sábado, 21 de abril de 2007

A BELA SIMONE

A BELA SIMONE

Acho que a primeira manifestação que me chamou a atenção em meio àquela multidão de pessoas bem vestidas e desinteressantes foi um sorriso. Espontâneo, largo, dado com a sincera vontade de quem está feliz, ou melhor, de quem é feliz com o que tem... independentemente de ter ou não o que se queira ter. Logicamente, havia muitos sorrisos ali – inclusive, aquela era a ocasião ideal para risos -, mas meus olhos miraram o outro lado do salão à meia-luz. Como isso aconteceu, eu estando rodeada por tantos dentes alvos à mostra? Não sei. Há mistérios transcendentais que minha vã filosofia desconhece.
Sorri comigo mesma. Um colírio no meio daquele monte de homens e mulheres de egos inflados e expressões plásticas como a de máscaras de baile. Ao menos um baile glamouroso, por favor.
Destacava-se do tumulto aquele ser que, mesmo fantasiado, deixava escapar luz própria, deixou a luz escapar por aquele sorriso contente como o de uma criança. De uma maneira que ainda não sei, aquela luz traspassou a multidão para chegar até mim.
Eu era uma das pessoas de ego inflado, de expressão engessada, cheia de modos e sorrisos contidos e aparentemente indiferentes... eu era uma das que precisava se conter, afinal, a festa (de máscaras?) também era para mim. Anfitriões do meu tipo precisavam ser distantes o suficiente para não serem invadidos.
Não a conhecia, devia ser convidada de um dos outros indicados ao prêmio. Mal sabiam eles que o prêmio estava ali, vestido num jeans escuro, camisa preta justa, com detalhes em renda que realçavam seu colo alvo, detalhes que a deixavam mais delicada e feminina. O contraste com a delicadeza ficava nas botas também pretas e altas, davam-lhe ares de superioridade sem que ela precisasse se esforçar para isso. Aliás, vendo-a dali de onde eu estava, acho que ela não se esforçava para nada... só queria ser ela mesma, sem força, só sendo.
Os fios de seus cabelos claros dançavam conforme seus gestos soltos diante dos que a rodeavam boquiabertos por seu sorriso que, gradativamente, tornava-se em gargalhada, e eu me via rindo junto a ela, sem saber o que dizia, só suspeitando de que falava sobre coisas deliciosas.
Quando me preparei para me aproximar, fui rodeada por amigos e cumprimentos. Sim, sim, é muito bom ser indicada, é bom ser reconhecida, é ótimo vencer... ok, ok, muito obrigada, estou muitíssimo feliz, mesmo se eu não ganhar... E meu sorriso, agora, contido novamente, era recebido com afagos, beijos, apertos de mão e abraços calorosos. Alguns valem muito à pena sentir... esses abraços. Alguns são tão verdadeiros que sentia até o coração de quem me abraçava bater descompassado. Nem tudo são máscaras... os prêmios estavam espalhados pela festa, abraços são prêmios, mas, naquela noite, eu queria o prêmio de ter o sorriso dela.
Provavelmente, se eu a visse num bar, numa outra ocasião em que meus sentidos não estivessem tão aguçados, nem a enxergasse. Ela não é o tipo físico que me atrai imediatamente. Mas, olhando bem agora... talvez, se eu tivesse cruzado com seus olhos cor-de-mel num bar eu ficasse desnorteada. Além de sorriso largo, ela tem olhos cor-de-mel... Eu procuro olhos amarelos há tempos!
Sem que ela soubesse, me conquistava avassaladoramente... sem que ela dirigisse um olhar sequer em minha direção eu já estava praticamente apaixonada. Não totalmente, só inicialmente.

Bom, mas alguém que é indicado a um prêmio não é alguém que fique esperando as coisas acontecerem, não é mesmo? Alguém que algumas vezes ganha constrói momentos propícios para que os acontecimentos se dêem. É assim que funciona... os indicados a prêmios são sempre, antes de mais nada, oportunistas. Desvencilhei-me dos cumprimentos e me dirigi a ela.
Fui interceptada algumas vezes pelo meio do caminho. No fundo, achei ótimo. Assim meu coração ganhava tempo para se conter um pouco, tratava de se disfarçar para não me denunciar de maneira tão imediata. Ele, meu coração, teria que me ajudar, pois não saberia o que dizer caso me visse diante dela simplesmente, sem um pretexto inteligente. Teria aquelas reações químicas, denominadas adrenalina, que cala, faz suar e sufocar, transformando minha expressão fisionômica em uma mera cara de imbecil. É imprescindível o raciocínio para uma boa articulação nessas horas, sangue frio e aparente naturalidade. É preciso mostrar que, se eu tive capacidade de ser indicada a um prêmio, tenho capacidade de me comunicar com uma pessoa, mesmo que essa pessoa seja ela.
Quase ao seu lado, percebi que ela era mais alta do que eu, mesmo sem as botas. Isso suscitou em mim uma certa insegurança, mas deve ter por aí um livro de auto-ajuda qualquer que diz que pessoas pequenas não devem se intimidar diante de mulheres grandes, sorridentes e de olhos reluzentes cor-de-mel. É preciso se apegar a qualquer teoria quando as pernas bambeiam e as mãos suam.
Mentalmente, eu ensaiava uma abordagem sutil, afinal, estávamos num ambiente adulto, não estávamos na domingueira de um clube. Ela parecia ser inteligente e extrovertida... falava entusiasmadamente junto ao ouvido das pessoas. Olhou repentinamente ao redor e eu quis sumir, mas, como sou pequena, não foi necessário usar de nenhum artifício.
Respirei fundo. “O que está acontecendo?? Esta situação não pode ser tão difícil assim!!”
Retomei meu caminho até ela. Faltavam cinco passos.
_ Boa noite! Daremos início à premiação dos melhores contos virtuais que farão parte da coletânea organizada pela escritora Olga Martins. – o som daquela voz masculina ao microfone paralisou meus últimos dois passos. Parei imediatamente... ao lado dela... que também parou imediatamente, como se tivesse sido hipnotizada por aquela voz. Voltou-se para o palco em silêncio... ao meu lado.
Olhei-a com cuidado pelo canto dos olhos. Linda.
Mas, agora, ela não sorria mais, tinha toda sua atenção e brilho dedicados ao palco. Seus olhos cor-de-mel o fixavam com tanta força que não piscavam... e os meus não piscavam fixos nela.
Enquanto isso, a voz masculina chamava pelo quinto, quarto, terceiro ganhadores, e ela perseguia cada um deles com sofrimento, uma angústia desconhecida por mim até aquele momento. Eu sentia, nitidamente, a ansiedade dela em reconhecer naqueles rostos os contos que ela possivelmente leu numa tela de computador.
O segundo melhor conto da noite foi aplaudido com entusiasmo pela platéia, inclusive por ela, que sorriu, mas não completamente. Queria ter ficado em segundo lugar para receber aquele aplauso e aquele sorriso. Mas... se ela não sorriu completamente era porque guardava o sorriso maior, aquele que vi do outro lado do salão, para a primeira colocação. De repente, como se tudo acontecesse ao mesmo tempo em ondas enormes que me deixavam tonta, me dei conta de que eu estava ali concorrendo ao prêmio e que meu nome ainda não tinha sido chamado! Voltei-me para o palco com a aflição de saber se seria a primeira colocada e com a necessidade vital de chamar a atenção daquela criatura.
_ E o primeiro lugar... com o conto “Entrelaço”... é de Cássia Azevedo!!!
Aplausos, muitos aplausos para Cássia que se dirigia embriagada de felicidade para o palco a fim de receber um abraço de Olga Martins e a oportunidade de, finalmente, publicar por uma grande editora. Eu aplaudi também, claro, ela merecia.
Quando pretendia analisar minuciosamente a reação dela diante do anúncio do primeiro lugar, alguém me puxou pelo braço:
_ Paula! Não acredito que seu conto não estará lá! – um dos meus queridos amigos tentando me consolar, mas... não sabia mais se queria aquilo... já não sabia mais qual o real motivo por eu estar ali.
_ Por favor, todos os indicados, queiram se dirigir ao palco. Temos uma homenagem para todos vocês.
E lá fui eu atordoada, sem saber muito bem onde pisar nem para onde olhar. Perdi o foco, perdi a direção dela. Quase me veio uma tristeza profunda, mas precisava me conter.
Lá em cima, alvo de tantos outros sorrisos e olhares, recebi também muitos aplausos, abracei um buquê de rosas vermelhas e me emocionei. Ok, não consigo ser tão contida nem fingir indiferença como tinha dito no começo. Sou mesmo uma emocional em busca de um olhar em particular. E eu o encontrei. Ele, o olhar, me fitou com tamanha força que me fez tremer e meu coração, sem controle nenhum, começou a descompassar como se perdesse o ritmo. Seus olhos me fitavam, mas sua boca não sorria. Ela apenas olhava-me perturbada. Acho que eu via perturbação através do mel...
Quando os escritores começaram a dispersar do palco, sendo abordados por outros sorrisos, o meu continuava imóvel e, na imobilidade, encontrei coragem para prosseguir em direção a ela.
Para que as coisas não fossem ainda mais difíceis, sorri o meu sorriso sentindo minha luz não contida iluminar seu rosto anguloso, de traços finos, lindos...
_ Você é a Paula Gonçalves... – foi o que ela me disse após alguns segundos intermináveis fazendo-me mergulhar em seus olhos amarelos.
_ Sim, sou eu.
_ Li seu último conto... Aliás, li todos eles... – prosseguiu depois de uma breve pausa me analisando como se eu fosse um ET.
_ Muito obrigada. Espero que tenha gostado deles. – consegui dizer com forçosa naturalidade. Em pouco tempo eu desmoronaria se aquela situação permanecesse.
_ Na verdade, só vim a esta festa para conhecer você...
_ Então... – estirei minha mão firme, tentando conter o tremor... O suor frio era impossível... _ Muito prazer...
_ Simone. – ela apertou minha mão com força, e senti que estava tão fria quanto a minha. Finalmente, após o primeiro toque, ela sorriu. Largo, brilhante. O melhor sorriso de todos era meu.
_ Prazer, Simone... é muito bom conhecer você. – meus olhos negros devem ter transmitido a ela alguma coisa... Talvez a maior de todas as minhas paixões.
_ Acho que essa frase é minha.
_ Você não sabe o que passei para chegar até aqui.

No carro, a caminho de qualquer lugar, tocava algo que dizia mais ou menos assim: “meu coração, toda vez que te vê, quer gritar, se arriscar, sair cantando... me delatando pra todo mundo...”
E assim foi o dia em que ganhei o maior prêmio de todos: o sorriso, o olhar e o amor da bela Simone.

Mari Cortez
abril/2007

2 comentários:

Unknown disse...

Gostaria Muito de um Contato seu! Te mandei um email,porem não tive resposta. Faço faculdade de Cinema e gostaria muito de transformar um conto seu em roteiro e filmar.
Meus contatos caso queira.
email: gabisouza_costa@hotmail.com
cel: 021 8795-6748

Obrigada desde já

Anônimo disse...

Mariana, leio algumas coisas suas por ai, e hoje vim parar aqui. Resolvi começar, do começo...2007. E me deparei justamente com esse conto, que "pelo acaso" tem meu nome. Só que fiquei surpresa em nao conseguir ler e uma curiosidade me bateu. Acabei clicando com o botão direito do mouse, marquei o texto, e consegui com que suas letras aparecessem.
E para variar mais um delicado texto seu, pude ler.
Saiba que por ai, aqui ou ali você tem uma fã que também se chama...Simone.