DESENCONTROS
CAPÍTULO I – por Lavinia Motta e Mariana Cortez
Fuga ou Reencontro?
Lia estava no aeroporto a espera de seu embarque. Iria para a Inglaterra, uma temporada em Londres após um período difícil por aqui. O aeroporto estava cheio de intercambistas como ela, de malas, mochilas... A mudança por algum tempo... fugir dos problemas, ir em busca deles ou resolvê-los de outra maneira? Ela não sabia, só tinha consciência de que precisava ir para mudar... pelo menos a rota de sua vida. Não pensou muito sobre isso. Já decidira há tempos a viagem, sempre quis uma grande aventura, um “jogar tudo para o alto”... a oportunidade, agora, não poderia ser melhor. Demitiu-se da agência de publicidade, vendeu o carro, sua parte no apartamento, juntou a grana e agora estava lá, em meio a milhares de pessoas que também “jogaram tudo”... ou não. Ela sim, investia tudo para esquecer Juliana.
_ Tá tudo bem?
_ Sim. – assustou-se como se tivesse sido arrancada de um sono profundo, num misto de sonho e reflexões melancólicas. _ Estou apenas me despedindo temporariamente de tudo aqui.
_ Sabe que sempre estaremos aqui, não sabe?
Júlia era quase tudo na vida de Lia... só não era tudo porque Júlia atendia a um campo específico no coração de Lia: ao departamento da amizade, ao do amor fraterno. Não do amor carnal que ela tanto precisava naquele momento. Se Júlia não fosse sua amiga seria sua amante... mas parece que o Cosmos já determina que teremos amor sexual com uns e fraterno com outros. A quebra dessa determinação divina seria um desastre.
Lia nunca conseguiu olhar Júlia com olhos desejosos, apesar da amiga ser muito atraente.
_ Claro que sei. Caso dê tudo errado lá é pra vocês que volto! – respondeu sorridente apertando o rosto da amiga entre as mãos.
O “voltar para vocês” abrangia Sofia, namorada de Júlia há anos, que se tornou tão amiga de Lia quanto a primeira. As duas eram o casal perfeito: lindas, bem-humoradas, apaixonadas, independentes. Lia queria encontrar alguém como Júlia ou Sofia... alguém que formasse com ela a parceria que suas amigas tinham.
_ Dar errado? Pirou? Imagina se alguém como você vai se dar mal num lugar como Londres!
É, Lia era a senhora “jogo-de-cintura”... sempre encontrava solução para tudo... ou quase tudo. Solucionava os problemas de seus amigos, de seus clientes, mas às vezes não conseguia resolver os seus por conta de suas próprias limitações... talvez emocionais, sabe-se lá. Lia tinha alguns conceitos definidos e radicalmente intocáveis, tinha uma opinião firme como uma rocha e, às vezes, isso a fazia sofrer. Uma personalidade complexa era a de Lia... difícil penetrar seu íntimo – emocionalmente falando -, difícil dizimar o seu ciúme, o seu apego, a sua intensidade absurda, que contrastava com uma desconfiança persistente... algo como “é bom demais para ser verdade...”. Pode-se dizer que Lia era o contraste em pessoa: mar revolto por dentro, serenidade na expressão jovem e no sorriso acolhedor e honesto. Sempre conseguiu contornar seu próprio sofrimento e sorrir, mas agora estava difícil.
Era muito carismática, quase sempre segura, transmitia confiança. Era dócil e enérgica ao mesmo tempo, calma e vulcânica em menção de segundos, “talvez Juliana não tenha suportado isso... sei lá!” – ainda pensava saudosa. Afinal de contas: por que Lia e Juliana não estão mais juntas?
Lia tinha 26 anos – madura em alguns pontos, infantil em outros -, era redatora de uma agência de publicidade. Típica empreendedora-do-próprio-talento era valorizada no mercado brasileiro, mas recusou propostas... agora levaria seu profissionalismo para Londres, bem longe de casa. Era bonita... gostava de se vestir bem, afinal, era íntima da moda. Não era alta, mas sabia se fazer olhar... seu sorriso a iluminava e seus olhos negros sorriam junto. Lia transmitia vontade nas pessoas de se aproximarem dela... mas, daí até compreenderem o Universo-Lia era complicado.
Lia não era o que aparentava ser.
_ Sei lá... tão longe de todos, da minha casa...
_ Você nunca teve medo dessas provações.
_ Eu sei, não é bem medo... é uma certa insegurança...
Em meio ao tópico “tudo-vai-dar-certo” os pais de Lia se aproximaram. Elas mudaram o tom da conversa, afinal, depois de deixarmos a puberdade, passarmos pela adolescência e chegamos à juventude adulta, não é tudo que nossos pais precisam saber. Eles já a fizeram sofrer bastante com toda essa história.
Conversaram antes da partida. Lia deixou lembranças para Sofia e abraçou Júlia com a força que queria para si. “Vai dar tudo certo, Liazinha” – foi o que disse em seu ouvido a amiga e cúmplice. Seus olhos encheram-se de lágrimas – a insegurança, o medo do novo é mesmo aterrorizante quando não se sabe o que se espera. De repente, ela queria estar novamente pequena nos braços de sua mãe, apenas com a enorme responsabilidade de brincar com os amigos de escola e comprometer-se único e exclusivamente com a felicidade simples e momentânea... nada é tão importante quanto buscar a efemeridade da felicidade. Lia gostava de pensar na ínfima importância das coisas no final das contas... gostava de pensar que ela jamais perderia se fosse em busca de algo que quisesse muito. Naquele momento ela queria uma vida nova.
Entrou no imenso avião e olhou ao seu redor.. o corredor era como o túnel do tempo. Naquele instante ela estava aqui, no Brasil... daqui a algumas horas estaria em terras estrangeiras, desconhecidas.
Ela ainda sofria tanto. É mesmo difícil desligar-se de alguém que ainda ama, é horrível dizer “não quero mais” quando você ainda quer, ainda quer muito... Mas, querer sozinha, nesse caso, não é possível. Lia já havia passado da fase dolorida dos amores sofridos “Sei lá, já não sei mais de nada...” Fechou os olhos e encostou-se na poltrona... respirou fundo o ar londrino. Não, ainda não estava em Londres, mas estava a caminho e já sentia um cheiro diferente... aroma de novidade, desafios. Lia não tinha medo de desafios, tinha medo de não conseguir esquecer Juliana. “Por que você fez isso?!”
“Olha aí!!! Ela de novo na minha mente!!! Que peste!!!” Sentia uma leve vontade de chorar, não pelos pais e amigos que ficaram, mas por distanciar-se de Juliana... a possibilidade de um grande amor que não era mais, não sobreviveu. Juliana ainda era como a droga de Lia... “um dia de cada vez”. Por mais que a ex lhe fizesse mal, ela ainda queria estar por perto... feito uma masoquista ridícula, esperando apenas o golpe de misericórdia. “Que drama, Lia... que decadência!!!” – censurava-se enquanto sentia o avião partir. Fechou os olhos e tentou dormir.
Não conseguia dormir... sua cabeça trabalhava enquanto o coração ainda doía. Iniciou, então, a trajetória de sua lembrança... a partir do momento em que a dor havia aflorado e ela se sentiu perdida.
(continua com Lavinia Motta...)
O FIM
Tudo paralisa. O amor paralisa. Era um amor reprimido, guardado e mal aproveitado. Lia queria ligar, dizer para Juliana o quanto ainda a queria, falar que aquela situação não estava correta. “Desculpa por tudo que te falei, na verdade não quero que vá embora!”, queria dizer entre os soluços e os lábios umedecidos pelas lágrimas que nasciam enquanto olhava para a foto. Aquela foto trazia tantas lembranças. Teria sido aquele o melhor dia de sua vida? O dia em que finalmente mudaram-se para um lugar só delas, para morarem juntas? Sim, foi um dia perfeito: a tarde morrendo, a casa vazia e o beijo, só ele, demorado, suave como deveria ser o encontro de duas bocas tão delicadas, as mãos que tocavam de leve o rosto e a cintura. Um compasso perfeito, um “allegro”.
Queria beber. Olhou para as garrafas de vinho sobre o bar da sala, mas sua depressão era tamanha que não conseguia sair do sofá para abrir uma. “Por que não estão abertas?” Queria morrer, mas antes, ligaria para Juliana e desabafaria. Queria mais explicações, como se elas fossem apaziguar sua dor.
O telefone era uma tentação. Como não ligar se o número dela reluzia no teclado? Deu dois passos, vacilou por um instante e discou no desespero. Ouviu só dois toques e desligou arrependida. “Assim, não!” Sua voz sairia trêmula, chorosa. Não queria parecer fraca, deprimida, por mais que estivesse. Queria ser forte, e mais, queria parecer segura para poder argumentar... brigar mais, acusá-la outra vez, dizer com o dedo em riste – do outro lado da linha – que ela foi a única culpada por tudo o que aconteceu, por destruir o que construíram em dois anos. “E eu que pensei que você me amava...”, pensou e sorriu decepcionada, sem forças.
Lavou o rosto, mas, num surto de esperança, resolveu tomar banho. “Ela pode querer vir...”. Mal sentia a água gelada do outono em seu corpo. O sabonete de Juliana ainda estava lá. O perfume de aveia lhe cobria os pêlos rasteiros, enchia seus pulmões, inundava seu sangue. Como é possível sentir o aroma doce e delicado sem se comover de saudade? Sem querer o corpo da mulher que se ama para dividir a excitação cada vez mais crescente? Lia sentiu voltarem as lágrimas e resolveu terminar aquele filme.
Vestiu-se do jeito que Juliana gostava. Esperava ser despida do jeito que amava: de dentro para fora. Fechou os olhos por alguns segundos para sentir o toque de seu amor por debaixo da camiseta, dentro de sua calça, peças caindo pelo chão... Ai! Não entendia porque ela fez aquilo se há duas semanas dormiam abraçadas depois do amor exaustivo.
O telefone. Controlava a respiração para não sair de sua órbita normal. Sua tensão era evidente.
_ Pronto. - a palavra assustada era de uma voz sonolenta.
_ Ju, precisamos conversar. - as palavras eram de uma voz decidida.
_ Lia? Olha, estou cansada... já conversamos...
_ Você chama um “não dá mais” de conversar?
Um curto silêncio se instalou. Lia se arrependia de ter ligado. Afinal de contas, do que adiantaria brigar agora? E se chorasse, implorasse, seria lamentável.
_ Olha, não quero te magoar...
_ Mais???
Pronto, um conflito nascia ali. Lia percebeu. Juliana não cederia... não estava mais disposta a ouvir, provavelmente não queria mais ouvir acusações... mas Lia não pretendia mais... Respirou fundo, maneirou o tom de sua voz.
_ Vou para Londres.
O que Juliana diria? “Que bom, sempre foi seu sonho. Acho que agora que você me mandou sair de sua vida poderá ir pra me esquecer, seguir seu rumo, tentar vida nova. Boa sorte!”? Era o que o íntimo de Juliana responderia sinceramente, mas Lia ouviria isso como uma grossa ironia.
_ Quando? – perguntou, claro, num tom curioso.
_ Daqui a alguns meses... O tempo suficiente pra eu juntar algum dinheiro e preparar as coisas por lá...
_ Olha, Lia, te desejo toda a sorte do mundo. Será muito bom, você verá.
_ Obrigada, mas queria que você fosse comigo... - não pôde resistir. A voz era suplicante.
_ Por favor, não dificulte as coisas. Eu não posso ir com você. Entenda...
_ Não posso entender que você tenha trocado os dois anos que vivemos juntas por um relacionamento que já tinha terminado! - as palavras saíram torcidas pelo choro. _ Eu ainda te amo muito. Éramos felizes, não éramos?
_ Sim, éramos. Lia, não dificulte as coisas...
_ É melhor eu desligar. Adeus.
_ Tchau, Lia. Não fique assim. A viagem será boa e...
Tinha desligado. Sentia-se a mais idiota do mundo. De súbito parou de chorar. “Não vale a pena.” Bebeu até pegar no sono.
Juliana, ainda atordoada com a ligação no meio da madrugada, olhava o movimento da rua pela janela. “É claro que eu queria ir com você, amor... mas agora é tarde...” O arrependimento não resolveria nada, as coisas aconteceram e ponto. Acabou. “Mas ela estava disposta a me perdoar... ela ligou aqui para isso...”, pensou Ju enxugando com as pontas dos dedos as lágrimas que insistiam em cair. “Mas agora não dá mais, Lia...” Abaixou a cabeça e resolveu voltar para cama. Renato a abraçou e Ju aconchegou-se em seus braços.
_ Quem era?
_ Lia.
(continua com Mariana Cortez...)
CAPÍTULO II – AS LEMBRANÇAS QUE ACENTUAM A DOR
“Quando tudo começou a mudar? Como não pude perceber que o amor que Juliana sentia por mim esmorecia? Onde diabos eu estava com a cabeça que não percebi que perdia a mulher que amo... amava, sei lá?!” A dor camufla o amor... proliferam-se as feridas, as mágoas... o amor, finalmente, é soterrado por ressentimentos.
Mas, quando tudo começou mesmo?
Numa casa noturna que Lia freqüentava com amigos, incluindo, obviamente, Júlia e Sofia. Estavam sempre todos lá e Lia se sentia muito à vontade no seu território, no seu parque de diversões regado à música, à pista, à bebida e muitas conversas, gargalhadas... novas pessoas, novos amigos, novos casos, romances, namoros... ali tudo poderia acontecer e foi lá que conheceu Juliana. Conheceu-a num bom momento, já que havia superado a última desilusão amorosa. Um amor meio platônico, estranho. Lia sentia um ciúme absurdo pela garota que nunca quis se comprometer, nunca desejou assumir a imensa paixão que Lia sentia. Deu um basta: “BASTA”. Nunca mais a procurou. Sofreu muito, mas sempre confiou muito em si mesma e na força que possuía para superar esse tipo de coisa. Se algo estivesse saindo errado ela simplesmente interrompia o curso dos acontecimentos... parava tudo para não sofrer, para não permitir que se machucasse... odiava sofrer por alguém, mas isso acontecia o tempo todo porque, de repente, via-se envolvida e sentia-se levada à possessividade. Era difícil controlar seu ciúme, sua vontade de ter só para si alguém que não era dela. Então, antes de se envolver dava um basta. Mas isso foi antes de conhecer Juliana.
Ainda se lembrava da expressão da garota como se tivessem se encontrado ontem. Curiosa... olhava rapidamente para tudo e todos... olhos vivos de um verde sedutor, ligeiros e expressivos. Comportava-se como uma intrusa, uma turista naquele lugar onde quase todos se conheciam e eram raras as carnes novas. Lia logo a viu, logo sentiu-se atraída... como um ímã. Essas coisas da paixão ninguém explica... nenhuma teoria científica. Seus olhares se cruzaram e Lia sorriu seu sorriso meigo e acolhedor. A menina ficou sem graça, mas correspondeu ao sorriso – seus olhos desmentiam aquela aparente timidez -, mas logo foi puxada por alguém... Lia esticou o pescoço, tentou olhar por cima da multidão, mas perdeu a menina assustada.
Não era uma casa voltada exclusivamente ao público GLS, mas havia se tornado um ponto de encontro desse público animado. Lia estava ali quase todos os sábados, dia certo para encontrar o pessoal... andava pelos labirintos formados por homens e mulheres que conversavam descontraidamente nos corredores da danceteria. Era puxada por um amigo, cutucada por uma amiga... cantada por “turistas”. Pegava uma bebida, voltava para a sua rodinha, conversava com Sofia... riam dos acontecimentos da semana na agência – trabalhavam juntas – dançavam, voltavam ao bar, conversavam com mais pessoas, conheciam outras que beijavam ou não... Júlia sumia no burburinho da pista... encontravam-se horas depois. Apartavam brigas de casais descontrolados, consolavam amigos, acompanhavam as bêbadas ao banheiro e assim a balada de Lia rolava quase todos os fins de semana.
Mas naquele dia foi diferente. Lia não conseguia prestar atenção nos comentários venenosos que Júlia fazia sobre tudo... não atendia aos puxões de Sofia para dançar ao som de sua música preferida, nem fez questão da bebida. Queria apenas, e exclusivamente, e somente, e de qualquer maneira, encontrar de novo a menina assustada. Aquela mesma menina que estava naquela saia com estampa de uma pintura qualquer e naquela blusinha sabe-se lá de que cor colada ao corpo, com um decote... com a boca semi-aberta e olhos curiosos... “preciso encontrá-la... preciso saber se este encantamento é real”. Saiu em busca... deixou Sofia na pista e Júlia com suas hilárias teorias sobre o cotidiano.
Percorreu o labirinto, encontrou mais amigos, mas não parou, apenas os cumprimentou com seu famoso sorriso encantador-das-pobres-almas-carentes. Foi até o banheiro: “Encontrá-la aqui seria muita sorte!”, sorriu para si enquanto desviava de mais pessoas. Foi até o bar e: “Ali”. Era ela, a menina curiosa que agora conversava com dois rapazes – era um casal, conhecia-os há tempos – e duas garotas – provavelmente não era um casal... seu “radar” captava essas coisas. Lia foi até o bar buscar uma bebida. Nem chegou a cogitar a possibilidade de não ir até lá... Lia não era tímida, era decidida. Pegou a vodka com suco de caju e esbarrou – sem querer, coitada! – na menina ex-assustada que virou para ela incomodada.
_ Putz, desculpa!!! Eu não queria... – desculpou-se como se não tivesse premeditado aquele esbarrão.
_ Sem problema, não esquenta... – a menina que virou para xingar o descuidado, sorriu ao ver que a descuidada era a menina do sorriso doce que a acolheu assim que chegou.
_ Molhou você? – Lia sutilmente olhou para o decote da garota e deliciou-se por dentro. “Que linda!”
_ Não... quase. – e os olhares se cruzaram novamente e, desta vez, fixaram-se por mais tempo. A menina não estava mais assustada, havia se adaptado bem ao novo lugar e agora demonstrava ser bem determinada. Seus olhos não eram de ninguém intimidado... muito pelo contrário, Lia se sentiu muito provocada por aquele par de olhos verdes.
_ Você gosta? – ofereceu Lia ainda mais provocativa e sorridente. A menina/mulher tirou o copo de suas mãos tocando seus dedos. Grudaram-se no olhar e Lia pensava, naquele momento, em como seria grudar naquele corpo maravilhoso, naqueles seios simplesmente apetitosos no decote... Uma loucura! _ Está sozinha? – Lia não queria perder tempo nem deixá-la escapar.
_ Estou com amigos... acho que você já os conhece... estão sempre aqui. – de repente estirou a mão e: _ Sou Juliana.
Lia recusou a mão e beijou sugestivamente seu rosto, sussurrando em seu ouvido:
_ Sou Lia. É um prazer te conhecer, Ju...
As duas sorriram sensualmente e Juliana respondeu no ouvido de Lia:
_ Está sendo um prazer, Lia.
Logo saíram dali... queriam conversar. Bom, na verdade queriam se seduzir... queriam trocar mais olhares, queriam sussurrar mais ao ouvido, tirar a bebida uma da mão da outra e roçarem os dedos. Estavam se conhecendo. Encostaram-se a uma pilastra próxima à pista e, como era impossível iniciar um diálogo elaborado naquele lugar, apenas diziam frases insinuantes uma no ouvido da outra.
_ Notei você assim que entrou...
_ Estava um pouco por fora, mas adorei o lugar... estou adorando...
_ Eu esbarrei em você de propósito...
_ Eu sei... essa tática é velha, Lia...
_ É que fiquei te procurando e quando encontrei não poderia sair dali sem conversar com você...
_ Que bom que esbarrou em mim!
_ Eu posso fazer melhor...
_ Então...
Lia pressionou mais Juliana contra a pilastra e a olhou nos olhos. Não diziam mais nada... além da música alta, não era preciso... Ju passou a mão pela cintura fina de Lia e a puxou com força para mais perto dela enquanto Lia roçava seu nariz no pescoço de Ju que arrepiava e Lia sentiu aqueles seios maravilhosos enrijecerem. Beijou delicadamente o pescoço daquela mulher e ouviu um gemido em seu ouvido. Estavam completamente excitadas e finalmente se beijaram. Um beijo forte, cheio de desejo, de um tesão repentino e incessante... um beijo demorado e delicioso... línguas desejosas que vasculhavam a iminente paixão e provocava, provocava, provocava...
_ Vamos sair logo daqui. – puxou Juliana pela mão, foi até a mesa onde estavam Júlia e Sofia, pegou a bolsa e saíram apressadas. O desejo não poderia esperar.
Uma loucura a vontade quando chega assim. Perde-se a razão, o instinto invade o raciocínio e faz-se maravilhas... as atitudes pelas quais a vida vale a pena. Lia e Juliana sabiam disso quando entraram no carro e se beijaram desesperadamente. Lia arrancou escutando, ao pé do ouvido, sussurros e insinuações. Ju acariciava o cabelo daquela garota que simplesmente a arrebatou com aquele sorriso, aquele olhar negro... aquela boca. Ju acariciava a coxa de Lia que perdia o controle quando encontrava algum farol vermelho no meio do caminho. Esquecia-se de tudo e avançava sobre aquela mulher que queria que fosse sua.
_ Hoje você será minha...
_ Hoje e quando mais você me quiser...
Pararam no apartamento de Júlia e Sofia e foram para o quarto de hóspedes. Mal conseguiram fechar a porta. Juliana puxou Lia para a cama e a despiu imediatamente... sem meias ações, sem pudor.
Foi assim. Arrebatadoramente. Uma paixão fulminante... algo totalmente imprevisível e rápido, intenso e fantástico.
Amanheceram uma nos braços da outra. Não tinham bebido demais, nem estavam carentes. Elas se quiseram de verdade e se queriam ainda... e mais pelo tempo que ficaram juntas. Quando Lia acordou, Juliana ainda dormia enroscada a ela. Por um instante sorriu pensando na loucura que era tudo aquilo: “Eu a conheci ontem e já estamos aqui...”, mas não sentia como um “sexo casual”, sentia a paixão aflorando... aquele corpo junto ao seu lhe causava sensações nunca antes experimentadas... estava saboreando aquela breve e avassaladora história. Ficou olhando Ju... sua expressão serena, o contorno do seu rosto, suas sobrancelhas... seus cílios... sua boca... acariciou seu cabelo sedoso quando Ju abriu os olhos sonolentos e espreguiçou-se ainda nos braços de uma enfeitiçada Lia.
_ Espero que se lembre do que fizemos hoje cedo aqui... – comentou Lia assim que Juliana sorriu seu primeiro sorriso do dia.
_ Sim, claro que lembro... não estava tão bêbada assim... – fez uma pausa e ficou observando Lia. _ Aliás, estava muito bêbada sim... bêbada de tesão por você.
E quando iam começar tudo novamente o celular de Juliana tocou:
_ Renato?
Silêncio.
_ Depois a gente conversa..., ..., ..., não, não... não quero conversar sobre isso agora, preciso desligar... a gente se fala.
_ Quem é?
_ Meu namorado.
(continua com Lavinia Motta...)
CAPÍTULO III – O DESTINO
Lia tentava se concentrar na leitura. “Não é bom começar vida nova com pensamentos velhos.” Era também dada a superstições. Quanto mais se esforçava na leitura, mais raiva de Juliana sentia porque se lembrava de tudo o que destruiu seu relacionamento. Na verdade, misturava rancor com uma saudade absurda e incontrolável. Não sabia mais como tomar decisões. “Daqui a poucas horas estarei em Londres. Preciso esquecer, preciso esquecer!” Claro, muitas coisas se passam na cabeça, ouvia muitas vozes, um zumbido de fundo.
Não conseguia se concentrar na leitura e resolveu ver o filme que tinha apenas começado. Colocou os fones e treinava os ouvidos ainda mais para o inglês. As pálpebras fechavam devagar, até não poderem mais resistir e dormir um sono sem sonhos, depois de duas noites em claro. Não que fosse insegura ou excessivamente preocupada. Mas, sair do país, longe da família das amigas... de Juliana. Sim, estava com medo.
Depois de algumas horas, acordou assustada com o barulho a sua volta. Percebeu que tinham aterrissado. Apressou-se com suas coisas, queria sentir o cheiro de vida nova logo, descobrir os sabores daquela terra que agora seria seu lar. Assim que chegou no saguão procurou por Ricardo, seu primo que há anos vinha lhe fazendo a tentadora proposta de morar com ele e trabalhar em Londres. Parece que agora tinha chegado a hora.
_ Lia? Não acredito! Você veio mesmo, mulher!! _ estava eufórico. Abraçaram-se depois de cinco anos sem se verem. Ricardo e Lia foram criados juntos e eram inseparáveis. Como filhos únicos, acharam um no outro o irmão/ã que não tiveram.
_ E você não acreditava em mim, cachorro! _ beijava-o e abraçava-o com força. _ Você não vai pegar minhas malas?
_ Claro, depois de cinco anos convivendo com a família da Rita, tive que me tornar um “gentleman”! Venha, vamos pra casa.
Ricardo e Rita tinham se casado ainda no Brasil, havia oito anos que estavam juntos, seis anos casados. Ela era filha de pai inglês e de mãe brasileira. Depois que sua mãe morreu, resolveu ficar junto do pai, que só pensava em voltar para a Inglaterra. Ricardo não teve dúvidas em ir. Acompanharia a mulher que amava e realizaria seu sonho de infância: morar na terra do Rei Arthur!
_ Então, me conta melhor como é viver na terra da rainha Guinevere? E onde está a Rita?
_ A terra do Rei Arthur é ótima quando você não fica sujeito aos preconceitos por ser estrangeiro... você verá. Rita foi comprar o resto dos ingredientes para o seu almoço de chegada. Ela compra e eu cozinho. Hahaha!
_ É melhor assim mesmo. Ninguém merece o tempero da sua mulher!
_ Certo... mas então, como você está, amor? Conseguiu deixar o que precisa pra trás? _ ele sabia como confortar Lia, mesmo fazendo as perguntas mais difíceis.
_ Ah... pior que não, Cá. Queria muito esquecer Juliana de um dia pro outro, mas não consigo...
_ Chegamos... olha só, não é de um dia pro outro. Vocês terminaram há cinco meses, Lia! Você nem se esforça pra esquecê-la. Como você não percebe isso?! ... Scott?
_ Eu percebo, tanto que estou aqui, Ricardo... por favor... Se eu ficasse por lá, sentido a presença dela em todos os cantos que eu fosse nunca conseguiria. Não sei se quero esquecê-la. Algo dentro de mim diz que vamos voltar ainda.
_ Então não estou entendendo. Foi você quem mandou que ela saísse de sua vida. – disse entregando-lhe o copo. _ Claro que ela te enganou... mas, sinceramente, nunca passou pela minha cabeça que um dia você viesse a perdoá-la. Ainda mais você...
_ É... não sei se conseguiria viver com ela novamente sem desconfiar dela o tempo todo...
_ Você já é naturalmente desconfiada. – retrucou Ricardo com um sorrisinho que Lia já conhecia... e odiava.
_ Estou aqui pra você me dar apoio ou ficar do lado da Juliana? – Lia começava a ficar nervosa.
Ricardo a puxou pela mão e a beijou.
_ Claro que estou com você, Lia! Você não pode ficar aqui pensando no que passou e perdendo a melhor fase da sua vida, deixando passar as grandes chances! Agora você está aqui comigo, amor. Tudo vai melhorar, eu juro!
Abraçaram-se.
_ Eu te amo, cachorro!
_ Afasta os pensamentos ruins, mulher. Rita e eu conhecemos lugares ótimos pra você se divertir e, quem sabe, conhecer uma londrina bem descolada... hum, hum?!!
_ É, pode ser... mas o que quero mesmo é trabalhar! Então, como estão seus contatos? Usou de sua influência ou não?
_ Claro! _ deixou a copo de lado e começou a falar sobre as agências que estavam interessadas no currículo de Lia. _ Acho que esta é perfeita. É de um amigo do irmão da Rita. A agência dele quer voltar mais os produtos pro mercado latino, conversei pessoalmente com ele. Disse que uma prima brasileira minha chegaria esta semana em Londres cheia de projetos publicitários para os latinos espalhados pela Bretanha. Juro que ele ficou interessado!
Risos. Ricardo era muito esperto e para ver sua Lia feliz, conseguia quase o impossível.
_ É sério, tonta. Você tem uma entrevista nesta quarta às dez da manhã. Conselho que te dou: seja pontual!
E Lia seria. Queria mais que tudo isso para si. Teria que dar um BASTA naquele sentimento todo que ainda nutria por Juliana, que a enganou, que a magoou tanto: “Não estou me reconhecendo...” Onde estava aquela Lia que dava um jeito quando pressentia que iria sofrer? Onde estava aquela Lia que sabia exatamente o momento de parar. “Basta”. É sempre muito mais fácil falar... “mas vou conseguir... nunca a perdoarei”.
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_ Sofia?
_ Oi, Juliana. Só liguei pra avisar que Lia chegou bem em Londres. Caso queira saber...
_ E por que eu deveria?
_ Talvez porque você ainda a ame, não é?
Silêncio. Juliana queria dizer desaforos a Sofia. Como se atrevia a lhe desafiar e jogar a verdade desta forma em sua cara?
_ Olha, Sofia, gostaria muito que você não me desse qualquer informação sobre Lia. Se eu ainda gosto dela, isso é um problema meu.
_ Mas você sabe o quanto ela ainda sofre com a separação, não sabe?
_ Foi melhor assim e você sabe por quê.
_ Tem certeza que prefere ficar na ignorância?
Mais silêncio. Juliana respirou fundo e mordeu o canto da boca. Abaixou a cabeça pesada. Sentiu um nó na garganta. Era como se Sofia visse cada movimento.
_ Entendi, Ju. Só o indispensável.
_ Obrigada.
(continua com Mariana Cortez...)
CAPÍTULO IV – “ACIDENTE” DE PERCURSO
Juliana desligou o telefone com o coração ainda disparado, com a boca seca, com uma leve vertigem – e não era por conta de seu estado. Ficou alguns instantes de cabeça baixa: “Ela chegou bem... que ótimo...”. Depois de cinco meses a mesma sensação... a impressão de proximidade, podia sentir o perfume de Lia... era como se tivesse ido embora do apartamento onde moravam juntas ontem. Levantou-se do sofá e respirou fundo: “O importante é que ela chegou bem.” Foi até o quarto, mais precisamente até o guarda-roupa e de lá tirou uma caixa enorme. Lá estava boa parte de sua vida, sua vida com Lia... ali, naquela caixa, estavam guardadas as recordações, os cartões, as fotos, as cartas, os pequenos presentes. Só o seu amor não podia encaixotar... e bem que queria. Retirou da caixa uma das fotos que tiraram juntas em um dos milhares de passeios e baladas felizes que fizeram... seus rostos transmitiam uma alegria apaixonada. Lia e seus olhos negros expressivos, seu sorriso acolhedor... o mesmo sorriso que viu naquela casa noturna onde se conheceram. Sentiu-se confortável com aquele sorriso... acolhida. Sentia-se segura com Lia por perto.
Foi uma paixão avassaladora.
Naquele dia, quando se conheceram, depois de fazerem amor e chegarem juntas à conclusão de que algo muito forte havia acontecido ali, o celular tocou:
_ Renato?
Silêncio.
_ Depois a gente conversa..., ..., ..., não, não... não quero conversar sobre isso agora, preciso desligar... a gente se fala.
_ Quem é?
_ Meu namorado.
_ Seu namorado? Você tem um namorado?! – perguntou Lia erguendo-se rapidamente para olhar bem Juliana. Seus olhos questionadores e suas sobrancelhas franzidas pressionavam Juliana que não queria que aquele momento terminasse. Foi a primeira vez que experimentou o ciúme de Lia e, a princípio, não achou isso ruim... muito pelo contrário, isso mostrava que Lia estava tão envolvida quanto ela. As duas queriam o mesmo... ambas se deram com tanta intensidade e paixão que queriam ser uma da outra para sempre. Mas AINDA havia Renato e isso enlouquecia Lia.
_ É... tenho um namorado...
Lia olhou para o lado... era a primeira expressão de fúria que Juliana via estampado no belo rosto da mulher que acabava de despertar nela uma paixão louca. Lia sempre foi explosiva em determinadas ocasiões, mas Ju ainda não sabia... só sabia enxergar a novidade, o turbilhão de reações químicas, psíquicas e afins que aquela garota despertava nela de maneira tão forte. Lia levantou-se da cama violentamente e começou a se vestir sem dizer mais nada. Não acreditava ter vivido um momento tão efêmero... já tê-lo de interromper por conta de um fato. Um namorado é um fato... um fato que muda tudo.
_ Você tem um namorado e está aqui comigo... ótimo!!!
_ Calma, Lia... não precisa ser assim...
_ Como não precisa ser assim? Ridículo essa coisa de ir para a cama com uma pessoa quando se tem outra esperando por você sabe-se lá aonde! – gritou enquanto vestia a calça com a voz trêmula de raiva. _ Você conhece algo chamado fidelidade? Acho que não...
Mas poderia ter sido sexo casual. Não existe tanto disso por aí no século XXI? Supermoderno... “cool” transar sem compromisso. E daí que Juliana tinha um namorado? Foi apenas uma transa, um passa-tempo...
Não, não foi. Aquela química toda que chamam de paixão borbulhava dentro de ambas. Coisa que quando acontece na vida acontece uma única vez, isso quando há esse privilégio uma vez durante uma vida inteira. Não foi por acaso aquilo tudo, em algum lugar estava escrito. Ju tinha medo de perder Lia... e vice-versa. Perderiam-se se não agissem rapidamente. Juliana saltou da cama atrás de Lia, que já destrancava a porta – e desejava intimamente ser impedida de sair daquele quarto -, e a segurou pelo braço:
_ Espera, Lia. – ela se virou com olhos lacrimejantes e boca cerrada. Foi ali que Ju percebeu que Lia sentia exatamente o mesmo que ela. _ Tudo aconteceu tão de repente... foi tão natural... Olha, eu não quero que você saia da minha vida como entrou... Hoje foi fantástico... eu não sei o que dizer, mas não quero que acabe... você entende?! – fixou-se nos olhos de Lia com ternura: _ Fica comigo!
Lia violava um dos seus grandes-intocáveis-princípios-radicais: deixou o ciúme de lado, deixou também no canto escuro de sua consciência a sensação de ter sido enganada por uma pessoa que mal conhecia e que ainda não devia nada a ela – Lia era assim. Mas, enfim... ela não pôde resistir àquele pedido acompanhado daquele olhar desejoso. Apesar de tudo enxergava sinceridade neles mesmo a conhecendo há poucas horas. Horas tão mágicas, tão íntimas que elas sentiam que já se conheciam há tempos. Lia beijou Juliana e as duas voltaram para a cama.
Aquilo, definitivamente, não era apenas uma aventura. Ju sentiu seu corpo arder desde o instante em que os olhos de Lia pousaram nela. Juliana nunca havia dormido com uma mulher antes, mas aquela paixão transcendia essa situação... era muito, infinitamente maior do que qualquer convenção preestabelecida. Ela sentia os lábios macios de Lia em seu corpo, em suas partes mais sensíveis e saía por alguns preciosos instantes de sua realidade tão monótona em uma relação já adormecida... desgastada. Ju queria aquela outra realidade que acabara de lhe ser apresentada... uma realidade com Lia, aquele ser doce e determinado que a invadia e invadia sua vida de maneira que ela não queria impedir.
Juliana era instável, inquieta... tinha uma sede insaciável de vida, tudo o que pudesse viver o mais rápido e intenso possível. Era uma sonhadora que muitas vezes mudava de realidade para sair da rotina que ela não suportava. Era livre. Ninguém a dominava, ninguém a teve – até que surgiu Lia com seu sorriso acolhedor. A menina de olhos claros curiosos era comunicativa, expressiva, criativa, expansiva e espalhava-se nos ambientes e agora se espalhava na vida de Lia, muito mais contida e tranqüila. Sua formação era extensa e demonstrava bem como era sua personalidade: freqüentou a faculdade de Educação Física porque, na época, gostava muito de esportes, mas, de uma hora para outra, descobriu-se apaixonada pela literatura e transferiu-se para o curso de Letras, que cursou por dois anos até encantar-se pelas capas dos livros que lia e decidiu fazer faculdade de Webdesigner. Tornou-se capista de uma grande editora. Por enquanto gostava muito de seu trabalho e ainda não havia se apaixonado por outra atividade. Havia sim desapaixonado de Renato, assim como desapaixonou de Caio, Lucas, Fábio... Juliana era assim... poderia ser imaturidade, como os amores substituídos e os egos feridos insistiam em dizer, mas Ju não achava isso, simplificava as coisas dizendo que simplesmente não havia encontrado a pessoa certa. Mas, quando tinha tempo de ficar no escuro pensando em si mesma com calma, chegava à conclusão de que era imaturidade sim. Dúvidas... muitas dúvidas sobre o que sentia e sobre quem era e precisava encontrar alguém que a fizesse se descobrir, crescer. E ela tinha pressa, uma ansiedade angustiante.
Mas Ju mudou. Não totalmente porque ainda crescia, mas começou a mudar a partir daquele dia.
Quando já era dia, a outra realidade, a que Ju não queria, voltou. Acordou e ficou observando Lia que dormia o sono dos satisfeitos. Hoje ela lembra o quanto a olhou dormir e o quanto aquela paz a inundou. Apaixonou-se ainda mais.
_ Não quero te perder. – foi a primeira frase que ouviu de Lia assim que despertou e deparou-se com a luminosidade do olhar quente de Juliana.
_ Você não vai me perder, não quero te deixar.
Foi a partir daí que decidiram ficar juntas. Outra realidade. Mas Ju precisava resolver seu caso com Renato. E não só com ele... teria que enfrentar sua família. Talvez não fosse tão complicado já que era a típica rebelde, ovelha desgarrada e problemática, que nunca se acertava na vida enquanto que os irmãos, primos e parentes distantes eram todos bons filhos bem-sucedidos. Ficava horas analisando a reação dos pais quando dissesse que trocou Renato – genro que toda sogra gostaria de ter – por uma morena linda!
Terminou o namoro de três anos. Foi doloroso no começo, quando Renato discursava sobre os momentos legais que tiveram e os planos que tinham para o futuro. “Não há futuro, Renato”, dizia enfaticamente uma Juliana triste, porém determinada. Mas, o inconformismo do ex-namorado se transformou em raiva e escárnio quando descobriu que havia sido trocado por uma mulher. “Você me trocou por uma transa com outra garota? Desde quando você é lésbica???”, o brilho de seus olhos mudou, de repente transformou-se em um estranho como se ela houvesse dito algo realmente absurdo: “Não é um absurdo eu ter me apaixonado por uma mulher...”, ele coçou a cabeça e concordou pegando a mochila e abrindo a porta: “Claro, Juliana... nada me surpreende vindo de você!”. Bateu a porta atrás de si. Foi. Mas jamais desistiu.
Num jantar em família Juliana – A Problemática comunicou aos pais que havia terminado com o genro dos sonhos e que sairia de casa para morar com uma amiga. Foi um choque quando, após breve investigação, seus pais descobriram o motivo de mais aquela reviravolta na vida da filha. Foi uma tragédia grega: choro, dor e ranger de dentes. Na verdade, Juliana já estava acostumada com toda aquela cena, portanto, não foi tão traumático... não era mais criança, a mágoa já não deixa tantas marcas... a ferida sempre fica, mas a dor é suportável quando já se tem uma independência financeira e um objetivo claro em mente.
Lia já havia saído de casa por conta de um antigo romance, já havia passado por tudo o que Juliana passava naquele momento e aconselhava a namorada a ter calma porque “mais cedo ou mais tarde algo acontece e todos estarão na mesma sala”. Depois de seis meses após aquela noite histórica na vida de ambas, estavam morando juntas... e a vida começava.
Estava quase tudo naquela caixa, todas as lembranças, só seu amor não cabia lá.
Ouviu um barulho de chave na fechadura da porta. Era Renato.
_ Olá!
_ Oi.
_ Como você está? E o nosso bebe?
_ Estamos bem.
(continua com Lavinia Motta e Mariana Cortez)
CAPÍTULO V – VIDA NOVA
_ Estava tudo ótimo. Obrigada pela recepção!
_ Você não precisa agradecer, minha querida. Quero que você saiba que estamos muito felizes de você ter aceitado nosso convite. _ Rita estendeu a mão sobre a mesa e alcançou a de Lia. _ Também, depois de tanto insistirmos, um dia você teria que vir, não é mesmo?
_ É, seria até indelicado da minha parte recusar o trigésimo convite em apenas dois meses. _ riram. Estava feliz por estar ali, estar entre os seus. _ Por mais que eu adore estar com vocês, um dia terei que ter meu próprio canto. Não quero incomodar, muito menos atrapalhar as noites tórridas de sexo selvagem de vocês.
_ Olha só! Mal chegou e já pensa em nos deixar. Não seja tonta, Lia. Rita e eu fazemos muito gosto que fique conosco, por quanto tempo quiser. _ Ricardo terminou de beber o vinho que estava em sua taça e sorriu maliciosamente. _ Quanto ao sexo selvagem, não se preocupe. Depois de seis anos de casamento, muita coisa muda, não é amor? _ virou a cabeça para a esposa e deu uma piscada de olho.
_ Não me subestime, amor.
Depois de meses conseguia gargalhar. Por quanto tempo Lia ficou sem sentir o riso explodir no peito? Inevitavelmente, lembrou-se de Juliana com suas piadas bobas, suas metáforas e comparações hilárias. De repente parou de rir, sentiu as lembranças virem à tona...
_ Acho que vou descansar. Preciso arrumar minhas malas...
_ Claro, claro. Fique à vontade, Lia. O que você precisar é só pegar, não precisa pedir, certo? _ Lia assentiu com a cabeça para Rita.
_ Boa noite, amor! Acho que vou subestimar minha digníssima esposa um pouco mais até ela mostrar as garras. _ Ricardo arranhou o ar e fez um barulho, uma tentativa de rugido.
Lia saiu rindo alto. Já se sentia em casa. Agora, bastava controlar as lembranças, suas ânsias, seus desejos súbitos que estaria renovada. É, não seria fácil.
Incrível como se desprendia facilmente das coisas materiais – só materiais - e como se adaptava a qualquer lugar e às pessoas nativas. Lia era uma espécie de camaleão-humano, não possuía preconceitos sobre quase nada. Conquistava território sem violência, sem escândalos, calmamente. Adorava desvendar o novo e não tinha medo de mudanças. Possuía muitos colegas e admiradores porque respeitava e tratava a todos igualmente. Entretanto, seus amigos de verdade eram poucos, melhor, selecionadíssimos, assim como Júlia e Sofia... suas queridas amigas. Lia era muito discreta, não gostava de fazer de sua vida uma revista de fofocas. Sua vida não era um livro aberto ao público.
Colocou no guarda-roupa só as peças mais finas, por enquanto. Estava cansada para a arrumação geral, para a mudança definitiva. Resolveu tomar um banho e dormir. O vinho tinha lhe trazido mais sono. Depois de sentir a água quente relaxar e amolecer seus músculos, aconchegou-se sob o cobertor, apagou as luzes e fechou os olhos. Seu corpo pedia descanso e, por mais que sua mente também o quisesse, foi inevitável pensar em Juliana.
“Fica comigo, Lia... fica comigo!”, foi o que pediu depois da primeira briga logo no primeiro dia juntas. A frase era o trunfo de Juliana, seu pedido de trégua, seu arrego diante das explosões de fúria de Lia. Ju lhe pedia com os olhos luminosos, carregados de uma inquietude infantil e sincera. Muitas vezes fazia isso para não discutirem sério quando o ataque de ciúmes de Lia estava prestes a explodir. Lia em seus acessos tornava-se chata por sempre bater na mesma tecla. Outras vezes, Ju usava de suas artimanhas apenas para pedir colo, já que era uma carente irrecuperável. Em ambos os casos, dizia “eu te amo” nas entrelinhas. Lia não resistia ao seu olhar e à voz macia que lhe penetrava a cabeça, desarmava-se e puxava Juliana pela cintura.
“Por que você estragou tudo assim, Ju? Por quê?”. Fechou os olhos e ouviu, ou pensou ouvir, de algum lugar, talvez no seu íntimo mais guardado, que há males que vêm para o bem. Dormiu e não sonhou.
Nos dias que antecederam à entrevista, Lia aproveitou para relaxar, dar uma de turista antes de se estabelecer definitivamente. Visitou museus, castelos, pontos turísticos que não via desde seus dezesseis anos, quando participou de um intercâmbio escolar. Tirou fotos, fez algumas compras. Resolveu sentar e descansar um pouco em um pub, pediu uma cerveja. “Foi um dia divertido!”. Nos últimos meses, divertido para Lia era simplesmente não pesar em Juliana. A paisagem a ajudava e, a cada gole de cerveja, uma felicidade boba de coisas banais lhe preenchia lentamente. Conseguiu se concentrar por algumas horas. Enquanto ficou ali, analisando o movimento da rua, batendo os dedos na mesa, cantava mentalmente. Catava músicas que não costumava cantar, que não estavam no seu repertório de casal. Já na terceira cerveja, seus lábios se moviam pelo pensamento invadido de melodias.
Lia era uma imagem interessante àquela hora: uma mulher bonita, sozinha, olhando fixamente para fora, com sacolas no chão e murmurando uma música animada que acompanhava batendo os pés no chão e os dedos na mesa. “Das duas uma: louca ou bêbada.”. Claro que Lia não poderia ler pensamentos, mas ficou constrangida pelo o olhar insistente da garota que estava no balcão. Constrangida, mas ria no íntimo. Muita coincidência a personagem da música estar olhando pra você! “I want a girl with shoes that cut, and eyes that burn like cigarettes”. “Melhor eu ir embora. Começo a ver coisas...”. Não estava muito sóbria, mas conseguia andar sozinha. Enquanto caminhava calma e normalmente até o caixa, não pode evitar olhar para a personagem do Cake. Foi uma olhada bem rápida, mas teve tempo suficiente para notar traços conhecidos. Foi um momento exato para os olhares se tocarem e para que um sorriso de “oi” nascesse mutuamente. “Olhos que queimam como cigarros!”. O álcool rio.
Já passava das sete da noite e resolveu que faria o jantar. Queria dormir cedo para acordar disposta para a entrevista do dia seguinte.
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_ Então, como foi a entrevista? _ Ricardo nem pôde esperar chegar em casa para lhe fazer a pergunta.
_ Ah, Cá. Eu fui bem. Sabe, muitos outros candidatos... mas o meu possível chefe disse que gostou muito da minha entrevista e do meu currículo. Ele já conhecia alguns trabalhos da agência em que eu trabalhava no Brasil. O fato de ser sua prima e você ter conversado com ele em uma festinha de família sobre mim ajudou muito. _ Lia falava com uma voz calma, mas parecia um pouco desanimada.
_ Então...
_ Então... acho que consigo o emprego!! Pediram alguns dias, no máximo dez pra me darem um retorno.
_ Que ótimo! Parece mentira de tão rápido que você conseguiu tudo!
_ Obrigada... por tudo, Ricardo!
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Juliana soube que Lia tinha conseguido um ótimo emprego por lá há uns quinze dias. Estava feliz, mas era inevitável não sentir um remorso por não estar lá, ao lado dela para comemorarem e sonharem juntas. Seu peito doía quando pensava em Lia. Tinha vontade de se matar quando lembrava de como tudo terminou, das palavras idiotas e sem fundamento que disse. Mas não, não poderia se matar. Ainda mais agora.
Acariciava a barriga. Seis meses. Seis meses de uma gestação que a princípio não queria, mas que agora, era a razão por que vivia. Teria que agüentar muitas coisas e quando não suportasse mais, teria que ter mais coragem do que teve para terminar com seu grande amor. Suportaria tudo, até se afastar definitivamente de Lia por seu filho.
Um dia. Um único dia, em uma única vez depois que terminou com Renato. Se não amasse tanto seu filho, diria que foi castigo por ter traído a pessoa que mais amava.
Por mais que tentasse se lembrar, não conseguia direito. Foi tudo muito rápido... a briga com Lia, a saída repentina de casa para não piorar o que já estava ruim... Não lembrava o que passou em sua cabeça quando permitiu que Renato a segurasse e lhe desse aquele beijo. Se tivesse interrompido a tempo, depois do beijo não viriam as mãos e o corpo dele sobre o seu. Foi fraca, “sempre fui”. Na verdade, não sabia por que havia cedido. Será que foi raiva de Lia, raiva daquele ciúme doentio, daquela desconfiança sem sentido? “Pára de neura, Lia!!! Ele só ligou porque precisava de uns livros que sabe que eu tenho!”, tentava se justificar para a namorada que batia portas de armários com violência enquanto preparava algo para comer. “Estou cheia desse cara ficar te ligando, Juliana!!! Será que você não deixou claro que não o quer mais em nossas vidas?!” – “Lia, ele sabe que não há mais chances entre nós, somos amigos!!! Quantas vezes já discutimos feio por causa disso?! Não faz sentido todo esse ciúme!!!” – de repente Lia parou de fazer o que fazia descontroladamente e se aproximou de Juliana para olhá-la nos olhos com raiva: “Ele não é só seu amigo, ele não se porta apenas como um amigo!” – “O que você está querendo dizer?” – irritou-se Juliana encarando a namorada: “Tá dizendo por acaso que somos amantes ou algo parecido? Eu digo que não temos nada e você não acredita em mim???!!!” – Juliana também explodia: “Você não manda em mim e nem escolhe as minhas amizades! Tudo tem um limite, Lia! Se eu estou te dizendo que não há mais nada entre mim e o Renato é porque não há, mas, se você não acredita... FODA-SE!” – saiu batendo a porta com violência. Entrou no carro e saiu sem destino com as lágrimas embaçando-lhe a vista. Quantas vezes haviam discutido por conta de sua amizade com Renato? Infinitas vezes... Quantas vezes haviam discutido por conta de outros rapazes ou garotas que se aproximavam demais de Juliana? Muitas vezes... Juliana também sentia ciúmes de Lia, óbvio que sim, ainda mais porque tinha várias amigas lésbicas que davam descaradamente em cima de sua namorada... mas Lia exagerava, sempre desconfiada, sempre achando que Juliana mantinha as esperanças de Renato, “ela não entende que só tenho olhos pra ela... ela não compreende isso!!!”
Dirigia em alta velocidade até quase bater no cruzamento de uma movimentada avenida. Decidiu parar num bar próximo à editora, precisava esfriar a cabeça, tomar alguma coisa, conversar com os amigos que sempre estavam ali à noite. Esperava encontrar Júlia ou Sofia para desabafar – as duas sabiam que não era fácil conviver com Lia. Enxugou as lágrimas, olhou-se no espelho retrovisor, respirou fundo e foi... “não é a primeira vez que brigamos nem será a última...”. Lá não havia Júlia nem Sofia, mas havia alguns amigos do trabalho e Ju logo se enturmou fingindo estar bem, “apenas com uma dorzinha de cabeça”. Pediu uma cerveja e começaram a rir das situações que aconteciam na editora quando Renato chegou. O pivô de seus problemas com Lia trabalhava em outra editora na mesma função de Ju... por isso a troca de material de trabalho. Juliana gostava de ter Renato como amigo... depois que terminaram ele a procurou e conversaram, chegaram juntos à conclusão de que uma amizade legal permaneceria. Claro que diversas vezes ele tentou reconquistá-la, pediu chances, propôs uma volta... mas Lia sempre foi enfática “Renato, se não pudermos ser amigos, melhor nem nos falarmos mais...”, então ele recuava e tudo ficava bem. Lia jamais concordou com isso, mas Ju era livre e, por mais que amasse Lia, não deixaria que ela ditasse as regras... “ela tem que confiar em mim.”
_ Você está bem? – perguntou Renato depois de algum tempo após sentar na mesma mesa em que estavam Ju e os amigos.
_ Sim... estou bem... – respondeu olhando para o copo num suspiro desolador.
_ Não me convenceu... – Renato era um moreno alto, charmoso, de olhos castanhos e cabelo raspado, parecia um surfista da capital com seu jeans surrado e sua camiseta básica... fazia o tipo cafajeste. Sabia seduzir e ainda conhecia muito bem sua ex-namorada. Juliana era sua grande paixão... por mais que tivesse mulheres atrás de todo aquele charme, ele jamais desistiria da garota maluca que surgiu em sua vida há quase quatro anos. _ Por que não me conta o que aconteceu? Eu só fico ouvindo, juro que não digo nada...
Os dois beberam e conversaram. Juliana não disse tudo, mas contou que algumas discussões com Lia eram bem estressantes e a chateavam muito, mas que, apesar disso, não conseguia deixar de amá-la... ressaltava o que havia de maravilhoso em sua namorada: sua sinceridade, sua bondade, sua inteligência, seu carisma... seu sorriso... Renato apenas ouvia e se esforçava ao máximo para não demonstrar irritação e impaciência diante de tal declaração de amor. Fingia não sentir dor por ouvir tudo aquilo da mulher que amava. Após umas duas horas e muitos chopes:
_ Bom, preciso ir... – encerrou o assunto Lia chamando o garçom com um aceno.
_ Acho melhor levar você, não está bem para dirigir...
_ Imagina! Estou ótima... foi bom conversar com você. – respondeu rapidamente Ju enquanto pegava a carteira na bolsa. “Lia me mata se me ver chegando com Renato!” – pensou. O cavalheiro surfista foi mais rápido e pagou a conta, ajudou Ju a se levantar e:
_ Olha só... você não está bem, acho que bebemos demais. Vamos para meu apartamento, lá comemos algo e você vai embora.
_ Melhor não...
_ Bom, eu estou sem carro... você poderia então me dar uma carona. – Renato a olhava com doçura, segurando sua mão. _ Acha que eu faria algo que você não quisesse?
_ Claro que não.
_ Então...
Foram. Renato dirigiu o carro de Juliana até seu apartamento.
_ Entregue. – disse Ju. _ Saia do meu lugar que vou embora.
_ Um café. – intimou Renato com olhos suplicantes. _ Só um café para afastar todo esse álcool e você vai embora.
Ju sorriu e aceitou o convite.
No apartamento Ju reconheceu objetos, móveis... muitas coisas ali lhe eram familiares, afinal de contas passou três anos freqüentando aquele lugar tão aconchegante. Renato foi até a cozinha e trouxe duas xícaras com café fresco... sentaram-se no sofá e começaram a falar sobre a decoração da sala, que tinha sido feita por Juliana, numa época em que estava fascinada por decoração de interiores. Riram e relembraram histórias, passeios, situações inusitadas que viveram juntos. Renato percebeu o clima e aproximou-se de Juliana que ainda ria distraída e falava sobre suas mudanças radicais, sobre suas idéias sobre tudo e sobre o que ainda pretendia fazer assim que enjoasse do trabalho na editora. Quando deu por si Renato já a olhava fixamente, sua mão roçava sua nuca e seu nariz alcançava seu pescoço. Juliana sentiu-se arrepiar... certamente ainda estava sob o efeito do álcool, mas teria forças para resistir... se quisesse. Mas, aquela Juliana inconseqüente veio à tona, surgiu em meio àquela mudança, àquela iminente maturidade... aquele resquício de aventura aparecia e quando Renato encostou a boca em seus lábios reconheceu aquela pele, aqueles lábios, aquele começo de barba arranhando seu rosto. Não resistiu.
Foi tudo muito rápido. Como a explosão e, tão rápida quanto ela, tudo volta à normalidade. Mas não voltaria.
Quando o efeito passou Juliana se desesperou.
_ Isso não deveria ter acontecido!!! – disse buscando as roupas espalhadas pela sala.
_ Claro que deveria, Ju! É óbvio que ainda rola um clima entre a gente! – Renato estava satisfeito, acendendo um cigarro... sorrindo como um bobo. _ Eu sabia.
_ Você não sabia de nada! Cala a boca! Eu não amo você, amo a Lia!!! – Juliana tinha um ódio incontrolável dela mesma, mas descontava em Renato que parecia estar em órbita.
_ Parece que você não a ama tanto assim. – retrucou com ar de “vitória”.
Juliana quis dar um tapa em seu rosto, mas Renato segurou sua mão e a olhou nos olhos.
_ Eu te amo, Juliana, e não vou desistir de você até que se convença de que você é minha.
Desnorteada saiu do apartamento... não esperou o elevador, foi pela escada para sair dali o mais rápido possível.
“Não acredito que fiz isso”. Parecia um pesadelo... sentia-se suja, imunda por ter traído Lia, por ter dormido com o cara que ela afirmava tantas vezes que jamais seria mais que um amigo. Agora Lia tinha razão, agora havia se concretizado o que o ciúme apontava há tempos. Sentiu a boca amarga e um enjôo... pensou em parar o carro, mas parar aonde às duas da manhã? Como encarar Lia? Como dizer alguma coisa se tudo o que dissesse seria mentira?
Dizer a verdade.
“Jamais!!!”
“Não posso!!! Como direi a verdade a Lia?! Ela vai me deixar... não pensará duas vezes e eu vou morrer!!! Não sei mais viver sem ela... Não, não posso contar...”. Muitos carros passavam por Juliana, muitos buzinavam porque Juliana fazia um ziguezague na pista, sem noção, não enxergava nada, só pensava no que havia acabado de fazer.
Chegou em silêncio, mas percebeu que Lia a esperava... a televisão estava ligada na sala escura.
Queria passar de fininho, assim como fazem os adolescentes, e ir para o quarto. Fingir que não havia saído, que nada daquilo que aconteceu a menos de meia-hora havia acontecido. Mas não era mais adolescente e teria que encarar Lia... Porém, ainda não era adulta o suficiente para contar a verdade.
Acendeu a luz e Lia, que estava deitada no sofá, assustou-se:
_ Que horas são? – perguntou Lia incomodada pela luz. Ju estava parada diante da porta.
_ Duas horas.
Lia passou as mãos pelos cabelos e foi em direção de Juliana que não se movia. Sentiu-se ser envolvida num abraço pela namorada.
_ Ju estava morta de preocupação! Me desculpa?! Por favor... eu não deveria ter falado aquilo... – Lia beijou seu pescoço e a abraçou com mais força. “Quem tinha que te pedir desculpas era eu, Lia!” – queria dizer, mas sua voz ficou embargada e começou a chorar. Lia a puxou para o sofá: _ Eu sei que sou uma estúpida! Desculpa, amor... não fica assim... eu prometo que vou me controlar. Eu te amo! – dizia Lia doce... tão doce... apaixonadamente doce e isso destruía ainda mais Juliana.
_ Olha, Lia... esqueça tudo isso. Vamos ficar bem. Me perdoa também... – segurou o rosto de Lia com as duas mãos e a olhou com dor: _ Não vou mais conversar com o Renato...
_ Não, não... eu não posso pedir isso a você... foi estupidez minha...
_ Lia... estou te dizendo: não vou mais falar com o Renato. – e abraçou a namorada com força: _ Quero que fiquemos bem para sempre...
CAPÍTULO VI – QUANDO MENTIRAS VÊM À TONA
Juliana não dormiu aquela noite. Depois de um banho foram para a cama juntas, mas Ju estava ausente, com o pensamento longe. O remorso e o sentimento de culpa pesavam toneladas sobre sua cabeça e invadiam seu estômago como ácido... a sacrificavam como um castigo. Para Lia estava tudo resolvido... pelo menos até a próxima discussão por causa de mais uma crise de ciúmes. Deu um beijo apaixonado em Juliana e deitou-se de costas para a namorada que a abraçava por trás, encaixando-se como sempre faziam. A pele de Lia a excitava, sua cintura, seus seios, sua nuca... como amava aquela mulher. Como pôde falhar com ela.
De repente apertou Lia mais que o normal, como se a segurasse para que não fugisse. Lia virou-se para ela:
_ O que foi, Ju? Por que está me olhando assim?
Os olhos de Juliana brilhavam e do brilho intenso caíram lágrimas que assustaram Lia.
_ Ju, o que foi??!!
A namorada a puxou para si e a abraçou com uma força que Lia não conhecia... sentiu-se sufocar, mas abraçava Ju e tentava fazer com que ela se acalmasse dizendo palavras doces em seu ouvido. Depois de infinitos momentos de um silêncio terno – por parte de Lia – Juliana já havia parado de chorar.
_ É que me deu uma angústia, Lia... um medo de te perder... – Lia então sorriu aquele sorriso acolhedor que Ju tanto adorava e que tanto a tranqüilizava.
_ Você jamais vai me perder, amor... jamais. – Deitou-se no ombro de Ju e acariciou o corpo da namorada até que dormiu. Juliana pensava em tudo o que aconteceu e no que sentia.
Amanheceu.
Quando Ju conseguiu dormir já era quase hora de levantar. O despertador tocou, olhou para o lado e não encontrou Lia. Desligou o rádio e passou as mãos pelo rosto... sua cabeça não doía como ontem, mas sentia um gosto amargo na boca. Tomou um banho para despertar e mal conseguiu olhar-se no espelho: “Eu deveria ter uma atitude digna e contar a verdade para Lia.” Mas o medo gritava mais alto: “Não posso perdê-la para sempre por causa de uma transa ridícula que nunca mais acontecerá!” Secou os cabelos longos, vestiu a camiseta e foi para a cozinha.
A mesa estava posta, Lia veio em sua direção já arrumada para trabalhar.
_ Bom dia, amor! – beijou-lhe a boca. _ Dormiu bem?
_ Mais ou menos... dor de cabeça... – sorriu Ju puxando Lia pela cintura. _ Desculpa por ontem...
_ Eu quem tenho que pedir desculpas – disse Lia séria.
_ Vamos esquecer tudo aquilo...
_ Eu amo você, Ju!
_ Também amo muito você... muito mesmo.
Lia a olhou com carinho, beijou-a rapidamente e:
_ Preciso ir... tenho uma reunião logo mais. – Lia pegou apressadamente sua pasta e uma maçã na fruteira. _ Ju, você precisa cuidar dessa dor de cabeça... – e saiu batendo a porta.
Juliana ficou sentada na cozinha momentos infinitos olhando para o nada antes de despertar e ir se vestir para o trabalho. Seus movimentos foram mecânicos porque pensava intensamente: “Foi só um momento de fraqueza. Como disse a Lia, não vou mais procurar o Renato... não quero mais vê-lo depois do que aconteceu... ele é um idiota por se aproveitar do meu estado...” Era um jeito de não assumir a culpa sozinha... de se consolar, de justificar qualquer coisa injustificável. “Vou esquecer isso... vou voltar à minha vida com Lia... ela nunca saberá e nunca mais precisará se preocupar com Renato.” Pegou sua bolsa e saiu direto para a editora.
Fez com que o trabalho preenchesse seu dia e no fim do expediente até sentia longe o que aconteceu ontem... estava mais aliviada por ter se convencido de que nada demais ocorreu e que seria fácil passar uma borracha por cima daquilo.
O celular tocou.
Era Renato.
O coração de Ju disparou e não foi de ansiedade por ouvir a voz dele. Sentiu uma angústia, uma vontade de nunca ter conhecido aquele cara... queria apagá-lo de sua vida.
_ Renato, não me ligue mais!
_ Não me peça pra fazer isso, Ju... depois do que aconteceu ontem...
_ Escuta, Renato: o que aconteceu ontem não significou absolutamente nada pra mim... foi um momento de fraqueza. Por favor, me esquece!
_ Você contou pra Lia?!
Juliana quase deixa o celular cair.
_ Não, não contei porque foi uma bobagem...
Silêncio.
_ Te ligo depois, Ju... beijos, linda! – desligou.
Juliana sentiu uma vertigem e fechou os olhos. Entendeu com aquele fim de conversa que Renato poderia muito bem contar a Lia tudo o que aconteceu. Não sabia o que fazer... sentiu-se acuada, suas mãos começaram a suar e sua cabeça a rodar...
O celular novamente.
_ Oi, amor. – era Lia.
_ Ju, vamos ao cinema hoje, faz tempo que não vemos um filme juntas...
_ Claro, vamos.
_ Depois poderíamos jantar... ou você prefere jantar primeiro e depois ver o filme?
_ Tanto faz, Li...
_ Bom, mas não podemos chegar tarde porque amanhã tenho uma reunião no outro escritório cedinho...
_ ...
_ Ju?
_ Oi.
_ O que você tem?
_ Nada, amor... muito trabalho.
_ Então nos encontramos na frente do shopping às sete.
_ Tudo bem, te encontro lá.
Ju fechou o flip do celular e debruçou-se sobre a mesa. Teria que contar a verdade ou viveria num inferno a partir daquele dia.
Elas se encontraram e jantaram antes de assistirem ao filme. Juliana não conseguia disfarçar a preocupação e Lia começou a estranhar a quietude de sua namorada sempre tão bem-humorada.
_ Alguma coisa no trabalho?
_ É... acho que é muito serviço, ando meio esgotada ultimamente... nada de mais.
_ Não te ver sorrir é algo bem sério...
Ju sorriu e apertou a mão de Lia.
_ Eu te amo, Li... não importa o que aconteça... eu te amo.
Lia riu do tom melancólico da namorada.
_ Nossa, parece até uma despedida.
_ Vou pegar o sundae que adoro e você me espera aqui para irmos para a fila do cine. – Ju se afastou enquanto Lia buscava na bolsa as entradas para o cinema.
O celular de Juliana tocou e Lia viu no visor que quem ligava era Renato. Seu coração se contraiu, uma vontade enorme de exigir que se afastasse de sua namorada, que ela não era mais dele... deixou que o telefone tocasse até que caísse na caixa postal. Sentiu-se tremer. “Não posso deixar que esse ciúme me domine... ela já disse que não existe nada entre eles...”. Mas começou a procurar qualquer coisa no celular de Juliana... e encontrou: uma ligação de Renato às 17h45. Ela lembrou-se de ter ligado neste horário e o celular de Ju ter caído na caixa postal. “Ela disse que não falaria mais com ele... por que mentiu?!” Deixou o celular no lugar onde estava... coçou as mãos e respirou fundo... “Por que Juliana está mentindo pra mim?!” Uma fúria invadia Lia... sua boca secou, sentia-se mal... com uma vontade absurda de gritar, de exigir da namorada uma explicação. Mas, por incrível que pareça, controlou-se. “Vou fazer diferente agora...” Tomou o restante da água e forçou um sorriso quando Ju se aproximou com o sundae.
Foi torturante. Lia se superou ao fingir que nada estava acontecendo... tentou não mudar suas atitudes, agir com naturalidade, mas aquele número piscando no visor do celular de Juliana não lhe saía da cabeça. Quase não assistiu ao filme... vez ou outra olhava para o perfil da namorada compenetrada na tela. Mal sabia ela que Juliana também pensava em Renato... numa forma de fazê-lo se afastar sem que Lia soubesse de nada. “Ou então contar tudo logo de uma vez!” Irônico, não? As duas pensavam no mesmo homem. Ju fingia que prestava muita atenção ao filme e Lia fingia que estavam ótimas, que nada de anormal acontecia na relação de dois anos: “Ela disse que não falaria mais com Renato, mas recebe mais de um telefonema dele por dia...” Lia queria entender... mas se perguntasse ouviria mentiras e provavelmente tudo estaria acabado. E ela não queria.
Comentaram superficialmente o filme e foram para casa. Cada uma com seus pensamentos.
Lia não suportaria ser enganada... por mais que amasse Juliana, e a amava muito, não permitiria ser feita de boba.
Os dias passavam e a relação das duas mudou. Quase não conversavam, pois cada uma estava mergulhada em seus próprios problemas. Lia esperava que Ju dissesse algo a respeito dos telefonemas e Ju esperava que Renato sumisse de sua vida. Ele ligava para seu celular constantemente:
_ Renato, será que você é incapaz de entender?
_ Já entendi, Ju! Não vou fazer nada, juro que não conto nada pra Lia... mas vamos voltar a ser amigos!!! Por que não podemos conversar?!
_ Porque não dá certo!
_ Não dá certo porque você ainda gosta de mim... tem medo de você mesma quando está comigo...
_ Não viaja... eu estava bêbada!
Renato ria:
_ Não me venha com essa desculpinha!
_ Eu sou feliz com a Lia... eu a amo e você pode destruir nossa relação... – dizia quase numa súplica. _ Me dá um tempo, Renato, por favor!
_ Não quero magoar você.
_ Então me deixe em paz...
As conversas eram sempre assim. Ele prometia não ligar, mas ligava. Ju pensou em não o atender mais, mas tinha medo que ele ligasse para o telefone de casa, que a procurasse pessoalmente. Depois do que aconteceu Ju não queria mais nenhum vínculo com ele, prometeu a Lia... “Se ela souber que ainda nos falamos...”
E Lia sabia. Tornou-se obsessiva. Ao menor descuido de Juliana, ia até o celular dela verificar as ligações, e quase todos os dias havia ligações de Renato. Essa constatação acabava com Lia, que chorava escondida e fingia na frente da namorada não saber de nada a fim de que Ju contasse algo. Mas, nada.
Um dia Lia não suportou e jogou com Juliana.
_ Oi, amor! Hoje chegou mais cedo do que eu?! Isso quase nunca acontece... – surpreendeu-se Ju assim que abriu a porta do apartamento e deu com Lia sentada no tapete da sala assistindo TV.
_ Pois é, terminei um projeto e tirei a tarde de folga. – respondeu calmamente enquanto Ju foi lhe dar um beijo. Preparava-se para testar a namorada: _ O Renato ligou...
Ju, que colocava sacolas em cima da mesa, de repente ficou estática... empalideceu, mas achou melhor fingir indiferença.
_ Ah é?! E o que ele queria?
_ Não sei... não me disse.
_ Nossa, depois de tanto tempo...
Isso doeu em Lia. Juliana estava mentindo.
_ Vocês não se falaram mais depois daquele dia?
“Daquele dia...”, pensou Ju sentindo um enjôo, um mal-estar...
_ Não.
Não havia mais condições de acreditar em Juliana... Lia começou a chorar.
_ O que foi, Li?! – Juliana perguntou assustada se aproximando. Talvez já soubesse o que viria pela frente.
_ Por que você mente pra mim, Ju?! Por que faz isso comigo?! – Lia chorava copiosamente e Juliana desesperou-se... via o amor de Lia escorrer por entre seus dedos. Não sabia o que fazer. Sentou-se no chão próxima à namorada e segurou suas mãos...
_ Li, por favor... eu não fiz por mal...
_ Ele liga pra você quase todos os dias!!! Juliana por que você está me enganando?!!!
_ Li, eu te amo! Me desculpa! – implorava uma Juliana aflita, morrendo de medo.
_ Então por que faz isso?!
_ Porque sou uma idiota, mas eu não quero te perder... não posso. – Ju grudou-se ao corpo de Lia, abraçava-a com força, acariciava suas costas. Fazia algum tempo que não se tocavam. Sentia um desejo, uma vontade de beijá-la como antes de toda essa história acontecer. Enxugou as lágrimas de Lia com a ponta dos dedos e a beijou com carinho. Lia, de repente, lembrou-se do “Fica comigo” que Ju disse no primeiro dia em que ficaram juntas. Não entendia porque tudo aquilo estava acontecendo... se Juliana a amava como dizia por que escondia coisas dela, por que a fazia se sentir tão horrível? Sentiu as mãos da namorada percorrer seu corpo que correspondeu imediatamente... ele sempre correspondia ao mínimo toque... sentiu os lábios de Ju em seu pescoço, suas mãos acariciando seus seios arrepiados por um desejo que a dominava. Eram namoradas há dois anos e aquela vontade nunca terminava... sempre avassaladora. Lia deixou-se dominar, correspondeu ao beijo ardente de Ju que desabotoava seu jeans e a provava... não tinha como fingir não estar entregue... a essência de todo aquele amor escorria por Lia que se deixava envolver por carinhos ardentes. Ambas se conheciam tanto... cada lugar, cada traço daqueles corpos que se fundiam, que se davam com tanta paixão. Lia despia com urgência Juliana... enquanto suas bocas se grudavam e se devoravam, Lia penetrava Ju que gemia baixinho e dizia “eu te amo” no ouvido de uma Lia magoada, mas que ainda amava muito e não era capaz de resistir a tanto desejo guardado há tantas semanas. Elas fizeram amor durante toda a noite.
Ju acordou primeiro, enjoada. Parecia que tinha bebido... uma tontura, uma ânsia... foi para o banheiro. Achava que o alto “grau de estresse” era a causa de todo aquele mal-estar. O grau de estresse se agravaria ainda mais porque decidiu na noite anterior, enquanto fazia amor com Lia, que contaria toda a verdade. “Não é possível que Lia não acredite no meu amor depois do que aconteceu ontem...”.
Ao sair do banheiro encontrou Lia acordada.
(continua com Lavinia Motta... )
CAPÍTULO VII – A MEIA VERDADE
Juliana estava abatida, cansada. Não tinha feito nada de mais para se sentir assim, mas sentia que seu estômago era um abrigo de vespas. A cabeça rodava, estava tonta.
_ Você está bem, amor? _ Lia estava preocupada e acompanhou Ju até a cama.
_ Sim, só um mal-estar... vai passar.
_ Mal-estar de quê? Comeu alguma porcaria na rua?
_ Sei lá, comi o de sempre.
_ Quer algum remédio? Temos algum (rs)?
_ (rs) Temos, mas não precisa. Quero um café bem forte e quente. Pode ser?
_ Pode. _ Lia beijou a testa e acariciou os cabelos de Juliana e foi fazer o café.
“Que coisa mais estranha, não me lembro de ter comido nada que pudesse...”. De repente parou de falar. Parou de pensar por um instante também. Uma dor bateu forte e não parecia com qualquer coisa antes sentido por Juliana. Não era físico, mas sua consciência que ardia em altas labaredas. Teve medo de que suas constatações fossem verdadeiras. Fechou os olhos e afundou em sua dor, na consciência ardida e massacrada pelo fato mais improvável que lhe poderia e deveria acontecer: “grávida?!”.
Um choque enorme pensar e dizer reiteradas vezes baixinho, só pra ela mesma ouvir, que estava grávida de mais ou menos de dois meses. “Um filho... um filho do Renato!”. Claro, estar grávida era ruim, mas estar grávida de Renato era o fim! “É o fim de tudo!”. Pensar no “fim de tudo” revoltou ainda mais as vespas. Elas agora tinham ódio de Juliana e não queriam mais se abrigar em seu estômago. Resolveram sair com força, todas de uma vez só e ela saiu correndo de volta para o banheiro. A dor física passou, então, e agora poderia sentir unicamente sua consciência rasgada.
Pensou, pensou e pensou sobre o que fazer. “Como eu não percebi?!”. E como poderia perceber se os sintomas não chegaram a tempo? Sua menstruação veio pouca nestes dois meses, mas veio no mesmo período de sempre. Segurou a cabeça com as duas mãos e sentou-se na tampa do vaso sanitário. “Lia nunca vai me perdoar! Ela vai me odiar pra sempre!”. Aí estava o que mais lhe perturbava: perder Lia, ser odiada por seu amor. “Preciso pensar... Meu Deus, o que eu fiz??!!”. O desespero foi ainda maior e teve que prender uma enxurrada de lágrimas, segurar toda sua dor que explodia, sua consciência que escorria. Quis se jogar, se matar pra não ter de encarar os fatos.
_ Amor, vem... ainda não passou? _ Lia a viu sentada na tampa do vaso, segurando a cabeça entre as mãos.
_ Mais ou menos.... _ levantou, mas não conseguia olhar Lia. Estava com muita vergonha e seu remorso a matava. “Me perdoa, Lia! Pelo amor de Deus, me perdoa!!!”, era o que pensava sem parar enquanto caminhavam para o café.
_ Nossa! Olha como você está tremendo, Ju! _ impossível não notar quando Juliana derrubou café na toalha.
_ É... acho que fiz muita força... não se preocupe.
_ Como não posso me preocupar? Você é o meu amor!
Juliana sorriu para ser simpática, mas por dentro, sangrou ainda mais. Como poderia ter feito isso com a sua Lia? Como contaria a ela? “Calma, Juliana! Você primeiro tem que ter total certeza!”. E era o que faria agora!
_ Lia, vou tomar um banho. Vou mais cedo hoje... deixei serviço pendente de ontem e não quero ficar atrasada. _ sua voz saiu com um tom sério e claro, mas Lia não se assustou.
_ Tem certeza de que está em condições de trabalhar?
_ Sim, já estou bem.
_ Tudo bem, vou arrumar a mesa e vou sair também.
Juliana queria que a água quente entrasse em sua cabeça e lavasse suas memórias, sua dor, sua vergonha e queria que a mesma água entrasse em seu passado e carregasse numa forte correnteza o dia que ficou com Renato. Quando as lágrimas se misturavam em seu rosto já todo molhado, tomou um susto quando sentiu os braços tão conhecidos de Lia envolverem sua cintura por trás. Tremeu quando ouviu um sonoro “Amo você!” em seu ouvido. Virou-se e recebeu um beijo intenso na boca, demorado, cheio de paixão. Correspondeu com a mesma paixão de Lia, correspondeu porque sentiu que aquele seria o último.
Juliana já estava há dez minutos olhando para o resultado do exame em suas mãos. Não sabia como abrir. Não sabia como puxar o pino da granada. Mas, teve que puxar e escolheu fazer com força e soltar de uma vez a granada no chão para explodir. “Positivo...” e como explodiu! O som da detonação poderia ser ouvido a quilômetros dentro de Juliana e o seu eco não parava de dar voltas em seu corpo: “positivo, positivo, positivo...”.
A quem recorreria se seu único apoio era Lia? Estava mais que desesperada. Estava neurótica! Não pensava e mal respirava. Só queria chorar, ajoelhar-se e pedir perdão ao seu amor. E do que adiantaria? Mesmo que Lia a perdoasse, seria inviável continuar um relacionamento com a barriga de Juliana crescendo e crescendo com um filho de Renato dentro.
Juliana viveu uma semana de completa agonia, sem saber o que fazer, sem saber o que dizer, apenas inventando desculpas para se esquivar dos toques mais provocativos de Lia. Uma semana recusando seu amor, reprimindo seu desejo, seu choro. E estranhava a atitude de Lia: ela não havia mais tocado no assunto RENATO... ela simplesmente não havia dito nenhuma palavra a respeito dos telefonemas dele após a noite de amor que tiveram. Ela estava tão doce, tão amorosa. “Isso é muito estranho...”. Lia, tão ciumenta, não deixaria isso assim... sem esclarecimentos.
_ Estou grávida. _ ela precisava contar para alguém, e que esse alguém fosse o pai da criança.
_ Grávida?! Não vai me dizer...
_ É, Renato. O filho é seu... _ O peso da revelação fez Juliana abaixar a cabeça.
Renato levantou-se do sofá. Arregaçou as mangas da camisa e esfregou as mãos no rosto várias vezes. Ajoelhou-se em frente de Juliana e levantou seu queixo.
_ Você vai me dar um filho! Eu vou ter um filho seu, meu amor!! _ não poderia acreditar. Um filho e de Juliana! _ Você pode imaginar como estou feliz?! _ ria e seus olhos encheram de lágrimas. _ Eu te amo! _ a declaração veio embalada em um abraço forte, cheio de carinho, amor. Juliana não pode recusar seus braços. Precisava de apoio, de conforto e se desmanchou em lágrimas.
_ Eu não posso ter este filho, Renato! Não posso ter um filho seu!
_ Você está louca?! _ de repente toda a felicidade se transformou em revolta _ O filho é meu também e eu o quero! Você sabe o quanto sempre quis ser pai! Eu quero vocês dois, aqui comigo... eu amo você, Ju! Você já me tirou muitas coisas, não me prive agora de ter meu filho, de ter o nosso filho!
Ele estava em pé. Ela soluçava de dor. Juliana estava perdida. Estava na sala onde tudo começou há dois meses. Renato então compreendeu seu desespero.
_ Você contou para Lia? _ sua voz saiu em um tom calmo, confortante.
_ Não. Não sei como... não posso!
_ E você pretende fazer o quê? Ficar com ela enquanto sua barriga cresce?
Juliana poderia ter se desesperado mais com essas perguntas, mas já tinha feito a si mesma as mesmas interrogações.
_ Não dá mais. Vou terminar com ela, mas não posso contar a verdade. Ela sofreria muito mais e isso me mataria.
_ E depois? _ Renato tentou, mas não conseguia disfarçar o ciúme que sentia do amor de Juliana por Lia. Um amor que ele nunca teve dela. Como doía ver a mulher que amava, grávida de um filho seu tentando poupar alguém que nunca a perdoaria.
_ Depois... sei lá. Acho que vou morar com minha irmã no interior. Não posso bancar um apartamento sozinha aqui. Ela vai me ajudar...
_ Por que você não vem morar aqui comigo? _ o olhar dele era de súplica. “Por favor, Ju, seja minha outra vez! Deixa eu te fazer feliz!”
Juliana ficou parada olhando para um Renato que não se mancava. Sua vontade era dizer que não o amava, nunca o faria feliz e perguntar qual a parte de “ir embora para o interior” ele não entendeu. Será que ele não via que queria se afastar de Lia para não correr o risco de topar com ela em uma esquina ou no supermercado e sentir vontade de se enterrar viva? Mas não tinha força para uma resposta dessas. Foi calma.
_ Renato, por favor, me dá um tempo. Ainda estou confusa, perturbada demais...
_ Desculpa! Mas eu falo sério. Pense bem a respeito, Ju, e você vai ver que tenho razão. Leve o tempo que achar necessário. Eu espero por vocês o tempo que for!
Juliana saiu um pouco mais aliviada e até podia pensar melhor. Ligaria para sua irmã logo e iria para a casa dela. Conseguiria facilmente um emprego no interior e tocaria sua vida longe de Lia, de Renato e de toda a confusão que tinha virado sua vida.
Quando Juliana abriu a porta de casa viu Lia impaciente, nervosa.
_ Posso saber onde você se meteu a manhã inteira de um domingo? Desde quando você sai e não me avisa, Juliana?!
Como se pudesse dizer a verdade... Deixou a bolsa em cima da mesa sem nem olhar para Lia.
_ Você não vai falar comigo? Aliás, tem uma semana que você não fala direito comigo, mal me beija, não me toca! O que foi, Juliana?! Fala comigo! _ segurou o braço de Ju e a forçou a olhar para ela _ Por que você está chorando?
_ Me solta, Lia! Você me machuca assim! _ puxou seu braço com força, foi para o quarto e continuou calada.
_ Você não vai me responder? Você não está bem há semanas e me esconde a verdade! Aliás, você me esconde muitas coisas, não é Juliana?!
_ Pára de me cobrar!!!
_ Te cobrar?!! Você bebeu? Eu deixei de fazer isso há algum tempo! Tento mudar por você, mas... Eu acordo e você não está do meu lado, não está em casa. Pergunto pro porteiro e ele fala que você saiu às seis da manhã em pleno domingo! E agora você acha estranho que eu pergunte a minha namorada de dois anos onde ela esteve?! Comprar pão é que você não foi!
A ironia de Lia ardeu nos ouvidos de Juliana. Estava tonta, nervosa, com o corpo e a alma doloridos e agora essa ironia... como odiava Lia quando agia assim.
_ Não é só de hoje, Lia! Não agüento mais suas cobranças, seus ciúmes e desconfianças com coisas estúpidas! Você é a responsável por eu estar assim hoje!!! _ arrependeu-se do que disse. Mas já era tarde.
_ Estar assim como?! O que você quer dizer com isso? _ a curiosidade de Lia vinha em um tom irônico.
“Estar grávida! Se não fosse por sua estupidez, nada disso teria acontecido!”. Foi exatamente o que Juliana pensou, mas nunca o diria. Colocou as mãos na cabeça, respirou fundo e acalmou a voz:
_ Estou de saco cheio, Lia. Não dá mais.
_ Não dá mais o quê, Juliana? _ a ironia cedeu lugar a uma ponta de desespero.
_ Não dá mais pra continuar a viver com você assim. Eu não posso fazer isso comigo, não posso fazer isso com você...
_ Fazer o quê?! Eu não te entendo! Do que você está falando? Você quer terminar comigo? É isso?! RESPONDE JULIANA!!! _ a ponta de desespero criava raízes profundas.
_ É! Quero terminar! Não estamos bem há muito tempo e não adianta dizer que é fase, que vamos superar... Você me cobra e eu acabo fazendo besteiras, Lia... muitas besteiras!
_ PELO AMOR DE DEUS, JULIANA!! DO QUE VOCÊ ESTÁ FALANDO??!!! _ o desespero gritava _ Semana passada fizemos amor como nunca, bem ali e não parecíamos estar mal, parecíamos??!! _ apontou para a cama e sentiu uma revolta nascendo. Sentia mentira no ar. _ O que MAIS você está me escondendo agora?
Juliana respirou fundo e pensou quase que num devaneio: “Dos males o menor”:
_ Fiquei com Renato naquele dia em que brigamos. Isso faz dois meses...
Lia ficou estática na frente de Juliana que, finalmente, a encarava e nem sabia como conseguia olhar fixamente para a namorada ferida após um golpe e tanto. Pensou que Lia não fosse dizer mais nada... só via lágrimas escorrendo por aquele rosto moreno, de pele macia que ela tanto gostava de acariciar... seu nariz vermelho, sua boca cerrada. Ela fechou os olhos por alguns instantes e quando os abriu:
_ Por isso ele fica te ligando...
_ É... por isso. – Juliana simplesmente deixava que as palavras cortantes saíssem de dentro dela friamente... estava tão anestesiada pela dor que não sentia o que dizia, precisava ser daquele jeito, terminar com tudo aquilo de uma vez para evitar um sofrimento ainda maior.
Lia desmoronou na cama... sentou-se sem forças.
_ Você me traiu com ele...
_ Você sempre disse que isso um dia iria acontecer... Aconteceu.
Mas Lia parecia que ressurgia das cinzas. Sua fúria diante daquela revelação que beirava à ironia, ao sarcasmo, a enlouqueceu. Não podia suportar que Juliana, sua namorada, a tivesse traído dessa maneira e agora confessasse assim, como pouco importasse.
_ Eu não conheço você! – começou levantando-se da cama e encarando Juliana com ódio. _ Faz dois meses que você fez isso, há dois meses você fica com outra pessoa e dorme comigo!!! Há duas semanas fizemos amor depois que você me traiu com seu ex-namorado e você disse no meu ouvido que me amava!!! – as lágrimas escorriam pelo rosto de Juliana, mas ela permanecia imóvel, sem expressão. Não poderia desmoronar... “não agora”. _ MEU DEUS!!! VOCÊ NÃO PRESTA, JULIANA!!!!! Como pôde fazer isso comigo?!! Me enganando!!! – Lia não conseguia mais brigar... colocou as mãos no rosto e começou a chorar.
O silêncio foi o protagonista por algum tempo, até o momento em que Juliana pegou uma mala grande e começou a tirar as primeiras peças de roupa. Lia não acreditava no que via. Vivia um pesadelo! A mulher que amava a traia e agora iria embora... depois de dois anos.
_ Você não vai tentar nem se justificar?!! O que aconteceu com a gente, Juliana?!! O que significou tudo o que passamos?!!
Ju parou de colocar as roupas na mala e virou-se para Lia:
_ Eu te amo, Li. Vou te amar sempre... mas esse seu ciúme me enlouquece, me enfraquece, me deixa volúvel. Sua intolerância me sufoca... Não consigo corresponder ao amor que você exige de mim. Não quero me magoar mais... não quero te magoar mais... _ chorava, mas não podia parar com suas coisas. Voltou a arrumar a mala.
Lia se aproximou totalmente atordoada. Não sabia o que fazer, sentia-se sem rumo, sem chão. Tentou fazer o que seu sentimento mandava:
_ Pára com isso! Vamos conversar! Olha pra mim! _ adiantou o corpo e puxou o de Ju para perto do seu. Beijou-a. Beijaram-se muito.
_ Não... pára! Não vamos acabar como das outras vezes em que brigamos! Eu já me decidi e acabou, Lia! Não podemos mais ficar juntas... por favor!
Lia teve que largar seu amor e o via indo embora... para sempre. Perdia o totalmente o controle:
_ ENTÃO VAI, JULIANA!!! SE VOCÊ PRECISA DISSO TUDO PRA DIZER QUE NÃO ME AMA E NÃO ME QUER MAIS, VAI LOGO EMBORA!!! _ Lia era o ódio personificado. Estava tensa, tinha dor no corpo todo, raiva nos olhos. E se Juliana pudesse acalmá-la, dizer que essas palavras eram infames, diria que nunca deixou de amá-la um só dia. Pelo contrário, quanto mais ficava com Lia, mas o amor crescia, mais a admirava. Queria dizer que o que sentia era uma paixão sem fim, que sempre ardia inteira com cada pequeno beijo. Mas preferia deixar Lia assim, sem toda a explicação. “Deixá-la assim é melhor do que dizer toda a verdade”. Era uma conclusão infeliz, por isso Juliana não se manifestou, apenas continuou com sua mudança e calada ficou em pé na porta, olhando para Lia que estava de costas, olhando pela janela.
Lia sabia que ela estava parada na porta, com todas as malas e bolsas. Não queria se virar, não podia mostrar seus olhos. Juliana só precisava de uma palavra pra ir de vez e quando ouviu foi.
_ Deixa suas chaves na mesa. Você não vai mais precisar delas.
O estrondo da porta selou o fim. Lá dentro, Lia caiu no chão em uma dor profunda. Lá fora, Juliana pensou que poderia ser diferente se Lia tivesse dito as palavras certas, se tivesse virado e mostrado seus olhos, talvez sentisse mais coragem e contaria tudo... talvez propusesse morarem juntas com a criança que iria nascer. Precisava de mais força, mas sua ex-namorada também estava acabada.
_ E então? _ Lia foi direto pra casa de Renato. Tinha acabado de conversar com a irmã.
_ Ela viajou e só volta daqui a duas semanas. _ o ar derrotado de Juliana era visível.
_ Você tem certeza de que vai morar com sua irmã? _ ele tentava a todo custo dissuadi-la e antes dela responder, continuou. _ Fique aqui até lá. Você pode não querer minha companhia, mas não pode me negar ficar perto do meu filho.
_ Renato, mas serão apenas duas semanas até ela chegar e depois...
_ Fica! Por favor! _ Juliana conhecia há tempos esse “por favor”. Nunca conseguiria sair de lá antes do prazo e também não tinha forças pra relutar. Já estava derrotada mesmo, pra que gastar mais energia? _ Ótimo! Vou arrumar o outro quarto pra você.
(continua com Mariana Cortez...)
CAPÍTULO VIII - TENTANDO RECONSTRUIR
Lia ficou ali no chão por muito tempo. Sentia uma dor insuportável e uma fraqueza... carregava a dor imensa nos ombros, mal conseguia abrir os olhos... sua cabeça parecia que iria explodir, sua alma transbordava todo o sofrimento que podia suportar... e não estava suportando mais.
Não queria pensar, doía querer chegar a alguma conclusão, em um resumo de toda aquela situação.
“O que saiu errado?” – perguntava-se sem forças em um pensamento longínquo... quase num eco.
Ficou numa mesma posição durante horas... sentia-se paralisada, como se a essência que dava vida àquele corpo a houvesse abandonado indo atrás de Juliana. Era apenas um corpo sobre uma poça de água que secava e se renovava, bastava Lia começar a querer pensar no que havia acontecido 4, 5, 6 horas atrás. Olhou para a fresta da janela e viu o sol morrer. Apagou-se o dia, veio a noite e seu desespero despertou:
“Como vou conseguir dormir sem Juliana aqui??? Como ficar nesse silêncio, como suportar tudo isso?!!” – sentia seu coração apertar, suas forças sumirem de vez... mas, mesmo assim resolveu levantar do chão frio e ficar de pé, estática no meio da sala, olhando para o nada... sozinha no escuro.
Ouviu baterem na porta.
_ Lia, você está aí?
Era a voz de Júlia.
Mas Lia não compreendia... ouvia a voz, mas não identificava de quem era nem o que dizia. Ainda estava perplexa e se reacostumando com o ambiente sem seu amor... voltava, aos poucos, a perceber o tempo, o que havia acontecido pela manhã daquele horrível domingo...
_ Lia, abre a porta! É a Júlia... eu sei que você está aí!!!
...
_ Lia... abre!
...
Júlia começava a ficar aflita enquanto batia repetidas vezes na porta e tocava a campainha. Soube de parte da história porque Juliana ligou desesperada para Sofia... precisava desabafar, dizer porque tinha terminado tudo com Lia. Elas não acreditaram quando souberam, tão repentinamente, que o casal mais sólido do mundo havia rompido. Ambas trataram de socorrer as amigas: Sofia foi para a casa de Renato, onde Ju estava hospedada e Júlia saiu correndo para o apartamento de Lia. Tinha certeza de que a amiga estava péssima... tinha que ficar com ela.
Quando começaria a esmurrar a porta mais uma vez ela se abriu lentamente. Atrás dela estava uma Lia irreconhecível. Seus olhos inchados e seu rosto vermelho davam a Júlia a dimensão da dor que a amiga sentia. Júlia, sem dizer nada, a abraçou com força e a levou para o sofá. Gostava tanto de Lia que sentia parte daquela dor... colocava-se no lugar dela e podia sentir a tristeza e o vazio... uma solidão sem fim. Ela se sentiria num inferno se perdesse Sofia... só de pensar na tragédia agarrava-se mais a amiga e compreendia mais sua dor.
_ Eu não vou dizer agora nenhuma besteira do tipo: vai passar... a males que vem para o bem, etc, etc... vou simplesmente ficar aqui para quando você quiser falar qualquer coisa.
Lia agarrava-se a Júlia como seu único apoio, sua única esperança. Agarrava-se a ela como uma criança desprotegida agarra a perna da mãe com angústia. Júlia acariciava seu cabelo com carinho.
E ficou deitada no colo de Júlia por muito tempo enquanto era afagada pela amiga solidária à sua dor, respeitando o seu silêncio, seus pensamentos que voltavam aos poucos com uma fúria perturbadora. Era a ressaca após a embriaguez de uma tristeza absurda.
_ Eu pressenti que algo iria acontecer. – foi a primeira manifestação de lucidez de Lia após horas em um silêncio tenso. Júlia despertou de seus próprios pensamentos e a olhou com carinho sem deixar de lhe acariciar os longos cabelos.
_ Como pressentiu?
_ No dia em que brigamos, novamente, por causa da amizade dela com Renato, ela saiu e quando voltou prometeu que nunca mais falaria com ele. Mas ela mentiu... vi no celular dela várias ligações dele todos os dias e aí conclui que o amor dela por mim não deveria ser mais o mesmo... que talvez tudo não tivesse passado de uma grande distração – mais uma na vida dela -, acabado a novidade... – Júlia a ouvia com atenção, olhando-a com serenidade. Também queria entender o que havia acontecido. Não conseguia acreditar que Juliana havia trocado Lia por Renato... e de uma maneira tão vil. _ Eu descobri as ligações, mas não disse nada... eu esperava que ela me contasse qualquer coisa... mas não agüentei e brigamos porque não suportei mais esperar que ela me dissesse a verdade. – Lia parou por um momento e secou as lágrimas que recomeçaram a brotar de seus olhos vermelhos, mas sua voz permanecia firme. _ Só que Juliana me abraçou, disse que me amava, começou a me beijar, fizemos amor e foi tão bom que não consigo acreditar que pode ter sido fingimento da parte dela. Foi tão bom, Júlia, que decidi não tocar mais no assunto, mesmo ele estando aqui, atravessado na minha garganta. Parece que eu sabia que algo não estava bem, mas escolhi não querer saber... escolhi passar por cima de todo o meu ciúme, de minha raiva por saber que ela me escondia algo sério. Meu medo de perdê-la foi tão maior que passei por cima do meu orgulho. Pensei que depois da noite que tivemos, qualquer coisa que ela tivesse feito havia ficado pra trás. – Lia soou o nariz e levantou-se, sentou-se no sofá e ficou de frente para a amiga. _ Mas ela mudou... começou a se distanciar, me evitava, não tinha mais tempo pra nós, irritava-se com facilidade, estava ansiosa, impaciente... tão diferente da MINHA Juliana. Até que ela explodiu, contou o que eu não queria saber e doeu tanto, Júlia! – Lia começou a chorar copiosamente e Júlia a abraçou com cuidado. _ Ela disse que a culpa por tudo ter terminado foi minha... ela me traiu com Renato e a culpa foi minha!
_ Calma, querida. Tudo vai ficar bem.
Júlia encostou a cabeça de Lia em seu ombro em silêncio. Não queria se manifestar, afinal de contas também era amiga de Juliana e precisava ouvir a versão dela também. Conhecia seu jeito meio louco de ser, suas metamorfoses, suas fases, sempre mudando, sempre decidindo que não queria mais uma coisa e desejando outra. Mas não conseguia aceitar o fato de que ela, talvez, tenha se cansado de Lia... Lia era a única pessoa capaz de colocar nos eixos Juliana-porra-louca, de fazê-la feliz constantemente mesmo sofrendo com os ciúmes e o gênio forte da namorada.
_ Eu não queria ter feito nada disso... sempre faço tudo errado! – lamentava uma Juliana num estado não muito diferente do de Lia. Abatida conversava com Sofia no quarto que seria seu enquanto estivesse na casa de Renato. _ Eu não queria ser assim... fraca... fazer as coisas impulsivamente e depois me arrepender. Por causa disso, da minha estupidez, estraguei uma relação de dois anos com a pessoa que mais amo no mundo! – Ju começava novamente a chorar – e não tinha mais lágrimas. _ Dois anos, Sofia... e eu ainda a amo tanto...
Calma, Ju! O mal já está feito. Aliás, desculpa, mal não, uma criança jamais será um mal. – Sofia sentou-se mais próxima da amiga e segurou sua mão. _ Ju, você deveria ter contado tudo de uma vez para Lia.
Juliana levantou-se num salto e nervosa passou as mãos pelos cabelos.
_ Claro que não, Sofia! Como contar para Lia que além de traí-la fiquei grávida?! Eu não agüentaria vê-la me olhar com mais decepção ainda... com desprezo... eu jamais conseguirei olhar pra ela depois disso.
_ Você não pode tomar pra si toda a culpa, afinal de contas tudo aconteceu porque você estava fragilizada por conta da briga que teve com Lia...
_ Não justifica...
_ Vocês têm temperamentos diferentes, Juliana... ela não pode exigir de você o comportamento que ela teria na mesma situação.
_ Eu sei... mas ela não entende, nunca vai me perdoar.
Ju voltou a sentar desanimada e colocou a cabeça entre as mãos:
_ Ela já está com ódio suficiente de mim. Se eu contar ela vai pensar mil bobagens... que eu não a amo, que eu fingi, que a enganei esse tempo todo. Lia nunca mais confiaria em mim, sempre atiraria tudo na minha cara. Melhor ela saber só o que já sabe...
Sofia, de repente, franziu a testa sem entender. Bom, melhor dizer que ela começava a entender agora:
_ O que você quer dizer com isso, Ju? Que não vai contar que está grávida nem amanhã, nem depois?
Juliana encarou a amiga com olhos vermelhos e molhados e respondeu com uma expressão decidida:
_ É isso mesmo. Não vou contar, vou sumir da vida de Lia. E você e a Júlia vão me ajudar.
Quando Júlia chegou em casa, Sofia já estava na cama:
_ E aí, como está Lia? – perguntou Sofia assustando-se com o barulho que a namorada fez assim que entrou no quarto com expressão cansada.
_ Péssima, claro. Ainda está em estado de choque. - tirou a jaqueta e aproximou-se para beijar Sofia que sentava-se na cama. _ Agora me conta o que realmente aconteceu pra que eu não pense que Juliana é uma vaca.
_ Não... ela não é. Juliana só não é igual a Lia, com seus conceitos sempre tão inflexíveis, radicais. Bom, claro que se você me traísse com uma ex-namorada eu ficaria putíssima, mas se você me dissesse que foi um escorregão e que estava arrependida, provavelmente eu te daria outra chance...
_ Eu, talvez, não seja tão diferente da Lia. Não sei se te perdoaria caso descobrisse que você estava me traindo há tempos com uma ex-namorada...
_ Não foi há tempos. Juliana, infelizmente, cedeu às investidas de Renato apenas uma vez, depois de uma briga daquelas que já conhecemos com Lia.
_ Mas Lia me disse que Renato não parava de ligar pra Juliana e Juliana havia prometido a Lia que não falaria mais com o ex.
_ É verdade que ele ficou ligando após terem ficado juntos naquele dia. O idiota achou que ela ainda o queria... mas ela não queria mais absolutamente nada com ele, queria até cortar relações, mas ele começou, meio que indiretamente, a chantagear ela insinuando que contaria pra Lia que os dois ficaram juntos.
_ Então, por que Juliana não abriu logo tudo de uma vez? Antes de chegar aonde chegou?
_ Por que ela está grávida, Jú.
_ Quê????
_ É... ela não contou tudo para Lia. Se contasse seria ainda pior.
_ Puta que pariu...
_...
_...
_ E tem mais.
_ O quê?
_ Ela não vai contar nada para Lia e não quer que contemos.
_ Como assim, Sofia?!! Lia é nossa amiga!!! Tem que saber!!!
_ Amor, Juliana também é nossa amiga e eu acho que não devemos nos meter ainda mais nisso.
(continua com Lavinia Motta...)
CAPÍTULO IX - ALGUMAS AGRADÁVEIS SURPRESAS, TALVEZ...
“Finalmente a as coisas caminham!”. E por que não? Lia estava muito bem. Tinha começado em um emprego razoável, conhecia a cada dia novas pessoas interessantes e desgraçadas (claro, a vida não é só flores), tinha méritos e estava onde sempre quis estar: Londres. Tirando seus mais íntimos problemas (como a depressão silenciosa que nem ela mesma se dava conta), todos relacionados a uma única razão – Juliana -, vivia animada, cheia de projetos na mesa para serem entregues ontem e mais um tanto na cabeça para amanhã. Começou a sair com os colegas da agência, esquivava-se dos contatos masculinos mais ousados com a delicadeza de sempre e fingia que não percebia os olhares entendidos de certas mulheres. No fundo, não surtia qualquer efeito saber que era desejada. Sentia-se completamente fechada para qualquer aproximação além da profissional. O tempo continuava a correr, mas ainda doía muito estar sem ela.
_ Alô.
_ E aí, Lia? Decidiu?
_ Não sei, Ricardo. Acho que vou me sentir bem deslocada lá. Poxa, passar o natal com a família da Rita... eu prefiro ficar em casa, ligar pros meus pais, pras minhas amigas, dormir cedo... tenho tanto trabalho pra entregar que...
_ Ah não! Você pode fazer tudo isso depois! Cara, não é a “família da Rita”, é a minha família também. Você precisa manter relações fora do trabalho. Essas suas desculpinhas de trabalho, cansaço não funcionam mais. Além do que, o pai dela fez questão que você fosse. Poxa, já tem meses que você está aqui e ainda não fez nem uma visitinha pro velho! É uma falta de....
_ Tá bom! Como alguém pode ser tão chato?
“Ótimo. Agora tenho que ir a uma festa que não quero ir. E pior: festa de família!”. Lia não suportava festas de família. Natal conseguia ser a data perfeita para reunir os parentes mais inusitados possíveis...
“... _E você, Lia? Não pretende se casar? Você já terminou a faculdade há um tempinho, tem um bom emprego, que sei... falta um bom marido, não acha? _ depois de um animado papo entre as mulheres da família, tia Marta não pode controlar a curiosidade que sempre estava na ponta da língua enorme.
Lia precisou se recompor, ajeitar o prato na mesinha do centro, escorregar o pedacinho de bolo que agarrou na garganta quando a ironia da titia lhe chegou aos ouvidos. Como detestava as ironias dessa velha! Quem na família ainda não sabe que a lindinha da vovó gosta de meninas (na verdade mulheres) e não de meninos? Será que teria que andar com placa no pescoço? E é claro: as primas adoravam vê-la nessas situações.
_ Titia, a senhora não sabe? Eu casei. Há quase dois anos. _ ironia doce. Talvez fosse o bolo...
_ Jura?! E como não fomos convidadas? Onde está seu marido? Na casa dos pais dele? _ claro, ela realmente não sabia, ainda.
_ Não. ELA está bem ali, conversando com minha mãe. O nome da minha esposa é Juliana, tia. Vou apresentá-la para a senhora....
E foi assim. Sempre tentava evitar os tons de ironia. Mas, quando era impossível, caia no jogo também. Mas agora, não sabia com quem estaria lhe dando. ‘E se começarem a perguntar sobre namorados, maridos, noivos???’”.
Tinha uma semana para pensar nas respostas.
_ Vamos? Dad não vai gostar se chegarmos....
_ Atrasados. Chegaremos a tempo, amor. _ “maldito sogro britânico!” _ Lia, vem!
_ Já vou! .... Então, nos padrões de sua família?
_ Está linda, Lia. Só acho que você deveria levar uma outra blusa quente pra jogar por cima dessa. Lá tem aquecedor, mas está muito frio hoje.
_ Não! Rita, seu pai, relógio, ceia, lembra? Vamos nos atrasar se ela for lá em cima se trocar agora...
_ Pode deixar, Rita. Fico perto da lareira ou dos aquecedores se eu sentir frio.
Lia já se sentia desconfortável em ir. Imagina se chegassem atrasados por sua causa. No meio do caminho, imaginava o que de mais impróprio poderia acontecer em uma ceia natalina anglicana. Ficou tão absolvida em suas idéias que nem se deu conta que o carro tinha parado.
_ Lia, vem?_ Ricardo lhe sorria estendendo a mão.
_ Ah?... Nossa, já?! _ “e agora?”.
Lia ficou surpreendida com sua insegurança. Sempre tão firme para tomar decisões, fácil para criar amizades, mesmo em condições adversas... mas, agora.... um poço de contradições.
Tinha cerca de vinte pessoas dentro da sala enorme, e aos poucos chegavam mais gente dos outros cômodos. No fundo, tocava bossa nova. Lia estava em um ambiente totalmente bilíngüe. Frases começavam em inglês, terminavam em um português carregado de sotaque por uns e fluente por outros. Outra hora, eram construídas em português e exclamadas no mais perfeito inglês britânico.
Rita conduzia Lia entre essa mistura de sons, apresentava-a aos parentes, amigos brasileiros e ingleses, alguns já conhecidos e, por fim, a apresentou a um senhor alto. Devia ter seus quase setenta anos, mas era rápido nos gestos e possuía olhos azuis muito expressivos.
_ Dad, lembra-se de Lia, a prima do Ricardo? O senhor a conheceu ainda menina no Brasil.
_ Ah, mas é claro que lembro. Como você está? Adaptando-se ainda ao clima londrino?
Lia o seguiu até a mesa central, repleta de comidas e aceitou uma taça de vinho. Ficaram conversando por um bom tempo e ela começava a relaxar a cada história de David e a cada golada do vinho. Estava se sentido ótima após uma hora de conversa, risos contidos e três taças. Mais pessoas tinham se juntado a eles e a conversa ganhava novas dimensões. Mas, de repente, o senhor parou de falar e olhou para a porta. Lia acompanhou seu olhar e teve a impressão que já tinha visto aquela figura antes.
Era uma mulher, talvez um pouco mais jovem que ela, com um presente em uma mão e na outra uma garrafa de vinho. Não era uma mulher deslumbrante, mas sua ousadia transmitia inteligência. Vestia terninho preto debaixo do sobretudo de couro, também preto, e gravata branca. Seu cabelo era curto, com fios tingidos de preto em desarmonia no cumprimento. Talvez combinasse mais com algumas pulseiras de metaleiro e uma maquiagem carregada no lápis de olho preto, mas estava muito bem assim.
Rita a recebeu com um sorriso que foi correspondido. Ajudou a jovem com o presente e com o sobretudo. Abraçaram-se.
_ Tia, como você está bonita. _ era uma voz suave, pausada para não errar no português.
_ Izabela! Finalmente você resolveu passar um natal conosco, sair daquele grupo simpático de amigos... meu Deus, como você está bonita com esse terno. Parece até mais velha! _ riram. Claro que ninguém da família adorava seu grupo de amigos. O pai dizia que eram um bando de desocupados, drogados. Izabela respondia que eram artistas.
_ Então, não vai dar um abraço no seu avô? _ Lia ficou sozinha no sofá e via sua ex-companhia abraçada à nova figura do ambiente. _ Você está atrasada, Izabela.
_ Ei, vô! Olha, são para o senhor. _ estendeu o presente e a garrafa de vinho. _ Merry Christmas, grandpa! Estava com saudades.
_ Obrigado, blossom! ... Saudades? Estava nada! Londres é uma cidade grande, mas nunca mudei de endereço. Bem que você poderia me visitar às vezes e não só nas datas comemorativas. Aliás, ultimamente nem isso você faz mais. A última vez que deu notícias foi no meu aniversário, ou seja, há mais de seis meses! ... mas, que bom que você veio, blossom .... seu português está cada dia melhor.
Izabela era a única neta de David, filha de seu filho mais velho, que teve em seu primeiro casamento. Estava completamente desligada da família, nos dois últimos anos, desde que entrou para a faculdade. Não que fosse uma jovem rebelde. Pelo contrário, sempre foi “blossom”, um docinho, mas sua relação com o pai tinha mudado completamente. Ele desaprovava suas amizades, desaprovava o curso que fazia, desaprovava suas músicas, suas roupas, seu cabelo, seu estilo. Izabela saiu de casa e agora dividia um apartamento com amigas. Arrumou um emprego e algumas horas de estágio em um museu de arte clássica para completar o curso. Não tinha mais tempo para as coisas que sempre gostou de fazer, como ouvir as histórias do avô.
_ E meu pai? Ainda não chegou? _ perguntou já se adiantando com a cabeça a procura do pai. Olhou rapidamente pelos cantos da enorme sala. Não o viu, mas tinha um rosto novo, delicado. Era uma mulher e não parecia ser uma patricinha. Tinha uma pele morena, mas em um tom diferente. Parecia até familiar.
_ Ele ligou, deu os parabéns, mas não vem. Viajou com sua mãe. Você não sabia?
_ Ah sim! É verdade. Mamãe me disse que passariam o natal com meus avós na Irlanda.
Lia os observava de longe enquanto conversava com Ricardo. Avô e neta pareciam ter tantas coisas para conversar.
_ Amor, olha quem chegou. _ Rita virou o rosto de Ricardo.
_ Izabela?! Nunca pensei em vê-la aqui hoje. _ estava surpreso. Depois de tanto tempo sem notícias, a caçula da família ali estava.
_ Quem é ela, Cá? Tenho a impressão que...
_ Vem, Lia. Você vai adorá-la. _ Ricardo interrompeu Lia no meio da frase. Estava ansioso por rever a sobrinha e apresentar alguém que pudesse fazer amizade com Lia e tirá-la da rotina casa-trabalho. Izabela é a pessoa ideal para isso. Gentil, calma e não era tímida.
_ Desculpe interromper uma conversa tão cheia de assuntos, mas será que eu poderia...
_ Claro que pode, tio! _ Ricardo abraçou a sobrinha. Conversaram qualquer coisa rápida e...
_ Iza, esta é minha prima, Lia. Ela veio do Brasil há alguns meses para morar e trabalhar aqui. Acho que vocês não se conhecem.
“A louca/bêbada do pub!”.“Girl with shoes that cut, and eyes that burn like cigarettes!”_ Prazer, Izabela._ Prazer, Lia.Sabiam que já se conheciam, mas não revelaram. Ficaram somente com um sorriso simpático nos lábios por algum tempo e o aperto macio das mãos. A lembrança do rosto de ambas ficou esquecida nesses meses, mas os conceitos que se deram não. Agora, eles tinham nomes.
sexta-feira, 20 de abril de 2007
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Um comentário:
Oi Mariana, tudo bom?
Faz um bom tempo que procuro uma de suas fics, "O Acaso nos alcança", mas infelizmente, não encontro em site nenhum. Tempos atrás, eu tinha postado essa sua mesma fic em um fórum(aino[obviamente, com os devidos créditos a você, óbvio²]), onde foi extremamente comentado e 'aplaudido', de certa forma. Mas infelizmente, o fórum ficou off e eu gostaria de ler a sua história novamente ;-;
Teria como me passar, por favor?
Um beijão!
Érica
email: erinportela@hotmail.com
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