quinta-feira, 26 de maio de 2011

AMOR E ÓDIO: FACES DE UMA MESMA MOEDA

Capítulo 5: O retorno da Cupido

Seis anos depois – dias atuais

“Camila vai voltar!!! Deus do céu, minha amiga voltará depois de quase seis anos... estou em estado de graça! Ela pediu para eu ir ao aeroporto e seu pedido é uma ordem. Só preciso que me dispensem mais cedo... é um caso de vida ou morte... preciso vê-la.”

Quando Renata soube que Camila já estava dentro de um avião a caminho de seu país natal ficou em completo êxtase. Estava morta de saudades... Claro que ela tinha uma infinidade de amigos, mas, amiga amiga, de verdadeira, só Camila. Foram seis anos de muuuuitos acontecimentos e não via a hora de recontar tudo olhando nos olhos da Cupido, observando suas expressões e a ouvindo dizer “essas energias são horríveis”, “acho que a energia de vocês têm tudo a ver!”. Agora ela achava graça, mas Camila sempre a irritou com essa história de transcendência. Será que sua amiga-energia era uma extraterrestre? Sorria pensativa, lembrando-se dos melhores momentos que já passou com a “ET”.
O dia foi difícil no hotel e, às vezes, aquele uniforme a incomodava... estava quente e ela estava ansiosa. Pediu a dispensa, disse que sua amiga estava retornando de uma longa viagem por conta da doença da tia-avó e não havia ninguém para ir buscá-la no aeroporto. Claro que não precisava de todo o drama, mas ela quis se garantir. Correu até o vestiário e tirou o uniforme rapidamente... o velho jeans, tênis e camiseta eram muito mais a sua cara e a cara da amiga que estava chegando. “Menos de três horas...”

“Que maravilhoso rever minha amiga depois de tanto tempo... mal posso esperar!” – pensou Luciana enquanto lia uma de suas matérias na tela do computador. Não conseguia se concentrar por mais que tentasse. Camila ligou há dois dias dizendo que estava voltando definitivamente, com diplomas debaixo do braço a fim de continuar a carreira deslumbrante que iniciou lá fora. Disse que não aguentava a saudade que sentia de todos e que nenhuma estabilidade pagaria a falta que os amigos e a família faz. Pediu que a fosse esperar no aeroporto, queria vê-la, saber se tudo o que havia acontecido com ela era mesmo verdade porque ainda custava a acreditar.
Era verdade. E muito Luciana dedicava à Camila, amiga de todos os momentos, mesmo quando não tinha tempo. As broncas, os berros ao telefone fizeram com que ela acordasse para uma vida nova e muito melhor do que a que tinha... presa em uma redoma.
Desligou o computador, pegou sua bolsa e explicou a situação para seu editor chefe. Saiu tranquilamente para o estacionamento, pegou seu carro e seguiu para o aeroporto. “Menos de duas horas...”

O aeroporto, claro, estava cheio. Pessoas de todos os lugares do mundo, de todos os tipos, espécies e afins. Uma torre de babel. Luciana olhou os horários de chegada dos vôos e continuou andando calmamente... ainda havia tempo, poderia observar as pessoas com mais calma. Estava acostumada com aquele ambiente. Quantas vezes não esteve ali embarcando para algum país do globo ou estado brasileiro. “Eu queria voltar a todos os lugares em que fui com a cabeça que tenho hoje, certamente aproveitaria bem mais...” – refletia enquanto se dirigia a um lugar para sentar.
Renata chegou esbaforida, pensando estar atrasada, mas não estava. Prendeu o cabelo e foi até a área de desembarque. Lá encontrou os pais de Camila... ela já os conhecia e foi muito agradável conversar com eles depois de tanto tempo. Encontrou mais alguns amigos em comum e tentava controlar a ansiedade mascando chiclete, já que não podia fumar ali. Rê conhecia de cor e salteado aquele aeroporto por conta de suas viagens de trabalho. “Mas um dia sairei do país... quem sabe Camila não me mostra a Inglaterra!” – pensou quando ouviu que o avião que continha um ser cheio de ótimas energias havia acabado de pousar.
Luciana se aproximava da área de desembarque e já via alguns dos seus amigos; Renata jogou o chiclete fora e foi para junto dos pais de Camila. Um por um os passageiros foram surgindo sorridentes a procura de quem os esperava. Depois de alguns minutos o ser energizado apareceu sorridente vestida numa blusinha com as cores do Brasil. Estava linda! Um pouco diferente, com o cabelo maior – fez luzes! Camila nunca ligou para isso – estava com óculos de grau preso na cabeça, um livro debaixo do braço e um olhar iluminado, que sorria com sua alegria natural. Uma mulher, não mais uma jovem pós-adolescente. Estava radiante por reencontrar seus pais e seus amigos. 28 anos de pura felicidade!
Ela se jogou no colo do pai e ficou horas beijando a mãe. Foi nesse instante de intimidade familiar que Renata reviu Luciana e Luciana reviu Renata após tanto tempo. Elas estavam em lados opostos e o reencontro de olhares foi inevitável. Renata sorriu amarelo e a cumprimentou com um discreto aceno de cabeça... Lu, por sua vez, apenas deu um meio-sorriso. Logo Rê foi atropelada pela amiga que a amassava de todas as formas... as duas se abraçavam e sorriam, palavras eram totalmente desnecessárias naquele momento porque o contato físico dizia muito mais: Camila estava com o rosto lavado de lágrimas e Renata não cabia em si de uma alegria imensa. Lu observava de longe esperando sua vez, estendeu a mão aos pais da amiga recém-chegada e sentia uma certa inveja da afinidade que existia entre Camila e aquela garota antipática que conheceu há uns seis anos. Não conseguia entender aquela amizade. As duas tão diferentes...
Chegou sua vez. Camila se conteve mais, afinal de contas, Lu era delicada, sensível... tinha que ir com mais calma. Mas como adorava Luciana... como admirava aquela mulher que há algum tempo era apenas um fantoche nas mãos da “sociedade de elite”. Agora ela começava a viver e Camila se sentia muito feliz em saber e, naquele momento, poder ver com seus próprios olhos que a amiga estava ótima... linda! Mas não era uma beleza produzida... era uma beleza natural, verdadeira e simples.
Renata observava o abraço demorado e carinhoso entre as duas e não conseguia entender: “Como Camila pode ser tão amiga de uma pati como ela?”

Depois de cumprimentar os demais amigos que estavam ali, Camila puxou Luciana pela mão e foi em direção a Renata.
— Rê, lembra da Lu?! Vocês já se conhecem...
Renata olhou para Luciana e, talvez, as duas tenham pensado a mesma coisa.
— Sim, eu me lembro... Faz tempo...
— Então... – Camila fez uma pequena pausa para ouvir o que seu pai dizia e, nesse instante, Renata e Luciana apenas se olharam, sem saber o que dizer. — Então... minha mãe preparou um jantar e queria muito que vocês fossem. – e olhou para Lu que se sentiu na obrigação de dar uma resposta imediata:
— Tá, por mim será ótimo!
Camila virou-se para Renata que respondeu:
— Legal... vou também.
E as três saíram de mãos dadas – Camila no meio, é claro – ao lado dos pais da recém-chegada.

Capítulo 6: O tempo passa e as pessoas mudam

O jantar transcorreu muito bem, sem incidentes. Talvez o sucesso tenha se dado pelo fato de não haver mais pós-adolescentes-hormoniosos em torno da mesa e sim homens e mulheres em torno dos trinta anos dispostos a se mostrar comportados e “maduros”.
Camila desdobrava-se para dar atenção a todos, como sempre era toda sorriso e “causos”... amigos faziam roda em torno da Cupido para que ela relatasse momentos tensos e hilários de sua estada no país da rainha mãe. Renata e Luciana já conheciam aquelas histórias e, vez ou outra, se desligavam de toda aquela agitação. Talvez, por falta do que fazer, ambas passaram a se observar com curiosidade... cada uma submersa em suas impressões a respeito da outra. Elas não entendiam por que Camila mantinha uma amizade tão estreita com cada uma delas e, elas mesmas, não se conheciam, ou melhor, se conheciam e se odiavam.

“Está mais bonita... mais comedida... parece não desejar chamar mais tanto a atenção. Ainda nem deu uma daquelas suas gargalhadas espalhafatosas... Mas continua querendo mostrar que é muito social, conversa com todos mesmo sem ter o que dizer. Mas, sem dúvida está mais calma... Será que continua galinha?” – refletiu Luciana sobre Renata enquanto a observava sentada na sacada do prédio tomando uma taça de vinho... sozinha.

“Não usa mais aqueles penduricalhos de pati... nem faz questão de estampar a grife da calça. Está mais simples, humilde. E aquele Namorado? Não veio com ele... Está mais sorridente, mais simpática... parece mais determinada. Mas continua com aquele arzinho esnobe, que olha os outros de cima. Isola-se fácil, mas também... quem vai se aproximar se ela não baixar a guarda?! Está um pouco humilde, mas nem tanto...” – pensava Renata enquanto olhava para Luciana que sorria ao ouvir as histórias loucas da amiga.

Camila jantou, bebeu... abraçou todo mundo mais de uma vez, ganhou presentes, beijos dos pais, atendeu telefonemas, nem sentiu o cansaço da viagem. Os amigos, gentis, reconheceram que ela pudesse estar exausta e foram saindo. Ficaram Renata e Luciana e, esta, quando percebeu, resolveu ser educada e também se retirar. Deixaria que as duas amigas colocassem as novidades em dia. Levantou-se e quando se preparava para se despedir, Camila chegou puxando Renata pela mão:
— Meninas, trouxe uma coisinha pra vocês! – disse sorridente abrindo a mala. Renata sentou no sofá e Luciana não teve outra opção: sentou-se ao lado da amiga da amiga. A Cupido tirou duas caixas de presente, uma continha livros sobre Turismo para Renata e a outra CDs de jazz para Luciana. Elas agradeceram com brilho nos olhos e vislumbravam como crianças seus presentes quando o pai de Camila lhe passou o telefone dizendo que era seu avô quem estava na linha. — Só um minuto, meninas.
As duas ficaram sozinhas e, de repente, um embaraço tomou conta do ambiente, não sabiam o que dizer. Até Renata, sempre tão expansiva, viu-se intimidada diante da garota pela qual não nutria uma grande simpatia e que um dia lhe chamou de vulgar. Luciana, do seu lado, já era um pouco tímida e, sem saber explicar, sentia-se constrangida diante daquela mulher que sempre tirava de letra todas as situações... dizia e fazia o que queria e...
— Você gosta de jazz? – foi uma pergunta cretina, mas a única capaz de salvá-las daquela tensão. Renata perguntou a tal pergunta cretina olhando para Luciana com um sorriso nos lábios, que ainda não sabia se era sincero ou não... ela só pensava em quebrar o gelo.
Lu a correspondeu no olhar e no sorriso.
— Sim, adoro! Quando eu e Camila conversávamos, sempre indicava a ela alguns lugares onde tocavam jazz e ela acabou gostando do estilo...
— Que legal...
“Agora é a sua vez.” – pensou Renata assim que morreu a primeira tentativa de conversa. Ela não poderia prosseguir já que não conhecia jazz.
“Agora é a minha vez.” – pensou Luciana assim que percebeu que o assunto não tinha vingado.
— E você? Pelo que posso ver gosta de fotografia... – e apontou para os livros no colo de Renata, que agora sorriu sinceramente.
— Também gosto de fotos, mas cursei Turismo e tudo relacionado a isso me interessa muito... – respondeu olhando-a nos olhos. — Você parece ser uma pessoa viajada... talvez conheça todos esses lugares.
Lu sorriu, sinceramente, e pediu para olhar os livros e as fotos que ilustravam a descrição de alguns países e cidades da Europa. Folheou com cuidado e comentava a respeito de algumas cidades por onde já havia passado. Renata aproximou-se mais de Luciana e ambas estavam debruçadas sobre os livros... conversando.
Camila, ao desligar o telefone, viu de longe o papo animado no qual as duas amigas embarcaram e resolveu deixá-las sozinhas... para que pudessem se conhecer melhor.

— Nossa! Não acredito que já esteve na Grécia! É meu sonho ir para lá...
— Fui, mas não tinha noção da grandiosidade que a história do país representa para nós, do ocidente. Se eu fosse hoje, certamente aproveitaria mais...
— Mas você pode ir quando quiser! Seu pai não é o Armando Luís Fonseca?
Luciana sorriu entendendo a insinuação:
— Sim, esse é meu pai. Mas não dependo mais do dinheiro dele... se eu quiser ir terei que economizar uma boa grana.
Renata ficou alguns segundo olhando para Luciana, que correspondeu firme àquele olhar interrogativo... mas Rê não quis entrar em detalhes.
Camila, depois de meia-hora voltou para a sala e as três conversaram descontraidamente, de maneira que nunca fizeram. Luciana e Renata estavam, finalmente, desarmadas.

No dia seguinte, Camila e Renata haviam combinado de se encontrar para colocarem o papo em dia. Foram a um bar no centro da cidade e falaram sem pressa, saboreando o momento do reencontro, da volta à antiga amizade. Falaram amenidades, besteiras... riram, ficaram sérias... até que a Cupido arriscou:
— O que achou da Lu agora? – perguntou repentinamente e sentiu que Renata esperava por essa pergunta.
— Acho que ela mudou nesses anos que passaram. Ela me disse que não depende mais do dinheiro do pai e isso me surpreendeu... Mas, depois, cheguei à conclusão de que o marido deve bancar as vontades dela.
— Ela não é casada.
— Não??? – Rê franziu a testa e tomou mais um pouco do chope. — E o Namorado sem nome?
— Ela se ligou que o cara era um otário e que não tinha nada a ver com ela. – respondeu Camila beliscando os petiscos tranquilamente e olhando o movimento na rua. Renata queria mais, queria saber mais, mas resolveu se conter. — Ela passou por uma má fase, péssima aliás... assim como você e, assim como você, ela cresceu bastante... não é mais aquela pati de antes.
— Será que não?
— Bom, eu te digo que não... mas seria legal se você mesma descobrisse.
— Como assim?
— Pô, Rê... seria demais se vocês se dessem bem, né? Vocês são minhas melhores amigas! Não vou conseguir ficar me dividindo para que vocês não se encontrem!
— Ela me chamou de vulgar.
Camila começou a gargalhar:
— Garota, ela te chamou de vulgar há seis anos...

Na mesma noite, Luciana foi até a casa de Camila conversar. Sabia que a amiga recém-chegada já estava a procura de emprego e Lu conseguiu que ela conversasse com seu editor chefe. Nada garantido, mas já era um ótimo sinal.
Falaram muito sobre a profissão, Camila contou suas experiências como estagiária de jornais estrangeiros e Lu contou sua saga até chegar ao posto que havia conquistado há pouco tempo. Camila conhecia suas amigas e sabia que Luciana era completamente diferente de Renata, mas conseguia enxergar que as duas se completavam: Luciana era racional, ponderada, usava sempre de bom senso; Renata era emocional, explosiva, ansiosa... via nitidamente que Lu precisava de mais emoção naquela vida certinha e tão regrada; já a outra necessitava de um pouco de pé-no-chão, de razão para organizar as coisas. Se elas fossem amigas seria perfeito... seriam as três melhores amigas e toda a ótima energia contribuiria para o sucesso delas. Camila não poderia ficar indo de uma a outra... o ideal seria juntar as duas.
Viajou nessa constatação enquanto Luciana falava, falava...
— Cá, está me ouvindo?
— Opa! Sim... quer dizer... mais ou menos... – pensou rapidamente e: — É que eu estava pensando no que a Rê falou sobre você...
A reação foi imediata e Camila riu por dentro. Luciana logo se aprumou entre as almofadas do quarto da amiga e perguntou:
— O que ela falou sobre mim?
— Disse que você parece bem melhor do que há seis anos...
— Como assim?
— Que você está muito melhor sendo independente...
— Ahhh...
Lu ficou um instante em silêncio, de cabeça baixa, folheando um livro. Camila esperava pacientemente em silêncio por uma próxima declaração da amiga tímida, pois sabia que dali ainda sairia alguma coisa.
— Ela também está bem melhor...
Camila sorriu. Sabia que seu plano funcionaria.

continua...

4 comentários:

Anônimo disse...

Ei, amiga, estou lendo seu conto novamente. Seis capítulos hoje...não demora a postar mais. Viciei. rsrsrrs
kelma

Mariana Cortez disse...

Oi, Kelma! És tu?!! Toda semana posto... se eu entrego o ouro assim (mesmo que um ouro velho) aí perde a graça rsrs.
Brigada por estar acompanhando.
Beijos.

Anônimo disse...

Sabia que ouro velho é muito mais bonito? Então fica acanhada não...

Anônimo disse...

RSRSRS. Claro que sou eu, mari. Estou acompanhando as postagens em doses homeopáticas, mas chega uma hora que a espera se torna uma incrível tortura rsrsrs. E olha que já li essa história.