CAPÍTULO XVIII – QUANDO O ENCONTRO ESTÁ PRÓXIMO
Lia chegou cansada depois de mais um dia de trabalho pesado na agência. Estava esgotada, passava quase doze horas mergulhada na campanha que desenvolvia. Não via o tempo passar, só quando o corpo pedia descanso é que percebia que já era noite. Estava exausta, mas, ao mesmo tempo sentia-se realizada profissionalmente. Lia era mulher de negócios, que materializava suas idéias as colocando em prática, suas ousadas sacadas eram surpreendentes e por conta delas já era uma das publicitárias mais bem conceituadas da Inglaterra. Em pouquíssimo tempo recebeu duas grandes propostas para trocar de agência, mas achava que ainda não era a hora. Sua missão era fazer desta campanha a maior que a sua agência já teve... só então pensaria em sair e ir para uma empresa maior.
Chegou mais tarde que o habitual, mas, para sua surpresa, encontrou Iza. Coisa rara. Iza conseguia sempre chegar ainda mais tarde que Lia e saia mais cedo que ela para a faculdade. Chegava faminta, alegre, contando seu dia. Arrancava a bolsa transversal do corpo, jogava caderno e livros de qualquer maneira em cima da escrivaninha e abraçava Lia, que não resistia a toda aquela “energia”. Porém, naquele dia, Iza já estava em casa e nem se virou quando ouviu o barulho de Lia chegando. Preparava uma salada na cozinha e não se moveu quando Lia a abraçou pelas costas.
_ Hummm, parece ótima! – disse Lia sorridente e carinhosa no ouvido da namorada.
Iza sentiu-se estremecer. “Que poder essa mulher tem sobre mim!”. O toque de Lia a anestesiava, sentia-se indefesa, totalmente volúvel, à mercê das carícias da namorada. Lia mudou sua vida, pela primeira vez sentia-se presa por alguém que realmente amava... e com tanta força... e pela primeira vez sentia medo de perder alguém. Esse medo da perda transforma pessoas e Izabela sentia essa mudança em si; sentia-se insegura, carente, frágil. Ela estranhava essa situação inédita, descobria, aos poucos, que havia a face obscura do amor. Ela desvendava esse lado, aprendia cada vez mais com Lia sobre si mesma. Quem era Izabela de verdade? Ela não era tão “liberal” assim nem se conhecia como imaginava.
Teve forças o suficiente para não explodir com Lia, para não bater nela, porque sua raiva era imensa.
_ É para o jantar. – respondeu secamente. Lia percebeu o tom estranho na voz de Iza.
_ Aconteceu alguma coisa pra você estar tão cedo em casa?
_ Não é tão cedo assim, Lia. E quem chegou tarde hoje foi você.
Lia desvencilhou-se de Iza e esperou que ela se virasse para poder explicar o motivo de palavras tão frias.
_ Por que não me contou que sua ex-namorada liga constantemente pra você? – perguntou de uma só vez assim que se virou e encontrou os olhos de Lia.
Lia franziu a testa sem entender.
_ Quem te falou isso?!! – perguntou indignada.
_ Rita. Ela disse que você sempre vai à cada dela encontrar-se com Ricardo para falarem sobre os telefonemas. – diante da hesitação de Lia em confirmar a informação, Iza se irritava: _ Rita mentiu, Lia?!
_ Não totalmente. – respondeu Lia sob o olhar exigente da namorada. Lia desviou-se dele e olhou para o chão. _ Mas, não é Juliana quem me liga, são minhas amigas. Converso com Ricardo sobre os telefonemas porque ele também as conhece... é isso.
_ E por que não me contou?! _ Iza não entendia.
_ Não é nada importante, Iza! Rita só te falou isso pra envenenar nossa relação. Me espanta muito você dar atenção às conversas dela.
Num rompante, Iza pareceu ter caído em si, desembaraçou-se do ciúme e concluiu que, talvez, estivesse exagerando.
_ Desculpa. É que fiquei chateada por saber que você não me conta algumas coisas... Eu sei o quanto sua ex-namorada significou pra você, portanto, não me esconda nada que diga respeito a mim também.
Após a primeira discussão entre as duas, Lia foi tomar um banho e Iza colocar a mesa. As duas tentaram conversar sobre outras coisas sem importância, mas o clima ficou estranho.
Lia, já deitada ao lado da namorada que dormia profundamente, pensava na conversa que tiveram: “Eu me vi ali... eu era como Iza está sendo agora... Nunca vi Izabela sentir ciúmes de ninguém.” Olhou para Iza dormindo e cogitou a possibilidade de perdê-la, de trocá-la por Juliana e sentiu um frio na espinha... um medo. “Meu Deus, que que eu faço com essa confusão em mim?! Acho que ainda amo Juliana, mas estou completamente envolvida com Iza... ela é tão linda, tão especial... Não sei o que faço com Júlia e Sofia que não param de me ligar dizendo que Juliana não está mais com Renato e que ela ainda me ama... Por que tudo isso, por que não me deixam em paz para que eu possa amar Izabela?!”
No outro dia, quando Iza abriu os olhos, Lia estava acordada olhando para ela com um sorriso nos lábios. Iza também sorriu:
_ Que delícia acordar com olhos tão vivos sobre mim... – gracejou Iza acariciando o rosto de Lia com carinho.
_ Me desculpa por ontem. Por não te contar...
_ Te perdôo dessa vez... mas só dessa... – bocejou Iza enroscando-se no pescoço de Lia que começou a morder de leve sua orelha.
_ Tá na hora de ir para a faculdade. – sussurrou Lia no ouvido de Iza enquanto enfiava as mãos por dentro da camiseta da namorada.
_ Acho que vou perder a primeira aula...
Juliana foi recepcionada com flores e muitos mimos para Laurinha. Ju sempre foi querida na editora, seus colegas gostavam de seu jeitinho meio louco e imprevisível de ser. Mas, já fazia algum tempo que ela não tinha mais a mesma disposição. Ficou feliz com a recepção dos amigos e, de cara, participou, munida de bloco de anotações e caneta, de duas reuniões importantíssimas que diziam respeito às novas metas da empresa e à entrada de uma nova linha editorial. Juliana tinha que estar preparada para esta nova fase porque as capas que fazia teria que ser o diferencial dessa nova editoria. Sentia o gostinho do desafio que tanto gostava e animou-se por agarrar a oportunidade com todas as suas forças e, claro, competência. Empolgou-se e discorreu sobre idéias e projetos... todos se entusiasmaram. Sofia havia sido convocada para aquela reunião em particular e complementava as idéias... não era à toa que as duas eram consideradas parceiras de criação, sempre pareceu que uma lia a idéia da outra e a complementava.
Sofia só esperava por Juliana para dar novo gás à editora.
Um dos diretores sugeriu:
_ Vocês poderiam ser as responsáveis pelas capas dessa nova linha editorial.
Elas se entreolharam e Sofia adiantou-se:
_ Sem problemas, já temos muitas idéias para colocar em prática, só precisávamos da sua autorização.
_ Então vocês a têm. Mas, tenho uma proposta que garantirá novas idéias e um melhor desempenho para a função de vocês... – o chefe colocou a caneta no canto da boca pensativo e as duas se olharam novamente. _ Haverá um congresso sobre criação editorial na Inglaterra, reunindo profissionais de todo o mundo na área... haverá palestras, mostras, workshops, tudo voltado para editoração. Gostaria muito que vocês fossem.
Sofia mordeu o lábio inferior para não gritar de felicidade. Ficou vermelha, queria dar um beijo na boca do chefe. Olhou para Juliana com olhos faiscando, mas recebeu um balde de água fria com o comentário da amiga:
_ Você acha que nós duas precisamos ir... não basta que apenas uma vá?!
_ Como assim, Juliana?!!! – quase gritou Sofia, mas olhou para o chefe e se conteve. _ Somos uma equipe, Ju, precisamos ir juntas...
_ Mas é que a Laura...
_ Bom, isso vocês precisam decidir. Eu quero resultados. Estou oferecendo instrumentos mais do que suficientes para que vocês me apresentem um material de primeira.
Encerrou a reunião e se retirou deixando as duas na sala.
_ Puta que pariu, Juliana!!! O que você pretende, afunda com a nossa carreira?!
_ Isso não interfere na SUA carreira. – respondeu Juliana já se levantando sem dar muita importância à explosão de Sofia.
_ Pára! Senta aí que precisamos conversar. – puxou Sofia o braço da amiga para que sentasse. _ Você está louca, Juliana?! É a oportunidade ideal de você encontrar Lia!!!
Juliana não queria chegar nesse ponto.
_ Eu nem pensei nisso, Sofia! Como vou deixar Laura aqui, com apenas quatro meses pra ir para Inglaterra atrás da Lia!!! Não tem cabimento!!!
Sofia parou um pouco e pensou que, talvez, Juliana tivesse um pouco de razão.
_ Júlia fica com ela.
_ Sofia!!!
_ Claro, Ju!!! Olha só: Júlia fica com ela. Será só uma semana, Juliana... em uma semana você pode arrumar sua vida!
_ Tudo isso me parece uma loucura! – respondeu Juliana irritada saindo da sala e Sofia, atrás.
_ Antes você topava fazer loucuras para ser feliz... era capaz de tudo. – Juliana voltou-se bruscamente para Sofia.
_ Antes eu não tinha alguém que dependesse de mim. Agora eu tenho e outra... Lia está morando com outra pessoa.
_ Você se transformou numa verdadeira medrosa, covarde! – encerrou Sofia o assunto também irritada e, dessa vez, foi Juliana quem disparou atrás para tirar satisfações.
_ Eu não sou covarde! Nunca fui.
_ É sim. Desde o dia em que deixou Lia sem dizer os reais motivos. Agora fica aí, sofrendo, sem ter certeza se Lia voltaria pra você ou não. Fica aí imaginando o que pode estar acontecendo a quilômetros de distância. Se você tivesse coragem aproveitaria essa oportunidade pra tirar essa história a limpo de uma vez por todas e começar logo uma vida decente... sem falsas esperanças. – esbravejou Sofia sem meias palavras. Quando se deu conta já tinha dito tudo sob o olhar magoado de Juliana, que lhe virou as costas e voltou para sua mesa. Sofia foi para casa ficar com Laurinha e intimar Júlia a ficar com a sobrinha durante o tempo que ficassem fora.
Juliana mal voltou a trabalhar e já estava com o humor péssimo. “Que droga!!! Que liberdade Sofia acha que tem para falar comigo daquele jeito?!!!”... “pior que tem... ela me conhece, me ajuda a cuidar da minha filha...se não fosse por ela e Júlia minha vidinha medíocre estaria bem pior... Quanta confusão, meu Deus! E se eu for e encontrar Lia com a outra, dizendo na minha cara que está apaixonada e que eu não significo mais nada pra ela? Não vou agüentar, acho, sinceramente, que é mais fácil viver na dúvida do que na dor dessa certeza...”, pensava enquanto elaborava uma capa para um romance. Poderia ficar horas calada e ninguém estranharia... para todos os efeitos, estava concentrada fazendo seu trabalho. As aparências enganam mesmo...
“Mas, eu amo Lia. Eu a amo tanto que preciso vê-la novamente, preciso dizer mais uma vez olhando pra ela. Preciso saber se ela ainda me quer, se me aceita depois de todas as palhaçadas que fiz. Preciso contar sobre Laurinha, minha vida agora é Laura... meu bebê... mas, se ela aceitasse poderíamos começar novamente, com todo o amor que sempre tivemos. Não é possível que ela tenha me esquecido, não é possível que a nossa paixão tenha ficado só comigo, mesmo depois de tudo que fiz... Eu preciso dizer que sou uma estúpida, mas que a amo demais e não estou conseguindo viver direito sem ela perto de mim.”
Quando saiu da editora, passou no apartamento das meninas para pegar Laurinha, que chorava diante das caras estranhas de Júlia. Ju foi até a filhinha, que, assim que a viu, desmanchou-se num sorriso encantador, e Júlia indignou-se bem-humorada:
_ Imagina! Eu aqui me esforçando para ela sorrir só um pouquinho e você, com essa cara enfezada, a faz gargalhar feito um anjo... que desaforo...
Juliana pegou Laurinha no colo e sorriu fazendo graça para a menina que já reconhecia a mãe com todas as suas caras.
Sofia acabava de sair do banho e deparou-se com a amiga que a olhou fixamente, ainda brava e decretou:
_ Eu não sou covarde, por isso vou com você.
Sofia atirou-se nos braços da amiga, apertando Laurinha, e a encheu de beijos. Júlia também adorou a notícia, apesar de ter ficado preocupada com a responsabilidade de cuidar de Laura durante uma semana. Mas, Juliana já tinha uma solução melhor.
_ Minha irmã ficará alguns dias cuidando de Laura no meu apartamento. Ela ainda não conhece a sobrinha e ficou feliz em poder ajudar. Eu agradeço demais vocês, serei eternamente grata por tudo o que fazem por mim, mas, dessa vez, preciso me virar sozinha.
Iza e Lia tinham acabado de chegar de uma festa. Estavam meio bêbadas e ansiosas para entrar logo em casa e irem para a cama. A festa rolou numa casa noturna GLS e após dançarem e beberem muito estavam morrendo de tesão. Já haviam dançado, conversado, beijado muito, ido para uns cantos do lugar para a pegação rolar mais quente, mas agora queriam ficar a sós, fazer as coisas que só dizem respeito às quatro paredes que nada dizem a ninguém. Estavam enlouquecidas.
Iza chegou tirando a roupa de Lia, que mordia a boca de Iza, que apertava os seios de Lia, que ria, que gemia, que sentia um prazer inexplicável. Lia derrubou a namorada no sofá e subiu nela, ficaram horas se provocando até que não agüentaram, até que fizeram amor até de manhã, até os primeiros raios de sol. Elas foram despertadas pelos toques do telefone. Lia estava mais próxima.
_ Lia?
_ Quem fala? – perguntou com a mão na cabeça e voz de ressaca.
_ Você está bêbada?
_ Não, agora é a vez da ressaca.
_ Vou para a Inglaterra.
Instantaneamente pareceu que o efeito do álcool havia passado. Levantou-se rapidamente e nem sentiu a cabeça latejar.
_ Você vem para cá? Quando, Sofia???
_ Semana que vem. Vou participar de um congresso e ficarei por aí durante uma semana.
_ Meu Deus!!! Que demais!!! Será maravilhoso ter você aqui!!! Vamos sair muito, vamos nos divertir como nos velhos tempos!!!
_ É... tenho certeza que sim.
Acertaram mais alguns detalhes de quando se encontrariam e desligaram. A amiga ficaria num hotel, mas teriam todas as oportunidades de saírem muito e se divertirem como faziam anos atrás. “Pena que Júlia não vem...”
_ Quem era? – perguntou iza sonolenta.
_ Sofia... passará alguns dias por aqui.
Iza ficou pensativa.
(continua... com Mari Cortez e Lavinia Motta)
CAPÍTULO XIX – O IMPACTO DO DES-ENCONTRO
_ Olha que lindo!
_ O que é isso?
_ Um presente “nosso” para Lia. Gostou?
Sofia estava tão nervosa com a mala que não teve muita paciência para a lembrança que Júlia comprou. Odiava malas, mas olhou e gostou do presente, um livro sobre a história da publicidade.
_ Ela vai adorar, amor. Agora, você poderia me ajudar com as roupas?
Júlia começou a fazer rolinhos das roupas de uma forma que amassasse o mínimo possível. Dava sugestões de peças, combinações e sapatos para a namorada que, entre uma dica e outra, soltava “o que seria da minha vida sem você?”.
_ Sofia, será que Juliana está preparada pra rever Lia? E pior, talvez a namorada da Lia?
_ Olha, isso é o que menos importa. O negócio é elas se verem e pronto.
A praticidade de Sofia, às vezes, não encaixava em Júlia. Ficaram um tempo quietas, até o assunto da moda voltar à tona.
_ Cadê aquele casaco de couro marrom...
Juliana também estava envolvida com sua mala. Mas, ao contrário de Sofia, não estava nervosa, estava com medo do encontro ou possível encontro.
“E se Lia não quiser me ver? Eu não tiraria a razão dela...”. Sacudia a cabeça como quem quer afastar os pensamentos ruins e “não posso pensar de forma tão negativa. Tenho que confiar em mim ou, pelo menos, na história que tivemos juntas”. E como quem acaba de ter uma visão, “preciso acreditar que ela ainda me ama!”. Mas seu otimismo não ia a tanto, “ou pelo menos se abala com minha presença... abala positivamente...”. Juliana teve os pensamentos perdidos com o telefone.
_ Renato?
_ Soube que você vai pra Londres, atrás da sua amante! _ ele estava nervoso.
_ Não, nem quero ver Lia. Vou a um congresso de uma semana. Sabe, eu penso em melhorar profissionalmente pra dar uma qualidade de vida melhor pra nossa filha. _ claro, mentia sobre não querer ver Lia.
_ Isso mesmo, sobre Laura, com quem ela vai ficar?
_ Com minha irmã que já está aqui e Júlia. Elas vão alternar os turnos e...
_ Nada disso! Com sua irmã até que vai. Lívia é uma doida, mas é direita. Agora, aquela Júlia... de jeito maneira!
_ Você é mesmo muito falso! Sempre detestou minha irmã porque a achava louca demais, modernosa demais e sempre tratou Júlia e Sofia com toda atenção... Vai ficar como o combinado: pela manhã com Júlia e à tarde com Lívia!
_ Mas, eu sou o pai e tenho direito de ficar com minha filha!
Juliana parou de falar, afinal de contas ele tinha razão e cuidava da filha muito melhor que as duas babás improvisadas. Juliana acalmou o tom.
_ Renato, como você ficará com Laura se trabalha o dia inteiro?
_ À noite. Fico com ela às noites e ainda libero a destrambelhada da sua irmã para as baladas. Ou você acha que ela ficará feliz presa em casa com um bebê que acorda chorando de madrugada com fome.
Ju não tinha pensado nesse detalhe. Às vezes, nem ela suportava levantar três horas da madrugada para dar de mamar. Renato tinha lhe acostumado muito mal. Fazia quase todo o serviço e, quando preciso, levava Laura na cama do casal para Juliana a amamentar.
_ Certo... então você fica com ela às noites.
Sem mais palavras, encerraram o assunto. Renato não agradeceu e Juliana não se desculpou. Estavam há um mês separados e, desde então, evitavam conversas. Só se viam nos fins de semana quando ele ia buscar Laura. Juliana não tinha ressentimentos, mas ele sim. Tinha ficado muito magoado quando sua mulher saiu de casa com sua filha. Sentia como se tivesse perdido as duas pessoas que mais amava de uma só vez. Ele não a olhava mais nos olhos, mal queria vê-la, muito menos tocá-la. Não por ódio ou nojo, mas por medo. Medo de se perder outra vez, medo daquela paixão nunca mais terminar, pavor de ao menor toque a chama voltasse a brilhar.
Juliana, de certa forma, tinha pena de Renato. Não por tê-lo deixado, mas por ter separado ele da filha. Apesar de tudo, ela nunca poderia ter pensado em um pai melhor para um filho seu.
_ O que foi? _ Ricardo se aproximou de Lia sacudindo o copo de uísque para ver se o barulho dos cubos de gelo a trazia de volta do transe.
_ Hamm?... obrigada. _ tomou um grande gole e ficou um tempo em silêncio movendo o gelo com o dedo dentro do copo. _ Sabe, quando Sofia disse que viria pra cá, parece que ela tinha algo mais pra dizer... parece que escondia alguma coisa que eu não pudesse saber naquela hora.
_ E o que você acha que seria?
Lia tirou o dedo do uísque, tomou outro gole e descruzou as pernas de cima do sofá. Segurava o copo firme entre as duas mãos e olhava para seu fundo como se a verdade estivesse lá.
_ Não sei, Ricardo. Como eu poderia saber?
_ Sei lá, a amiga é sua. Suponho que você a conheça...
Ela se levantou do sofá e foi em direção à janela. Olhava para fora com o copo levantado próximo à boca. Virou para o primo que acompanhava impotente seu desespero.
_ Conheço, mas... sei lá. Pode ser pura impressão, né? Afinal, eu estava numa ressaca terrível...
_ Claro. Resquícios de bebida no sangue sempre dão margem à dupla interpretação.
Riram. Por um momento, Lia tinha esquecido a impressão estranha, mas ainda tinha um nó inexplicável nas idéias.
_ Então, quando sua amiga chega?
Lia entrou no quarto para se vestir quando Izabela rodou-se na cadeira para vê-la. Algo na voz da namorada estava áspero para uma simples pergunta, mesmo com todo aquele sotaque britânico.
_ Chega depois de amanhã. Pensei que tivesse te avisado já...
_ Ah sim, disse, mas esqueci. E onde ela vai ficar?
_ Nossa, Iza! Eu já falei que em um hotel que a editora vai pagar pra ela. Você está estranha com essas perguntas... posso saber por quê?
_ Não é nada demais, só curiosidade. _ Izabela voltou-se para os livros em cima da escrivaninha enquanto Lia se vestia. Antes que a paz reinasse, virou-se novamente para a namorada. _ Aliás, pode sim. Não estou gostando muito desta história. Eu sei, pode ser paranóia minha, afinal, sua amiga vem para um congresso, coisa normal que todo profissional faz. Mas... algo me diz que ela não irá trazer boas coisas. Pronto. É isso.
Lia a olhava apreensiva. Então o sexto sentido de Izabela era muito mais forte do que ela pensava. Também sentia o mesmo, mas não seria louca de falar. Acabou de abotoar a camisa e sentou-se na cama, de frente para a namorada.
_ Não precisa ficar assim. É só minha amiga. O que ela poderia trazer de ruim? _ segurava uma das mãos de Izabela entre as suas. Uma mão tão branca, delicada... mão de menina rica, de quem nunca precisou sequer varrer a própria casa. Sempre pensou que a personalidade de Iza fosse diferente do seu corpo delicado. Mas, agora, com tamanha insegurança, percebia que a fragilidade também lhe atingia à alma.
Os olhos de Iza estavam muito brilhantes, como se fosse chorar. E, com eles ainda baixos, sussurrou “nada”. Iza sentiu um beijo selado e demorado em seus lábios fechados e ouviu Lia dizer antes de sair do quarto que talvez elas devessem ir juntas buscar Sofia no aeroporto, porque, quem sabe assim a má impressão não iria embora. Iza assentiu com a cabeça e Lia torceu para seu otimismo se realizar.
“Menti para Renato, meu ex-marido, e deixarei minha filha de pouco mais de quatro meses sozinha por uma semana.” Era isso o que vinha na cabeça de Juliana quando pensava na viagem. “Mais uma vez fazendo loucuras... acho que nunca vou aprender. Eu tinha que ficar aqui, quieta, trabalhando e cuidando da minha filha!!!”, pensava angustiada andando de um lado para outro com o coração apertado: “Parece que estou fazendo uma escolha: estou deixando Laura para ir atrás de Lia...”. Chegou a comentar sobre essa sensação com Júlia e foi, obviamente, repreendida:
_ Não tem cabimento você pensar assim, Ju... você não vai abandonar Laura, vai apenas aproveitar uma oportunidade de se esclarecer com Lia.
Era verdade. Se não fosse o congresso ela não se deslocaria para tão longe para falar com Lia – mesmo Lia sendo ponto fundamental para sua felicidade. Mas, tudo estava ali, chamando-a, oferecendo-se aquela oportunidade única. Justo ela que nunca desperdiçou chances... não poderia jogar essa pela janela. Sentia quase um desespero, resultado da mistura do medo, da ansiedade, da excitação de estar diante de Lia novamente.
_ Sofia, você avisou Lia que vamos? – perguntou quando observava a amiga fazer a lista de compras.
_ Sim. – respondeu, aparentemente, distraída.
_ Contou mesmo que vou também?
_ Sim. – respondeu sem tirar os olhos do papel.
_ Ela disse alguma coisa?
_ Não. – e encerrou: _ Amooor, você quer alguma coisa de lá? – saiu quase correndo, tropeçando nas almofadas gritando atrás de Júlia, a fim de se livrar das perguntas difíceis da amiga. Óbvio que ela mentia: Lia não sabia que Juliana iria, caso contrário não aceitaria buscá-las no aeroporto.
Juliana deixou Laura na casa de Renato. Quase recuou, desistiu da viagem para não deixá-la só. “Mas ela não ficará só, Juliana, o pai dela estará com ela!”, era o que Júlia dizia pela nonagésima vez enquanto encaminhavam-se para o aeroporto.
Renato recebeu suas instruções (horário das mamadas, do banho, de dormir...) e só. Ele não manifestou nenhum tipo de afeição por Juliana, absolutamente nada, estava completamente frio diante da presença da ex-mulher. Antes de deixar a filha, Ju a abraçou com força e chorou muito; agüentaria ficar sem qualquer pessoa, até sem Lia, mas morreria se perdesse Laurinha.
Sofia secava as lágrimas da amiga enquanto Júlia dirigia.
_ Ai, amiga, parece que não volta mais!!! Pára com isso! Será só uma semana! Você deveria estar feliz: finalmente decidiu encarar as coisas de frente, vai rever Lia, explicar o que aconteceu depois de tanto tempo...
Já no aeroporto Júlia pensou em voz alta:
_ Há pouco mais de um ano eu estava aqui com Lia, que pretendia começar uma vida nova longe daqui. Agora estou aqui com Ju, que vai em busca de Lia, a fim de voltarem a ter a vida de antes...
_ Eu não seria tão otimista... – comentou Juliana nervosíssima.
_ Amiga, confia em mim: Lia ainda te ama...
_ Espero. – Ju esfregava as mãos e andava nervosa. _ Espero que ela ainda sinta um terço do que sinto por ela.
_ Acho melhor irmos. – sugeriu Sofia após despachar as malas. Foi até a namorada e a abraçou com carinho... um abraço longo, gostoso, apertado. Um “eu te amo” sussurrado no ouvido e até Juliana se arrepiou. Suas amigas sempre foram assim, apaixonadíssimas, mesmo brigando tanto. Deram um selinho rápido, se olharam outra vez com ternura e se separaram. Sofia e Ju foram para o portão de embarque e Júlia ficou para trás com os braços cruzados e lágrimas nos olhos.
Iza andava confusa com os últimos acontecimentos. Não sabia se sentia raiva de Lia, dessa amiga dela prestes a chegar, de Juliana que, mesmo longe, nunca deixou de estar presente ou... dela mesma, Izabela, que perdia, gradualmente, o controle de tudo... de sua vida, de seus sentimentos, tudo por conta dessa paixão que a sugava com violência... e a nutria. Loucura. Geralmente é assim mesmo que acontece.
Voltava para casa depois de um dia cheio, estressante... mas manteve a calma... a essência da “blossom” continuava, felizmente, ali. Escutava música e dirigia, aparentemente, tranqüila, mas lá no fundo, lá onde ninguém vê, havia pilhas e pilhas de emoções fora de suas prateleiras convencionais. Um caos interno... e ela não estava conseguindo organizá-las. “Nunca passei por isso antes, nunca me senti tão perdida e tão ameaçada por alguém que nem conheço”, pensava enquanto percorria o caminho até sua casa, com o semblante sereno, seguro como, aparentemente, sempre foi. “Não acho justo que agora, que Lia e eu estamos bem, a ex venha se intrometer em nossa vida por intermédio de amigas em comum. Não é justo... nem comigo, nem com ela!” Estacionava o carro: “Amo Lia, não posso abrir mão dela assim... Essa garota decide aparecer novamente e estraga meu relacionamento! Que folgada!!!”, subia as escadas para o apartamento: “Acho que Lia está dividida, eu sinto isso... sei que ela ainda fica abalada quando o nome da fulana surge... Precisamos conversar, preciso saber se valerá a pena lutar por ela, se já não é algo perdido... preciso que Lia me diga o que está sentindo para eu saber o que fazer.”
Abriu a porta de sua casa e viu a mesa posta. Lia tinha acabado de sair do banho. Estava maravilhosa num vestido simples, mas que contornava seu corpo sensualmente; seu cabelo ainda estava molhado e quando sorriu ao ver Iza entrar foi como se estivesse plena de alegria e amor.
_ Cheguei mais cedo hoje, resolvi fazer uma surpresa pra você. – disse aproximando-se encantadoramente, exalando seu perfume por todos os cantos do pequeno apartamento.
Iza explodia de uma felicidade violenta e urgente; ver Lia assim, tão amorosa, a enchia de paixão, tanta que parecia rasgar seu peito. Sorriu comovida e enlaçou a namorada num beijo demorado.
_ Você é linda! – Lia colocou o dedo indicador sobre os lábios de Iza e a conduziu até a mesa.
_ Quero que essa noite seja só nossa.
Agora, Iza sabia exatamente o que fazer. Nenhuma dúvida, nenhuma confusão era maior do que aquela manifestação de amor vinda de Lia.
Jantaram um prato francês que Lia preparava muito bem. Não falaram muito, durante algum tempo olharam-se como se fosse o primeiro encontro realmente. Lia estava disposta a esquecer Juliana de vez. Sentia algo muito forte por Iza, as duas se davam muito bem e... Izabela a amava, já havia dito isso. Talvez estivesse na hora de Lia retribuir esse amor.
Adorava quando Izabela sorria, quando estava feliz era divertida, criativa, ficava inspiradíssima para pintar, esculpir, desenhar, escrever... Ultimamente percebia sua Iza tensa, mal-humorada e tinha a forte impressão de que ela, Lia, era a culpada por tudo isso. Não queria que Iza ficasse triste... não queria perdê-la também.
_ Há um motivo especial para este jantar? – perguntou Iza após o último gole de vinho.
_ Celebrar nossa vida juntas... ainda não tínhamos tido uma comemoração assim... – respondeu uma Lia meiga, que enlouquecia Izabela prestes a atacá-la.
“ ‘Celebrar nossa vida juntas...’ Isso é um ótimo sinal”, pensou Iza puxando Lia pelas mãos para o quarto. Olhou bem nos olhos da namorada e disse baixinho em seu ouvido:
_ Você é especial... adoro você!
Lia a abraçou pela cintura e a olhou divertida:
_ Não me ama mais?
Iza sentiu seu coração disparar. Dizer isso mais uma vez sem receber um “eu te amo” em troca era dolorido, era como se ela amasse sozinha... não fosse suficientemente correspondida. Mas, em questão de segundos, pensou que não poderia esconder o que realmente sentia, que não poderia jamais negar a ela mesma esse amor que a invadia e a tomava completamente.
_ Sim, eu amo você.
Os olhos de Lia brilharam e ela começou a desabotoar a camisa de Iza. Jogou-a na cama e deitou-se por cima dela com um sorriso malicioso. Izabela deixava que Lia fizesse com ela o que quisesse... sentia-se dela, totalmente entregue às carícias da namorada faminta, ousada, cheia de desejo.
Fizeram amor a noite inteira.
Ainda estavam acordadas quando o dia surgia devagar pela janela aberta. Iza estava deitada sobre o ombro de Lia, que fazia carinhos em seu rosto, cabelo, corpo. Ficaram em silêncio minutos intermináveis de uma contemplação mútua da noite maravilhosa que tiveram.
_ Eu nunca disse que te amo. – repentinamente disse Lia quebrando aquele silêncio mágico. Iza continuou quieta... não tinha o que responder diante de uma afirmação fria. _ Eu ainda não sei o que sinto realmente, Iza... só sei que é algo muito, muito forte, você significa tanto pra mim que não sei dizer... sou capaz de passar uma vida inteira com você. – silenciou novamente e continuou a acariciar o cabelo da namorada.
_ Aonde você quer chegar com isso, Lia?
_ Que primeiro preciso esquecer definitivamente Juliana para poder te amar como você merece.
Ouvir esse nome doía em Iza, que levantou-se e ficou apoiada pelo cotovelo encarando Lia.
_ E o que eu preciso fazer para que você a esqueça definitivamente?
_ Ter paciência comigo.
Iza sorriu e com os dedos contornou o rosto de Lia.
_ Terei toda a paciência do mundo com você, meu amor. – e a beijou com carinho.
O avião havia acabado de pousar.
Sofia e Juliana dormiram muito durante o vôo, acordaram perdidas no tempo. Arrumaram-se como puderam e encaminharam-se para a área de desembarque.
Ju começava a sentir os batimentos cardíacos mais acelerados, suas mãos suavam e sua boca secava. Teve um medo inexplicável... vontade de voltar. Respirou, fechou os olhos e seguiu em frente. “Agora não é hora de desistir”. Ela não sabia que Lia estaria a espera delas no aeroporto.
Sofia a observava, incomodava-a ver a amiga tão angustiada... sabia que ela ficaria furiosa quando soubesse que mentiu. O choque seria inevitável. “Melhor assim, que venha logo o impacto do encontro”, pensou também nervosa.
Quando chegaram ao saguão do aeroporto assistiu à cena: Juliana parou repentinamente quando viu Lia e Iza juntas na frente da porta de desembarque. Lia, num primeiro momento sorriu ao ver Sofia, mas seu rosto perdeu completamente a expressão quando enxergou Juliana parada, pálida carregando uma mala. Izabela acompanhou o olhar da namorada e entendeu rapidamente que Sofia não tinha ido sozinha.
(continua... com Mari Cortez e Lavinia Motta)
Capítulo XX - SUSTOS
Lia não conseguia esconder a surpresa de ver Juliana. Não consegui definir se sua surpresa era agradável, sentia uma corrente passando por todo seu corpo, tinha um nó no estômago, um arrepio súbito... talvez tudo isso fosse sinal de algo ruim, do erro de Juliana estar ali. Lembrou-se de Izabela e quando a olhou, a namorada parecia entender tudo.
Izabela queria fumar, mas uma maldita placa “don’t smock” impedia que todas as toxinas lhe aliviasse daquele tormento. Seu vício só não era maior que a vontade de dizer várias para Lia, mas claro, nunca daria show de ciúmes em público. Quando Lia lhe encarou, seus olhos queriam explicar algo que já não era mais necessário. Para Izabela estava claro que a ex veio reatar com sua namorada depois de um ano e meio de separação.
Juliana sabia que foi um erro estar ali. Tão óbvio, era só olhar para o desespero de Lia. Parecia estar mordida de raiva em revê-la e aquela magra, muito branca de cabelo muito preto só podia ser a namorada dela. Era linda, exótica, tão diferente de si, tão diferente de Lia. E Lia? Estava linda, mais linda do que quando estavam juntas. Ela estava com os cabelos presos em um rabo de cavalo alto e os cachos vinham em queda, como um véu. Ju podia sentir o perfume deles, aquele cheiro que nunca a deixou em paz. Aliás, a lembrança de todos os aromas de Lia a atormentava. Cabelo, perfume, pele, roupas... Juliana os tinha guardado muito bem. De repente, seus olhos desviaram como se uma luz muito forte os tivesse atingido quando Lia segurou a mão da garota e vieram até elas.
Sofia estava com um enorme sorriso por rever Lia. Tinha total ciência da situação constrangedora em que meteu as duas melhores amigas. Mas o que poderia fazer para reconciliá-las? Estava convicta que aquela era a única forma e, pelo menos dessa vez, os fins justificariam os meios. Largou a alça da bolsa e abriu os braços quando Lia já estava bem perto de si.
Juliana viu todas as cenas, desde o começo, em câmera lenta. Estava atrás de Sofia e bem de frente para Lia. Não conseguia parar de olhar para ela, queria sair dali, mas havia um imã que a puxava. O magnetismo e o slow motion terminaram quando sentiu um tiro vindo em sua direção. Izabela não parava de lhe encarar. Tinha vontade de abaixar a cabeça, mas ainda um pouco daquela Juliana de tempos atrás sobrevivia. Olhou para Iza.
Lia gostaria de perguntar para Sofia o que Juliana estava fazendo ali. Provavelmente seria uma pergunta desnecessária porque seus olhos já o faziam. Saiu dos braços da amiga e, por mais constrangida que estivesse, teve que seguir o protocolo. Claro, não pode abraçar Juliana, não que não quisesse. A presença de Iza a inibia, mas também, se ela não estivesse ali, não saberia se algo além de “oi” fosse possível. Sentia-se estranha. Toda aquela situação era estranha. Como assim, dar um abraço em Juliana? Isso não estava em qualquer protocolo. Então, a mulher que você ama te abandona, volta com o ex, você é jogada no limbo, sofre infernos e tempestades, e só porque ela aparece linda e com uma cara de arrependida você deve abraçá-la? Ora, francamente! Ainda por cima, você já não sabe mais o que sente por aquela pessoa. Se o amor foi ou é grande demais, a dor foi ou é proporcional. Lia estava em outra, com outra, e sentia que gostava de sua outra vida, aprovava a outra Lia em que tinha se transformado. Mas também, não queria ser rude. Talvez se sacudisse a cabeça e dissesse um “oi” entre os lábios meio fechados e um sorriso amarelo tudo ficasse bem.
_ Oi.
_ Oi.
Ótimo. O seu protocolo de saudações estava resolvido. E Izabela? Claro, nas normas de boa conduta, cabe a Lia apresentar a namorada para a amiga sacana e o seu ex-martírio-amor.
_ Iza, esta é Sofia, minha amiga.
O abacaxi estava agora com Iza, que queria acender um cigarro, tragar forte pra ter certeza que a chama estava grande, segurar o pescoço de Sofia e lhe queimar um olho. Segurou os instintos e foi “blossom”. Iza foi uma verdadeira britânica, nada de cumprimentos tropicais. Um simples “hi” resolveria seu problema com o protocolo inicial.
_ Hi.
_ Olá.
E então o abacaxi voltou para Lia. Como apresentar Juliana para Iza? Nunca tinha pensado na possibilidade de seu passado e seu presente, que queria transformar em futuro, se encontrarem. Todos os dias fazia um esforço enorme para enterrar Juliana e regava com tanta paixão um amor novato por Iza, tudo estava indo tão belo... e agora esta situação. Bem, já o era inevitável, por que não fazer da forma mais rápida e indolor possível? Só nomes, sem apostos. Afinal, pra que hipocrisia se já sabiam quem era quem. Para ser sincera, Lia queria que elas se cumprimentassem sem sua participação nessa matança.
_ Esta é Juliana.
O nome da ex saiu de sua boca e caiu como pedra no chão. O estrondo foi enorme para todas. Para Juliana, ouvir seu amor pronunciar seu nome foi um chamado e por aquele instante mínimo em que o som saiu de Lia, sentiu-se no ar. Para Lia, falar o nome de Ju olhando para ela foi abrir uma caixa cheia de guardados que nunca mais gostaria de rever e por aquele momento eterno em que a dor da pedra caiu em seu pé, teve vontade de chorar. Quando Sofia viu que Lia conseguiu dar o pontapé inicial em uma hipotética possibilidade de aproximação com Juliana teve vontade de abraçar as duas ao mesmo tempo. Quando Iza ouvir o nome da rival na boca de sua namorada, ficou cega. Só ouvia o nome de Juliana ecoar em sua cabeça. Então, era ela. E naquele curto tempo em que Lia falou três sílabas, estendeu a mão a Ju.
_ Prazer. Izabela.
Se Lia não estivesse com os dentes tão cerrados, seu queixo teria caído. Mas, arregalar os olhos foi inevitável. O que Izabela pretendia com aquele gesto? Óbvio que jamais perguntaria, talvez fosse uma parte que não conhecia da namorada.
Era sábado e Lia tinha planejado um almoço para receber a amiga, mas isso seria impossível agora. Teria que pensar em algo no mínimo razoável e ser simpática. Sofia estava empolgada para conhecer lugares. Na verdade ela queria carregar Lia e Juliana consigo, pouco se importava com a presença de Izabela. Juliana foi mais sensata. Disse que estava cansada da viagem e chamou Sofia para irem logo pegar o táxi até o hotel. Claro, ela se fez de desentendida. Sofia queria que Lia as levasse até o hotel, queria que ela soubesse onde passariam uma semana inteira. Lia ficou parada. O carro era de Izabela e mesmo que fosse seu, não teria coragem... tinha medo de ser tentada ao saber onde fica o hotel.
O silêncio de cinco segundos eternos foi quebrado pelo português sem erros e carregado no sotaque de Izabela.
_ Eu levo vocês até o hotel.
Outra vez Lia não sabia o que pensar. Afinal, que diabos estava acontecendo com Iza?
O convite não agradou Sofia. Ela percebeu que Lia estava com Iza e não o contrário. “Ter que depender dessa inglesa é foda”.
_ Pode deixar, nós vamos de táxi mesmo. Não quero incomodar.
“Melhor impossível! Não te conheço, mas você nunca deve ter feito cagada maior na sua vida!”.
Antes que Izabela tentasse ser estranhamente simpática, Lia tirou da manga uma mentira para encerrar o dia.
_ Então tá... eu tenho que passar no escritório e buscar um monte de arquivo que esqueci de salvar em disquete... muito trabalho até no fim de semana.
“Ai, Lia! Você sempre ruim pra mentir”. Se não fosse trágica a situação, Juliana até soltaria um risinho e tentaria escondê-lo em uma mão.
_ Vamos, Ju?
_ Hum rum.
Sofia deu outro abraço em Lia e prometeu uma saída para relembrar os “velhos e bons tempos”. Lia queria mandar Sofia calar a boca e Izabela queria furar o outro olho dela com o cigarro.
_ Você mentiu pra mim, Sofia! Lia não sabia de nada! A cara que ela fez me deu vontade de pegar o primeiro vôo de volta pro Brasil! Muita sacanagem sua, droga!
Discutiam dentro do táxi. Juliana estava exausta, não pela viagem, mas pela provação que teve que passar no aeroporto.
_ E se eu tivesse contado, você teria vindo? Claro que não!
_ Claro que sim! Eu estava decidida a reconquistar Lia, pelo menos eu teria vindo preparada pra frieza dela... e, possivelmente, pra namorada dela.
_ Ah sim, claro! Como se eu não soubesse a frouxa que você se tornou desde que tudo isso aconteceu. Ora, Ju! Você teria se escondido em seu apartamento, inventaria qualquer desculpa para o chefe e nunca colocaria os pés em Londres.
Juliana ficou quieta, olhando a paisagem como se as palavras da amiga não tivessem penetrado dolorosamente em seus ouvidos. Sofia tinha razão, toda a razão e ela percebeu que Juliana concordava com isso, mas não daria o braço a torcer. Suspirou fundo para amenizar o clima.
_ Então, você não está mais interessada em reconquistar Lia? Ficou intimidada com a branquela?
_ Não sei mais de nada, So. Pra mim, ficou claro que Lia não quer mais nada comigo. - abaixou a cabeça e fazia força pra não chorar. _ Acho que eu errei muito, não é? Eu fiz tudo errado. O que custava ter contado pra ela... eu não confiei na mulher que amo.
_ Ah, mais isso eu te disse desde o começo. Mas, agora é o de menos _ Sofia colocou a mão no rosto de Ju delicadamente e o puxou para si: _ Olha, na hora certa, você conta pra ela sobre sua filha. Seja franca com Lia, como você nunca foi. Ela vai se abalar, tenho certeza que sim.
Juliana segurou a mão de Sofia em seu rosto, não queria chorar, mas estava difícil. Não queria começar tudo com lágrimas.
_ Obrigada por tudo. Você e Júlia são demais.
Se não fosse a música tocando baixinho, o apartamento estaria morto. Izabela fumava na varanda e Lia fingia estudar um projeto na escrivaninha. Quase duas horas depois que haviam chegado do aeroporto, as palavras que tinham trocado não passavam de “água?”, “não”, “quer jantar?”, “depois”.
Lia, escondida atrás dos papéis, não sabia o que falar. Queria pedir desculpa, mas, por outro lado, não havia razão pra isso. Ela não sabia que Juliana viria. Mas estava com raiva de si. Sentiu que Sofia escondia algo e não averiguou o suficiente. Tinha raiva da amiga e de Juliana também. “O que ela pensa que quer aqui? Congresso é só fachada, se ela pensa que vai tirar minha paz com Iza, está enganada!”. Bem, era inevitável. Juliana já tinha tirado a paz de Lia e, principalmente, de Iza.
_ Eu não sabia que ela vinha.
Lia chegou sem fazer barulho, falava baixo e olhava o movimento da rua. Izabela não quis lhe encarar. Estava com os olhos vermelhos e, provavelmente, no quinto cigarro em uma hora. Tragou com calma e esperou a fumaça fazer o percurso natural de saída. Bateu o cigarro no muro e observou as cinzas caírem até sumir de vista.
_ Eu sei.
_ Sabe? _ Lia esperava briga, uma longa discussão cheia de juras e perdões por aquilo que ela não sabia, sentiu-se tão aliviada por saber que Iza não a achava culpada por tudo isso que resolveu arriscar _ Então estamos bem?
Claro que não estavam bem. Se Lia pudesse correr mais que seu próprio som, nunca deixaria essa frase chegar aos ouvidos de Iza. Que pergunta estúpida! Tão infantil que Izabela teve que dar uma risadinha, apagar o cigarro ainda inteiro e olhar para Lia.
_ Claro que não estamos bem. Eu estou abalada com isso tudo. Então, a mulher que você ama chega para te levar embora e eu devo achar que estamos bem? Como você pensa que eu estou, Lia?! Eu te amo tanto... e saber que você não me ama... saber que você ama Juliana, que acabou de chegar...
Chorar foi inevitável. Izabela debruçou-se no muro e Lia queria abraçá-la, mas tinha medo de ser rejeitada, medo da briga vir à tona. Tocou de leve as costas da namorada e Iza parou de chorar, secou as lágrimas e voltou-se para Lia.
_ Mas, se você quiser ir, o que eu posso fazer? Por mais difícil que seja pra eu tentar entender e controlar tudo isso, você é dona da sua vida, faça o que quiser.
Antes que Lia pudesse dar qualquer resposta antecipada, Iza pegou a chave do carro e desceu. Não falou para onde ia, não queria ser interrompida em sua dor. Lia não queria piorar a situação.
CAPÍTULO XXI - ENCONTROS
Já passava das 3 da manhã quando a chave girou na porta. Era Iza com a mesma vermelhidão nos olhos de quando saiu há mais de 12, 13 horas... ela nem sabia. Era como se o tempo houvesse parado e ela estivesse envolta a apenas uma questão... talvez a questão de sua vida, que não dependia de sua resposta: Lia ficaria ou não com ela.Nunca esteve à mercê da decisão de uma outra pessoa, sempre teve suas própria resoluções e sua vida girava em torno do que determinava ser melhor para si. Era a garota “with shoes that cut, and eyes that burn like cigarettes”. Tudo até Lia chegar e transformá-la... agora quem decidia era Lia. Mas ela poderia decidir aceitar qualquer que fosse a decisão... Não. Melhor dizer: ela teria que decidir aceitar se a decisão fosse negativa, se ela tivesse que reaprender a viver sem a companhia da pessoa que mais amava no momento.
Pensava e repensava muito, simulava possibilidades, conversava com si mesma... brigava com sua dor, unia-se a ela, revoltava-se... queria dormir e acordar quando tudo estivesse resolvido. “Como dói...”, dizia para si mesma quando o suspiro do choro violento a invadia de tal forma que a torturava numa angústia sem fim.
Ela viu como se olharam, ela notou o descontrole de sua namorada e a palidez anormal de sua rival. Ali havia algo forte, naquele meio em que se encontravam apenas Lia e Juliana havia uma força impenetrável... nem Iza quebraria aquele elo talvez de amor, mesmo que Lia decidisse continuar levando sua vida em Londres, com a namorada atual.
Lia dormia no sofá. Certamente esperava por Iza. A TV fazia um ruído que indicava que até a programação havia se cansado e saído do ar. Iza desligou o aparelho e aproximou-se de sua namorada para observá-la melhor, sem o perigo de ser pega por olhos interrogativos ou perguntas imbecis como a que escutou antes de sair. Entendia que Lia estava muito confusa e assustada, mas não queria, por enquanto, conversar a respeito de suas dúvidas... talvez para não se machucar ainda mais.
Puxou a manta que estava ao lado e cobriu Lia com cuidado.
Mais um dia inteiro de congresso e Sofia apenas observava as atitudes de Juliana... que não as tomava. Estavam no segundo dia de reuniões exaustivas e Ju não conseguia se mover em direção a Lia. Parecia estática diante da possibilidade de finalmente contar tudo, esclarecer meses de desencontros.
Não dormia, nem se alimentava direito... apenas conversava com suas próprias idéias, o id e o superego em constante conflito. Por mais que Sofia tentasse ajudar, este era um problema que Juliana teria que resolver.
_ Há coisas que ninguém pode fazer por você, Ju... – comentava a amiga sentindo parte daquela aflição. Queria ter o poder de colocar tudo no seu devido lugar, mas não podia... Juliana teria que fazer isso sozinha.
_ Eu sei, So... por favor, só me dá mais um tempo.
_ Não temos tempo, Ju... temos cinco dias apenas. – Sofia beirava o desespero, mas controlava-se.
Os únicos momentos em que Ju esquecia-se das pendências era quando ligava para a irmã e Renato a fim de ter notícias de Laurinha. Queria saber de tudo: a que horas havia acordado, se já havia tomado banho, quantas vezes mamou, se estava bem agasalhada, se sentia cólicas... Júlia prometeu enviar um e-mail duas vezes ao dia para informá-la sobre a filha e, no final de cada mensagem, não esquecia de dizer: “Estou torcendo por vocês!”.
Ver Lia no aeroporto com a namorada a desconcertou, sugou-lhe as forças... Constatar como as duas já eram íntimas, a maneira como “conversavam” por olhares fez com que ela questionasse até que ponto durou o amor de Lia, e até que ponto ela alimentava o seu.
Iza parecia ser uma boa pessoa. Segura de si: “Me encarava com coragem, como quem mostra que agora ELA é namorada de Lia.” Essa segurança ressaltava a sua insegurança e sentia-se frágil, volúvel, uma idiota estando lá atrás de seu amor que já era de outra pessoa.
_ Você precisa dar o primeiro passo, amiga. – tentava mais uma vez Sofia na hora do almoço do terceiro dia. _ Ligue pra ela, diga que você quer conversar. Juliana, não é possível que você voltará para o Brasil sem ter resolvido isso!!! É sua última chance!!! Você não pode deixar que aquela branquela fique com a mulher que você ama!!!
Juliana ouvia calada enquanto mastigava a comida sem sentir seu gosto. Tomou mais um pouco do suco e levantou-se. Deixou Sofia lá... com cara de tacho.
Foi até o telefone público.
Abriu sua agenda.
Discou os números do celular de Lia.
_ Hello!
_ Lia? – perguntou a voz firme, mesmo que por dentro estivesse prestes a explodir.
Um silêncio do outro lado da linha denunciou o abalo de Lia. Ela, na agência, afastou-se de seus colegas debruçados sobre o rascunho de um projeto para disfarçar o choque que aquela voz lhe causava.
_ Oi. – a voz baixa de Lia penetrava os sentidos de Juliana, que sentia uma alegria e uma força crescentes surgirem como a chama que a muito se fora.
_ Precisamos conversar. Eu queria ter ligado antes, mas não consegui... Por favor, preciso muito falar com você.
_ Não sei se é uma boa idéia... – na verdade Lia não queria enfrentar a tentação que era estar perto de Juliana quando tentava há tempos se afastar dela. Até quando durariam essas sensações?
_ Lia, eu sei que fiz muitas coisas erradas, mas, por favor, vamos conversar... eu preciso te dizer o que me aconteceu durante esse tempo em que estivemos..., ... separadas.
Lia tinha uma vontade enorme de chorar. Por que aquela mulher retornava assim para bagunçar sua vida novamente... agora que estava quase tudo em ordem. E, se não bastasse, ainda fazia Iza sofrer.
_ Ok, só posso amanhã à noite, depois das 9. – uma força maior a puxava e todo o seu raciocínio ia por água abaixo.
_ Está ótimo, pode ser no hotel?
_ Sim.
Juliana passou o endereço e voltou renovada para a segunda etapa de palestras do dia. Não soube distinguir se o tom da voz da ex-namorada indicava que ainda tinha chances, mas lutaria de todas as formas para tê-la de volta.
Lia desligou o celular e foi ao banheiro lavar o rosto. Olhou-se no espelho e, por um instante se questionou, observou-se e notou uma fisionomia perturbada... aquela era ela, Lia, a fim de saber o que fazer de sua vida diante deste ponto crucial. Sentia-se tão culpada por Iza estar triste, sua Iza sempre tão alegre, divertida, livre... sentia a dor dela, queria abraçá-la, dizer que não tinha com o que se preocupar... mas tinha. O desejo de rever Juliana, de conversarem após tanto tempo, saber como ela está, o que fez no período em que estiveram longe, se estava sozinha... Queria que a resposta viesse por meio de um sinal qualquer. Sentia-se muito estranha... e culpada.
Saiu da agência no horário de sempre e foi se encontrar com Ricardo para desabafar, pedir um conselho... alguém de fora de toda aquela confusão poderia enxergar algo que ela não via.
_ Meu amor, eu não posso te ajudar, esta é uma situação muito delicada: de um lado está a mulher que viveu com você anos e que veio atrás do amor intenso que tiveram. Do outro há uma possibilidade enorme de um amor tranqüilo, divertido e maduro, de uma vida maravilhosa com Iza...
_ Meu Deus, assim você me deixa ainda mais aflita! – irritava-se Lia levantando-se bruscamente para mais uma sessão de andanças em círculo.
_ Primeiro, tenha essa conversa com Juliana e, dependendo, tome sua decisão.
Dirigiu até sua casa tensa, esperando encontrar Iza para contar que veria Juliana. Não queria esconder nada da namorada.
As duas chegaram quase ao mesmo tempo, encontraram-se no elevador e, por um instante, ficaram embaraçadas, sem saber o que dizer e um silêncio incômodo pairou até que abrissem a porta do apartamento.
_ Como foi seu dia? – perguntou Lia, esforçando-se para não fazer perguntas idiotas a fim de puxar uma conversa. Iza largou a bolsa sobre a escrivaninha e foi até a cozinha pegar a jarra de água calmamente. Voltou com dois copos cheios, ofereceu um a Lia e sentou-se esticando as pernas.
_ Difícil, foi um dia bem complicado porque não consegui me concentrar.
Lia olhou para o chão com o copo entre as mãos.
_ Desculpa te fazer passar por isso.
_ Não é culpa sua, Lia. – respondeu friamente Iza, depois tomou sua água e acendeu um cigarro. Depois do primeiro trago, aproximou-se de Lia e a olhou profundamente. _ Só não me faça de boba. Eu entendo que você possa estar confusa, mas assim que tiver uma resposta, eu quero ser a primeira a saber. – exigiu com os olhos cheios de lágrimas, porém, com a voz decidida e firme.
Diante desse olhar e da honestidade da namorada, Lia não agüentou e explodiu num choro compulsivo, como se toda aquela tensão houvesse alcançado um limite. Iza a abraçou e as duas ficaram assim por longos minutos até que Lia enxugou as lágrimas e olhou a namorada com a mesma honestidade que Iza dedicava a ela:
_ Amanhã vou encontrar Juliana.
Sentiu o abalo de Iza, que acenou com a cabeça afirmativamente, mas soltou-se de Lia com pressa.
_ Isso teria que acontecer mesmo, não é? Foi para isso que ela veio até aqui. – e saiu.
Sofia tratou de sair. Ligou para Ricardo e combinaram de ir até um pub, beber e colocar as novidades em dia, sendo que, grande parte dessas novidades seriam Lia, Juliana e Izabela. Claro, cada um tinha sua preferência nos “partidos” de Lia. A fofoca rolaria solta e como eram também amigos de longa data, a conversa renderia mais do que o tempo que Juliana necessitaria para contar sua vida recente a Lia.
Ju estava nervosa. Assim que chegou do quarto dia de congresso, correu para o banho a fim de relaxar um pouco, ficou meia-hora na banheira se concentrando e simulando a conversa... “por onde começar sem me perturbar com a presença tão próxima da minha Lia”. Perfumou-se – o cheiro que Lia mais gostava - e escolheu para vestir jeans e camiseta. Queria que o clima da conversa fosse mais ameno, mas sabia que isso seria impossível... impossível tocá-la, beijá-la quando tinha tanto para dizer e, claro, ainda haviam todos aqueles protocolos a serem quebrados. Sua preocupação no que dizia respeito à reação de Lia e sua vontade de abraçá-la a sufocavam... não agüentava mais a espera. Sentia seu coração pular, seu corpo tremer. Fechou os olhos parada no meio do quarto quando o interfone tocou anunciando a visita.
A campainha tocou e Ju respirou fundo.
Abriu a porta.
Lia estava séria, segurava-se em sua aparência um tanto sisuda, dando a impressão de que não lhe agradava estar ali. O desconforto só aumentou quando sentiu aquele perfume maravilhoso que saia de Juliana. O perfume que Lia havia lhe dado no começo do namoro e que, pelo visto, Ju nunca tinha deixado de usar. Agora estava insegura com seus pensamentos, não sabia o que queria fazer de fato.
_ Entre.
Os olhos se encontravam novamente, o ar pesava e ambas ficavam tensas. Lia entrou em silêncio olhando ao redor procurando um lugar seguro.
_ Toma alguma coisa, Lia...
_ Não.
Juliana ficou desarmada diante da armadura defensiva da ex-namorada. Não sabia muito como agir... e tudo o que havia ensaiado já tinha esquecido.
_ Desculpa pelo constrangimento no aeroporto... não sabia que você estaria lá... eu não queria que fosse assim.
_ De qualquer forma, você estando aqui, traria algum constrangimento.
Um a zero para Lia. Ju sorriu sem graça baixando a cabeça. Lia estava realmente armada.
_ Sim, eu sei... mas não precisava ser diante de sua namorada.
_ É, ela poderia ser poupada disso.
Ficaram algum tempo em silêncio até que Ju tomou coragem e a olhou com paixão:
_ Os ares de Londres te fizeram muito bem... está mais bonita.
Lia também enxergava uma beleza diferente em Juliana, parecia que tinha envelhecido mais do que o tempo que passou... mas, não era uma velhice que se mostrava na aparência. Na verdade, era um amadurecimento, uma forma mais experiente de se expressar... algo novo, mudado.
_ Obrigada, você também me parece bem. – retribuiu o elogio séria.
_ Não muito... desde que nos separamos muitas coisas aconteceram... algumas que me fizeram muito bem e outras muito mal. – Lia olhou para o chão a fim de continuar ouvindo Juliana. _ Desde que saí do nosso apartamento, depois que te disse tudo aquilo, minha vida mudou bastante.
_ É... eu sufocava você... – sorriu sarcasticamente Lia e Ju sabia que ela tinha toda a razão para agir assim.
_ Sim, às vezes, quando seu ciúme era infundado. Mas, trai sua confiança, dormi com Renato e você sempre desconfiou que isso pudesse acontecer. Fui uma estúpida inconseqüente, mas não adianta eu querer me justificar... ainda mais depois de tanto tempo. – Ju se levantou e sentou-se mais próxima de Lia, que recuou um pouco encarando-a séria como quem dissesse “não faça isso”. _ Eu sabia que naquela época uma traição seria o fim de tudo, sabia das suas fortes convicções e tinha certeza de que mesmo se persistíssemos no relacionamento você jamais confiaria em mim novamente.
_ Mas você nem tentou se justificar, Juliana, você simplesmente derramou culpas e mais culpas em cima de mim... não pareceu estar arrependida, não deu chance para que pudéssemos nos entender... simplesmente fez com que eu me sentisse culpada por tudo o que você fez porque eu te sufocava com meu ciúme. – revoltava-se Lia olhando-a com mágoa.
_ Eu não podia contar o que estava acontecendo, Lia... você me odiaria pra sempre e eu jamais teria como me reaproximar. Apesar de que, talvez, depois de te contar você não queria mais me ver.
_ O que poderia ser pior do que uma traição naquelas circunstâncias? – perguntou Lia levantando-se para ficar de frente para Ju. _ Mesmo sentindo a dor de saber que você havia transado com Renato, o que mais me assustou foi a sua certeza de que não teríamos mais chance. Mesmo tendo fortes convicções provavelmente eu não deixaria você sair da minha vida do jeito que saiu... como se nunca tivesse estado nela. Se você tivesse me avisado que estávamos numa crise profunda eu lutaria por nós, Juliana... eu mudaria... assim como mudei nesse tempo. Mas você simplesmente disse que não queria mais...
_ Porque estava grávida.
Lia parou de falar e ficou boquiaberta olhando para Juliana sentada, lhe encarando para descobrir uma reação que não fosse revolta em Lia.
_ Grávida?
_ É. Imagina te contar que além de te trair eu esperava um bebê do Renato? Imagina pedir perdão a você e propor que criássemos juntas o fruto de uma traição? Sabendo que você não suportava nem ouvir o nome do Renato... Seria demais te pedir desculpas e pedir para continuarmos juntas, você não acha, Lia?
Lia desmoronou-se na cadeira e olhou para fora, pela janela, com uma das mãos diante da boca.
_ Não acredito.
_ Sai da sua vida pra me esconder e pra não te fazer sofrer ainda mais. Eu estava com vergonha, Lia... vergonha da minha fraqueza, da minha imaturidade. – dizia Ju sem conter as lágrimas, mas com voz clara. _ Fiquei esse tempo todo sabendo de você por Júlia e Sofia e sofrendo por entender que estava te perdendo. – enxugou as lágrimas e levantou-se para ficar mais perto de Lia. _ Mas, agora que tenho Laura, minha filha, vejo que todo o erro não foi um erro, entende? Laura não é um erro, é o maior acerto da minha vida, mesmo que tenha custado seu amor. Laura me fez crescer, me fez todo o bem do mundo... e pra chegar a ela eu tive que percorrer todo esse caminho... e não posso me arrepender. Mas, posso tentar ter você de volta.
Lia chorava. Passava as mãos pelo cabelo, pelo rosto e virou-se de costas para Ju:
_ Meu Deus.
Juliana aproximou-se e tocou no ombro de Lia:
_ Lia, eu te amo. Sempre, sempre... cada vez mais e não consigo ser feliz longe de você. Durante todo esse tempo não passou um dia em que não pensasse na gente, em como seria bom se tentássemos de novo. Eu mudei, você mudou, passamos por tantas coisas... Eu sei que você ainda me ama, não é possível que tudo o que vivemos tenha terminado.
Lia ficou estática olhando para o chão, esperando que o choro cessasse e ela pudesse falar.
_ Não é assim, Juliana. Você me deixou e eu tive que reconstruir tudo, uma outra vida longe de tudo que me lembrava você. Posso entender o que você passou, mas refiz minha vida aqui... tenho um emprego, tenho amigos, tenho Izabela. – ouvir o nome de Izabela doeu em Juliana, que fechou os olhos. _ O que sinto por Iza é forte demais... só essa pendência que tenho com você impede que eu sinta por ela o mais verdadeiro amor. Pessoas me prendem aqui.
Ju sentiu uma ponta de desespero. Teve ímpetos de ajoelhar-se aos pés de Lia e implorar que ficasse com ela. Não poderia voltar para o Brasil sem seu amor... não imaginava levar um vida inteira sem Lia. Mas teve que tentar ser racional. Passou as palmas das mãos pelo rosto molhado:
_ Vou embora no sábado. Precisava vir até aqui contar o que te contei e dizer que ainda te amo muito. – parou um pouco pensando nas palavras certas que pudessem atingir Lia: _ Por favor, pense na possibilidade de vivermos novamente juntas, de termos o que tínhamos e mais ainda, termos Laura e nossas experiências. Eu quero você, Lia e sei que você ainda sente algo por mim... pense e me diga o que você decidiu. – cartada final.
Lia pegou sua bolsa e saiu, sem dizer tchau.
(continua... com Lavinia Motta)
CAPÍTULO XXII – AS ÚLTIMAS CARTADAS
Lia estava com as costas doloridas depois de uma péssima noite no sofá. Tinha visto a hora que Izabela havia chegado, mas não quis fazer perguntas e achou melhor esperar pela manhã. Foi até o quarto e Iza ainda estava na cama. Tinham que conversar, mas ainda não tinha respostas. Queria que tudo isso passasse com um beliscão, não podia acreditar em nada. Olhava a namorada, tão doce, calma e teve vontade de deitar ao seu lado, fazer carinho em seu cabelo, beijar seus olhos fechados, mas claro, seria um gesto tão deslocado em meio a tanta confusão...
Foi ao banheiro. Pensava em tudo que Juliana havia lhe dito. “Uma filha, meu Deus. Quanta coisa eu não sabia. Nunca poderia adivinhar...”. Não conseguia pensar além da sua surpresa. O que faria com isso tudo? “O que Juliana quer que eu faça? Abandone tudo, emprego, amigos, bens... Iza...?”. Claro, tinha raiva dela por lhe propor uma coisa tão absurda. Mais uma vez Juliana vinha com aquele “fique comigo” que a amolecia, lhe tirava a razão. Só que agora tudo era diferente, Lia era outra, Ju também estava muito mudada, não era mais aquela jovem inconseqüente. Agora ela era mãe.
Difícil admitir para si mesma o que sentiu quando esteve tão próxima de Ju. Sentia seu perfume, seu corpo definido em uma calça. Viu uma cama e quando Juliana colocou a mão em seu ombro sentiu uma corrente elétrica cruzá-la, pedindo para que fizessem amor, para que tentassem voltar a ser uma só. Mas, agora, viu que isso seria uma loucura. “Como eu poderia fazer isso amando Iza?”. Amando Iza? Será que se ouvia bem? Nunca tinha chegado a essa conclusão, nem bem sabia se era uma conclusão definitiva. Tinha mais dúvida ainda. Será que tinha definitivamente deixado de amar Juliana? Pegou a escova de dente e tentou que um gesto tão habitual como escovar os dentes lhe ajudasse a distrair. Fechou os olhos, fazia muita pressão com as mãos, sentia a ponta da escova batendo em sua gengiva, mas o que poderia fazer? Era um ato involuntário, precisava se machucar, precisava de beliscões para acordar. Enxaguou a boca, lavou o rosto várias vezes. Talvez fosse melhor tomar um banho.
Iza acordou com o barulho da água caindo no banheiro. Esfregou os olhos e viu as horas. Era muito cedo para quem havia chegado tão tarde. “Será que Lia já vai sair?”. Precisava conversar com ela, tinha que dizer o que resolveu depois de horas de meditação.
_ Lia?
Ouvir a voz de Iza fez com que Lia acordasse um pouco. Nem a água quente parecia o fazer. Abriu a porta do box e viu Iza em pé ainda de pijama, com a cara toda amassada, mas linda. Sentia tanta doçura quando a via assim.
_ Oi.
Ver a namorada nua sempre comovia Iza. Lia tinha um corpo tão diferente do padrão britânico. Tinha formas, uma pele morena, aqueles cabelos cheios de cachos que desciam até o meio das costas... Quando saiam juntas, Iza tinha um sorriso maravilhado nos lábios, olhos atentos a cada movimento e ouvidos peritos para ouvir desde as cantadas leves até as mais ousadas. Fingia que não ligava, mas Lia sabia o quanto a namorada se mordia de ciúmes. Iza tinha vontade de entrar naquele instante no chuveiro e agarrar sua mulher pela cintura, mas as coisas andavam meio estranhas nos últimos dias, não é mesmo?
_ Você já vai sair?
Lia aprendeu a desvendar muitas das expressões enigmáticas de Iza. Sabia separar ironias de comentários, sorrisos de alegria, de tristeza, de deboche... sabia quando a namorada queria carinho, um simples beijo ou horas de amor. A situação em que estavam era inédita, nunca tinham brigado para ficarem tanto tempo afastadas, sem um único beijo no rosto de “bom-dia”. Izabela queria estar ali com ela, sentir sua pele, abraçar e beijar cada parte daquele corpo. A mulher exótica não passava de uma garota às vezes. Lia precisava estar em pouco mais de uma hora no escritório. Tinha um novo projeto, mas, por mais que quisesse se concentrar, não conseguiria.
_ Não. Não vou trabalhar hoje pela manhã. _ deveria, mas não poderia abandonar Iza daquele jeito, com o cabelo despenteado e as mãos no bolso. _ Por que você não entra aqui comigo? A água está ótima...
De repente Iza sorriu. Parecia a primeira vez que Lia lhe dava abertura para se aproximarem, como se nunca tivessem se tocado antes. Iza tirou a roupa rapidamente, entrou no box e fechou a porta. Por um segundo não soube o que fazer e, se não fosse Lia, ficaria por mais alguns sem saber no meio de todo aquele vapor. Lia segurou uma mão de Iza e a puxou suavemente para debaixo do chuveiro, colando os corpos.
_ Não falei que a água estava ótima?
_ Você está melhor.
A inércia de Iza foi embora. Beijou delicadamente Lia na boca e a apertou com mais força em seu corpo. Quando seus seios se encontraram, uma onda de desejo enorme lhe percorreu o corpo. Queria engolir Lia em um beijo desesperado, cheio de saudade, amor e medo. Um medo tão louco de perder a namorada a consumia que ela sabia que deveria dar o melhor de si para não perder a mulher que tanto amava. Enlouqueceu e levou Lia junto nessa loucura.
Quatro mãos deslizavam com pressa e exatidão pelos corpos molhados. As mãos sabiam os lugares certos de tocar o corpo da outra, não queriam demora, queriam se ter imediatamente. As bocas se desgrudavam e escorregavam pelo pescoço, ombros, seios. Izabela se perdia no corpo delicioso da namorada, tinha vontade de sugar Lia inteira para si, não queria perder nada daquilo que aquela mulher pudesse lhe dar. Desligou o chuveiro e sussurrou com urgência “vamos pra cama”.
Iza escorregava em cima do corpo molhado de Lia. Seu cabelo estava encharcado e o beijo era mais úmido que o habitual, tinha uma mão acariciando um seio de Lia e a outra livre para fazer o que quisesse. Então, para que perder tempo? Levou sua mão direto ao ponto mais sensível da namorada que puxou todo o ar que podia entre os dentes. Sabia o que Lia queria e Iza queria o mesmo: tomar a sua mulher toda para si.
Lia apertava os ombros de Iza que sumia entre suas coxas. Tinha vontade de gritar e gritava até explodir em êxtase total. Sentia-se nas nuvens, uma sensação de alívio maravilhosa.
Iza estava realizada e satisfeitíssima por dar tanto prazer à namorada. Deitou sobre o ventre de Lia que acariciava seus cabelos molhados.
_ Lia?
_ Hum?
Ia dizer que a amava. Mas, como sempre, tinha medo de não ouvir o mesmo. Era paciente, mas não masoquista. Preferiu ficar quieta e não tentar pressionar Lia, por mais que quisesse implorar para que ela não fosse. Iza sabia que Lia ainda sentia algo forte por Juliana e também sabia que sentia algo especial por si. Iza também estava dividida nessa história. Amava Lia demais para perdê-la, mas, ao mesmo tempo, a amava tanto que a felicidade da namorada tornava-se mais importante. Foi o que havia pensado a noite inteira e estava disposta a dizer tudo. Depois de alguns segundo disse:
_ Nada.
Dormiram.
Já estava na hora do almoço e Juliana continuava sem tocar no assunto que havia lhe trazido até Londres: Lia.
_ Então, você vai me contar ou não o que conversaram ontem no hotel? _ Sofia estava impaciente e não quis esperar terminar de mastigar para perguntar.
Juliana limpou o canto da boca com o guardanapo e bebeu um pouco do refrigerante.
_ Contei para Lia sobre minha filha.
“Finalmente!”. Sofia arregalou os olhos e quase engasgou.
_ E aí?
_ E aí que contei, ela ficou abismada, choramos e pedi pra ela voltar comigo para sermos uma família: ela, Laura e eu.
_ Nossa, Ju! Quanto orgulho, amiga! Estou comovida mesmo... E o que ela disse? Tudo resolvido?
Às vezes, Juliana se irritava com a simplicidade com que Sofia reduzia a vida e as coisas realmente complicadas.
_ Claro que não, Sofia! Você tem cada idéia! Ela ficou abismada, saiu chorando do hotel. Quando eu propus que ficássemos juntas outra vez, ela disse que não era fácil porque ela tem coisas, pessoas, emprego que a prendem aqui. Fiquei tão aborrecida com minha ingenuidade por ter pensado que seria fácil, que seria só contar tudo, pedir uma nova chance que... Ai! Até pensei que pudéssemos recomeçar tudo na cama.
_ Bem, se te consola, também pensei assim.
Riram. Juliana estava triste, mas disposta a continuar na luta. E seria uma verdadeira luta. Quando lembrava as palavras que Lia disse sobre Izabela - que só não sentia o mais verdadeiro do amor por conta das pendências que ainda tinha com Juliana -, isso a deixava para baixo. Por outro lado, Ju queria saber quais pendências eram essas. Contou tudo com mais detalhes para a amiga.
_ Por que você não marca outro encontro com ela?
_ E você acha que ela vai aceitar? _ Sofia era tão bobinha...
_ E se eu desse um jeito?
_ Posso saber como? É claro que ela vai sacar na hora que estou envolvida.
_ E daí? Que perceba! O negócio é que tenho que conversar com ela. Afinal, somos amigas e não podemos ficar sem nos ver.
_ E pra quando sai esse seu plano maravilhoso?
_ Para hoje mesmo, meu bem.
_ Alô... Sofia?
_ Oi, amiga. Então? Você vai me levar ou não pra sair?
Lia adorava a cara-de-pau de Sofia. Já haviam se metido e saído de várias saias justas por conta da “prafrenteza” dela. Mas, agora, estava sendo demais. Será que Sofia pensava que ela era burra? Sabia que queria empurrar Juliana em seu colo.
_ Sofia, pra quê você faz isso? Você sabe que tenho uma namorada que me ama e eu a adoro. Você causou uma grande confusão trazendo Juliana.
_ Calma lá! Eu não trouxe Juliana. Ela foi mandada pela agência assim como eu, Lia. Ou você além de esquecer o amor da sua vida, também esqueceu que ela trabalha muito bem e merece participar de um congresso deste nível?
Lia não queria discutir, talvez um fora fosse melhor.
_ Eu não posso sair com você.
_ Por quê? Muito trabalho?
_ Não, Sofia! Por que você faz isso? Eu não posso sair com você porque você vai carregar Juliana atrás. Imagina a minha cara sentada na mesma mesa que Izabela e Juliana.
_ E quem disse que você tem que levar a antipática da sua namorada? E pode ficar calma que Juliana não vai. Seremos só nós duas. Será que não posso matar saudade da minha grande amiga?
Lia queria insistir no não, mas ficaria muito ruim. Também estava com saudade de Sofia, de Júlia, da família. Talvez, se saísse com ela e tentasse evitar ao máximo o tópico “Juliana” a noite seria boa. Suspirou e deu-se por vencida.
_ Aonde vamos?
_ E eu sei lá! Você é quem mora aqui, lembra?
Iza ainda não tinha chegado em casa. Lia separou uma roupa e foi tomar banho. Lembrou-se da manhã maravilhosa que teve com a namorada e pensou que tudo estava resolvido agora. Claro, sabia que os pensamentos não eram suficientes para trazer todas as respostas que queria, mas preferiu pensar assim. Estava segura ou pelo menos assim queria estar.
Quando já estava pronta, Iza ainda estava fora. Resolveu ligar e avisar que sairia com Sofia, sem Juliana (claro!), mas seu celular estava desligado. Deixou um bilhete e foi.
Izabela chegou em casa mais tarde que o habitual. Teve um dia cheio, apesar de não ter ido à faculdade pela manhã. Também, quem se importa em perder algumas aulas depois de acordar fazendo amor e dormir aliviada? Chamou por Lia, estava com saudade, mas não a encontrou. No lugar da namorada, achou o bilhete dizendo que ela tinha saído com Sofia (sem Juliana). Achou até graça da explicação, mas, mesmo assim, não gostou muito. Claro, ciúmes, porém, tinha algo a mais ali.
Foi tomar banho e, assim como Lia, foi impossível não lembrar da manhã maravilhosa que começou ali na água.
Secava os cabelos quando ouviu o telefone tocar. “Deve ser Lia”.
_ Hello?
_ Alô... Izabela?
Claro que não era Lia. Conhecia a namorada do outro lado da linha só pela respiração.
_ Yes. Who’s....
_ Aqui é Juliana. Será que poderíamos conversar?
Conversar com Juliana? Como assim? “Como você sabe o telefone da minha casa?” foi a primeira pergunta que teve vontade de fazer, em seguida vinham vários “por quê”, “como”, “o quê”... Continuou em silêncio tentando captar o que Juliana queria. “O que você quer?”.
_ Alô??
Não seria possível descobrir sem olhar para ela.
_ Onde fica seu hotel? _ anotou em abreviaturas no bilhete que Lia deixou. _ Passo aí em uma hora... em ponto.
Juliana desligou o telefone. Ainda não acreditava que Izabela tinha aceitado conversar e que estaria ali em uma hora... “nossa! Tenho que me arrumar! Espero que a idéia de Sofia dê certo”.
(continua... com Mari Cortez)
sexta-feira, 20 de abril de 2007
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