sábado, 18 de julho de 2009

Linda Rosa

Carol estava de canto, observando encantada a aposta de provável revelação da nova MPB. Talentosíssima a pequena de calça xadrez, tênis e camiseta com uns rabiscos estranhos. Era meio desengonçada, não parecia muito à vontade em cima do palco sem estar cantando... Voz forte, intensa, cheia de paixão ou dor ou ódio, dependendo da ocasião e letra.
Bonita, sorridente a tal cantora... Poderia ser marketing – simpática nos seis primeiros meses e antipática no restante da carreira –, mas parecia timidez, o sorriso talvez fosse a defesa que dá charme aos artistas que repudiam o assédio excessivo. Mesmo se defendendo era sedutora... seu olhar, seu tipo não-tô-nem-aí, sua voz calma e pausada, sua canção, sua emoção. Carol observava fora da órbita terrestre enquanto a amiga, bem mais atirada, trocava palavras atropeladas com a tal revelação assim que o show, para uma dúzia de pessoas, terminou.
— Carol, vem aqui conhecê-la... – chamou a amiga com um gesto apressado de mão, como se a tal de camiseta rabiscada fosse um bicho exótico. Carol sentiu-se cair na real e estremeceu ao perceber o momento de aproximar-se dela.
Saiu do seu canto trôpega dirigindo-se lentamente a ela, que a encarou com olhos grandes e meio-sorriso envaidecido, daqueles que não querem mostrar o quanto.
— Ela é super sua fã, já sabe todas as músicas. – entregou Carol de bandeja, ardida por dentro e desnudada diante daquela pessoa que se vestia de artista e se transformava numa deusa, num ser ideal, mesmo que em trajes humanos... Carol não entendia o porquê do encanto, talvez fosse por causa de sua voz de veludo, talvez por ser tímida e, mesmo assim, expor-se, contando com a possibilidade de transformar aquele público de uma dúzia de pessoas de hoje em centenas, milhares delas amanhã.
— Obrigada. É maravilhoso saber que alguém sabe minhas músicas... pensei que só eu soubesse cantá-las... – sorriu apertando forte a mão da abobada fã e roçando levemente seu rosto no de Carol, na representação de um breve beijo. Carol arrepiou-se e todos seus pensamentos minimamente dizíveis evaporaram com o nervosismo e com a busca por algo inteligente para dizer. Qualquer coisa que dissesse naquele exato momento soaria como a vontade de tê-la só para si, para que cantasse exclusivamente em seu ouvido... Respirou fundo e tentou conter a força do deslumbramento. Tomou coragem para olhá-la cuidadosamente e percebeu que traços mínimos e particulares de seu rosto jamais seriam vistos pela tela de uma TV ou à distância de um palco. Queria aproveitar aquela chance de desvendá-los ao máximo.
— Minha preferida é Linda Rosa. – disse finalmente sorrindo como pode, após ouvir com horror o som de sua voz trêmula.
— É uma das minhas preferidas...
Quando sentiu-se apta a continuar, uma louca surgiu com o celular suspenso por uma das mãos, solicitando a atenção total da estrela para uma declaração no jornal que sairia amanhã: “Eles querem saber qual sua cor preferida e por quê”. Arrastou a cantora para fora dali... e Carol quase despencou-se. Quando a adrenalina chega ao topo da emoção e despenca, é preciso segurar-se forte, pois o chão foge dos pés (quem precisa de montanha russa?).

Carol saboreou aquele momento de diversos ângulos. Aguçava o olhar da memória para se lembrar detalhadamente do rosto, das covinhas que se formavam quando pretendia sorrir, do olhar que talvez (só talvez) dizia coisas que sua timidez não permitia que dissesse por meio de palavras sem música.
Buscava a cantora pelos sites, blogs, google, rastreava seus passos e tornava-se íntima sem que ela soubesse. “Todos os fãs tornam-se ‘íntimos’ de seus ídolos, e eles nem imaginam...”. Onde foi que a ouviu pela primeira vez mesmo? Alguém indicou, disse que era a voz de uma sereia... Carol foi atrás, pesquisou, baixou músicas, comprou o CD, decorou o encarte, cantarolou todas as faixas grudadas em sua mente, aquelas letras diziam tantas coisas... “como alguém pode cantar tão bem o que sinto?!”.
Depois de criar o ideal, entristecia e achava-se uma adolescente tola, apaixonada por uma pop star teen, capaz de colar pôsteres na parede do quarto em frente à cama e elaborar fantasias antes de dormir... “Ela nem se lembra de mim...”.
Acompanhando a agenda alternativa da cantora, descobriu que, no mês de suas férias universitárias, ela cantaria na Off Flip (Festa Literária Internacional de Parati, para os menos “visados” pela grande mídia). Enfiou apressadamente coisas na mochila, pegou o ônibus do Rio à cidade histórica. Simplesmente foi, sem pensar nos pormenores que uma viagem exige: esqueceu os óculos, o pijama, a escova de dente, o colírio, o fone de ouvido, uma troca a mais de roupa... Não importava, estava feliz com a oportunidade de vê-la novamente, de saber que aquelas covinhas no rosto que ela tem não seriam vistas pela maioria das pessoas que estivesse lá, mas Carol sabia que elas existiam quando ela ameaçava sorrir. Se sua amiga atirada soubesse o tamanho de seu deslumbramento... mas há sentimentos que precisam estar guardados bem dentro, divulgá-los é transformá-los em algo comum e, assim, frágil, e o que Carol sentia era forte demais... o tesão, a fantasia... queria curtir com ela mesma, ou dividir tudo isso com a culpada, se ela quisesse, se ela a notasse naquele bar apertado com poucos fãs e muitos boêmios que queriam apenas comer e beber ouvindo um som ao vivo.

A provável empresária estava lá com o celular suspenso: “Fala aqui com a revista...”, algumas garotas tão atiradas quanto sua amiga, que ficou no Rio, furavam o cerco e derramavam sorrisinhos mal intencionados para a bela cantora, que sorria defendendo-se de tanto assédio e agradecia. “Ela diz pra todas o que disse pra mim”, pensava a enciumada Carol tomando sua cerveja sozinha, sentada numa das mesas.
A artista cantou seu canto encantador e Carol esqueceu o ciúme para cantar junto baixinho. Todos os presentes, aos poucos, suspenderam o burburinho e deixaram-se enfeitiçar pela voz, letra e melodia: “agora tanta gente sabe quem você é...”. Todos boquiabertos e calmos, como se estivessem hipnotizados pela leveza do som e pela beleza da pessoa sentada sobre o banquinho que emitia aquele som.
Cantou a última antes do bis.
Sorriu vitoriosa. Já não era o sorriso tão tímido e, percebendo isso, Carol sentiu que precisava agir antes que a cantora descambasse para o mundo dos inacessíveis. A adrenalina subiu e: “Canta Linda Rosaaaa!!!”. Sua voz ecoou e a cantora encontrou seu olhar. Começou a dedilhar o violão enquanto as pessoas do bar a aplaudiam, menos Carol, que oferecia seus olhos cheios de lágrimas.
Era a música de sua vida.
Cantou junto como se fosse sua declaração de amor. Estava feliz por ter feito um pedido... e ter sido atendida.

Fim de show.
Pessoas se amontoando ao redor da cantora que, há uma hora, era apenas a provável animadora de um bar da Off Flip. Revelação. A cantora era mesmo um sucesso.
Carol levantou-se, desviou-se de toda aquela gente e dirigiu-se ao caixa para pagar sua bebida. Não tinha mais o que fazer ali. SUA cantora estava rodeada por pessoas que mal a conheciam: “Eu a conheço... desde o começo”.
Estava na porta de saída quando um dos garçons, correndo, aproximou-se dela.
— Pediu pra te entregar e pra você esperar um pouco ali perto do bar.
Era uma rosa vermelha.
Voltou-se para a multidão e, naquele momento, foi Carol quem encontrou o olhar dela.
Pegou a flor, cherou-a com olhos fechados e seguiu o garçom de volta ao bar. Ficou esperando aquela roda de fãs se dissipar com um meio-sorriso nos lábios...


Mariana Cortez
15- 07-2009

2 comentários:

ju audi disse...

"e pobres desses rapazes
que tentam lhe fazer feliz..."

hehe

Sempre acompanhando o que escreve, mas Linda rosa... Maria Gadú...
fã é um problema neh rsrs

beijo

Outrasletras disse...

Pois é... um fã reconhece o rastro do ídolo a quilômetros de distância, rs.
Beijos.