sábado, 18 de julho de 2009

Nostalgias

Era segunda metade da década de 1990.
Luísa tinha uns dezoito, dezenove anos, iniciava sua carreira em... ainda não sabia.
Havia terminado o ensino médio e, chocada com a realidade, batalhava incansavelmente pelo emprego que um dia, talvez, lhe desse a chance de cursar faculdade (qualquer uma).
Acordava cedo para trabalhar. Entrava sempre no mesmo ônibus sonolenta, sentava-se próxima à janela, do lado direito, terceiro banco depois da catraca. Vinha vazio, mas transbordava na metade do caminho para o centro da cidade.
Depois que se sentava, passados dois pontos, ela subia...
Luísa não sabia muito bem o que a atraía... nem era tão bonita... Tinha traços finos, nariz um tanto arrebitado, moldurado por bochechas que denunciavam sua luta contra a acne. Ostentava um belo cabelo ondulado e, provavelmente, colorido artificialmente. Era esguia... talvez seu corpo tivesse chamado a atenção de Luísa, talvez o modo como ela agitava as ondas de seu cabelo...
A menina impressionou tanto que a outra passou a esperar ansiosamente pelo ônibus às sete horas de toda manhã. Já não acordava desanimada pela luta diária, ocupava-se mais com sua aparência. Não que fosse feia, mas também não era linda... era comum e isso, muitas vezes, dificultava o desafio de ser notada. E havia outro agravante: Luísa era tímida.
Observava discretamente a menina... estudou e decorou suas expressões, suas roupas, seus gestos. Um dia ela encontrou uma amiga e sentaram-se atrás do banco em que Luísa estava. Luísa apurou os ouvidos e descobriu que a menina tinha nome: Cris. Poderia ser Cristina, Cristiane, Crisantina, não importava... agora o encantamento de Luísa tinha nome.

Um momento realmente especial aconteceu quando, num dia atípico, o ônibus abarrotou e Cris teve de ficar de pé ao lado de Luísa, que estava sentada. A coxa dentro do jeans de Cris roçava, vez ou outra, o ombro dentro da jaqueta de Luísa. Foi o desencadeamento da paixão. Olhou ruborizada para cima e perguntou num fio de voz se Cris não gostaria que ela segurasse sua bolsa, afinal o ônibus estava tão cheio...
Trocaram quatro palavras: obrigada, imagina!, obrigada, de nada!
A voz. Luísa saboreou a voz durante dias.
Porém, o ápice da paixão se deu quando Cris sentou-se ao seu lado.
Luísa sentiu calor, fingiu naturalidade, mexeu em alguns papéis dentro da bolsa, pensou numa possível introdução de conversa... mas pensou tanto que chegou seu ponto no outro lado da cidade. Pediu licença: obrigada, de nada!
Remoeu, desmontou, virou do avesso o acontecimento: talvez ela tenha percebido; talvez ela tenha notado que ela era diferente dos outros naquele ônibus; talvez ela tenha achado Luísa atraente, ou simpática; talvez.
Depois de reconstruir o acontecimento, Luísa decidiu que, se Cris se sentasse no mesmo lugar novamente, introduziria um assunto ou faria um comentário inteligente a respeito do tempo ou do trânsito.
Na manhã seguinte arrumou-se melhor ainda, irritou-se com o cabelo que não ficava do jeito que ela queria. Ensaiou o que diria e a expressão fisionômica que faria... Mas Cris não subiu no ônibus naquela manhã, nem na seguinte, nem na outra...
Luísa procurou por Cris durante muito tempo, em todos os pontos, na ida para seu trabalho e na volta dele.
Nunca mais reviu Cris.

Mudou de emprego, fez faculdade, mudou de emprego, fez pós, mudou de emprego, comprou um carro, mudou-se de cidade, casou-se.

Semana passada estava a passeio na casa de seus pais e foi ao shopping com sua esposa. Entrou numa loja de calçados a fim de comprar um tênis para seu pai. Olhava os modelos do mostruário, pegava-os, rodava-os nas mãos até que alguém veio lhe atender: posso ajudar?
Luísa virou-se e esbarrou na presença e nas palavras de Cris. Não sentiu mais do que uma nostalgia gostosa. Ouviu com carinho a explicação de Cris sobre o melhor modelo de tênis para caminhadas. Luísa levou o que considerou melhor. Foi ao caixa acompanhada por Cris, pagou, olhou-a com um sorriso satisfeito: obrigada, de nada, volte sempre!

Mari Cortez
03-06-2009

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