sexta-feira, 20 de abril de 2007

AMOR E ÓDIO: FACES DE UMA MESMA MOEDA 2

Renata

Renata, a senhora não-se-apaixone-por-mim, estava de quatro por Júlia. Como ela mesma disse um dia: “Tudo tem sua primeira vez, não é?” – pois é... Renata provou da paixão... aquele preparado químico que cega as pessoas e faz com que se tornem volúveis, meio que desligadas do planeta Terra.
Após aquele encontro quente entre Renata e sua iniciadora no mundo das entendidas, encontraram-se mais algumas vezes até que a iniciada percebeu-se incontrolavelmente seduzida e disposta a tudo para ficar com Júlia. Júlia estava... digamos... empolgada com Renata, afinal sua aluna era extremamente aplicada e uma delícia; certamente, Júlia também havia aprendido muito durante aquele estágio. As duas resolveram namorar e no começo tudo foi lindo: um ano de altas emoções sexuais em lugares diversos, um ano de divertidas bebedeiras e festas longe de casa, um ano de cinema, teatro, confidências... um ano de cama e fidelidade. Bom, fidelidade, por incrível que pareça, por parte de Renata... porque Júlia não era tããããooo fiel assim. Renata decidiu fazer faculdade... queria estar no mesmo nível que a namorada, que terminava o curso de Hotelaria. Rê entrou no curso de Turismo porque sonharam montar uma pousada em Maresias. Ainda bem que a Apaixonada se identificou com o curso e o concluiu mesmo quando levou um pé de Júlia.
Foi num fim de semana. Júlia estava distante há meses e Renata cobrava atenção e cobrava e cobrava... até que Júlia disse que não estava mais a fim. Rê ficou estática, parada no meio da sala com um cigarro queimando entre os dedos: “Como assim?” – ela não entendia... não compreendia que o amor da sua vida estava dizendo que não a amava, que havia sido legal o tempo que passaram juntas mas... infelizmente. “Como assim?” – “Assim, Renata: acabou!”. Júlia saiu e Renata ficou... as duas dividiam o apê, depois cada uma voltou para a casa de seus pais. Ela não acreditava... ainda tentou, pediu que Júlia ponderasse, mas não adiantou. Ficou mal, muuuito mal. Camila um dia ligou para ela e descobriu o rompimento... Renata falava pausadamente, como quem ainda estava em estado de choque... Camila ouvia e evitava falar sobre energias. Trocavam e-mails enormes, mas Renata, às vezes, sumia... aí Camila ficava preocupada e ligava. Renata estava deprimida. “Puta que pariu! Agora que descobriram a depressão todo mundo quer ficar deprimido?!” – esperneava a amiga inglesa ao telefone enquanto Renata chorava. “Rê, você nunca se entregou! Por favor, volte a beijar bocas e descubra outra paixão!!! Vem pra cá, vamos ir juntas aos shows daqui... se você quiser posso até beijar uma garota!!!” – Renata riu depois de meses chorando. Camila era mesmo fantástica. Resolveu reagir.
Terminou a faculdade e, como já era estagiária num hotel, a efetivaram e vez ou outra era convocada pelas filiais desse hotel em outros estados do Brasil. Foi nessas viagens que voltou a “pegar” todos e todas e, agora, em rede nacional.
Alugou um apartamento, comprou um carro e tornou-se completamente independente. Era um orgulho para ela, aos 28 anos estar estabilizada financeiramente. Bom, amorosamente, não estava estabilizada nem desestabilizada... apenas não estava. Voltou a curtir as baladas, mas sem envolvimentos... talvez tenha se tornado um pouco fria depois de tudo o que passou quando amou de verdade, sentia uma ponta de medo do amor porque sua única experiência mostrou que ele machuca muito e ela gostava de estar bem, feliz.

Capítulo V: O retorno da Cupido

Seis anos depois – dias atuais

“Camila vai voltar!!! Deus do céu, minha amiga voltará depois de quase seis anos... estou em estado de graça! Ela pediu para eu ir ao aeroporto e seu pedido é uma ordem. Só preciso que me dispensem mais cedo... é um caso de vida ou morte... preciso vê-la”

Quando Renata soube que Camila já estava dentro de um avião a caminho de seu país natal ficou em completo êxtase. Estava morta de saudades... Claro que ela tinha uma infinidade de amigos, mas, amiga amiga, de verdadeira, só Camila. Foram seis anos de muuuuitos acontecimentos e não via a hora de recontar tudo olhando nos olhos da Cupido, observando suas expressões e a ouvindo dizer “essas energias são horríveis”, “acho que a energia de vocês têm tudo a ver!”. Agora ela achava graça, mas Camila sempre a irritou com essa história de transcendência. Será que sua amiga-energia era uma extraterrestre? Sorria pensativa, lembrando-se dos melhores momentos que já passou com a “ET”.
O dia foi difícil no hotel e, às vezes, aquele uniforme a incomodava... estava quente e ela estava ansiosa. Pediu a dispensa... disse que sua amiga estava retornando de uma longa viagem por conta da doença da tia-avó e não havia ninguém para ir buscá-la no aeroporto. Claro que não precisava de todo o drama, mas ela quis se garantir. Correu até o vestiário e tirou o uniforme rapidamente... o velho jeans, tênis e camiseta eram muito mais a sua cara e a cara da amiga que estava chegando. “Menos de três horas...”

“Que maravilhoso rever minha amiga depois de tanto tempo... mal posso esperar!” – pensou Luciana enquanto lia uma de suas matérias na tela do computador. Não conseguia se concentrar por mais que tentasse. Camila ligou há dois dias dizendo que estava voltando definitivamente, com diplomas debaixo do braço a fim de continuar a carreira deslumbrante que iniciou lá fora. Disse que não agüentava a saudade que sentia de todos e que nenhuma estabilidade pagaria a falta que os amigos e a família faz. Pediu que a fosse esperar no aeroporto, queria vê-la, saber se tudo o que havia acontecido com ela era mesmo verdade porque ainda custava a acreditar.
Era verdade. E muito Luciana dedicava a Camila... amiga de todos os momentos, mesmo quando não tinha tempo. As broncas, os berros ao telefone fizeram com que ela acordasse para uma vida nova e muito melhor do que a que tinha... presa em uma redoma.
Desligou o computador, pegou sua bolsa e explicou a situação para seu editor chefe. Saiu tranqüilamente para o estacionamento, pegou seu carro e seguiu para o aeroporto. “Menos de duas horas...”

O aeroporto, claro, estava cheio. Pessoas de todos os lugares do mundo, de todos os tipos, espécies e afins. Uma torre de babel. Luciana olhou os horários de chegada dos vôos e continuou andando calmamente... ainda havia tempo, poderia observar as pessoas com mais calma. Estava acostumada com aquele ambiente... quantas vezes não esteve ali embarcando para algum país do globo ou estado brasileiro. “Eu queria voltar a todos os lugares em que fui com a cabeça que tenho hoje... certamente, aproveitaria bem mais...” – refletia enquanto se dirigia a um lugar para sentar.
Renata chegou esbaforida, pensando estar atrasada, mas não estava. Prendeu o cabelo e foi até a área de desembarque. Lá encontrou os pais de Camila... ela já os conhecia e foi muito agradável conversar com eles depois de tanto tempo. Encontrou mais alguns amigos em comum e tentava controlar a ansiedade fumando e mascando chiclete. Rê conhecia de cor e salteado aquele aeroporto por conta de suas viagens de trabalho. “Mas um dia sairei do país... quem sabe Camila não me mostra a Inglaterra!” – pensou quando ouviu que o avião que continha um ser cheio de ótimas energias havia acabado de pousar.
Luciana se aproximava da área de desembarque; Renata apagou o cigarro e foi para junto dos pais de Camila. Um por um os passageiros foram surgindo sorridentes a procura de quem os esperava. Depois de alguns minutos o ser energizado apareceu sorridente vestida numa blusinha com as cores do Brasil. Estava linda! Um pouco diferente, com o cabelo maior – fez luzes! Camila nunca ligou para isso – estava com óculos de grau preso na cabeça, um livro debaixo do braço e um olhar iluminado, que sorria junto com sua alegria natural. Uma mulher, não mais uma jovem pós-adolescente... Estava radiante por reencontrar seus pais e seus amigos. 28 anos de pura felicidade!
Ela se jogou no colo do pai e ficou horas beijando a mãe. Foi nesse instante de intimidade familiar que Renata reviu Luciana e Luciana reviu Renata após tanto tempo. Elas estavam em lados opostos e o encontro de olhares foi inevitável. Renata sorriu amarelo e a cumprimentou com um discreto aceno de cabeça... Lu, por sua vez, apenas deu um meio-sorriso. Logo Rê foi atropelada pela amiga que a amassava de todas as formas... as duas se abraçavam e sorriam, palavras eram totalmente desnecessárias naquele momento porque o contato físico dizia muito mais: Camila estava com o rosto lavado de lágrimas e Renata não cabia em si de uma alegria imensa. Lu observava de longe esperando sua vez, estendeu a mão aos pais da amiga recém-chegada e sentia uma certa inveja da afinidade que existia entre Camila e aquela garota antipática que conheceu há uns seis anos. Não conseguia entender aquela amizade... As duas tão diferentes...
Chegou sua vez. Camila se conteve mais, afinal de contas, Lu era delicada, sensível... tinha que ir com mais calma. Mas como adorava Luciana... como admirava aquela mulher que há algum tempo era apenas um fantoche nas mãos da “sociedade de elite”. Agora ela começava a viver e Camila se sentia muito feliz em saber e, naquele momento, poder ver com seus próprios olhos que a amiga estava ótima... linda! Mas não era uma beleza produzida... era uma beleza natural, verdadeira e simples.
Renata observava o abraço demorado e carinhoso entre as duas e não conseguia entender: “Como Camila pode ser tão amiga de uma pati como ela?”

Depois de cumprimentar mais alguns amigos que estavam ali, Camila puxou Luciana pela mão e foi em direção a Renata.
_ Rê, lembra da Lu?! Vocês já se conhecem...
Renata olhou para Luciana e, talvez, as duas tenham pensado a mesma coisa.
_ Sim, eu me lembro... Faz tempo...
_ Então... – Camila fez uma pequena pausa para ouvir o que seu pai dizia e, neste instante, Renata e Luciana apenas se olharam, sem saber o que dizer. _ Então... minha mãe preparou um jantar e queria muito que vocês fossem. – e olhou para Lu que se sentiu na obrigação de dar uma resposta imediata:
_ Tá, por mim será ótimo!
Camila virou-se para Renata que respondeu:
_ Legal... vou também.
E as três saíram de mãos dadas – Camila no meio, é claro - ao lado dos pais da recém-chegada.

Capítulo VI: O tempo passa e as pessoas mudam

O jantar transcorreu muito bem, sem incidentes. Talvez o sucesso tenha se dado pelo fato de não haver mais pós-adolescentes-hormoniosos em torno da mesa e sim homens e mulheres em torno dos trinta anos dispostos a se mostrarem comportados e “maduros”.
Camila desdobrava-se para dar atenção a todos, como sempre era toda sorriso e “causos”... amigos faziam roda em torno da Cupido para que ela relatasse momentos tensos e hilários de sua estada no país da rainha mãe. Renata e Luciana já conheciam aquelas histórias e vez ou outra se desligavam de toda aquela agitação. Talvez, por falta do que fazer, ambas passaram a se observar com curiosidade... cada uma submersa em suas impressões a respeito da outra. Elas não entendiam porque Camila mantinha uma amizade tão estreita com cada uma delas e, elas mesmas, não se conheciam, ou melhor, se conheciam e se odiavam.

“Está mais bonita... mais comedida... parece não desejar chamar mais tanto a atenção. Ainda nem deu uma daquelas suas gargalhadas espalhafatosas... Mas continua querendo mostrar que é muito social, conversa com todos mesmo sem ter o que dizer. Mas, sem dúvida está mais calma... Será que continua galinha?” – refletiu Luciana sobre Renata enquanto a observava sentada na sacada do prédio tomando uma taça de vinho... sozinha.

“Não usa mais aqueles penduricalhos de pati... nem faz questão de estampar a grife da calça. Está mais simples, humilde. E aquele Namorado? Não veio com ele... Está mais sorridente, mais simpática... parece mais determinada. Mas continua com aquele arzinho esnobe, que olha os outros de cima. Isola-se fácil, mas também... quem vai se aproximar se ela não baixar a guarda?! Está um pouco humilde, mas nem tanto...” – pensava Renata enquanto olhava para Luciana que sorria ao ouvir as histórias loucas da amiga.

Camila jantou, bebeu... abraçou todo mundo mais de uma vez, ganhou presentes, beijos dos pais, atendeu telefonemas e nem sentiu o cansaço da viagem. Os amigos, gentis, reconheceram que ela pudesse estar exausta e foram saindo. Ficaram Renata e Luciana e, esta, quando percebeu, resolveu ser educada e também se retirar. Deixaria que as duas amigas colocassem as novidades em dia. Levantou-se e quando se preparava para se despedir, Camila chegou puxando Renata pela mão:
_ Meninas, trouxe uma coisinha pra vocês! – disse sorridente abrindo a mala. Renata sentou no sofá e Luciana não teve outra opção: sentou-se ao lado da amiga da amiga. A Cupido tirou duas caixas de presente, uma continha livros sobre Turismo para Renata e a outra CDs de jazz para Luciana. Elas agradeceram com brilho nos olhos e vislumbravam como crianças seus presentes quando o pai de Camila lhe passou o telefone dizendo que era seu avô quem estava na linha. _ Só um minuto, meninas.
As duas ficaram sozinhas e, de repente, um embaraço tomou conta do ambiente, não sabiam o que dizer. Até Renata, sempre tão expansiva, viu-se intimidada diante da garota pela qual não nutria uma grande simpatia e que um dia lhe chamou de vulgar. Luciana, do seu lado, já era um pouco tímida e, sem saber explicar, sentia-se constrangida diante daquela mulher que sempre tirava de letra todas as situações... dizia e fazia o que queria e...
_ Você gosta de jazz? – foi uma pergunta cretina, mas a única capaz de salvá-las daquela tensão. Renata perguntou a tal pergunta cretina olhando para Luciana com um sorriso nos lábios, que ainda não sabia se era sincero ou não... ela só pensava em quebrar o gelo.
Lu a correspondeu no olhar e no sorriso.
_ Sim, adoro! Quando eu e Camila conversávamos, sempre indicava a ela alguns lugares onde tocavam jazz e ela acabou gostando do estilo...
_ Que legal...
“Agora é a sua vez.” – pensou Renata assim que morreu a primeira tentativa de conversa. Ela não poderia prosseguir já que não conhecia jazz.
“Agora é a minha vez.” – pensou Luciana assim que percebeu que o assunto não vingou.
_ E você? Pelo que posso ver gosta de fotografia... – e apontou para os livros no colo de Renata, que agora sorriu sinceramente.
_ Também gosto de fotos, mas cursei Turismo e tudo relacionado a isso me interessa muito... – respondeu olhando-a nos olhos. _ Você parece ser uma pessoa viajada... talvez conheça todos esses lugares.
Lu sorriu, sinceramente, e pediu para olhar os livros e as fotos que ilustravam a descrição de alguns países e cidades da Europa. Folheou com cuidado e comentava a respeito de algumas cidades por onde já havia passado. Renata aproximou-se mais de Luciana e ambas estavam debruçadas sobre os livros... conversando.
Camila, ao desligar o telefone, viu de longe o papo animado no qual as duas amigas embarcaram e resolveu deixá-las sozinhas... para que pudessem se conhecer melhor.

_ Nossa! Não acredito que já esteve na Grécia! É meu sonho ir para lá...
_ Fui, mas não tinha noção da grandiosidade que a história do país representa para nós, do ocidente. Se eu fosse hoje, certamente aproveitaria mais...
_ Mas você pode ir quando quiser! Seu pai não é o Armando Luís Fonseca?
Luciana sorriu entendendo a insinuação:
_ Sim, esse é meu pai. Mas não dependo mais do dinheiro dele... se eu quiser ir terei que economizar uma boa grana.
Renata ficou alguns segundo olhando para Luciana, que correspondeu firme àquele olhar interrogativo... mas Rê não quis entrar em detalhes.
Camila, depois de meia-hora voltou para a sala e as três conversaram descontraidamente, de maneira que nunca fizeram. Luciana e Renata estavam, finalmente, desarmadas.

No dia seguinte, Camila e Renata haviam combinado de se encontrarem para colocar o papo em dia. Foram a um bar no centro da cidade e falaram sem pressa, saboreando o momento do reencontro, da volta à antiga amizade. Falaram amenidades, besteiras... riram, ficaram sérias... até que a Cupido arriscou:
_ O que achou da Lu agora? – perguntou repentinamente e sentiu que Renata esperava por essa pergunta.
_ Acho que ela mudou nesses anos que passaram. Ela me disse que não depende mais do dinheiro do pai e isso me surpreendeu... Mas, depois, cheguei à conclusão de que o marido deve bancar as vontades dela.
_ Ela não é casada.
_ Não??? – Rê franziu a testa e tomou mais um pouco do chope. _ E o Namorado sem nome?
_ Ela se ligou que o cara era um otário e que não tinha nada a ver com ela. – respondeu Camila beliscando os petiscos tranqüilamente e olhando o movimento na rua. Renata queria mais, queria saber mais, mas resolveu se conter. _ Ela passou por uma má fase, péssima aliás... assim como você e, assim como você, ela cresceu bastante... não é mais aquela pati de antes.
_ Será que não?
_ Bom, eu te digo que não... mas seria legal se você mesma descobrisse.
_ Como assim?
_ Pô, Rê... seria demais se vocês se dessem bem, né? Vocês são minhas melhores amigas! Não vou conseguir ficar me dividindo para que vocês não se encontrem!
_ Ela me chamou de vulgar.
Camila começou a gargalhar:
_ Garota, ela te chamou de vulgar há seis anos...

Na mesma noite, Luciana foi até a casa de Camila conversar. Sabia que a amiga recém-chegada já estava a procura de emprego e Lu conseguiu que ela conversasse com seu editor chefe. Nada garantido, mas já era um ótimo sinal.
Falaram muito sobre a profissão, Camila contou suas experiências como estagiária de jornais estrangeiros e Lu contou sua saga até chegar ao posto que havia conquistado há pouco tempo. Camila conhecia suas amigas e sabia que Luciana era completamente diferente de Renata, mas conseguia enxergar que as duas se completavam: Luciana era racional, ponderada, usava sempre de bom senso; Renata era emocional, explosiva, ansiosa... via nitidamente que Lu precisava de mais emoção naquela vida certinha e tão regrada; já a outra necessitava de um pouco de pé-no-chão, de razão para organizar as coisas. Se elas fossem amigas seria perfeito... seriam as três melhores amigas e toda a ótima energia contribuiria para o sucesso delas. Camila não poderia ficar indo de uma a outra... o ideal seria juntar as duas.
Viajou nessa constatação enquanto Luciana falava falava...
_ Cá, está me ouvindo?
_ Opa! Sim... quer dizer... mais ou menos... – pensou rapidamente e: _ É que eu estava pensando no que a Rê falou sobre você...
A reação foi imediata e Camila riu por dentro. Luciana logo se aprumou entre as almofadas do quarto da amiga e perguntou:
_ O que ela falou sobre mim?
_ Disse que você parece bem melhor do que há seis anos...
_ Como assim?
_ Que você está muito melhor sendo independente...
_ Ahhh...
Lu ficou um instante em silêncio, de cabeça baixa, folheando um livro. Camila esperava pacientemente em silêncio por uma próxima declaração da amiga tímida, pois sabia que dali ainda sairia mais alguma coisa.
_ Ela também está bem melhor...
Camila sorriu. Sabia que seu plano funcionaria.

Capítulo VII: Pequenos episódios de quem pretende conhecer o(a) outro(a)

Primeiro episódio

Camila tratou de marcar uma simples baladinha, só para que Renata e Luciana voltassem a se encontrar. Seria em seu próprio apartamento. Seus pais haviam viajado e ela organizou uma “reuniãozinha” com vários amigos da época da faculdade para conversarem bobagens e sobre o mercado de trabalho. Ela queria voltar a alguma redação o mais breve possível e arregaçar as mangas.
Claro que todos se divertiram, inclusive as duas amigas da Cupido, que não perdia um só lance. Desejava sinceramente que elas se entendessem. Gostava muito das duas, cada uma a sua maneira e queria que elas se gostassem, respeitando o modo de ser uma da outra. Desarmadas elas já estavam e depois que souberam que uma “falou” bem da outra, a simpatia aflorou e sempre encontravam um pretexto para conversarem. Camila fazia questão de deixá-las sozinhas... ia para outra roda de amigos e as abandonava para que se conhecessem cada vez mais.
Nessa reunião, havia vários “ficantes” de Renata, na época em que ela “pegava” todos – bom, ela ainda “pegava” – mas com menos freqüência. Enquanto ela e Luciana conversavam na sacada do prédio, vários desses ex-ficantes se aproximavam para cumprimentar Renata. Mostravam-se gentis e carinhosos com a amiga que retribuía o afeto com simpatia e sorrisos. Luciana observava o modo como ela tratava aqueles homens, antes garotos-hormônios, e sentiu vergonha de um dia tê-la chamado de vulgar com tanta convicção e desprezo. Reconhecia que Renata não era vulgar, simplesmente curtiu uma fase de sua vida que consistia em se descobrir, em conhecer pessoas e, conseqüentemente, se conhecer. E, pelo que sabia, ela nunca foi sacana com os caras, nunca os iludiu com promessas de paixão ou amor eternos. Um desses garotos, transformado em homem, comentou sobre a época em que ele e Renata ficaram juntos por algumas semanas e, de maneira natural, lembraram e riram saudosos. Luciana ouvia tudo sorridente. Quando o rapaz se afastou, solicitado pela Namorada, Luciana achou conveniente se retratar:
_ Eu queria te pedir desculpas por algo que disse há uns seis anos... – começou ela passando o dedo pela borda do copo encarando Renata que, de repente, ficou séria sem entender.
_ Do que está falando?
_ Do dia em que discutimos naquela chácara e te chamei de vulgar.
Renata sorriu e tomou um pouco do vinho. Ficou olhando para Luciana e, pela primeira vez, sentiu um imenso carinho pela nova amiga.
_ Mas eu te chamei de pati...
_ Eu era pati... – as duas sorriram.
_ Ah! Mas eu não era vulgar! – riram novamente.
_ Por isso quero me desculpar. Eu não te conhecia e fui logo te julgando...
_ E agora? Você me conhece? – perguntou Renata olhando fixamente para Luciana que corou... e sentiu calor.
_ Não muito, mas o suficiente para reconhecer que fiz um julgamento errado sobre você.

Segundo episódio

Camila, em pouquíssimo tempo, já estava empregada no mesmo jornal em que Luciana estava. Departamento de Política Internacional... Camila estava se saindo muito bem. As energias estavam a seu favor! Queria comemorar e pediu sugestões de lugares legais para a amiga e, agora, também colega de trabalho.
_ Tem um barzinho no centro da cidade que é bem agradável... fica cheio e é muito bem freqüentado... – comentou Luciana enquanto terminava de digitar uma matéria.
_ É caro? – perguntou Camila debruçada sobre o monitor da amiga. Luciana sorriu e a olhou por cima dos óculos:
_ Não. Meu bolso não comporta mais baladas chiques.
Combinaram e saíram juntas dispostas a passar no apartamento de Renata.
Quando chegaram, Rê havia acabado de sair do banho. Ainda enrolada na toalha, pediu que entrassem e a acompanhassem até seu quarto para escolherem juntas uma roupa. Luciana nunca tinha ido ao apartamento da mais nova amiga e aprovou o bom gosto, as cores vivas, alegres... tudo identificava Renata e sua impulsividade, até o modo em que as coisas estavam, calculadamente, jogadas pelo ambiente. Olhou ao redor e comparou, por um breve momento, seus gostos com os dela. Seu apartamento era diferente... as cores eram neutras, frias... fazia questão de poucos móveis e muito espaço. Eram diferentes... sem dúvida, mas lhe agradava toda aquela cor, aquele estilo.
Ao entrar no quarto, Renata estava nua prestes a colocar um vestido escolhido por Camila. Lu não soube explicar o que aconteceu ao vê-la assim... nua em sua frente. Sentiu-se ridícula por corar, por sentir-se desconfortável diante de uma mulher – como ela – nua. Vislumbrou por um momento aquele corpo bonito, bem delineado, alvo e sentiu-se mal por tê-la olhado daquela maneira: “O que está acontecendo comigo!!!”
Renata percebeu. Seus olhares se cruzaram assim que ela entrou no quarto... sentiu-se arder por um instante. Sentiu o modo como Lu a olhou e chegou a pensar que a mais nova amiga a tivesse olhado com olhos de desejo. “Não, não pode ser...” – tirou logo o pensamento da cabeça. Renata continuava a ser a “don-juan” de saias, mas não jogaria charme para Luciana... não estragaria tudo justo agora que estavam se entendendo.

Foram para o tal bar. Sentaram-se e embarcaram num papo divertidíssimo: homens. Camila pretendia conhecer novas pessoas e, conseqüentemente, novos homens para que pudesse viver novas aventuras. Como ela mesma dizia “troca de energias” e as amigas morriam de rir com o jeito descontraído e espontâneo da Cupido. O ambiente era mesmo muito bom e, com o cair da noite, o bar foi enchendo. Um grupo de rapazes pagou bebidas para as meninas, que agradeceram à gentileza... em seguida já estavam sentados na mesma mesa. Conversaram e as três perceberam imediatamente o repertório “xavequista”; trocaram olhares, sorriram. Camila deixou-se cair, Luciana relutava e Renata competia com seu “opositor”. Riram bastante, jogaram no ar frases ambíguas, fizeram o jogo do “Manual dos Cafajestes”. Num determinado momento Camila se rendeu e Luciana quis ir ao banheiro.
_ Vou com você. – disse Renata, pedindo licença ao seu “pretendente” e acompanhou a amiga até o toalete.
_ Bom, pelo menos o seu sapo tem um papo legal, já o meu só fala sobre bebida doce, destilada, forte, fraca... um expert em porres! – comentou Renata entrando em uma das cabines. Luciana sorriu e disse que o seu, em contrapartida, lia o “Estadão” todos os dias porque falava sobre tudo ao mesmo tempo sem um pingo de profundidade... tinha como arma de conquista esbanjar conhecimentos fragmentados. Hilário!
Elas saíram do banheiro às gargalhadas quando Renata deu de cara com Júlia, que entrava no toalete. As duas pararam chocadas uma de frente a outra e Luciana observou a cena.
_ Oi! Quanto tempo!!! – com um clichê, quebrou o embaraçoso momento Júlia, sorrindo para Renata e, em seguida, abraçando-a com carinho.
_ É... que surpresa! – disse uma Renata atordoada e insegura, com um sorriso incerto e um olhar espantado. Luciana nunca a tinha visto assim diante de uma pessoa... nunca havia visto a rainha da sociabilidade tão desequilibrada.
Ficou de lado e não pôde mais ouvir o que as duas disseram, mas Renata estava vermelha e Júlia, aparentemente, feliz por revê-la. Porém, percebeu que a ex-namorada da amiga estava acompanhada por outra garota que a esperava na porta do banheiro.
Conversa rápida terminada e Renata dirigiu-se para Luciana com um sorriso sem graça:
_ Vamos?
Sentaram-se novamente ao lado dos respectivos profissionais do xaveco e Renata não perdeu tempo, beijou seu sapo que não virou príncipe. Não soube avaliar se o beijou para mostrar a ex-namorada e causadora de momentos terríveis de sofrimento que já a havia esquecido – e isso era verdade – ou se para mostrar para Luciana que sua ex não mexia mais com ela. Às vezes, se faz coisas sem saber exatamente o porquê e Renata, às vezes, agia assim... por impulso.
Lu, por sua vez, preferiu continuar conversando sobre tudo com seu sapo “intelectual” e, quando este tentou mudar, mais uma vez, de assunto com um beijo ela, delicadamente, recusou e investida. Olhou para os dois casais e chegou à conclusão de que estava feliz por não ter beijado ninguém... não queria beijar por beijar... queria apenas curtir. Que Camila quisesse conhecer novos caras e tirar o atraso... tudo bem. Mas Renata mostrava um pouco de imaturidade quando sempre fazia questão de beijar pessoas aonde quer que fosse. Isso era o que Luciana pensava. Só que, Renata, com seu velho lema “beijo na boca sim, porém, não grude”, logo deu um jeito de escapar do seu homenzinho e puxou a amiga desinteressada pelo seu sapo para outro canto do bar, completamente cheio. Foram para o jardim de inverno a fim de tomarem um ar.
_ Por que não ficou com ele? Era bonitinho...
_ Sei lá, não gosto muito de ficar por ficar... e ele também é um chato.
Renata sorriu e ficou olhando o movimento, enquanto tragava o cigarro. Depois de algum tempo:
_ Aquela foi sua ex-namorada, não foi? – perguntou Lu observando a reação da amiga, que soprou a fumaça com força.
_ Sim.
_ Você ainda gosta dela?
Renata demorou para responder.
_ Não. Hoje, não posso negar que fiquei surpresa em revê-la depois de tanto tempo, mas pude perceber que meu coração não disparou, nem minhas pernas bambearam. Os sintomas sumiram. – tragou mais uma vez e soprou a fumaça com calma. Depois encarou Luciana. _ Ficou um pouco de mágoa, mas ao mesmo tempo, agradeço a ela por ter me apaixonado de verdade... e até amado. Agora sei o que é isso... graças a ela.
As duas ficaram instantes mágicos se olhando. Em segundos, Luciana pensou no quanto Renata poderia ser sensível, meiga... e Renata apreciava os traços bem-feitos do rosto de Luciana e sorria com carinho, sem malícia.
_ Você acha que só é capaz de amar mulheres? – perguntou Lu sentindo-se à vontade. O olhar de Renata lhe dava essa segurança.
_ Não sei. Nunca me apaixonei perdidamente por um homem e menos ainda amei algum. Só sei que gosto de estar com as pessoas, não tenho pudor em demonstrar carinho por meio de um beijo na boca...
_ Por isso você beija todo mundo? – e começaram a rir. Renata tinha uma resposta na ponta da língua: “Adoro você e nunca a beijei na boca...” – mas resolveu não dizer, não queria estragar a magia daquele momento de conversa íntima. Apenas sorriu e comentou:
_ Pode ser... mas um dia paro... um dia encontrarei um amor. – encarou a amiga, agora, com malícia. _ Mas, enquanto não encontro... – e sorriu seu sorriso mais sacana e Luciana se encantava... sentia-se instigada por toda aquela malícia, aquele olhar tantas vezes ambíguo. Renata era um mistério.

Terceiro episódio

_ Por que Luciana não veio?
_ Putz, está com uma gripe terrível...
_ Hummm.
Estavam na festa de aniversário de uma amiga de Camila e Luciana. Era uma amiga da faculdade que fez questão da presença de ambas, pois se gostavam bastante. Luciana não pôde ir porque estava completamente sem forças para sorrir num evento em que estariam todos os seus ex-colegas de classe e muitos amigos do jornal. Camila, que também conhecia todos, arrastou Renata que sempre a divertia nessas festas que mais pareciam encontros para a avaliação de status: “O que você está fazendo; quantos carros você já tem; já casou e tem filhos; já assumiu um cargo de chefia???” Renata sempre se intrometia e oferecia cortes hilários e bem-humorados.
Mas não conseguia deixar de pensar em Lu. Já tinha se acostumado a tê-la por perto em todos os programas de fim de semana. Gostava de sua companhia, de sua calma, seu modo de observar... sentia-se bem ao seu lado e começava a se questionar a respeito dessa amizade: “Não consigo parar de pensar nela! Meu Deus, o que está acontecendo!!!” – pegou o celular e foi até um canto menos barulhento.
_ Alô!
_ Lu? Sou eu, Renata.
_ Oi amiga... – sua voz era quase inaudível, estava péssima!
_ Como você está?
_ Péssima... – começou a tossir: _ Mas amanhã estarei nova.
_ Posso passar por aí? – não resistiu.
_ Claro...
Renata desligou, despediu-se de Camila e seguiu para o apartamento de Luciana. Sabia que começava a entrar em território perigoso... sentia que estava se apaixonando e também sabia que Luciana era uma hetero convicta e que, por mais que tenha mudado nesses anos, ainda carregava resquícios de uma necessidade de fazer as coisas conforme a maioria.

Luciana estava na cama quando o celular tocou. Mal conseguia abrir os olhos, sua cabeça parecia que ia explodir. Pensou em não atender, mas quando viu que era Renata, uma alegria súbita tomou conta de seu corpo cansado e até se sentiu melhor. Levantou-se e tomou um banho quente, olhou-se no espelho e achou-se horrível, mas quanto a isso não poderia fazer nada. Foi para o sofá esperar a visita mais que bem-vinda e, enquanto esperava, pensava no quanto a companhia de Renata era agradável... sua alegria natural, sua vivacidade a enchia de carinho. Passou a mão pela testa em brasa e chocou-se com o fato de estar se apaixonando pela amiga... “que desastre... eu me apaixonando por alguém que beija todas as bocas, que tem como lema ‘eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo’ e, ainda por cima, é uma mulher...” – pensava um pouco triste. “Se deixo que ela me beije me apaixono de vez e, para ela, não passarei de mais uma pessoa pela qual ela sente ‘carinho’!”
A campainha.
Renata estava atrás da porta sorridente – e que olhos! Já disse que Renata tinha olhos cor-de-mel?! Não? Bom, Renata tinha os olhos cor-de-mel mais maliciosos que Luciana já viu. Balançava em uma mão um saquinho de chá e na outra havia uma pizza.
_ Já jantou?
Lu se esforçava para sorrir porque seu rosto doía. Abriu espaço para a amiga entrar e logo voltou para debaixo das cobertas no sofá. Renata a obrigou a comer e a tomar o chá antitérmico. Colocou as mãos na face de Lu – que quase derreteu de excitação – e pôde ver que a amiga estava ardendo em febre.
_ Venha, deite-se aqui. – intimou Rê sentando-se no sofá e deitando Lu em seu colo. Cobriu-a com carinho, acariciava seu cabelo com ternura e as duas ficaram ali, assistindo TV, sem dizer nada... cada uma absorta em seus próprios pensamentos... sobre a outra.

Capítulo VIII: Quando pensam que já se conhece o(a) outro(a)

Ambas já sentiam que haviam sido flechadas, sentiam a tal flecha invisível arder no coração e liberando o vírus intenso da paixão. Flechas atiradas por alguém que não tinha consciência de que realmente era um Cupido enviado pelo Destino. Cada uma delas lidava de modo diferente com este encanto avassalador que, quando chega, arrebenta e atropela. Nós administramos a paixão da forma que nos convém... elas também, ainda mais quando havia dúvidas, questões. O vírus da paixão estava ali, devastando tudo, mas elas ainda precisavam resolver algumas coisas... dentro delas e fora também.

Luciana já estava curada da gripe, mas adoeceu de paixão. Os sintomas, famosos sintomas de uma paixão. Quando via Renata tremia... não conseguia mais ficar tão à vontade ao seu lado, mas, como aprendeu - com seus pais e no meio em que viveu durante tantos anos - a esconder seus sentimentos, disfarçava muito bem e apresentava-se diante de Renata serena e segura de suas atitudes... mas por dentro havia um vulcão prestes a cuspir paixão... intensidade de um sentimento indócil. Continuavam a sair juntas... as três. Vez ou outra Renata levava uma outra “amiga” ou um “amigo” e Luciana quase enlouquecia de ciúmes, mas se continha... sorria, era amável e após presenciar algumas cenas de beijos dados entre Renata e suas “amizades”, ela dizia para seu coração que jamais poderia confiar numa garota tão... tão... superficial no que diz respeito aos sentimentos. Apenas sofreria se se deixasse encantar por aquele par de olhos e aquela boca convidativa. Sua razão dialogando com sua emoção... um debate interminável, mas era só Renata caminhar em sua direção e sorrir que seu coração dava o assunto por encerrado.

A intimidade entre as duas havia aumentado. Assim como Rê e Camila brincavam de seduzir, Lu foi incluída nessas brincadeiras, às vezes, de mau gosto para com alguém que já está tão sensível a investidas... mesmo que de brincadeira. Quando passavam no apê de Lu para irem a algum lugar, Renata sempre dizia que ela estava “irresistível” e a olhava provocativa; Camila assoviava, grudava na cintura de Lu, mas nenhuma carícia de Camila era mais ousada do que os olhares de Renata. Lu era tímida e não brincava muito dessa brincadeira... geralmente era quem ficava vermelha, e as duas amigas tão extrovertidas se divertiam e achavam “bonitinho” o “jeitinho” dela.

Renata, assim que constatou a paixão ardendo, tentou fugir. Seus casos relâmpagos aumentaram 30% desde que se descobriu encantada por Luciana naquele sofá, naquele dia, naquela hora. Lu dormiu em seus braços e ela ficou horas observando a ex-pati dormir um sono inquieto por conta da febre. Rê alisava seu cabelo e em seguida passou a acariciar sua face quente e lisa: estava apaixonada. “Que droga!” Resolveu sair dali e beijar várias bocas, independentemente do sexo. Por quê? Porque Luciana era hetero, porque Luciana não acreditaria nos seus sentimentos, porque Luciana não se permitiria ser amada por outra mulher, porque Luciana adorava preto e ela, vermelho! Várias coisas. Ajeitou-a no sofá depois de algumas horas admirando seus traços delicados... olhou-a pela última vez antes de sair e pensou em dar um selinho naqueles lábios vermelhos como brasa... mas resistiu. Foi embora respirando fundo, abanou-se... encostou-se à porta do carro e ficou olhando para cima, para o apartamento da amiga: “Que loucura!”
Camila que não era boba percebeu que a amiga tinha algo a dizer. Se Luciana conseguia esconder sentimentos, isso não acontecia com Renata... que demonstrava nos gestos, na postura, no olhar.
_ Conta.
_ Conta o quê?
_ O que está acontecendo...
Estavam no quarto de Camila sem ter o que fazer. Renata tentou disfarçar, negar, mas... putz, era Camila... sua melhor amiga! Mas, também era amiga de Luciana... mas, ... mas... melhor dizer... não conseguiria esconder por muito tempo da amiga... ela era Cupido!
_ Você é culpada! – acusou Renata nervosa. Camila franziu a testa sem entender nada.
_ Eu? Culpada do quê? Tá louca?!
Rê olhou bem nos olhos da amiga porque diria de uma só vez:
_ Você é culpada por eu estar apaixonada pela Luciana.
Camila engasgou-se com o chiclete que mascava e fez cara de não-ouvi-direito. Mas, Rê não deu chances de ela se manifestar:
_ Eu e ela nos odiávamos... eu não a suportava, queria distância dela. Mas, você, como é tããããooo popular, quis ser a melhor amiga dela também e colocou nessa sua cabecinha oca que nós tínhamos que ser amigas pra facilitar o seu lado. Pois então, ficamos amigas e aí eu pude ver que ela é maravilhosa, que ela é sensível, inteligente, meiga, possui uma timidez que me encanta, tem uma boca que dá vontade de beijar e um corpo escultural. Pronto!!! Você conseguiu mais do que queria: estou apaixonada pela Lu! – levantou-se da cadeira onde estava e, de costas, terminou: _ E agora não sei o que fazer.
Camila estava de boca aberta. Várias fichas caindo e ela tentando digerir. Sempre sonhou com a união de Renata e Luciana, mas... não esperava por... tanta união!
_ Putz! – foi só o que conseguiu dizer. Renata virou-se para ela com uma expressão de desespero:
_ Putz? É só o que me diz?
Camila se levantou e começou a andar pelo quarto.
_ Nossa! Não sei o que dizer... Acho que sou boa mesmo nessa coisa de juntar casais, né?
_ Camila!!! Não brinca! Não é brincadeira...
_ Desculpa.
Rê sentou-se desolada:
_ Não é só uma atração, é paixão mesmo... já conheço como é. Só que somos amigas, ela nunca demonstrou nada além de uma amizade legal. Tenho medo de estragar tudo se contar pra ela...
Camila sentou-se ao lado da amiga e a segurou pelas mãos:
_ Vamos pensar em alguma coisa.

Renata foi embora péssima. Só viu a amiga nesse estado quando estava de quatro por Júlia. Era mesmo sério! “Puta que pariu! Exagerei na dose! Era só para serem a-mi-gas!!!” – culpou-se enquanto se jogava na cama e olhava para o teto: “Bom, mas bem que seria bem legal se elas ficassem juntas...” Cá poderia ficar louca de ciúmes como aconteceria com qualquer mortal que vê suas duas melhores amigas apaixonadas uma pela outra, mas Camila não era qualquer mortal... era uma mulher de sentimentos nobres e, por ser assim, começou a desenvolver dentro de si uma alegria sincera por saber que Renata havia se apaixonado por alguém tão legal quanto Luciana. Só precisava saber se Luciana sentia o mesmo. Conhecia a amiga e sabia que não era tão fácil tirar dela o que sentia... era tímida, guardava muito suas emoções: “culpa daquela família da elite!” Teria que encontrar um jeito de abordar sutilmente Lu... saber o que ela achava de Renata agora, depois de tantos anos de “ódio”. “As porras das energias estão vibrando e não posso perder isso por nada!!!” – concluiu pegando apressadamente o casaco. Saiu correndo até o carro. Foi à casa de Luciana.

_ Lu, tava morrendo de saudade e vim te ver! – disse uma Camila lindamente cínica na porta do apê de Luciana que estava de shorts, camiseta e meias com um livro na mão.
_ Oi!!! Entre, mas não repare na bagunça... hoje nem tirei a roupa de dormir. – justificou-se sorrindo e retirando os óculos.
_ Sabe que não ligo para isso, né? Gosto de sentir a energia boa que vem daqui! Adoro seu apê!!! – ela nunca tinha reparado na qualidade das “energias” do apartamento de Luciana, mas foi o que lhe veio primeiro à cabeça.
_ Acho que no apê da Rê há melhores energias... lá há tanta cor...
Luciana podia ter razão...
_ É... mas, às vezes, cor não tem muito a ver não, sabia?
_ Ah é?
_ É.
Cá entrou, deixou a bolsa no sofá e iniciou sua pesquisa de campo:
_ Aliás... você sabe da Rê?!
Luciana foi até a cozinha buscar uma lata de cerveja para a amiga.
_ Não, não a vi hoje.
_ Estou achando ela meio estranha ultimamente... – observou um certo ar de preocupação no semblante de Lu, que lhe entregou a bebida e sentou-se ao seu lado abrindo sua lata de refrigerante.
_ Como assim?
_ Está quieta, pensativa... acho que está gostando de alguém... mas não quer me contar quem é. – soltou pausadamente parte de seu plano observando cada movimento da fisionomia sempre calma de Luciana. Esta estava atenta a cada palavra da amiga, mas não deixava claro nenhum tipo de sintoma que acometia Renata. “Muita calma nessa hora... com Luciana tem que ser com cautela.” – pensou Camila antes de propor: _ Você bem que poderia me ajudar a descobrir, né? – Lu levou um susto e – xeque mate – “aí tem!!!”
_ Eu??? Mas, por que eu?
_ Ora, porque você também é amiga dela! – tomou um gole da cerveja e continuou: _ Acho muito legal vocês, finalmente, terem se tornado amigas! – Lu sorriu:
_ Pois é... você tanto insistiu...
_ Mas, se ela não fosse legal, você não a teria aceitado em sua vida...
_ Claro. – Lu bebeu e olhou Camila nos olhos com a calma que lhe é peculiar. _ Renata me surpreendeu... ela é mesmo uma pessoa maravilhosa; ou ela não era nada do que imaginei na época em que a conheci ou mudou muito durante esses anos.
_ As duas coisas. – a Cupido a olhava nos olhos e enxergava um brilho diferente, sua voz continha carinho... não era impressão sua, Luciana sentia algo por Renata também, só não sabia se era algo assim... tãããooo especial. Resolveu colocar mais lenha naquela faísca: _ Ela também gosta muito de você... – Luciana corou e Camila vibrou por dentro: “Yes! Ela sente algo forte pela Rê!”
_ Por que acha que ela está apaixonada? Ela pode estar com algum problema... – questionou Luciana após se recompor.
_ Conheço nossa amiga... Ela está gostando muito de alguém. – olhou nos olhos da amiga tímida. _ Só não entendi ainda porque não me disse nada.

E assim foi a conversa entre as duas amigas. Camila colocou seu plano em prática e já tinha chegado a algumas conclusões: Luciana estava envolvida por Renata, mas ainda não sabia dizer se era paixão ou apenas um encantamento passageiro – Rê causava isso, esse encantamento em virtude de seu modo delicioso de ser -, Lu não dizia tudo o que pensava a respeito da amiga... era como se não quisesse se comprometer e dizer mais do que a razão permitia. “Minha missão será juntar essas meninas!!!”
Instantaneamente, lembrou-se que Renata faria aniversário na próxima semana e teria que organizar uma festa e tanto para ela. Talvez fosse um ótimo pretexto... “sei lá... sempre vamos a festas, qual seria a diferença?!” – refletiu enquanto voltava para casa.

Capítulo IX: A véspera do aniversário de Renata

_ Acho que ela gosta de você...
_ Ué, claro que gosta! Somos amigas... Você gosta de mim, não gosta?!
_ Não, sua tonta... estou falando de um gostar diferente...
_ Ah é?!!! Ela disse alguma coisa???
_ Não, mas pude ver em seu olhar, no modo como se comportava quando eu falava de você .
_ Lá vem você com o papo-furado de “energias se encontrando”...
_ Não zombe da transcendência das coisas.
_ Desculpa.
_ É sério. Conheço Luciana... ela não demonstrará que está morrendo de paixão por você porque ela foi criada para ser contida, controlar emoções e essas coisas que pessoas chiques fazem. Mas ela sente algo especial por você sim!
_ Camila, pára! Assim você me enche de esperanças e será pior...
_ Desde quando você tem medo?
_ Desde que descobri que estou apaixonada por uma amiga...
_ Poderia ser eu... seria mais fácil...
_ Ah, com certeza! É uma pena mesmo não podermos escolher por quem nos apaixonar. – um momento de silêncio. _ Mas, você não está apaixonada por mim... está?
_ Não.
_ Ah bom...
_ Só que tem uma coisa, Renata: se quiser conquistar a Lu, terá que sossegar esse fogo!!!
_ Como assim?
_ Parar. Parar de sair beijando todo mundo que você acha que tem um charme especial. Todo mundo tem um charme especial pra você!!! Incrível! Luciana não gosta disso. Se quiser ter alguma chance terá que conquistar a confiança dela.
_ Sim senhora.
As duas estavam deitadas no tapete da sala de Renata. Rê pensava que bem poderia se apaixonar por Camila... seria tão mais fácil, não teria dificuldade nenhuma em dizer isso a amiga e Cá era tão linda... tão sensual nos seus vestidos, nas suas mini-saias, blusinhas que deixavam a mostra o contorno de seus seios bem-feitos. Ela transmitia tanta paz, tranqüilidade e segurança... seria perfeita. Mas eram tão amigas que mesmo se um dia viessem a fazer amor seria como se não tivesse acontecido. Elas já eram tão íntimas que o contato carnal parecia ínfimo. Camila era demais, o amor fraterno de sua vida.
Camila, do seu lado, pensava o mesmo: como seria uma noite de amor com sua melhor amiga?! Simplesmente não conseguia imaginar. Ela não era preconceituosa e até beijaria uma mulher se sentisse vontade, mas nunca sentiu... muito menos beijar sua amiga gostosíssima, de olhos provocantes cor-de-mel. Já pegou em suas coxas e em seus seios durante as brincadeiras que faziam e deixavam Luciana morrendo de vergonha, mas nunca sentiu tesão... nunca se sentiu atraída por nenhuma das duas. O que rola é uma amizade absurda, coisa de irmã mesmo... de querer o bem... de querer que Renata e Luciana fiquem juntas de uma vez por todas.
_ Já pensou em abordar a Lu?! – virou-se para a amiga e ficaram cara a cara. _ Mas, de uma forma sutil. Ou então, simplesmente, contar o que sente... Luciana te adora, jamais a trataria mal...
_ Quando o assunto é Luciana fico completamente insegura...
_ Confia em mim... Ela não é mais aquela garota careta de anos atrás. – Camila sentou-se e encarou Renata séria: _ Você poderia tentar algo na festa do seu aniversário.
_ Como? – perguntava Renata numa súplica.
_ Ah, minha querida! Faça a sua lição de casa!!!
Renata passou as mãos pelo cabelo em sinal de desespero e sentou-se para encarar melhor a amiga:
_ Eu faço lição de casa todos os dias, meu amor! Minha lição é todos os dias antes de dormir pensando nela!!! – as duas começaram a gargalhar e deitaram-se novamente no tapete sem fôlego!

Um dia antes do aniversário de Renata, as três foram para uma balada muito ruim. Nem sempre acertamos os programas de fim de semana. Rê estava com o carro e deixou Camila em casa antes da uma da manhã, depois seguiu para o apê de Luciana. As duas conversavam sobre o desastre da noite: lugar cheio demais e cheio de pirralhos, lugar quente demais, lugar caro demais, lugar chato demais. Ambas prestavam muita atenção no que a outra dizia... bebiam as palavras que saiam da boca de cada uma. Quando o silêncio se instaurava, disfarçavam ouvindo a música do momento... todas baladinhas para casais.
Ao chegar na casa de Lu, Renata parou o carro e a olhou sorrindo: “Que linda! Que vontade de beijá-la!” Lu correspondeu ao seu sorriso: “Meu Deus! Esses olhos me enlouquecem!!!”
_ Quer subir? Está cedo ainda...
“Não acredito! Mas, será que conseguirei me controlar?!” – pensou Rê diante da proposta.
_ Bom, tudo bem... acho que podemos bater-papo até mais tarde então... – “eu queria fazer muito mais...”
Estacionou o carro e subiram conversando trivialidades. Entraram no apê e enquanto Luciana ia até a geladeira, Renata respirava fundo e tentava relaxar: “Como ela ainda não percebeu que estou completamente apaixonada por ela?” Observava a amiga caminhar em direção à cozinha: blusinha branca frente única e saia preta acima dos joelhos, cabelo solto... linda... linda! Rê sentou-se e tentou desviar sua atenção. Poderiam falar de jazz... ela havia estudado muito sobre jazz ultimamente e até comprou alguns CDs. A paixão é capaz de tudo!
Lu foi até a geladeira e ficou alguns instantes apoiada na porta: “Será que fiz bem em convidá-la? Acho que estou pirando!!!” Pegou a jarra de suco, derramou sobre os copos e, depois de respirar fundo, voltou fingindo naturalidade para a sala. Como a amiga já era íntima na casa, havia ligado a TV e se acomodado no sofá. Lu ficou na dúvida se sentava ao seu lado ou na poltrona... Resolveu sentar-se junto de Renata.
_ Está um calor aqui... – abanou-se Rê levantando-se de repente e indo até o outro lado do apê abrir a janela. “Deus me dê forças para não perder a cabeça!” Voltou para o mesmo lugar.
Na TV passava um filme desinteressante, então ficaram “zapeando” enquanto conversavam. Deixaram na MTV. Passava um clipe da Norah Jones.
_ Sabia que comprei um CD dela? Ela é da galera do jazz, não é? – perguntou Renata esparramando-se no sofá e encostando-se, sutilmente, em Lu... que também se esparramava... sutilmente.
_ Sim, ela é ótima, mas prefiro os tradicionais... John Coltrane, Miles Davis, Billie Holiday...
_ Você tem um gosto musical muito refinado... – comentou Rê tomando um pouco do suco.
_ Não começa com essa historinha de que sou fresca... – rebateu Lu em tom de brincadeira.
_ Nãããooo!!! Não foi uma crítica! É que me interessei em escutar jazz porque você vive dizendo que é muito legal... e realmente é maravilhoso, mas é preciso ter sensibilidade, sentir mesmo a música para que o estilo realmente nos toque.
_ E você gostou?
_ Amei.
_ Então é sensível...
Lu, às vezes, surpreendia Renata. Às vezes, insinuava, dizia coisas importantíssimas nas entrelinhas. Ao terminar a última frase olhou Rê nos olhos com firmeza, nem parecia a amiga mais tímida das três. Às vezes, Luciana a intimidava e isso a deixava sem fala... e a excitava demais.
_ Sim. Por incrível que possa parecer sou sensível sim...
_ Posso te fazer uma pergunta? – “Não sei onde estou me metendo, mas... a impulsividade toma conta de mim e preciso aproveitar antes que passe.”
_ Claro!
_ O que te leva a ficar com tantas pessoas e não se envolver com nenhuma delas?
“Nossa?! Essa pergunta precisa ser respondida com muita cautela...”
Renata ficou em silêncio por algum tempo enquanto assistia a um clipe do Coldplay... pensava em uma resposta sensata e verdadeira... talvez mais verdadeira do que sensata... estava com vontade de ser totalmente sincera com Luciana, a garota pela qual estava apaixonada e que assistia ao clipe ao seu lado – quase com a cabeça no seu ombro – e esperava por uma resposta.
_ Fico com as pessoas que me atraem de alguma forma: um jeito de olhar, um bom papo, um charme... sei lá. Mas é sempre uma atração momentânea... eu me divirto, a pessoa se diverte e ficamos bem. – uma pausa... um gole... um silêncio... Luciana queria mais. _ Tá! Eu me sinto vazia, às vezes, quando fico com uma pessoa e percebo que não a quero mais em pouco tempo... me sinto só, sinto falta de ter alguém sempre comigo. – um ar melancolicamente sincero ao final de sua sincera confissão: _ Não tive a oportunidade de amar muitas vezes...
Lu tomou o restante da bebida como se tomasse o restante de sua coragem:
_ Você amou Júlia?
“Bom, já que fui sincera até aqui...”
_ Sim. Muito. Ela foi meu primeiro amor real e agradeço a ela por isso.
_ E você ainda a ama?
_ Não. – respondeu com firmeza olhando nos olhos da amiga. _ Passou. Foi muito dolorido e cheguei a me revoltar contra o amor, que nos dá tanta felicidade, mas que também nos machuca tanto... fiquei mal, péssima mesmo... mas o tempo é ótimo, estanca a dor, transforma a ferida em cicatriz e aí fiquei bem novamente. – sorriu de maneira meiga ao concluir: _ Agora sinto falta de um novo amor.
Luciana permaneceu em silêncio pensando no que Renata havia acabado de lhe confessar. Já haviam conversado bastante sobre vários assuntos, mas nunca sobre o amor e nunca sobre relacionamentos... assuntos tão íntimos. Acabava de conhecer mais um pouco da amiga que sempre lhe pareceu imune a sentimentos tão profundos. Agora descobria que Renata, mesmo em seus relacionamentos relâmpagos, havia sentido muito mais intensamente do que ela, que sempre acreditou no compromisso e na fidelidade.
As duas já estavam em silêncio por algum tempo, olhavam para a TV mas não a enxergavam, quando Renata perguntou:
_ E você? Amou seu ex-Namorado?
Lu pensou... movimentou-se no sofá, trocou de posição para ganhar tempo... para encontrar palavras tão sinceras quanto as de Renata.
_ Nunca o amei. Se amor é aquele sentimento maior, forte, que faz com que queiramos a pessoa sempre por perto, a fim de dividir tudo e ainda contém sexo, tesão, e uma intensa paixão... não, não o amei. Eu gostava muito dele e, com o passar do tempo, me acostumei com a situação. – olhou fixamente para os olhos cor-de-mel de Renata antes de continuar. _ Lembra quando você disse que eu vivia de aparências? Pois é... eu vivia. Meus pais o escolheram pra mim e os pais dele me escolheram pra ele. Seríamos o casal perfeito pra dar continuidade aos negócios da família... Como éramos muito novos, acabamos aceitando e ficamos assim durante muito tempo. Ele se sentia envaidecido por me ter como namorada porque os amigos dele me cobiçavam... eu também tinha orgulho de ter um cara bonito como ele ao meu lado. Mas não éramos felizes. Ainda bem que despertei. Dolorosamente, mas despertei. Descobri que ele ficava com várias amigas minhas e hoje eu até o agradeço por ter me feito cair na real. Foi a partir daquela situação que dei um basta na minha vidinha besta.
Renata sorriu com carinho. Sua vontade era pegar o rosto de Luciana entre as mãos e beijar-lhe os lábios, aqueles lábios rosados que lhe diziam coisas tão verdadeiras. Controlou-se, apenas tirou alguns fios do cabelo de Lu que estavam sobre seu rosto lindo.
_ Eu sabia que você era muito diferente daquela garota que sempre levava para as festas o Namorado a tiracolo. – Lu sorriu timidamente e Renata se encantou... era por aquele sorriso que ela esperava. _ Você tem um sorriso maravilhoso, mas, naquela época, deixava pra mim apenas o sorriso cínico ou irônico.
As duas começaram a rir e lembraram do tempo em que trocavam farpas constantes. Acomodaram-se melhor no sofá e esticaram as pernas sobre um pufe que estava no meio da sala. Rê acomodou a cabeça no ombro de Lu, que se arrepiou inteira e sentiu-se excitada... queria abraçar Renata e dizer que estava apaixonada, mas não sabia o que fazer. Em meio a seus pensamentos, ambas adormeceram... e a TV ficou ligada.

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