunca mais ver Lia, nunca mais encontrar aqueles olhos que ela tanto amava. Suas lágrimas escorriam embaçando suas vistas. Atrás dela o berço embalava Laurinha, e, mais atrás, dormia tranqüilamente seu marido. Não muito longe dali dormiam Júlia e Sofia, ou melhor, Sofia dormia agarrada a Júlia que pensava na obrigação de fazer algo a respeito da separação das amigas: “Ju precisa voltar a ser quem sempre foi.”


Lia contou para Ricardo seus planos e os dois vibravam como adolescentes que tramavam um esquema amoroso. Estavam na sala sentados muito próximos conversando baixo, quase em cochichos. Lia confessou seus reais interesses em Iza e achava que Iza também tinha segundas, terceiras, quartas intenções com relação a ela.
_ Você sabe que quero te ver feliz, não importa como.
_ Sei disso, Cá... você é meu amor... – e abraçou o primo com força e assim ficaram por um bom tempo. Ricardo a enlaçou pela cintura e beijou seu rosto com carinho exatamente no momento em que Rita abriu a porta e ficou paralisada diante da cena. Ricardo se desvencilhou rapidamente da prima e sorriu amarelo para a esposa que, imediatamente, fez cara de poucos amigos.
_ Oi, amor... eu te ajudo. – foi em direção de Rita e tomou dela alguns pacotes de supermercado. Lia não entendeu aquela cena e permaneceu imóvel de frente para a “prima” que simplesmente virou as costas e saiu para a cozinha.
Lia achou aquela reação muito estranha, ainda mais porque Ricardo tentou disfarçar a cena de dois primos que se abraçavam com carinho. “Não é possível que ela tenha enxergado malícia num abraço fraterno!”, concluiu sentando-se na escrivaninha da biblioteca. Logo em seguida ouviu fragmentos de vozes alteradas, uma discussão abafada por uma porta fechada. Levantou-se e aproximou-se da porta da biblioteca para tentar escutar a briga.
_ Faz algum tempo que estou de olho nela!
_ Pára com isso, Rita!!! Você está louca?! Do que você está falando???
_ Eu não sou boba, Ricardo... não sou boba!!!
_ Pelo amor de Deus, fale mais baixo!
E a partir de então Lia só pôde ouvir palavras soltas como: “engana”, “folgada”, “abraços...”. Estava claro que era uma briga por sua causa. Ficou chateada, pensou em ir até lá e se explicar, “mas, explicar o quê?”. Indignou-se, teve vontade de brigar com Rita: “como pode pensar qualquer coisa a respeito de minha relação com Ricardo?!”, andou pela biblioteca e achou-se a pessoa mais inocente do mundo por não ter percebido antes que não estava sendo bem-vinda na casa dos primos. “Vou procurar um lugar pra ficar, chegou a hora de sair daqui.” Mas não seria naquele dia... primeiro queria pensar no encontro que teria com Iza.
No apartamento, Iza preparava os últimos detalhes do jantar. Em seguida foi se aprontar, tomou um banho demorado e colocou um vestido preto, simples e com um decote insinuante, que realçava sua pele alva e seus seios fartos. Parou na frente do espelho e passou os dedos por seus cabelos curtos de modo que ficassem espetados, passou seu perfume favorito, o batom que mais combinava com ela e analisou-se com humor: “eu me pegaria hoje!”
Lia vestiu jeans, blusinha, bota e jaqueta bem quente para ir à casa de Iza. Saiu com o cabelo ainda molhado. Sentia-se bonita, sabia que era uma morena que chamava a atenção... ainda mais em Londres, lugar em que seu biótipo era considerado um tanto exótico: morena dos quadris largos... corpo vulgarmente conhecido como “violão”. Hoje ela fazia questão de saber disso, saber que era mesmo uma mulher muito bonita.
Saiu de fininho, não queria estragar sua noite com Iza por conta de aborrecimentos com uma prima neurótica: “esse probleminha ficará pra depois”. Conversaria com Ricardo, com a própria Rita se fosse preciso... sairia logo dali, alugaria uma casa próxima ao trabalho. “Tudo dará certo!”. Passou em uma loja de conveniências e pegou uma garrafa de vinho, mas pensou na autenticidade de Iza e decidiu levar uma tequila.
Quando a mulher-autêntica abriu a porta de sua casa, ambas, por um momento, perderam a fala. Olharam-se com desejo... parecia que era a primeira vez que se encontravam. Mas, na verdade, isso também aconteceu no dia em que se conheceram, um choque agradável, um reconhecimentos instantâneo.
_ Ops, desculpa... entra! – saiu Iza do caminho de Lia para que entrasse.
_ Trouxe algo para nós...
Iza pegou a garrafa das mãos de Lia e começou a rir:
_ Uau!!! Isso me parece bem significativo... Acho que ficaremos bêbadas! – sorriram e seus olhares não eram os mesmos. Incrível como ambas já sabiam o que queriam naquela noite.
Tudo transcorreu como o esperado pelas duas. Jantaram, conversaram trivialidades e fizeram jogos de sedução. Lia conhecia um pouco mais Iza, descobria que era uma mulher muito sensível, observadora, mas que isso não ofuscava sua força, sua segurança. Iza tinha desenhos lindos, captava algo muito delicado naquilo que pintava; também escrevia e, em poucas palavras, conseguia transmitir a complexidade de um sentimento, de emoções que não falam, mas que falavam por meio de alguns de seus poemas. Ela sorria diante dos elogios entusiasmados de Lia.
_ Eu não me importo.
_ Como assim?! Você deveria publicar, mostrar às pessoas o que você faz!!!
_ Não quero, não sinto necessidade de expor... eles são suficientes pra mim, para o que eu sinto. Eu os mostro para muito poucas pessoas.
_ Obrigada por me mostrar.
Iza sorriu com o canto da boca e tirou um cigarro do maço. Àquela altura já estavam sentadas no tapete da sala olhando poemas, desenhos e tomando tequila.
_ Você poderia ter trazido seus anúncios para que eu pudesse te avaliar. – sugeriu Iza olhando fixamente para Lia com um sorriso safado.
_ Eles estão nos melhores outdoors da cidade. – respondeu Lia com arrogância e logo ambas caíram numa gargalhada sem fim.
_ Tenho certeza de que você é muito boa no que faz... Mesmo transmitindo um certo medo, sei que você vai em busca do que quer. – Iza apagou o cigarro que havia acabado de acender, tomou mais um gole de tequila e aproximou-se mais de Lia sem desviar seu olhar. _ Você é uma mulher admirável, encantadora e tenho que dizer que me sinto bem ao seu lado. – Lia sentiu um calor invadir seu rosto, todo seu corpo... insistiu no olhar, resistia... aquele era o momento de esclarecer algumas coisas.
_ Também gosto muito de estar com você... você me atrai de uma forma que não sei explicar... me agrada sua conversa, seu jeito...
Iza sorriu e seus olhos claros brilharam ainda mais de desejo. Aproximou-se aos poucos de Lia, olhando para a boca mais linda que já viu. Passou sua mão em redor da nuca daquela mulher e acariciou seus cabelos longos e sedosos; puxou-a delicadamente para si e a beijou com calma, deslizando sua língua sedenta pelos lábios volumosos de Lia que se deixava beijar, se entregava, permitia que seus instintos a levassem para onde quisessem. Seu coração começou a bater descompassadamente, o calor a invadia de tal maneira que se sentia molhar e o desejo a desesperava. Mordeu de leve o lábio inferior de Iza e a enlaçou com força. Roçou seu nariz em seu pescoço e sentiu Iza totalmente arrepiada, suas mãos já estavam debaixo de sua blusinha e acariciavam seus seios durinhos de um desejo prestes a explodir. Lia beijava a pele branca daquela mulher tão sensual com a intensidade de quem precisava amar novamente com urgência. Abaixava aos poucos as alças do vestido de Iza, beijando seus ombros, seu pescoço, seu colo, acariciava os bicos dos seios fartos de uma Iza entregue e ofegante de tesão: “Eu esperei tanto por isso...”, balbuciou num fio de voz no ouvido de Lia que enlouquecia. Deitou Iza no tapete e tirou seu vestido com pressa porque desejava aquele corpo, aquela mulher que surgiu repentinamente em sua vida tão monótona para torná-la melhor. Iza tinha uma expressão safada e agarrava-se a Lia com força... cravava suas unhas nas costas da amante que logo estava sem a blusa. Sem pararem de se beijar, Iza abriu o zíper da calça de Lia e afundou seus dedos em seu ponto de inundação... Lia agarrou-se a ela e gemia baixinho enquanto Iza fazia movimentos circulares em seu ponto sensível; quando Lia estava prestes a explodir, Iza parou e voltou a beijá-la com intensidade e com um sorriso malicioso nos lábios... tirou a calça de sua mulher indefesa e desceu sua boca até suas coxas grossas e incrivelmente apetitosas. Lia suspirava de prazer enquanto Iza as mordia suavemente... Quando Lia não agüentava mais e implorou para que Iza a tomasse, esta a invadiu com uma língua sedenta e habilidosa, tomando do imenso prazer que Lia sentia e explodia em várias ondas que a levavam ao ápice de uma sensação sempre, sempre inexplicável.
Ainda estavam em êxtase quando Lia pediu que Iza se sentasse em seu rosto, deixasse seu ponto de prazer na direção de sua boca faminta por devorar Iza com vontade. Segurou-a com força pelas pernas e chupou Iza com desejo, olhou o corpo lindo daquela mulher que se contorcia de prazer e, quando Iza explodiu em gozo, Lia a tomou e sentiu-se como há muito não acontecia.
Fizeram amor durante toda a noite e dormiram abraçadas.

Juliana acabava de acordar de um sono pesado e sem sonhos. Olhou para o berço e viu Laurinha também despertando... sua única razão de viver.

(continua... com Mari Cortez e Lavinia Motta)


CAPÍTULO XV – CIÚMES E UMA TIA/PRIMA MÁ

Lia acordou com um beijo no canto da boca. Abriu os olhos com dificuldade por conta dos raios de sol que invadiam o quarto de Iza pela fresta da janela; sorriu ao deparar-se com um rosto iluminado, quase angelical. Iza, apoiada sobre um braço observava Lia despertar e sorria.
_ Pensei que não fosse mais acordar. – comentou Iza passando a mão pelo corpo de Lia por baixo do cobertor. Lia arrepiou-se e sorriu.
_ Não vamos começar tudo de novo, né?
Iza apertou um dos seios de Lia:
_ Por que não? – piscou tão provocativamente que fez com que Lia a puxasse para si.
_ Porque preciso ir para casa, não avisei que dormiria fora.
_ Se eu soubesse que você seria capaz de tudo isso eu a teria agarrado há mais tempo. – sussurrou Iza no ouvido de Lia, mordendo de leve sua orelha e passando a língua por seu pescoço.
_ Eu também tinha as minhas dúvidas com relação a você, mas quando a vi furiosa com aquela garota de mãos dadas com outra, aí tive certeza. – comentou Lia acariciando o cabelo bagunçado de Iza.
_ É, acho que dei muito na cara, não foi?
_ É sua namorada?
_ Ex.
Lia ficou em silêncio, pensativa. Iza continuava a beijar o pescoço daquela mulher que a enlouquecia, mas parou diante do silêncio:
_ O que foi?
_ Ela é mesmo sua ex?
Iza sorriu deslumbrantemente.
_ Sim, Lia... eu não mentiria pra você. Você acha que eu faria isso?
_ Pessoas que eu pensei que jamais mentiriam pra mim mentiram. – replicou Lia com seriedade e uma certa melancolia. Iza, apoiada no braço, desfez o sorriso e a olhou com profundidade:
_ Eu não sei o que aconteceu com você no Brasil, mas é sincero o que sinto... um carinho, uma alegria, uma vontade de estar sempre com você. Isso eu sei que é verdade.
Lia correspondeu ao olhar e quebrou o clima melancólico com um beijo sensual em Iza que se entregava, deixava-se acariciar pelas mãos exploradoras de sua menina dos olhos nebulosos. Lia afastou um pouco Iza e disse em seu ouvido.
_ Preciso ir...
Iza afastou-se e voltou a olhá-la com seriedade.
_ Um dia você me conta o que te afetou tanto?
_ Um dia eu conto. – encerrou a conversa Lia beijando o rosto de Iza e levantando-se indo em direção do banheiro.
Iza estava felicíssima. Sentia-se completa, satisfeita... Vestiu uma camiseta e foi preparar o café. Não queria pensar em nada muito sério naquele momento, queria apenas curtir aquela preciosidade que foi colocada em sua vida, aquela mulher linda e sensível, séria e sensual que a tirava do eixo, a enlouquecia de tesão. Aparentemente Lia não passava a impressão do mulherão que era... muuuito mais do que Iza esperava, e ainda estava meio zonza com tudo aquilo. Nas primeiras horas daquela manhã fria, porém, ensolarada, queria continuar com aquela sensação de leveza, a sentir as marcas que Lia lhe deixou.
No banho Lia sorria enquanto a água escorria pelo seu corpo ainda marcado pelas unhas de Iza. Ainda sentia as pegadas fortes daquela doce louca que a invadiu com tanto prazer. Iza a beijou, mordeu, arranhou e fez com que Lia se sentisse desejada novamente, fez com que sua auto-estima voltasse para seu lugar de origem. Ser cobiçada por alguém como Izabela não era para qualquer uma e Lia se sentia poderosa por isso. O prazer que aquela mulher lhe deu foi muito especial e levava Lia às nuvens, com vontade de provar cada vez mais.
Quando saiu do banho a mesa estava posta.
_ Espere eu tomar um banho que te levo em casa.
_ Não precisa, Iza...
Iza aproximou-se e tapou a boca de Lia com os dedos sobre seus lábios.
_ Imagina que vou te deixar solta por aí... – sorriu e saiu, com um charme irresistível, para o seu banho.
Enquanto esperava, andava pela casa e percebia os detalhes materiais que formavam o caráter complexo de Izabela. Seus quadros abstratos, misteriosos e ao mesmo tempo delicados e harmoniosos com aquele ambiente tão particular; sua escrivaninha bagunçada, mas coberta por papéis impressos por uma caligrafia bonita e livros de arte, história, literatura, fotografia; havia roupas espalhadas... muitas delas Lia não vestiria, mas em Iza ficavam lindas porque fazem parte de sua identidade, autenticidade. Na mesa havia cereais, chocolate, torradas e algumas frutas... tudo posto com capricho, precisão... “Como é fácil se apaixonar por Izabela...”, pensou Lia com ternura enquanto cortava na pia alguns pedaços de frutas. Estava tão distraída em seus leves pensamentos que não se deu conta quando Iza se aproximou e a enlaçou pela cintura fazendo-a, novamente, arrepiar. Ofereceu seu pescoço para que Iza o beijasse e sentiu o perfume suave de sua mulher.
Tomaram o café e conversaram trivialidades entre um carinho e outro, estavam encantadas uma com a outra, descobrindo-se na intimidade, na novidade de uma paixão próxima.
_ Quando nos veremos novamente? – perguntou Iza enquanto dirigia calmamente.
_ Podemos passar a virada do ano juntas...
_ Hummm, que ótima idéia, podemos passear, andar pela cidade, ir para meu apartamento... sempre teremos muito o que fazer lá. – piscou para Lia que trocava a estação de rádio.
_ Eu sei que é muito clichê, mas foi maravilhoso ontem... e hoje...
_ Tenho que dizer que foi muito mais do que eu esperava... – sorriu Iza.
_ E o que você esperava?
Iza parou no farol e olhou para Lia.
_ Você é linda, inteligente, agradável, tem um corpo perfeito, um sorriso encantador, mas seus olhos me passam alguma coisa triste que não sei explicar... sei lá... não achei que você fosse se entregar tanto...
_ Talvez fosse um sofrimento que me sufocava... até encontrar você. – argumentou Lia acariciando o cabelo de Iza que não entendia o que ela queria dizer.
_ Você é sempre tão misteriosa? – questionou séria.
_ Não quero te envolver nos meus problemas.
_ Eu quero me envolver com você e com seus problemas.
Lia se lembrou do que pensou um dia antes de tudo aquilo acontecer: “tudo pode ser muito divertido se ficar claro que não há compromisso. Não quero fazer Iza sofrer com minhas lembranças...”
_ Iza, precisamos conversar... eu vim do fim de um relacionamento muito complicado... e...
Iza parou o carro bruscamente.
_ O que foi?!! – perguntou Lia assustada.
_ Quero prestar atenção em você, pode me contar.
_ Não tenho muito o que dizer... só que terminei com uma garota e ainda sofro por ela.
_ E por que terminou com ela?
_ Ela me traiu com o ex...
_ E isso foi motivo para se separarem?
Lia ficou em silêncio abismada, tentando entender o que ela queria dizer com aquela pergunta absurda.
_ Você não vai me responder? – pressionou Iza séria, encarando Lia.
_ Você não acha que é uma pergunta óbvia? É claro que isso é motivo suficiente para terminar!!! – indignou-se Lia diante do tom indiferente de Iza, que bateu de leve no volante e olhou para a frente pensativa:
_ Depende, Lia... Nem toda traição é imperdoável. Você não deveria ser tão severa. – voltou-se pra ela. _ Já que sempre temos frases prontas, digo uma que é verdadeira: ninguém é de ninguém... se vocês se amassem realmente não seria uma traição boba, insignificante que abalaria a relação de vocês...
Lia estava boquiaberta:
_ Como assim, Iza? É lógico que eu a amava... senão não estaria tanto tempo sofrendo.
_ Seu radicalismo é muito mais forte do que seu amor.
_ Acho que temos pontos de vista bem diferentes...
_ Temos sim. – disse Iza com voz suave. _ Vou dizer o que penso: acho que não temos que exigir fidelidade amorosa de ninguém porque cada pessoa ama de um jeito e não significa que é melhor ou pior que o seu amor. Mas, não sei em que circunstâncias ela te traiu... pode ser que ela tenha percebido que amava o ex, ou apenas sentiu uma atração por ele, uma recaída... sei lá, mas isso não significa que ela tivesse deixado de te amar...
_ Se você fosse muito apaixonada por alguma garota, suportaria que ela ficasse com outra?
_ Se ela me dissesse que me amava e eu confiasse nela, sim... porque eu ficaria com outra pessoa se tivesse vontade, mas não deixaria de amá-la por causa disso.
_ Não consigo enxergar as coisas dessa maneira...
_ Tudo bem, não precisamos pensar igual, mas podemos falar mais sobre isso... se você quiser... – disse sorrindo seu sorriso mais terno e apertou com carinho a mão de Lia.
_ Quanto a nós... ainda estou esquecendo ela e...
_ Não se preocupe comigo, Lia. Eu sei me cuidar. – antes de ligar o carro deu um beijo delicado em Lia, que se encantava cada vez mais por aquela mulher surpreendente.
Quando chegaram em casa e Rita abriu a porta, não foram recebidas calorosamente. Rita tinha uma expressão enfezada e assim que as meninas entraram comentou com ironia olhando para Iza:
_ Lia só podia estar em sua companhia...
Ricardo desceu as escadas e já estava na sala para abafar uma discussão prestes a explodir. Mas, talvez não conseguisse.
_ Bom dia pra você também, Rita. Lia dormiu em casa, sim... acho que não há problemas nisso, não é?
_ Desde que nos avisasse, provavelmente não.
Lia, um pouco nervosa e constrangida:
_ Desculpa Rita, eu esqueci de avisar... isso não vai mais acontecer.
_ Imagina, Lia... você é dona de sua vida. – interveio Ricardo, passando o braço ao redor da mulher, mas Rita esquivou-se furiosa.
_ É dona de sua vida, mas vive numa casa onde há um mínimo de regras de boa educação.
Ricardo ficou sem reação e Lia, por um instante, também. Mas, logo se recuperou:
_ Eu já pedi desculpas, Rita... não acho que isso tenha sido tão grave assim...
_ Acho bom aproveitar esta oportunidade para deixar algumas coisas claras aqui...
_ Rita!!! – repreendia Ricardo sem êxito.
_ Como você quiser, Rita. O que te aborrece? A minha presença? – atacou Lia com determinação, fazendo com que a prima ficasse sem reação. _ Ontem ouvi uma discussão sua com Ricardo e acho que entendi que, de alguma forma, incomoda você a minha estada em sua casa. Pode ficar tranqüila, vou procurar um lugar para ficar.
_ Você não vai fazer isso. – interrompeu Ricardo já irritado com aquela situação. _ Você é minha convidada!
_ Eu sei, Ricardo, mas já faz algum tempo que percebo que a Rita já se arrependeu do convite.
_ Isso não é verdade. Só notei a sua mudança de atitude depois que começou a sair com Izabela.
_ Estava demorando... – disse em meia voz Iza, irônica irritando absurdamente Rita que investiu contra ela.
_ Toda vez que você reaparece minha vida se torna um inferno!
_ Você não acha que se importa muito comigo? Talvez, se parasse de encrencar tanto comigo sua vida andasse porque eu não movo uma palha para atrapalhar você. – retrucou Iza calmamente olhando nos olhos vermelhos de Rita. _ Você sempre se importa com coisas que não têm importância.
_ Vá embora daqui!
_ Não fale assim com ela! – interveio Lia com energia.
_ Por quê? Ela já é mais querida por você do que seus primos?
_ Isso não vem ao caso! Você está sendo injusta com ela!
_ Você não sabe do que Izabela é capaz...
Iza deu passos em direção de Rita e a encarou desafiadoramente:
_ Então diga do que sou capaz. Sou capaz de dar em cima do seu marido, de roubar a atenção do seu pai, de tirar seus amigos de você... o que mais?!
_ Parem com isso!!! – gritou Ricardo. _ Vocês parecem duas crianças mimadas, pelo amor de Deus!!!
_ Vou arrumar minhas coisas. – decidiu Lia.
_ Não. Por favor, Lia, não assim... calma. – pediu Ricardo com um olhar suplicante. Lia o olhou com carinho e reconsiderou a decisão. Sairia de qualquer maneira, mas não brigada com ninguém, afinal de contas eles a ajudaram muito no momento mais difícil de sua vida.
_ Tudo bem, Cá... vou para meu quarto e depois voltamos a conversar sobre isso. – encerrou o assunto puxando Izabela para fora de casa. Olhou firme em seus olhos e:
_ Iza, vá para casa e depois conversamos.
_ O que você vai fazer?
_ Vou descansar, pensar e te ligo mais tarde.
_ Tudo bem. Só quero que saiba de uma coisa: pode ir para minha casa se quiser. Não vou te cobrar, não vou invadir sua privacidade... se você quiser pode ir para lá.
_ Obrigada, Iza!
Lia deu um selinho carinhoso em Iza e despediram-se.
Quando entrou em casa não encontrou mais Rita... Ricardo a esperava para conversarem.
_ Lia, não queria que você ficasse chateada...
_ Não estou chateada com você, Ricardo, mas sim com Rita que me surpreende a cada dia com suas atitudes desconfiadas...
_ Ela é uma pessoa muito difícil, e quando diz respeito a Izabela então a coisa piora bastante.
_ Iza havia comentado sobre o ciúme de Rita, mas não pensei que eu seria vítima dele também.
Ricardo reconhecia o gênio forte da mulher... e não adiantaria remediar o que havia acabado de acontecer.
_ Não quero que saia daqui.
_ Isso será inevitável, Ricardo... para que não haja mais situações como essa, ou ela pense que estou dando em cima de você, assim como ela pensa que Iza faz.
_ Eu sei que Rita é difícil, mas é uma boa pessoa...
_ Não se preocupe, primo... eu também sei.
Lia subiu para descansar e arrumar as malas.

(continua... com Mari Cortez e Lavinia Motta)


CAPÍTULO XVI – O TEMPO É O AMIGO TRAIÇOEIRO

O tempo passa. Passa tanto para os acontecimentos bons quanto para os ruins. Sempre temos a impressão de que ele passa mais lentamente quando estamos numa má fase e rápido demais quando estamos desfrutando do prazer – “tudo o que é bom dura pouco” -, mas, na verdade, ele passa igual, ele é muito maior e mais poderoso do que a nossa limitada noção.
Dois meses se passaram desde que Ju soube que Lia havia conhecido alguém do outro lado do mundo, onde as horas passam diferentes, as estações do ano, os acontecimentos... Ju pensava na distância que as separavam: “além de tudo ainda estamos absurdamente longe”, pensava, às vezes, quando passava um fio de entusiasmo que quase esquentava seu sangue e a vontade de largar tudo para ver Lia tentava invadi-la... se ela não morasse tão longe. Às vezes, parecia que a chama queria voltar, como uma faísca na pólvora... mas a chama ainda não acendia e Juliana vivia uma vida entre a alegria de ter Laurinha e a tristeza de não ter Lia.
Seu rosto se iluminava diante do seu bebê, das gargalhadas gostosas numa boquinha sem dentes... seu pescoço fazia dobrinhas e Ju mergulhava o nariz naquela pele cheirosa e delicada e Laurinha ria e isso enchia sua mãe de um amor imenso. Mas, claro, era um amor muito diferente... o amor de mãe. Ainda faltava, faltava o amor de desejo, de plenitude, faltava ela sentir o toque de alguém e arrepiar de tesão, beijar e sentir-se molhar, fazer amor e senti-se flutuar em meio a um êxtase enlouquecedor que a fizesse forte... e completa. Ela só sentiu isso com Lia... e agora ela estava a quilômetros de distância, num outro continente... conhecendo “outras pessoas”. “Fiz tudo errado”, pensava, mas, em seguida, olhava para Laura e pensava que nada poderia ser mais certo.
Desde que soube que Lia estava saindo com alguém sua vida sentimental saiu do torpor e caiu na angústia. “Estava tudo indo bem, eu e o Renato estávamos até nos entendendo...”, indignava-se com a audácia de Lia de invadir sua vida mesmo a distância e destruir o futuro medíocre que planejava num casamento sem amor. Acordava muitas vezes durante a noite sufocada por uma aflição, um ciúme por alguém que não conhecia, por uma situação que não via. Passou a sentir insônia... não conseguia se concentrar em leituras, nem contar carneirinhos... apenas, somente pensava em Lia e na real possibilidade de nunca mais vê-la. Esse risco fazia com que Juliana abafasse muitas vezes o choro para que Renato não a ouvisse.
“Ela não pode ter me esquecido...”, pensava em momentos de um calor que a invadia e a fazia repetir frases feitas e inflamadas por um amor que doía pela incerteza. Pensava intensamente nos momentos de amor que tiveram; nas mãos delicadas de Lia acariciando seu corpo que estremecia; os beijos atrás da orelha; a língua contornando seus lábios; os olhos nos seus que brilhavam e diziam coisas que nenhuma palavra seria capaz de mostrar. Lia a amava, ela sabia, do seu modo possessivo, mas a amava muito. Ju pensava tão intensamente nesses momentos que se tocava pensando em Lia e saia de seu mundo para construir um mundo novo e imaginário com a ex-namorada. Porém, quando terminava de fazer amor consigo mesma, pensando em Lia, sofria com a sensação de não ter mais as impressões reais de carinho em seu corpo. Voltava ao mundo real e a angústia recomeçava.
A relação do casal estava abalada, mas Renato era paciente. Percebia a inquietação de Juliana e escutava, esporadicamente, algumas conversas da esposa com Júlia ou Sofia. No início pensou que Juliana estivesse impaciente por ficar tanto tempo em casa cuidando exclusivamente de Laura, mas, em seus momentos realistas sabia que havia o dedo de Lia naquele início de caos. Odiava Lia, tinha um ciúme absurdo... controlava-se, mas era difícil. A angústia de Juliana o invadia transformando-se numa paranóia sem fim. Quando saia para trabalhar, ficava imaginando o que Juliana poderia estar fazendo sozinha em casa: ligando para Lia, tramando com as amigas, pensando em como se livrar dele? Mas ele não desistiria assim... Fingia que estava tudo bem. Beijava a esposa com amor quando chegava em casa, falava sobre o trabalho, contava seus planos para a família. Juliana o escutava, geralmente, com um sorriso forçado e com uma indiferença indisfarçável.
À noite, na cama, ambos viravam para lados opostos, cada um com seus próprios pensamentos. Quando Renato, às vezes, tentava uma aproximação, não era feliz...
_ Por favor, Renato, hoje não.
Ele ficava furioso com a rejeição:
_ Juliana! O que acontece com você?!!! Quanto tempo faz que a gente não transa??? Você não deixa eu nem te tocar...
Ju sentia-se mal com a situação, mas, mais forte era sua angústia.
Quando revoltava-se contra Lia, achava um desaforo a ex estar saindo, divertindo-se e “conhecendo pessoas”; entregava-se a Renato e, por alguns dias, tentava construir o mundo da família convencional feliz... mas durava pouco. Logo tudo voltava à situação angustiante e o relacionamento do casal vivia num constante alto e baixo.
A algumas quadras dali, Júlia e Sofia sabiam o que se passava com Juliana, mas cada uma tinha um ponto de vista com relação a como resolver aquela situação:
_ Você sabe muito bem o que eu acho disso, Sofia. Lia precisa saber de tudo! Não podemos ser tão omissas, amor!!!
_ Mas, Juliana pediu que guardássemos segredo! Se ela quiser contar que conte por conta dela...
Júlia se irritava e tentava convencer a namorada:
_ Sofia, veja Juliana como está... ela não é mais a mesma, parece uma dona de casa frustrada, sem vida, desanimada. Por favor, amor, me ajuda a contar pra Lia que Juliana tem uma filha com Renato, mas que nem por isso deixou de amá-la. Vamos ajudá-las a resolver isso de uma vez por todas. – Sofia tentou se levantar do sofá onde conversavam, mas Júlia a segurou pela mão. _ Eu entendo que você prometeu a Juliana segredo, mas será para o próprio bem dela. Lia ainda a ama, caso contrário não me perguntaria como Juliana está todas as vezes que nos falamos por telefone. – Jú olhou bem no fundo dos olhos de uma Sofia quase convencida. _ Amor, se eu estivesse no lugar de Lia eu iria querer que minhas amigas me contassem a verdade.
Sofia soltou-se da mão de Júlia e levantou-se irritada e esbravejando:
_ TÁ BOM, JÚLIA!!! TÁ BOM!!!!
Bingo!
Júlia foi até a namorada e a beijou com paixão.


Há dois meses Lia morava com Iza.
Quantas coisas acontecem em dois meses, não é? Dois meses podem significar dois anos na vida de uma pessoa. Lia sentia-se como se morasse com Iza há anos. As duas se davam muito bem, mas era um relacionamento diferente de tudo o que Lia havia vivido até então.
Iza tinha um senso de liberdade exaltado, aflorado, desesperado... isso Lia teve que ver, entender e aceitar. Iza era diferente, excêntrica, única... solta... jamais seria de ninguém, jamais ninguém a prenderia, mesmo que fosse alguém muito amado por ela. Izabela fazia tudo com muita intensidade, vivia tudo como se fosse o último momento... ria e chorava com força... odiava com uma ira feroz, gargalhava com a maior de todas as alegrias do mundo; fazia amor com uma paixão insaciável, dialogava como a melhor de todas as amigas. Iza era diferente.
Lia se achava comum.
Iza discordava:
_ Você é especial. Você é de uma sensibilidade e doçura incríveis, Lia... uma doçura sem ser melosa. – e sorria enquanto bebia do vinho e acariciava o rosto de Lia numa noite qualquer dentro desses dois meses. _ Você é observadora, sabe o que vai dentro das pessoas, mas muitas vezes não sabe o que vai dentro de você, por isso que sente tanto ciúme, tanta vontade de prender... ter para si...
_ Você acha que te prendo?
_ Não. Não porque luto com você todos os dias pra que isso não aconteça. – as duas sorriram e embalaram num beijo que já sabiam aonde iria parar. Iza se jogou por cima de Lia que já a enlaçava num abraço sensual. Mas antes, Iza completou o que dizia: _ Mas, independente dessa luta diária, saiba que estou completamente apaixonada por você. – Lia a olhou com olhos assustados e sorriu como se não tivesse entendido o que Iza havia acabado de dizer. Mas Izabela não deu espaço para maiores e mais claras manifestações de confusão... beijou Lia com força e tirou sua roupa.
Quando Lia saiu da casa de seus primos, deixou Rita irritadíssima. A prima-problemática entendeu que a prima-visita foi uma mal agradecida, aproveitou-se da hospitalidade que recebeu para fazer contatos profissionais e amorosos e “se mandar”. Não se conformava por Izabela ter, mais uma vez, “vencido”. Essa necessidade que Rita tinha de atenção chateava Ricardo, mas não era motivo suficiente para ele não gostar da esposa e enxergar que ela não era tão boazinha como ele imaginava.
No dia em que Iza foi buscar as malas de Lia, houve uma nova discussão e a sobrinha rebelde irritou muito a tia ciumenta com ironias e uma aparente superioridade. Izabela a desafiou e isso Rita não admitia em seu mimo descabido e imaturo. Prometeu a si mesma que Izabela não seria feliz com Lia porque ela, Rita, não deixaria. Vingaria-se bem ao estilo vilã mexicana. Izabela ria, divertia-se com as ameaças patéticas da tia.
_ Vou dizer para todos quem é realmente a “blossom” do vovô David.
_ Fique à vontade titia, nunca tive pretensão de esconder nada de ninguém... diga o que quiser, não me importo.
_ Você pensa que é imune a tudo não é? Inatingível... esse seu nariz arrebitado não durará muito tempo.
Iza pegou algumas das malas e saiu em direção ao carro. Lia despediu-se de Ricardo e quando voltou-se para a prima, esta já havia saído e batido a porta atrás de si.
Estava decidida a acabar com tudo aquilo e começou a colocar seu plano em prática quando recebeu a seguinte ligação:
_ Por favor, a Lia está?
_ Quem gostaria?
_ Júlia, uma amiga dela.
Rita, rapidamente, pensava em como poderia usar aquela ligação contra Lia e Iza.
_ Lia não mora mais aqui... mora com a namorada.
_...
Pelo silêncio do outro lado da linha, Rita pôde constatar que algum estrago foi feito, apesar de ela não ter contado nenhuma mentira.
_ Posso ajudar em alguma coisa?
_ Nã... não... obrigada. – gaguejou Júlia desconcertada. _ Aliás, pode sim... pode me passar o telefone do lugar onde ela está?
Júlia desligou o telefone e sentou-se em estado de choque. Sofia estava por perto e assustou-se com a expressão assombrada da namorada.
_ Meu Deus, quando Juliana souber disso vai enlouquecer! – concluiu depois de contar a conversa para Sofia.
_ Já pensou que, talvez, Lia esteja feliz novamente e que você pode estragar tudo quando colocar Juliana novamente na vida dela? – questionou sabiamente Sofia.
_ Não sei mais o que fazer. – Júlia andava de um lado para o outro pensativa quando a campainha tocou. Era Juliana com Laurinha nos braços.
As namoradas sorriram surpresas e trocaram olhares cúmplices. Ju percebeu que talvez não tivesse chegado numa boa hora:
_ Acho que cheguei em má hora... – disse um tanto sem graça ainda diante da porta.
_ Imagina, Ju, que besteira, você nunca chega na hora errada, ainda mais quando traz essa coisinha linda. – quebrou o gelo Sofia dando um beijo na amiga e tirando a menina dos seus braços.
_ Levei Laura ao pediatra e aproveitei para passar aqui e ver como vocês estavam. Achei que estivesse na editora, Sofia...
_ Estou de folga, ando trabalhando muito ultimamente até que você volte. – sorriu e piscou para a amiga.
Júlia pediu que a visita inesperada se sentasse e conversavam trivialidades quando, repentinamente, Juliana perguntou:
_ Você andam falando com Lia?
As meninas se olharam novamente e ficaram em silêncio por instantes suficientes para que Juliana percebesse que algo estava errado.
_ Aconteceu alguma coisa?
_ Não. – disse Sofia apressadamente. _ Tá tudo bem.
_ Aconteceu sim. – contradisse Júlia cansada de mentir... e recebeu um olhar fuzilante de sua mulher. Juliana ficou parada esperando que Júlia complementasse... sua expressão já havia se transformado e agora não havia mais como recuar. _ Lia não está mais morando com os primos...
_ Não? – perguntou Juliana preocupada. _ Por que não?
Júlia olhou para Sofia, mas esta lhe virou as costas ninando Laurinha que adormecia.
_ Ela está morando com uma... amiga. – desembuchou Júlia com receio. E não foi em vão porque Juliana, instantaneamente, levantou-se e passou as mãos pelos cabelos lisos. Não sabia o que dizer... receber aquela notícia foi como ser atingida por um soco na boca do estômago. Teve vontade de atirar qualquer coisa na parede, mas não estava em sua casa. Teve muita vontade de chorar... controlou-se, mas seus olhos inundados de lágrimas não ajudaram a disfarçar a indiferença que queria mostrar.
_ Acho que ela está se saindo muito melhor do que eu... – disse, por fim, num fio de voz. Júlia não sabia o que dizer, queria ir até sua amiga e abraçá-la para confortá-la. Sofia continuava de pé observando a cena em silêncio apertando Laurinha.
_ Amiga, eu não sei dizer ao certo o que está acontecendo porque não falei com Lia.
_ Não é preciso muito para saber que ela está feliz lá... que ela se encontrou, que encontrou outra pessoa... – respondeu bruscamente Juliana enxugando as lágrimas com raiva. _ E eu aqui pensando numa maneira de voltarmos a nos falar...
_ Por que não faz isso, Ju?! Por que não conversa com ela, diz tudo o que aconteceu? – animou-se Júlia se aproximando da amiga. _ Ela ainda te ama...
_ Ama? Será? – Juliana desabou desanimada no sofá. _ Depois de tudo o que eu fiz, de tudo o que eu disse... será que ainda restou uma ponta de amor? Saber que ela já está morando com outra pessoa prova que não.
_ Calma, Ju, não é assim...
Juliana aparentemente recuperou-se apenas para que Júlia e Sofia a deixassem ir embora. Queria sair dali o mais rápido possível para poder chorar sozinha e permitir que a sensação de perda de metade de sua vida a invadisse com força e ela pudesse desmoronar em paz. Sentia-se com falta de ar, queria gritar... não agüentava mais saber das notícias por outras pessoas e não poder ver o que ouvia. Não agüentava mais a distância, não agüentava mais a vida que estava levando.
Dirigia um tanto desnorteada, mas tinha plena consciência de que havia ao seu lado a pessoa mais importante de sua vida. “Você é quem me faz ficar de pé...”, pensava enquanto olhava para Laurinha que dormia tranqüilamente. “Isso não pode continuar assim...” Estava resolvida a conversar com Renato assim que chegasse em casa. Não tinha Lia, mas tinha Laura e precisava se reestruturar emocionalmente... já que o amor de sua vida tinha ido embora, não fazia sentido tentar sustentar um relacionamento vazio. Juliana estava disposta a mudar e mostrar, de alguma forma a Lia, que também estava bem... morando com sua filha.
Inexplicável o que vai na cabeça de alguém que está perturbado... mas foi tudo isso que Ju pensou.

Júlia pegou o telefone assim que Juliana saiu do apartamento.
_ Júlia, o que vai fazer?
_ Não se intrometa... deixe eu fazer as coisas do meu jeito.
Alguém do outro lado atendeu:
_ Por favor, posso falar com Lia?
Depois de alguns instantes:
_ Alô.
_ Lia?
_ Júlia!!! Que bom falar com você!!!
_ Poderia ter ligado para passar seu novo número... – resmungou Júlia chateada.
_ Desculpa, amiga... foi tudo tão rápido e corrido que não tive tempo...
_ Sei...
_ O que foi? Está chateada comigo?
_ Um pouco. Ficar sabendo que sua melhor amiga está morando com a nova namorada pela prima dela é meio estranho.
_ Rita disse isso?
_ Disse. Não é verdade?
Lia demorou para responder:
_ É... é verdade sim, mas eu ia te ligar, íamos conversar... tantas coisas aconteceram na minha vida nesses dois meses.
_ Entendo.
_ Mas, queria que você ficasse feliz por mim... acho que começo a ser feliz novamente depois de tudo.
_ Alguém precisa ser feliz, não é? – ironizou Júlia com uma voz triste.
_ Por que está falando assim? O que aconteceu? Aonde está Sofia?
_ Estamos bem, Lia... não é de mim nem de Sofia que estou falando.
_ De quem é então?
_ De Juliana.
_...
Lia respirou e Júlia pôde ouvir. O silêncio tenso de sempre quando os nomes-chave eram mencionados.
_ O que aconteceu com Juliana? – perguntou finalmente Lia com a voz baixa.
_ Ficou arrasada quando soube que você está morando com outra mulher.
_ Você contou?
_ Ela acabou de sair daqui, Lia.
_ Mas, ela e o Renato...
_ As aparências enganam... – interrompeu Júlia. _ Lia, se você está realmente a fim de viver um relacionamento sério com esta garota, vai ter que dizer isso a Juliana, para que ela possa te esquecer de vez.

E eis que foi plantada a semente da angústia também em Lia, que desligou o telefone pensativa enquanto Iza a observava de longe... e com medo.

Júlia desligou o telefone e olhou para Sofia que estava diante dela calada com a expressão muito séria.
_ Eu espero que você saiba o que está fazendo.

(continua... com Mari Cortez e Lavinia Motta)

CAPÍTULO XVII – SE NÃO FOSSEM OS AMIGOS...

Lia colocou o telefone no gancho e, disfarçadamente, saiu da vista de Iza. Mas, na verdade, Lia não tinha conseguido disfarçar muito bem, já que não hesitou em baixar bruscamente o volume da voz quando o assunto delicado surgiu. Iza não era boba e Lia sabia muito bem disso. Também por isso queria se afastar... não tinha condições de responder perguntas naquele momento.
Sentiu emoções loucas num mesmo momento... sentiu um misto de confusão, alegria e tristeza... tudo ao mesmo tempo como se fosse uma avalanche de alguma coisa caindo sobre sua cabeça e a deixando zonza, sem saber o que pensar. Queria colocar tudo isso em ordem e voltar a ter o mínimo de racionalidade. Sentiu um calor. A sensação de ter Juliana mais perto com aquela notícia um tanto cifrada a fez tremer, mas, aos poucos, diante de algumas evidências, foi concluindo que tudo aquilo não passava de NADA... ou não.
“Juliana saiu de nossa casa naquele dia dizendo que eu a sufocava, que não agüentava mais meu ciúme, que não queria mais ficar comigo... Ela voltou para o ex-namorado dela, ela quis isso... foi morar com ele. Como agora Júlia vem com esse papinho de que ela ficou arrasada quando soube que estou com Iza? Não fui eu quem pediu para acabar com tudo, foi ela!!! E agora que estou conseguindo viver novamente Júlia tem a cara-de-pau de me dizer isso e fazer com que eu fique assim!!!” Lia pensava furiosa, chegando à conclusão de que não queriam que ela fosse feliz. Mas... “e se for verdade? E se Juliana realmente ficou abalada com a notícia? E se ela descobriu que realmente me ama tanto quanto eu a amo... amei... sei lá! Não sei mais... minha cabeça está rodando... Mas, depois de tudo o que ela me disse... pensa que é só estralar os dedos e eu estarei de volta? Não é assim, agora tenho Iza... gosto dela... eu viveria uma vida com Izabela.”
Ficou alguns minutos debruçada sobre o parapeito da sacada debaixo de uma noite de céu claro iluminado pelas estrelas e lua cheia. Fechou os olhos e pensou que aquilo não era justo. “É como se estivessem brincando comigo...” Agora que ela estava se acertando, voltando a ser quem sempre foi, ou melhor, sendo melhor do que sempre foi, pois aprendia a cada dia como ter uma relação legal com alguém, sem cobranças, sem estresses, algo indicava que as neuras voltariam. Ela sentia que gostava muito de Iza, sentia-se, na verdade, apaixonada pelo seu jeito de ser, seu desprendimento, pela sua forma de lidar com as situações. Izabela a ajudou tanto, a fez mais mulher, menos possessiva. Quando começava a amar novamente surge o furacão chamado Juliana, que há mais de um ano disse olhando em seus olhos que ela a sufocava, que havia cansado dela e não a queria mais. E Lia sofreu tanto... como sofreu... nós sabemos.
De repente sentiu um vulto se aproximar e abriu os olhos. Era Iza debruçando-se ao seu lado olhando para o céu.
_ A noite está linda hoje... – comentou acariciando a cintura de Lia que sorriu meigamente.
_ As noites aqui são maravilhosas.
_ O telefonema parece que te deixou preocupada... Algum problema? – perguntou séria olhando Lia nos olhos.
_ Não foi nada demais. Fiquei um pouco chateada por Rita ter dito para minha amiga que eu estava morando com minha nova namorada.
Iza sorriu um tanto decepcionada:
_ E não está? Isso te chateia?
Lia percebeu a gafe e tentou em tempo remediar:
_ Não é isso, Iza. Claro que estar com você só me traz alegria, mas é que eu queria ter contado pra ela, não queria que Rita se metesse em minha vida...
Pela primeira vez Lia sentia Izabela insegura, com um olhar de interrogação, com uma expressão preocupada. Porém, a “blossom” respirou fundo, olhou para Lia e a abraçou com força, passou as mãos pelas costas da namorada e balbuciou em seu ouvido:
_ Amo você.
Lia ficou paralisada... não esperava por aquilo naquela hora em que sua cabeça dava voltas e a imagem de Juliana estava clara em sua mente. Não soube dizer o mesmo... sua língua travou e sua boca cerrou de tal maneira que só pode agradecer à declaração correspondendo ao abraço apertado e um beijo carinhoso na boca de uma Iza apaixonada.
Iza pressentia o que vinha pela frente. Por isso começou desde já a lutar com as armas que tinha.


Quando Júlia soube que Juliana não morava mais com Renato foi direto para a nova casa da amiga.
_ Como aconteceu?
_ Conversamos. Foi horrível, mas teve que ser assim... não dava mais... na verdade, nunca deu. – disse Ju abatida, mas decidida. _ Só ficamos juntos porque eu estava grávida e não tinha para onde ir, mas chega uma hora que simplesmente não dá mais.
Juliana alugou um apartamento para ficar com Laura. Renato fez um escândalo, disse que iria à justiça para ter a guarda da filha: “Não deixarei MINHA filha vivendo com duas lésbicas!!!” Juliana apenas lamentou e saiu. Outra vez bateu a porta atrás de si... e foi embora. Ainda tinha quase dois meses de licença-maternidade e até lá decidiria como conciliar o trabalho e os cuidados com a filha pequena... “muitas mães têm filhos, são solteiras e trabalham fora, por que eu não conseguiria fazer o mesmo?” concluía um pouco mais calma diante de uma realidade assustadora para quem ainda não tinha nem 30 anos.
Ju havia mudado muito, realmente e finalmente amadurecido. Ela sabia disso, tinha consciência de que muito do que fazia antes hoje não fazia mais sentido. “Cresci. Já estava na hora”, pensou enquanto dirigia para o novo lar com as malas no porta-malas e Laurinha na caminha presa ao banco traseiro.
_ Agora você está livre! – exaltou-se Júlia contente.
_ Sim, estou. – respondeu secamente Juliana enquanto se dirigia para o quarto a fim de ver como estava Laurinha. Júlia foi correndo atrás sem parar de falar.
_ Isso!!! Você está livre, amiga, livre pra correr atrás do que deixou escapar, livre pra trazer Lia de volta!!! – Juliana parou de repente, no meio do caminho, e encarou a amiga séria.
_ Júlia, eu não vou atrás da Lia.
A expressão de Júlia murchou...
_ Como não, Ju?! Vocês precisam ficar juntas...
_ Nós não estamos juntas há mais de um ano!!! Eu tive uma filha e ela está morando com a namorada dela, lá na Inglaterra. Deu pra perceber como nossas vidas estão diferentes?! Não tem volta, Júlia. Não me separei do Renato para ir atrás de ninguém... me separei dele para conseguir me encontrar novamente.
Júlia encostou-se na parede desanimada... mas não totalmente.
_ Você a ama, Ju...
As amigas se olharam em silêncio e Ju encostou-se na parede diante de Júlia, elas estavam no corredor que daria para o quarto de Laura.
_ É... eu ainda amo a Lia. Mas, as coisas não são como eu quero que sejam... aprendi essa lição básica de vida muito tarde, mas aprendi. Lia não vai voltar pra mim simplesmente porque eu quero que isso aconteça... Eu disse coisas horríveis pra ela, Júlia... eu disse que não a agüentava mais, eu fiz com que ela sumisse da minha vida. Ela tem todo o direito de reconstruir a vida, mesmo eu odiando isso, mesmo doendo a sensação de perdê-la definitivamente. – as lágrimas de Juliana escorriam sem controle, mas continuava a falar com firmeza. _ Agora eu tenho Laura. Não posso simplesmente largar tudo para ir atrás do meu amor... Acabou a fase cem por cento egoísta, agora tenho uma pessoa que depende de mim para absolutamente tudo... e ela é a minha vida, a minha razão de viver. Eu não vou pedir para Lia voltar pra mim quando ela está feliz... – deu uma pausa, enxugou as lágrimas com as costas da mão, passou os dedos por entre o cabelo e continuou: _ Já brinquei muito com as pessoas, Jú... mesmo quando essa não era a minha intenção. Terminei com o Renato quando já tínhamos anos de namoro pra ficar com a Lia; depois deixei Lia pra voltar com Renato, mesmo que não fosse o que eu queria, mas fiz ela achar que era isso; agora deixo Renato novamente... você há de convir que seria muita cara-de-pau minha ir atrás da Lia.
Júlia desencostou-se da parede e abraçou forte Juliana que desabou num choro sentido, como se lavasse a alma. Ficaram assim por instantes intermináveis, mas que Juliana queria que durassem... era bom sentir o abraço de alguém como Júlia, que queria tanto o seu bem.
_ Há mais de um ano eu abraçava Lia assim... – comentou nostálgica e sem um mínimo de tato. Juliana voltou a chorar e a apertar ainda mais a amiga.

Dois meses se passaram...

Alguns amigos são mais que irmãos, se fossem irmãos não seriam tão amigos. Alguns amigos nos querem tanto que sempre estão dispostos ao sacrifício... é um amor, um laço forte que se firma para uma vida inteira e nada nem ninguém desata... porque amigo de verdade é como uma casa, um porto seguro.
Sofia conseguiu dar um jeito numa situação que poderia se complicar. Trocou de horário na editora, passou a entrar no período da manhã e Juliana no período da tarde... tudo isso para que Laurinha pudesse ficar com ela. No início, Ju não quis, disse que colocaria Laura numa creche. Sofia se sentiu ofendida:
_ Você acha que EU não tenho capacidade pra cuidar de minha afilhada?!
_ Opa, opa!!! Vamos com calma!!! Quem disse que a afilhada é sua? – esperneou Júlia assim que ouviu o início da conversa. Juliana sorria.
_ Eu ficarei com ela todos os dias por meio período, portanto, nada mais justo... eu serei a segunda mãe de Laurinha...
_ Nada disso! Enlouqueceu?!! Laura será dividida em partes iguais...
_ Gente. Pára. – interrompeu Juliana divertida. _ Laura não pode ser divida, mas pode ser das duas, ok?!
_ Bom, mas... voltando. Juliana, se você não concordar com minha idéia nossas relações estarão irremediavelmente rompidas.
Foi assim que Laurinha passou a ser integrante oficial do lar das namoradas mais harmoniosas do mundo: Júlia e Sofia. Desde que voltou a trabalhar, Ju vivia mais na casa das amigas do que no seu apartamento.
Evitava saber notícias de Lia. Sabia que as amigas sempre falavam com ela, mas preferia ficar distante já que estava disposta a viver só para Laura.


Do outro lado, Lia trabalhava muito em uma campanha publicitária voltada ao público latino. Era chefe de criação e vivia exausta, porém, satisfeita com os resultados e com o sucesso. Mal tinha tempo de pensar... e achava isso ótimo. Assim não teria tempo de pensar em Juliana nem nos telefonemas que sempre recebia de Júlia e Sofia dizendo que a ex-namorada havia se separado de Renato. Mas, havia algo mais que elas nunca diziam... sentia que escondiam algo, que os silêncios que faziam em determinados pontos da conversa eram tensos.
_ Você tem algo pra me contar, Jú?! – perguntou da última vez em que se falaram. E Júlia demorou a responder.
_ Não, Lia... tá tudo bem.
Um dia, Lia foi até a casa dos primos fazer uma visita, pois, mesmo não gostando de Rita, não podia simplesmente esquecer que ela também a acolheu quando mais precisava e... a casa também era de Ricardo, seu querido irmão.
Conversavam muito, encontravam-se para que Lia contasse as novas e falasse do quanto estava bem com Iza, mas – sempre tem um “mas...” – estava confusa com os telefonemas das amigas dizendo que Juliana havia se separado e tinha ficado péssima quando soube que ela, Lia, estava namorando. Numa dessas conversas:
_ Você não tem vontade de voltar pra Ju?! – perguntou Ricardo observando as expressões da prima.
Lia sempre hesitava ao responder. Ficava inquieta, levantava-se, coçava as mãos...
_ Não sei, Cá... não sei. Estou tão dividida que não sei mais de nada.
_ Você ama Izabela?
“Essas perguntas são muito difíceis, Ricardo!!!”, pensava Lia sem conseguir tirar a névoa de dúvidas que pairava sobre seus sentimentos.
_ O que sinto por Iza é muito forte, mas não é amor... ainda. Acho que seria, se eu não estivesse tão atormentada pela presença constante de Juliana, mesmo a distância. – respondia Lia sentando-se novamente. _ Iza é a pessoa mais maravilhosa que conheço. É encantadora, é apaixonante... eu adoro estar com ela, conversar com ela, viver com ela...
_ Então está fácil de você se apaixonar de vez...
_ Sim, está...
Rita tinha chegado do supermercado há algum tempo... e escutou toda a conversa atrás da porta.
Um dia, sabendo que Lia estava na agência, ligou para Izabela.
_ Por favor, a Lia está?
Iza já conhecia aquela voz cínica.
_ Ela não está Rita, você sabe que neste horário Lia está na agência.
_ Oh... é mesmo! Havia me esquecido...
_ Posso ajudar? – perguntou Iza mais por educação do que por solidariedade.
_ Ah, sim, claro! Diga a ela, por gentileza, que Ricardo a espera outra vez para conversarem sobre aquele assunto...
Iza sorriu nervosa:
_ Que assunto, Rita? – sem querer acabava fazendo o jogo da tia-de-Natal-má porque se sentia ameaçada.
_ Não sei se devo dizer... – a voz de Rita era a da perfeita dissimulada, e Iza sabia disso, mas também tinha a impressão de que por trás de todo aquele veneno havia algo de verdade. Tentou jogar.
_ Bom, se você acha que não deve dizer, melhor não arriscar, não é? Eu darei seu recado a Lia, pode deixar. – respondeu num tom de quem encerraria a conversa e desligaria o telefone.
_ Na verdade, Lia e Ricardo andam conversando muito sobre telefonemas que ela recebe de Juliana. Quem é Juliana mesmo? A ex dela, não é?
Iza ficou calada e mordeu o lábio inferior de raiva. Mas precisava se controlar, afinal estava lidando com uma cobra.
_ Sim, é a ex-namorada de Lia... elas sempre se falam.
_ Ah é? Você sabia?
_ Óbvio que sim, Rita... Lia me conta tudo.
Rita sorriu:
_ Pode ser, minha querida... pode ser.
_ Mais alguma coisa?
_ Não. Muito obrigada pela atenção, querida. Tenha um bom dia.
Iza desligou o telefone e fechou os olhos.
“Por que Lia não me contou nada disso?”

(continua... com Mari Cortez e Lavinia Motta)

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