sexta-feira, 3 de junho de 2011

Capítulo 7: Pequenos episódios de quem pretende conhecer o(a) outro(a)

Primeiro episódio

Camila tratou de marcar uma simples baladinha, só para que Renata e Luciana voltassem a se encontrar. Seria em seu próprio apartamento. Seus pais haviam viajado e ela organizou uma “reuniãozinha” com vários amigos da época da faculdade para conversar bobagens e sobre o mercado de trabalho. Ela queria voltar a alguma redação o mais breve possível e arregaçar as mangas.
Claro que todos se divertiram, inclusive as duas amigas da Cupido, que não perdia um só lance. Desejava sinceramente que elas se entendessem. Gostava muito das duas, cada uma a sua maneira e queria que elas se gostassem, respeitando o modo de ser uma da outra. Desarmadas elas já estavam e depois que souberam que uma “falou” bem da outra, a simpatia aflorou e sempre encontravam um pretexto para conversar. Camila fazia questão de deixá-las sozinhas... ia para outra roda de amigos e as abandonava para que se conhecessem cada vez mais.
Nessa reunião havia vários “ficantes” de Renata, na época em que “pegava” todos – bom, ela ainda “pegava” – mas com menos frequência. Enquanto ela e Luciana conversavam na sacada do prédio, vários desses ex-ficantes se aproximavam para cumprimentar Renata. Mostravam-se gentis e carinhosos com a amiga que retribuía o afeto com simpatia e sorrisos. Luciana observava o modo como ela tratava aqueles homens, antes garotos-hormônios, e sentiu vergonha de um dia tê-la chamado de vulgar com tanta convicção e desprezo. Reconhecia que Renata não era vulgar, simplesmente curtiu uma fase de sua vida que consistia em se descobrir, em conhecer pessoas e, consequentemente, se conhecer. E, pelo que sabia, ela nunca foi sacana com os caras, nunca os iludiu com promessas de paixão ou amor eterno. Um desses garotos, transformado em homem, comentou sobre a época em que ele e Renata ficaram juntos por algumas semanas e, de maneira natural, lembraram e riram saudosos. Luciana ouvia tudo sorridente. Quando o rapaz se afastou, solicitado pela Namorada, Luciana achou conveniente se retratar:
— Eu queria te pedir desculpas por algo que disse há uns seis anos... – começou ela passando o dedo pela borda do copo encarando Renata que, de repente, ficou séria sem entender.
— Do que está falando?
— Do dia em que discutimos naquela chácara e te chamei de vulgar.
Renata sorriu e tomou um pouco do vinho. Ficou olhando para Luciana e, pela primeira vez, sentiu um imenso carinho pela nova amiga.
— Mas eu te chamei de pati...
— Eu era pati... – as duas sorriram.
— Ah! Mas eu não era vulgar! – riram novamente.
— Por isso quero me desculpar. Eu não te conhecia e fui logo te julgando...
— E agora? Você me conhece? – perguntou Renata olhando fixamente para Luciana que corou... e sentiu calor.
— Não muito, mas o suficiente para reconhecer que fiz um julgamento errado sobre você.

Segundo episódio

Camila, em pouquíssimo tempo, já estava empregada no mesmo jornal em que Luciana trabalhava. Departamento de Política Internacional. Camila estava se saindo muito bem. As energias estavam conspirando em seu favor! Queria comemorar e pediu sugestões de lugares legais para a amiga e, agora, também colega de trabalho.
— Tem um barzinho no centro da cidade que é bem agradável... fica cheio e é muito bem frequentado... – comentou Luciana enquanto terminava de digitar uma matéria.
— É caro? – perguntou Camila debruçada sobre a baia de trabalho da amiga. Luciana sorriu e a olhou por cima dos óculos:
— Não. Meu bolso não comporta mais baladas chiques.
Combinaram e saíram juntas dispostas a passar no apartamento de Renata.
Quando chegaram, Rê havia acabado de sair do banho. Ainda enrolada na toalha, pediu que entrassem e a acompanhassem até seu quarto para escolherem juntas uma roupa. Luciana nunca tinha ido ao apartamento da mais nova amiga e aprovou o bom gosto, as cores vivas, alegres... tudo identificava Renata e sua impulsividade, até o modo em que as coisas estavam, calculadamente, jogadas pelo ambiente. Olhou ao redor e comparou, por um breve momento, seus gostos com os dela. Seu apartamento era diferente... as cores eram neutras, frias... fazia questão de poucos móveis e muito espaço. Eram diferentes... sem dúvida, mas lhe agradava toda aquela cor, aquele estilo.
Ao entrar no quarto, Renata estava nua prestes a colocar um vestido escolhido por Camila. Lu não soube explicar o que aconteceu ao vê-la assim... nua em sua frente. Sentiu-se ridícula por corar, por sentir-se desconfortável diante de uma mulher – como ela – nua. Vislumbrou por um momento aquele corpo bonito, bem delineado, alvo e sentiu-se mal por tê-la olhado daquela maneira: “O que está acontecendo comigo!!!”
Renata percebeu. Seus olhares se cruzaram assim que ela entrou no quarto... sentiu-se arder por um instante. Sentiu o modo como Luciana a olhou e chegou a pensar que a mais nova amiga a tivesse olhado com olhos de desejo. “Não, não pode ser...” – tirou logo o pensamento da cabeça. Renata continuava a ser a “Don Juan” de saias, mas não jogaria charme para Luciana... não estragaria tudo justo agora que estavam se entendendo.

Foram para o tal bar. Sentaram-se e embarcaram num papo divertidíssimo: homens. Camila pretendia conhecer novas pessoas e, consequentemente, novos homens para que pudesse viver novas aventuras. Como ela mesma dizia “troca de energias” e as amigas morriam de rir com o jeito descontraído e espontâneo da Cupido. O ambiente era mesmo muito bom e, com o cair da noite, o bar foi enchendo. Um grupo de rapazes pagou bebidas para as meninas, que agradeceram à gentileza... em seguida já estavam sentados na mesma mesa. Conversaram e as três perceberam imediatamente o repertório “xavequista”; trocaram olhares, sorriram. Camila deixou-se cair, Luciana relutava e Renata competia com seu “opositor”. Riram bastante, jogaram no ar frases ambíguas, fizeram o jogo do “Manual dos cafajestes”. Num determinado momento Camila se rendeu e Luciana quis ir ao banheiro.
— Vou com você. – disse Renata, pedindo licença ao seu “pretendente” e acompanhou a amiga até o toalete.
— Bom, pelo menos o seu sapo tem um papo legal, já o meu só fala sobre bebida doce, destilada, forte, fraca... um expert em porres! – comentou Renata entrando em uma das cabines. Luciana sorriu e disse que o seu, em contrapartida, lia o “Estadão” todos os dias porque falava sobre tudo ao mesmo tempo sem um pingo de profundidade... tinha como arma de conquista esbanjar conhecimentos fragmentados. Hilário!
Elas saíram do banheiro às gargalhadas quando Renata deu de cara com Júlia, que entrava no toalete. As duas pararam chocadas uma de frente para a outra e Luciana observou a cena.
— Oi! Quanto tempo!!! – com um clichê Júlia quebrou o embaraçoso momento, sorrindo para Renata, e, em seguida, abraçando-a com carinho.
— É... que surpresa! – disse uma Renata atordoada e insegura, com um sorriso incerto e um olhar espantado. Luciana nunca a tinha visto assim diante de uma pessoa... nunca viu a rainha da sociabilidade tão desequilibrada.
Ficou de lado e não pôde mais ouvir o que as duas disseram, mas Renata estava vermelha e Júlia, aparentemente, feliz por revê-la. Porém, percebeu que a ex-namorada da amiga estava acompanhada por outra garota, que a esperava na porta do banheiro.
Conversa rápida terminada e Renata dirigiu-se para Luciana com um sorriso sem graça:
— Vamos?
Sentaram-se novamente ao lado dos respectivos profissionais do xaveco e Renata não perdeu tempo, beijou seu sapo que não virou príncipe. Não soube avaliar se o beijou foi para mostrar à ex-namorada – causadora de momentos terríveis de sofrimento – que já a havia esquecido – e isso era verdade – ou se para mostrar à Luciana que sua ex não mexia mais com ela. Às vezes se faz coisas sem saber exatamente o porquê e Renata, às vezes, agia assim... por impulso.
Lu, por sua vez, preferiu continuar conversando sobre tudo com seu sapo “intelectual” e quando ele tentou mudar, mais uma vez, de assunto com um beijo ela, delicadamente, recusou e investida. Olhou para os dois casais e chegou à conclusão de que estava feliz por não ter beijado ninguém... não queria beijar por beijar... queria apenas curtir. Que Camila quisesse conhecer novos caras e tirar o atraso, tudo bem. Mas Renata mostrava um pouco de imaturidade quando fazia questão de beijar pessoas aonde quer que fosse. Isso era o que Luciana pensava. Só que, Renata, com seu velho lema “beijo na boca sim, porém, não grude”, logo deu um jeito de escapar do seu homenzinho e puxou a amiga desinteressada pelo seu sapo para outro canto do bar, completamente cheio. Foram para o jardim de inverno a fim de tomarem um ar.
— Por que não ficou com ele? Era bonitinho...
— Sei lá, não gosto muito de ficar por ficar... e ele também é um chato.
Renata sorriu e ficou olhando o movimento enquanto tragava o cigarro. Depois de algum tempo:
— Aquela foi sua ex-namorada, não foi? – perguntou Lu observando a reação da amiga, que soprou a fumaça com força.
— Sim.
— Você ainda gosta dela?
Renata demorou para responder.
— Não. Hoje não posso negar que fiquei surpresa em revê-la depois de tanto tempo, mas pude perceber que meu coração não disparou, nem minhas pernas bambearam. Os sintomas sumiram. – tragou mais uma vez e soprou a fumaça com calma. Depois encarou Luciana. — Ficou um pouco de mágoa, mas ao mesmo tempo, agradeço a ela por ter me apaixonado de verdade... e até amado. Agora sei o que é isso... graças a ela.
As duas ficaram instantes mágicos se olhando. Em segundos, Luciana pensou no quanto Renata poderia ser sensível, meiga... e Renata apreciava os traços bem-feitos do rosto de Luciana e sorria com carinho, sem malícia.
— Você acha que só é capaz de amar mulheres? – perguntou Lu sentindo-se à vontade. O olhar de Renata lhe dava essa segurança.
— Não sei. Nunca me apaixonei perdidamente por um homem e menos ainda amei algum. Só sei que gosto de estar com as pessoas, não tenho pudor em demonstrar carinho por meio de um beijo na boca...
— Por isso você beija todo mundo? – e começaram a rir. Renata tinha uma resposta na ponta da língua: “Adoro você e nunca a beijei na boca...” – mas resolveu não dizer, não queria estragar a magia daquele momento de conversa íntima. Apenas sorriu e comentou:
— Pode ser... mas um dia paro... um dia encontrarei um amor. – encarou a amiga, agora, com malícia. — Mas, enquanto não encontro... – e sorriu seu sorriso mais sacana e Luciana se encantava, sentia-se instigada por toda aquela malícia, aquele olhar tantas vezes ambíguo. Renata era um mistério.

Terceiro episódio

— Por que Luciana não veio?
— Putz, está com uma gripe terrível...
— Hummm.
Estavam na festa de aniversário de uma amiga de Camila e Luciana. Era uma amiga da faculdade que fez questão da presença de ambas, pois se gostavam muito. Luciana não pôde ir porque estava completamente sem forças para sorrir num evento em que estariam todos os seus ex-colegas de classe e muitos amigos do jornal. Camila, que também conhecia todos, arrastou Renata que sempre a divertia nessas festas que mais pareciam encontros para a avaliação de status: “O que você está fazendo; quantos carros você já tem; já casou e tem filhos; já assumiu um cargo de chefia???” Renata sempre se intrometia e oferecia cortes hilários e bem-humorados.
Mas Rê não conseguia deixar de pensar em Lu. Já tinha se acostumado a tê-la por perto em todos os programas de fim de semana. Gostava de sua companhia, de sua calma, seu modo de observar... sentia-se bem ao seu lado e começava a se questionar a respeito dessa amizade: “Não consigo parar de pensar nela! Meu Deus, o que está acontecendo!!!” – pegou o celular e foi até um canto menos barulhento.
— Alô!
— Lu? Sou eu, Renata.
— Oi amiga... – sua voz era quase inaudível, estava péssima!
— Como você está?
— Péssima... – começou a tossir: — Mas amanhã estarei nova.
— Posso passar por aí? – não resistiu.
— Claro...
Renata desligou, despediu-se de Camila e seguiu para o apartamento de Luciana. Sabia que começava a entrar em território perigoso, sentia que estava se apaixonando e também sabia que Luciana era uma hetero convicta e que, por mais que tenha mudado nesses anos, ainda carregava resquícios de uma necessidade de fazer as coisas conforme a maioria.

Luciana estava na cama quando o celular tocou. Mal conseguia abrir os olhos, sua cabeça parecia que ia explodir. Pensou em não atender, mas quando viu que era Renata, uma alegria súbita tomou conta de seu corpo cansado e até se sentiu melhor. Levantou-se e tomou um banho quente, olhou-se no espelho e achou-se horrível, mas quanto a isso não poderia fazer nada. Foi para o sofá esperar a visita mais que bem-vinda e, enquanto esperava, pensava no quanto a companhia de Renata era agradável... sua alegria natural, sua vivacidade a enchia de carinho. Passou a mão pela testa em brasa e chocou-se com o fato de estar se apaixonando pela amiga... “que desastre... eu me apaixonando por alguém que beija todas as bocas, que tem como lema ‘eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo’ e, ainda por cima, é uma mulher...” – pensava um pouco triste. “Se deixo que ela me beije me apaixono de vez e, para ela, não passarei de mais uma pessoa pela qual ela sente ‘carinho’!”
A campainha.
Renata estava atrás da porta sorridente – e que olhos! Já disse que Renata tinha olhos cor-de-mel?! Não? Bom, Renata tinha os olhos cor-de-mel mais maliciosos que Luciana já viu. Balançava em uma mão um saquinho de chá e na outra havia uma pizza.
— Já jantou?
Lu se esforçava para sorrir porque seu rosto doía. Abriu espaço para a amiga entrar e logo voltou para debaixo das cobertas no sofá. Renata a obrigou a comer e a tomar o chá antitérmico. Colocou as mãos na face de Lu – que quase derreteu de excitação – e pôde ver que a amiga estava ardendo em febre.
— Venha, deite-se aqui. – intimou Rê sentando-se no sofá e deitando Lu em seu colo. Cobriu-a com carinho, acariciava seu cabelo com ternura e as duas ficaram ali, assistindo TV, sem dizer nada... cada uma absorta em seus próprios pensamentos... sobre a outra.

5 comentários:

Anônimo disse...

Oi Mariana.
Mesmo numa história já conhecida, sua escrita é um prazer sempre!

Mariana Cortez disse...

Obrigada!!! Pra mim é um prazer escrever e poder mostrar pra quem me lê, rs. Beijo.

Anônimo disse...

Vai, diz que não teremos que esperar até o final de semana prá mais um post diliça...

Mariana Cortez disse...

Pois é..., ..., só sábado mesmo, rsrs. Passa rápido! Bjs.

Anônimo disse...

Então até sábado. Boa semana!