sexta-feira, 18 de junho de 2010

CAPÍTULO 5 – EM MADRI

Estávamos extasiadas. Bom, pelo menos eu estava. Não conseguia concluir um pensamento sequer.
Pela primeira vez na minha vida certinha e mascaradinha não senti culpa. Poderia sentir culpa por não sentir culpa, mas não sentia... o que posso fazer? Aquela mulher estava ali ao meu lado com seus pensamentos me olhando de canto de olho, provavelmente imaginando o que faremos logo mais num quarto de hotel em Madri. É claro que não poderia deixá-la escapar. Não poderia, não queria.
Mas tinha medo de uma coisa. Não era medo de o Pedro saber que o traí, nem medo que ele cancelasse o casamento, nem que minha família inteira ficasse sabendo. Tinha medo de realmente estar apaixonada por Clarice e sofrer como nunca sofri quando ela se for.
Torcia para que quando terminássemos o sexo, ela virasse para um lado, eu virasse para o outro e pensássemos: “Foi ótimo, mas foi só isso!”.
Morria de medo de estar apaixonada por ela.
Iríamos pousar.
— Pronta para sair da biblioteca? – perguntei observando seu perfil sério, olhando tensa para frente.
— Claro que não. Agora que estava no ar, queria ficar lá para não ter que descer.
— Posso segurar sua mão se quiser.
— Por favor, faça isso... se conseguir tirar uma de minhas mãos do apoio.
Peguei sua mão direita com carinho e comecei a cochichar em seu ouvido.
— Iniciando o método de entretenimento para aterrissagem... – ela sorriu um pouco nervosa. Continuei: — Se pudéssemos ficar no banheiro, no momento do pouso, você nem perceberia que estava saindo da “biblioteca”.
— Por quê? – perguntou com um meio-sorriso malicioso.
— Porque estaria te beijando e fazendo tudo o que estou imaginando fazer com você logo mais... – eu sussurrava em seu ouvido e a sentia arrepiar. Vi, através de sua blusinha, o bico dos seus seios intumescerem. Eu, por minha vez, estava com a calcinha encharcada por baixo daquela saia de executiva frígida. Tudo aquilo era pura loucura.
No saguão do aeroporto, depois de pegarmos as malas, ela me olhou sorrindo:
— Podíamos ir para...
— Deixa comigo, Clara. Ficaremos no hotel onde tenho reserva.
Chamei um táxi e fomos em direção ao hotel. Ainda bem que todo aquele quarto não seria só meu. Seria nosso lugar por um dia e queria muito que ela se sentisse especial, queria marcar Clarice, fazer com que aquelas poucas horas que teríamos juntas fosse inesquecível.
De mulher centrada, racional e estrategista, tornei-me uma boba sedenta por aquela mulher de boca macia e sensual que me dizia coisas que, naquele momento, eu não escutava. Naquele momento estava nervosa tentando ter o mínimo de controle para organizar com antecedência o que faria quando estivesse diante dela no quarto.
Precisava de um banho. Sentia-me incomodada após suores e fluidos que brotavam do meu desejo. Eu naquela camisa, naquela saia e naquele blazer que combinavam, que me davam ar de mulher-intocável já tinha sido literalmente amassada por uma pirralha que estava exercendo em mim o poder que só minhas falidas tradições familiares exerciam. No momento Clarice estava ganhando...
Aquele ar de mulher fria e segura ia por água abaixo quando ela olhava para mim.
— Chegamos.

Clara estava boquiaberta no meio do quarto.
— Nossa! Esse lugar é lindo!
— Que bom que gostou...
— A minha sugestão possível era um albergue...
Rimos enquanto ela deixava a mochila cair e eu colocava minha mala no closed. Clara se aproximou de mim e afastou fios de cabelo que caíam sobre meu rosto.
— É uma puta loucura tudo isso, não é?
— É. – não sabia o que dizer diante de seus olhos.
— Mas não é tudo na vida que temos que explicar... Não tenho o costume de reprimir meus desejos. Algo explode dentro de mim.
— O desejo explode em você?
— É. Não sei aonde isso vai me levar... já fiz algumas loucuras na vida. Só sei que sinto uma vontade enorme de te beijar, te tocar, desde o momento em que te vi sentada no lugar que eu queria que fosse meu.
— Pensei que aquele olhar era um plano para me conquistar e me tirar daquele lugar que você queria que fosse seu.
Ela se aproximou e me beijou com doçura. Havia tanta coisa que não conhecia dela... Não conhecia esse beijo, por exemplo, só o apressado no banheiro do avião. Aquele me dava a impressão do sexo casual, este me remetia à paixão. Seus lábios deslizavam devagar sobre os meus e os sugavam com calma, de olhos fechados com os pés um pouco levantados. Tirei meus saltos e ainda com as bocas coladas puxei-a em direção ao banheiro para o banho necessário.
Havia uma jacuzzi no meio do imenso banheiro que parecia uma sala de estar. Queria muito ficar horas com ela naquela banheira, deslizando minhas mãos pelo seu corpo embaixo da água, mas a urgência me impedia de pensar em preparar os sais para um banho demorado. Queria simplesmente sentir-me limpar para tê-la para mim.
Abri o chuveiro e mergulhamos na correnteza da água quente. Ela sorriu, passou as mãos pelo cabelo molhado. Linda, linda... Seu cabelo escorrido pelos ombros, as gotas d’água no seu rosto risonho de olhos negros brilhantes, espertos. Sentia-me cada vez mais íntima dela, como se já tivéssemos tomado banho juntas diversas vezes.
Ela me abraçou por trás e começou a passar o sabonete em minhas costas, fez massagem nos meus ombros, fez carinho na minha nuca, desceu até meus quadris, puxando-me com força contra seu ventre... foi até minhas coxas. Abraçou-me com as mãos ensaboadas e massageou minha barriga, meus seios, meu pescoço... desceu novamente até minha virilha... não aguentava mais. Virei-me e a beijei com tesão, envolvi-a nos meus braços, passeei minhas mãos pelo seu corpo moreno, de quadril largo e seios pequenos... tudo proporcional a ela. Toquei seu sexo com delicadeza, ela gemeu mordendo meu ombro. Continuei a massageá-lo e, aos poucos, fui entrando devagar, com cuidado para não quebrar aquele clima sensual e delicado. Ela sussurrou em meu ouvido: “Me leva para cama” e foi o que fiz, levei-a e a deitei, e deitei por cima, e continuei a sentir aquele gosto de sua boca, um gosto bom, um gosto que eu só poderia sentir da boca dela.
Clara me segurava com tanta força que senti suas unhas entrando na pele de minhas costas, e ela dizia: “Me pega pra você...” E quando me preparava para devorá-la ela se virou de repente sobre mim e sentou-se sobre minhas pernas.
Observava meu corpo abaixo do dela, acariciava meus seios com as duas mãos, massageava-os, beijava-os. Seu cabelo escorrido estava diante de seu rosto, por isso não o via, não podia decifrar o que ia em seus pensamentos enquanto decorava meu corpo com as mãos pequenas de unhas bem feitas. Beijou-me mais uma vez a boca... morou nela até que encontrou meu ponto mais íntimo e fez carinho, me perdi de mim, minhas sensações naquele momento eram novas, fortes demais, inexplicáveis, não sabia mais o limite do prazer e do algo além do prazer... do algo indizível porque não há palavras para dizê-lo.
O que Clarice fez por mim naquele quarto, naquela cama, naquele dia, jamais vou esquecer... e as sensações ainda passam como vulto por mim. Eu me arrepio, e me arrepia o medo de nunca mais sentir isso novamente.
O orgasmo veio com uma força que eu não esperava. Gritei, pedi que parasse e, na verdade, não queria que parasse, mas não aguentava mais a força do gozo.
Dormimos por muito tempo, mas não sei dizer quanto porque perdemos a noção das horas, só sei que o sol começava a se pôr. Estávamos abraçadas. Abri os olhos com Clarice presa em meus braços, meus seios grudados em suas costas, meu ventre encaixado em seu quadril... um braço por baixo de seu pescoço e o outro envolta de sua cintura. Bom, acho que ela não teria como fugir sem que eu acordasse.
Beijei seu ombro com cuidado para não acordá-la, mas ela se espreguiçou como uma gata manhosa e encolheu-se quando cheirei sua nuca.
— Não acredito que dormi... – ela se lamentou virando-se para mim.
— Você não queria dormir?
— Queria velar seu sono como você vela o meu...
Acariciou meu rosto e o beijou.
— Queria que todos os dias fossem assim. – deixei escapar sem querer, foi mais forte que eu. Sei o quanto uma declaração dessa pode ser polêmica na primeira vez...
— Eu também.
Essa declaração foi mais polêmica ainda.
— Não quero ser indiscreta, mas como já nos vimos sem roupa, acho que posso perguntar uma coisa: você namora? – perguntei abraçada a ela, muito próxima, em condições perfeitas de ser um detector de mentiras.
— Não. – disse sustentando com firmeza seu olhar com toda a malícia do mundo. Meu “detector” não rastreava mentira alguma vindo dela, apesar do olhar malicioso. — Estou disponível, ofereço serviço pós-voo, delivery e afins... – ela sorriu encaixando-se mais em mim.
— Queria que você soubesse que esse tipo de situação não é comum em minha vida.
— Não precisa me dar explicações.
— Você pode estar pensando um monte de coisas... Uma mulher tão metida à séria e com namorado... Tudo isso não é um fetiche.
— Não estou pensando nada, Fê! Relaxa. Você pensa que faço o que fizemos toda vez que venho a Madri? – provocou sorrindo e me beijou em seguida. — Vamos aproveitar a noite! Você me trouxe para esse hotel, tivemos momentos maravilhosos. Agora vou te levar para passear em Madri. Quero que tudo seja perfeito.
Saltou da cama sorrindo me puxando pela mão.
Ainda teríamos muito pela frente. Era o que eu sentia.

continua...

2 comentários:

franciele disse...

to lendo e adorando

Rachel disse...

O conto se mostra maravilhoso, apaixonante!!! Continue assim...