sexta-feira, 4 de junho de 2010

O EMBARQUE - 5-6-2010

CAPÍTULO 1 – O BILHETE

É tão engraçada a sensação de que só comecei a viver a partir do momento que te encontrei...
Com você voaria até a China... mas, me espere para voarmos de volta ao Brasil.
Volto logo!!
Sua Clara.


Toda vez que leio este bilhete perco meu chão, confundo o dia, volto à anestesia diante da entrada para o embarque daquele aeroporto, de volta à realidade.
Será que tudo aquilo aconteceu numa realidade paralela, já vivemos uma tal de Matrix?!! Já temos uma realidade tão distinta da minha com todos os pontos nos “ís”? Será que foi um sonho? Em que tudo o que mais louco desejei foi possível?!
Até hoje não sei... não sei. Às vezes me questiono se tudo aquilo aconteceu... Mas, tenho este bilhete que não me deixa pensar que estou ficando louca. Ele está aqui, não tem minha letra, recebi de alguém, não fui eu que escrevi para mim mesma! Não sou esquizofrênica! Ele está aqui com as palavras que também ouvi e senti.
Parece mesmo um sonho. Ela sumiu como surgiu: do nada. Apareceu, partiu meu coração, depois foi... ficou, sei lá. Me deu o doce e depois o arrancou estupidamente de mim. E até hoje não entendi nada...
Não me transformei numa pessoa amargurada após esse episódio, acho que minha natureza nunca permitiria essa extremidade de ânimo, mas me sinto frustrada a cada vez que pego este bilhete e o leio, e sinto, mesmo que de maneira distante, aquelas sensações, aquela paixão que me consumiu mais do que os quase três anos de casamento. Aquilo foi uma paixão maior do que posso dizer por meio do que escrevo. Era a formação, o embrião de um amor intenso, extenso, para toda duas vidas. Nunca senti aquilo e, na minha realidade nua e crua, sou racional o suficiente a ponto de reconhecer que jamais voltarei a sentir o que senti naquele momento. Então acho que, por constatar isso, tenho todo o direito do mundo de ser frustrada, afetivamente falando.
Às vezes é preciso conviver com um sentimento assim, que incomoda. Existem pessoas que vivem com o ódio dentro de si e o regam com amor para que ele permaneça forte; outros alimentam a pena e passam a vida sentindo dó de si mesmos. Eu adubo minha frustração toda vez que leio este bilhete. Até mesmo a frustração é melhor que o esquecimento neste caso. Eu prefiro ser uma frustrada convicta a esquecê-la. É melhor ter a lembrança de um amor imenso e maior que tudo que já tive do que não ter nada.
Mas há um pouco de ressentimento também, uma vontade de bater nela por ter me largado lá, quase como uma noiva no altar. Se eu tivesse problemas de autoestima cometeria o suicídio... Talvez eu batesse nela e depois chorasse arrependida, mas eu nunca a odiaria, jamais. Os sentimentos ditos como ruins que tenho são superficiais. Bom, menos a frustração de tê-la perdido, deixado-a escapar... talvez o ressentimento também... mas, será que foi culpa minha?
É a frustração que alimenta minha lembrança daquele amor que tanto quis.
O oposto da frustração é a boa lembrança, pelo menos no meu caso. Tudo é muito louco no mundo dos sentimentos. Meu sentimento de frustração, que é “ruim” – pois todo mundo diz que é – dá vazão às minhas lembranças, que são maravilhosas – isso eu posso dizer. Ela me deixou a lembrança de risos insinuantes e gargalhadas gostosas, me deixou o som de sua voz sorridente, me deixou seus olhos grandes e negros de cílios compridos como pétalas de flor, a sua boca, a sua pele macia, tudo isso me deixou... na lembrança.

CAPÍTULO 2 – NO AVIÃO

Eu a conheci em 2004.
Estava exausta depois de quase 14 horas no aeroporto de Cumbica. Não era como acontece atualmente, mas, naquela época, vez ou outra já tínhamos problemas em alguns embarques. Ainda não era o caos aéreo, talvez uma prévia. Só posso dizer que, naquele dia meu voo para a Espanha teria de sair pela manhã, mas às onze da noite eu estava entrando no avião sem achar muita graça em nada. Só queria me acomodar na poltrona, fechar os olhos e relaxar. Se eu estivesse no lucro dormiria até chegar lá. Estava tão cansada... No dia seguinte teria de estar num hotel em Ávila para uma conferência de dois dias, e tudo estava tão bagunçado no escritório. Prazos, contas, projetos... e esta conferência no meio. Ok, eu já tinha ficado 14 horas no aeroporto, portanto, não havia como voltar atrás. Eu era apenas uma subordinada.
Sentei-me na poltrona do meio, tirei parte dos meus pés dos sapatos de salto apertados, desabotoei o blazer, tirei meu ipod da bolsa e, enquanto desembaraçava os fios dos fones para colocá-los em meus ouvidos e não ouvir mais nada que não fosse música pelas próximas 12 horas, uma mulher parou ao lado da poltrona do corredor e, aparentemente, ficou me observando. No começo pensei que fosse a dona da poltrona do corredor, mas ela não se mexia, então refutei a ideia; depois, sem olhar para o lado e ainda desembaraçando meus fones, pensei que fosse alguma das comissárias de bordo a fim de me dar uma bronca por qualquer motivo que eu não conseguia imaginar. Então resolvi olhar e deparei com olhos grandes e negros de uma garota de aproximadamente 18, 19 anos.
— Você quer passar? – arrisquei uma pergunta que talvez fosse pertinente, afinal eu poderia estar atrapalhando a passagem dela e... de repente a menina era muda...
Ela coçou rapidamente a cabeça cheia de cabelos lisos presos num rabo de cavalo mal feito, deu um sorriso sem graça e gaguejou na pronúncia das primeiras palavras.
— Na verdade eu... eu... Bom, na verdade eu queria te pedir uma coisa. – começou a dizer sem saber onde enfiar as mãos. Eu poderia começar a me irritar só pela introdução daquela conversa... “pedir alguma coisa?” Ora, eu nem a conheço e ela já quer me pedir algo??
Numa fração de segundos tive tempo de enrolar minhas mãos no fio dos fones, pois, caso fosse um pedido esdrúxulo, a estrangularia ali mesmo. As pessoas não têm noção do risco que correm ao aborrecer alguém que está há 14 horas num aeroporto. Mas, também durante milésimos de segundo pude observar, um tanto comovida, a vergonha com que aquela garota se dirigia a mim: — Mas, claro que se você não quiser, não tem problema... – ela não era tão menina quanto pensei que fosse. Era baixinha, magra, usava uma regata lisa, uma saia curta, carregava uma mochila ainda nas costas. Seu rabo de cavalo mal feito estava preso por um bico de pato que deixava fios soltos pelo rosto. Tinha olhos negros vivos e brilhantes, grandes, que sorriam com ela, mas não o sorriso sem graça com o qual ela sorria agora. Tudo isso dava a ela um ar de menininha... Tudo isso eu observei em milésimos de segundo. — É que, me perdoa, mas morro de medo de altura e não consigo ficar perto da janela do avião... mas era o último lugar disponível... – sem que ela terminasse sorri e acho que meu sorriso de mulher aparentemente segura causou nela um certo alívio imediato.
— Você quer trocar de lugar comigo?! – perguntei, mas, na verdade, estava constatando o rumo da conversa e o pedido que ela enrolava tanto em fazer.
— É, eu pretendo pedir isso... se você não se importasse... se não fosse muita cara de pau de minha parte...
Pois é. Um diálogo inusitado, digno de uma crônica se eu fosse boa com as palavras escritas. A crônica teria segmento assim: “ela sorriu o sorriso sem vergonha, o sorriso da mulher que provavelmente ela é: espontânea. Algo aconteceu em mim quando, após o sorriso da vergonha, abriu-se o sorriso da alegria quase infantil de conseguir o que queria”.
Me encanto com algumas personagens que atravessam minha vida sempre tão regrada, mas me encanto muito mais com personagens que fazem parte de situações como essa. Não ligava muito para esse papo de destino, caminhos que se cruzam, vida escrita nas estrelas etc., etc... mas, de repente, – não sei explicar – aquele acontecimento tão banal tomou em mim a forma de um momento determinante.
— Claro que não me importo! – tentei conter meu encantamento desviando-me de seu olhar grande e negro e me levantando para passar para a poltrona da direita, próxima à janela.
Ela finalmente tirou a mochila das costas, retirou um livro de dentro dela, guardou-a no bagageiro e sentou-se ao meu lado calmamente. Já não parecia a menininha envergonhada de segundos atrás. Agora eu já podia chutar melhor sua idade, mas achava que não teríamos tanto assunto para isso.
— Olha, muito obrigada. É sempre muito difícil, para mim, viajar de avião. – disse ajeitando-se na nova poltrona. Olhou-me de frente com voz segura e sorriso sem a vergonha.
— Eu imagino como deve se sentir, mas... se te consola: o avião ainda é o meio de transporte mais seguro.
— Bom, para onde vamos é o único meio de transporte, portanto, não me convenceu.
Sorrimos.
— Mas tem o navio. – desafiei e ela mordeu o lábio inferior.
— Não... não dá.
— Você enjoa?
— Putz, era só o que me faltava: ter medo de altura e enjoar no mar... – fez uma careta. — Não sou tão problemática assim! – sorriu mais uma vez o sorriso que me mostrava cada vez mais quem ela era. — Não dá porque preciso estar na Espanha amanhã e depois de amanhã em Barcelona.
— Verdade, se fosse de navio perderia seu compromisso...
O piloto do avião nos interrompeu quando começou a fazer seu discurso de boas-vindas e blá-blá-blá... Repentinamente sorriso e olhos negros e brilhantes sumiram numa seriedade assustada. Ela parou de falar e se pôs tensa na poltrona. Colocou o cinto de segurança e confirmou se ele estava preso mais de uma vez. “Minha querida menina, se o avião cair não adiantará estar presa num cinto...”. Senti pena daquele estado de fobia.
— Fique tranquila. A informação que te dei sobre a segurança dos aviões é séria.
— Acredito em você, mas meu subconsciente não me ouve nessas horas. – respondeu olhando para frente apertando os apoios de braço. Pensei no que poderia fazer para entretê-la a ponto de não perceber a subida do avião. Por outro lado pensava no que me levava a tomar tal atitude. Tamanha solidariedade a uma pessoa que eu mal conhecia... Tudo bem, sou uma pessoa boa, minha mãe sempre disse... mas sentia uma vontade enorme de ser mais do que boa para ela.
— Faz tempo que não acontecem acidentes aéreos no Brasil...
— Você não está me ajudando muito...
— Talvez seja melhor trabalharmos com estatísticas no seu tratamento contra a fobia de aviões. Como chamamos as pessoas que sofrem de fobia de aviões?
— Aerofóbicos.
— Mas, você tem medo de roda-gigante, por exemplo?
— Prefiro não estar nunca em lugares muito altos.
— Então nunca passeou no bondinho do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro...
— Lá já fui.
— Mas então seu problema é específico com aviões...
— Não sei, só sei que passo mal...
— Enjoa?
— Não, penso que vou morrer a qualquer momento.
— Eu penso que vou morrer a qualquer momento quando estou no centro de São Paulo...
— Ah... isso eu penso também, mas no chão eu posso sair correndo...
— Entendi.
Não poderia deixar o assunto morrer, quer dizer... : — Mas você ficará tensa por 12 horas? Não há nervos que resistam...
— Não, só na subida, depois eu finjo que estou numa biblioteca.
— Por isso o livro.
— É.
— Pode ficar tranquila então... o avião já deve estar há uns dois minutos sobrevoando São Paulo.

3 comentários:

Franciele disse...

Começo otimo
continua

CAmi Melo disse...

Começou muito bem mesmo, já queria te lido o conto todo, hehehe
parabéns

Anônimo disse...

Vocês estão lendo em primeira mão. No Livre arbítrio começam a publicá-lo só na terça (8). Acho que vão gostar da Clara e Fernanda, rs!!
Beijos!! Até mais.
Mari.