sexta-feira, 10 de junho de 2011

Capítulo 8: Quando pensam que já se conhece o(a) outro(a)

Ambas já sentiam que haviam sido flechadas, sentiam a tal flecha invisível arder no coração e liberando o vírus intenso da paixão. Flechas atiradas por alguém que não tinha consciência de que realmente era um Cupido enviado pelo Destino. Cada uma delas lidava de modo diferente com esse encanto avassalador que, quando chega, arrebenta e atropela. Nós administramos a paixão da forma que nos convém... elas também, ainda mais quando há dúvidas, questões. O vírus da paixão estava ali, devastando tudo, mas elas ainda precisavam resolver algumas coisas... dentro delas e fora também.

Luciana já estava curada da gripe, mas adoeceu de paixão. Os sintomas, famosos sintomas de uma paixão. Quando via Renata tremia... não conseguia mais ficar tão à vontade ao seu lado, mas, como aprendeu – com seus pais e no meio em que viveu durante tantos anos – a esconder seus sentimentos, disfarçava muito bem e apresentava-se diante de Renata serena e segura de suas atitudes... mas por dentro havia um vulcão prestes a cuspir paixão... intensidade de um sentimento indócil. Continuavam a sair juntas, as três. Vez ou outra Renata levava uma outra “amiga” ou um “amigo” e Luciana quase enlouquecia de ciúmes, mas se continha... sorria, era amável e após presenciar algumas cenas de beijos dados entre Renata e suas “amizades”, ela dizia para seu coração que jamais poderia confiar numa garota tão... tão... superficial no que diz respeito aos sentimentos. Apenas sofreria se se deixasse encantar por aquele par de olhos e aquela boca convidativa. Sua razão dialogando com sua emoção... um debate interminável, mas era só Renata caminhar em sua direção e sorrir que seu coração dava o assunto por encerrado.
A intimidade entre as duas havia aumentado. Assim como Rê e Camila brincavam de seduzir, Lu foi incluída nessas brincadeiras, às vezes, de mau gosto para com alguém que já está tão sensível a investidas... mesmo que de brincadeira. Quando passavam no apartamento de Lu para irem a algum lugar, Renata sempre dizia que ela estava “irresistível” e a olhava provocativa; Camila assoviava, grudava na cintura de Lu, mas nenhuma carícia de Camila era mais ousada do que os olhares de Renata. Lu era tímida e não brincava muito dessa brincadeira... geralmente era quem ficava vermelha, e as duas amigas tão extrovertidas se divertiam e achavam “bonitinho” o “jeitinho” dela.
Renata, assim que constatou a paixão ardendo, tentou fugir. Seus casos relâmpagos aumentaram 30% desde que se descobriu encantada por Luciana naquele sofá, naquele dia, naquela hora. Lu dormiu em seu colo e ela ficou horas observando a ex-pati dormir um sono inquieto por conta da febre. Rê alisava seu cabelo e em seguida passou a acariciar sua face quente e lisa: estava apaixonada. “Que droga!” Resolveu sair dali e beijar várias bocas, independentemente do sexo. Por quê? Porque Luciana era hetero, porque Luciana não acreditaria nos seus sentimentos, porque Luciana não se permitiria ser amada por outra mulher, porque Luciana adorava preto e ela, vermelho! Várias coisas. Ajeitou-a no sofá depois de algumas horas admirando seus traços delicados... olhou-a pela última vez antes de sair e pensou em dar um selinho naqueles lábios vermelhos como brasa, mas resistiu. Foi embora respirando fundo, abanou-se, encostou-se à porta do carro e ficou olhando para cima, para o apartamento da amiga: “Que loucura!”
Camila que não era boba percebeu que a amiga tinha algo a dizer. Se Luciana conseguia esconder sentimentos, isso não acontecia com Renata, que demonstrava nos gestos, na postura, no olhar.
— Conta.
— Conta o quê?
— O que está acontecendo...
Estavam no quarto de Camila sem ter o que fazer. Renata tentou disfarçar, negar, mas... putz, era Camila, sua melhor amiga! Mas, também era amiga de Luciana... mas, ... mas... melhor dizer... não conseguiria esconder por muito tempo da amiga. Ela era Cupido!
— Você é culpada! – acusou Renata nervosa. Camila franziu a testa sem entender nada.
— Eu? Culpada do quê? Tá louca?!
Rê olhou bem nos olhos da amiga porque diria de uma só vez:
— Você é culpada por eu estar apaixonada pela Luciana.
Camila engasgou-se com o chiclete que mascava e fez cara de não-ouvi-direito. Mas, Rê não deu chances de ela se manifestar:
— Eu e ela nos odiávamos... eu não a suportava, queria distância dela. Mas você, como é tããããooo popular, quis ser a melhor amiga dela também e colocou nessa sua cabecinha oca que nós tínhamos que ser amigas pra facilitar o seu lado. Pois então, ficamos amigas e aí pude ver que ela é maravilhosa, é sensível, inteligente, meiga, possui uma timidez que me encanta, tem uma boca que dá vontade de beijar e um corpo escultural. Pronto!!! Você conseguiu mais do que queria: estou apaixonada pela Lu! – levantou-se da cadeira onde estava e, de costas, terminou: — E agora não sei o que fazer.
Camila estava de boca aberta. Várias fichas caindo e ela tentando digerir. Sempre sonhou com a união de Renata e Luciana, mas não esperava por... tanta união!
— Putz! – foi só o que conseguiu dizer. Renata virou-se para ela com uma expressão de desespero:
— Putz? É só o que me diz?
Camila se levantou e começou a andar pelo quarto.
— Nossa! Não sei o que dizer... Acho que sou boa mesmo nessa coisa de juntar casais, né?
— Camila!!! Não brinca! Não é brincadeira...
— Desculpa.
Rê sentou-se desolada:
— Não é só uma atração, é paixão mesmo... já conheço como é. Só que somos amigas, ela nunca demonstrou nada além de uma amizade legal. Tenho medo de estragar tudo se contar pra ela...
Camila sentou-se ao lado da amiga e a segurou pelas mãos:
— Vamos pensar em alguma coisa.
Renata foi embora péssima. Só viu a amiga nesse estado quando estava de quatro por Júlia. Era mesmo sério! “Puta que pariu! Exagerei na dose! Era só para serem a-mi-gas!!!” – culpou-se enquanto se jogava na cama e olhava para o teto: “Bom, mas bem que seria bem legal se elas ficassem juntas...”. Cá poderia ficar louca de ciúmes como aconteceria com qualquer mortal que vê suas duas melhores amigas apaixonadas uma pela outra, mas Camila não era qualquer mortal... era uma mulher de sentimentos nobres e, por ser assim, começou a desenvolver dentro de si uma alegria sincera por saber que Renata havia se apaixonado por alguém tão legal quanto Luciana. Só precisava saber se Luciana sentia o mesmo. Conhecia a amiga e sabia que não era tão fácil tirar dela o que sentia. Ela era tímida, guardava muito suas emoções: “culpa de uma educação ‘fina’!” Teria que encontrar um jeito de abordar sutilmente Lu... saber o que ela achava de Renata agora, depois de tantos anos de “ódio”. “As porras das energias estão vibrando e não posso perder isso por nada!!!” – concluiu pegando apressadamente o casaco. Saiu correndo até o carro. Foi à casa de Luciana.
— Lu, estava morrendo de saudade e vim te ver! – disse uma Camila lindamente cínica na porta do apartamento de Luciana que estava de pijama com um livro na mão.
— Oi!!! Entre, mas não repare na bagunça... hoje nem tirei a roupa de dormir. – justificou-se sorrindo e retirando os óculos.
— Sabe que não ligo para isso, né? Gosto de sentir a energia boa que vem daqui! Adoro sua casa!!! – ela nunca tinha reparado na qualidade das “energias” do apartamento de Luciana, mas foi o que lhe veio primeiro à cabeça.
— Acho que no apartamento da Rê há melhores energias... lá há tanta cor...
Luciana podia ter razão.
— É... mas, às vezes, cor não tem muito a ver não, sabia?
— Ah é?
— É.
Cá entrou, deixou a bolsa no sofá e iniciou sua pesquisa de campo:
— Aliás... você sabe da Rê?!
Luciana foi até a cozinha buscar uma lata de cerveja para a amiga.
— Não, não a vi hoje.
— Estou achando ela meio estranha ultimamente... – observou um certo ar de preocupação no semblante de Lu, que lhe entregou a bebida e sentou-se ao seu lado abrindo seu refrigerante.
— Como assim?
— Está quieta, pensativa... acho que está gostando de alguém... mas não quer me contar quem é. – soltou pausadamente parte de seu plano observando cada movimento da fisionomia sempre calma de Luciana que, por sua vez, estava atenta a cada palavra da amiga. Mesmo assim, Lu não deixava claro nenhum tipo de sintoma que acometia Renata. “Muita calma nessa hora... com Luciana tem que ser com cautela.” – pensou Camila antes de propor: — Você bem que poderia me ajudar a descobrir, né? – Lu levou um susto e – xeque-mate – “aí tem!!!”
— Eu??? Mas, por que eu?
— Ora, porque você também é amiga dela! – tomou um gole da cerveja e continuou: — Acho muito legal vocês, finalmente, terem se tornado amigas! – Lu sorriu:
— Pois é... você insistiu tanto...
— Mas se ela não fosse legal você não a teria aceitado em sua vida...
— Claro. – Lu bebeu e olhou Camila nos olhos com a calma que lhe é peculiar. — Renata me surpreendeu... ela é mesmo uma pessoa maravilhosa; ou ela não era nada do que imaginei na época em que a conheci ou mudou muito durante esses anos.
— As duas coisas. – a Cupido a olhava nos olhos e enxergava um brilho diferente, sua voz continha carinho... não era impressão sua, Luciana sentia algo por Renata também, só não sabia se era algo assim tão especial. Resolveu colocar mais lenha naquela faísca: — Ela também gosta muito de você... – Luciana corou e Camila vibrou por dentro: “Yes! Ela sente algo forte pela Rê!”
— Por que acha que ela está apaixonada? Ela pode estar com algum problema... – questionou Luciana após se recompor.
— Conheço nossa amiga... Ela está gostando muito de alguém. – olhou nos olhos da amiga tímida. — Só não entendi ainda porque não me disse nada.
E assim foi a conversa entre as duas amigas. Camila colocou seu plano em prática e já tinha chegado a algumas conclusões: Luciana estava envolvida por Renata, mas ainda não sabia dizer se era paixão ou apenas um encantamento passageiro – Rê causava isso, esse encantamento em virtude de seu modo delicioso de ser –, Lu não dizia tudo o que pensava a respeito da amiga... era como se não quisesse se comprometer e dizer mais do que a razão permitia. “Minha missão será juntar essas meninas!!!”
Instantaneamente lembrou-se que Renata faria aniversário na próxima semana e teria que organizar uma festa e tanto para ela. Talvez fosse um ótimo pretexto... “sei lá... sempre vamos a festas, qual seria a diferença?!” – refletiu enquanto voltava para casa.

continua...

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