sábado, 18 de julho de 2009

Exame de madureza

Um dia a gente cresce.
E a ficha cai. Seja diante do espelho observando um rosto que não parece o seu, seja reparando que as brincadeiras que antes lhe faziam rolar de rir, agora, nem lhe causam cócegas, seja no momento crucial em que você está numa roda animada de adolescentes debatendo entusiasticamente sobre música e, quando questionada sobre suas bandas preferidas, cita três que ninguém daquela turma conhece... É, amiga... o tempo passa.
Provavelmente já passamos ou passaremos por isso, exceto aquele ser que estaciona no ponto 18 de sua linha do tempo e passa uma vida inteira sem admitir que não é mais um aborrecente.
O meu divisor de águas foi uma casa noturna que frequentei durante anos, sempre com a sensação maravilhosa de que era a primeira vez que ia. Era minha balada, meu lugar. Foi lá que me alfabetizei musicalmente, foi lá o berço da minha “educação cultural”: sons, imagens, estilos, papos, bebidas, amigos, danças, confusões, beijos, dúvidas, paixões, decepções, risadas, descobertas, idealismos, flertes, traições... uma infinidade de conteúdos humanísticos indispensáveis para a formação de pessoas legais como nós.
Sentia-me adulta, capaz de decidir minha vida naquele lugar em que eu estava só e com todo mundo. Todos no mesmo barco, “guerreiros da noite”. Incrível estar longe de pai e mãe ou responsável maior de 30 anos. Sentia-me glamorosa com o copo de vodka na mão enquanto viajava ao som de... deixa pra lá. Quando me faltava companhia, arriscava-me por ruas escuras a fim de chegar lá custe o que custasse. Muitas coisas poderiam acontecer na minha ausência, minha presença era imprescindível.
Segunda-feira era o dia ideal para combinar a sexta depois da novela das oito (quem passa na casa de quem?). A terça, quarta e quinta eram dias para aprimoramento do esquema: roupas, telefonemas, armações, quem encontrar, quem evitar...
18, 19, 20, 21 anos na mesma rotina excitante e angustiante... aquele sofrimento para ele/ela ir, para ele/ela me olhar, conversar comigo, me escutar, dançar, ser enlouquecidamente feliz ou triste. Tudo ou nada num mísero fim de semana.
Mas um dia acaba. Não sei se tudo, mas as casas noturnas fecham para darem lugar a outras... ou a postos de gasolina, motéis, igrejas...
Acabou. E aquela turma indissolúvel se dissolveu, e vazou para tantos ralos... Cada ser devidamente “educado” naquele antro do “saber paralelo” tomou seu rumo. Bom ou ruim cada um sabe de si.
Três anos após o fechamento da casa, uma insurreta decidiu convocar os mesmos “guerreiros”, que naquele momento tinham 21, 22, 23, 24... para uma “nova” inauguração (“que bom será reviver aquele tempinho...”).
Fui.
Vesti meu jeans, meu all star, minha blusinha estilosinha e minha bolsa transversal. Torci para reencontrar o mesmo clima, a turma em boa forma para outros fins de semana de “guerra”. Reencontrei-os numa roda em que se destacavam os vestidos de noite, os saltos-altos, as maquiagens pesadas. As roupas mudaram, mas as piadas continuavam as mesmas. “Amadureceram as roupas, mas as ideias...”
Não achei graça.
Eu, ali, vestida como a jovem de 18, 19, 20, 21 anos, ouvindo conversas que já não me atraíam. “Amadureceram as ideias, mas as roupas...”
Caiu a ficha: eu não fazia mais parte daquele universo.
Desculpei-me, virei as costas e saí em direção ao ponto de ônibus mais próximo. Corri para alcançar o último da noite. Cheguei em casa, abri a porta, passei pela sala na ponta dos pés, assim como fazia nos fins de madrugada quando voltava da balada. Tirei minha roupa e mergulhei nos cobertores que já estavam sobre a cama.
Estava feliz, feliz por estar ali, feliz por ter feito o que me deu vontade. Feliz por ter aceitado, numa boa, que uma fase de minha vida havia terminado e outra começado sem que eu nem tivesse reparado.
Dormi bem. Acordei disposta. Vesti meu jeans, meu all star, minha camiseta e fui trabalhar.

Mari Cortez
17-06-2009

3 comentários:

LRbueno disse...

Esse textos de certa forma me fez lembrar de o poema "LUA ADVERSA" (Cecilia Meireles).
"Tenho fases, como a lua/ fases de andar escondida/ fases de vir a rua."
Acho q esse poema descreve perfitamente as muitas fases que vivenciamos ao longo de nossas vidas...

LRbueno disse...

Corrigindo os erros, meu teclado é burro e tem vida própria...rsrs
(texto*, o*)

Mariana Cortez disse...

Pois é... algumas fases de nossa vida dariam uma letra de música, um poema... uma história. Mesmo assim não conseguimos dizer tudo o que vai dentro da gente...
Beijos LRbueno... apareça...