sábado, 18 de julho de 2009

No mundo cabem todos nós

Estava conversando esses dias com uma amiga sobre o “boom” homossexual.
Ela, desde sempre muito engraçada e espirituosa, contou-me que, após um jejum amoroso de anos, chamou sua filha adolescente para comunicar-lhe algo muito importante:
— Senta aqui que preciso te contar uma coisa. É importante.
A menina tirou os fones de ouvido, enrolou a goma de mascar mastigada num pedaço de papel de rascunho e foi sentar-se junto à mãe.
— Filha, estou namorando.
Introduziu o assunto esperando alguma reação imediata que não veio, portanto, sentiu-se encorajada em continuar.
— É um homem. Filha, eu sei que nos dias de hoje é estranho, é difícil, mas estou tendo um relacionamento heterossexual.

A cena ilustra um fenômeno moderno: a extinção dos heteros.
Opa! Brincadeira. Óbvio que não.
O que minha amiga quis dizer, de uma maneira muito bem-humorada, é que parece estranho ser “convencional” nos dias de hoje, em que uma parte da população finalmente decidiu mostrar que o “convencional” não atende às necessidades de todos, que somos todos tão iguais e tão diferentes.
Sem entrar profundamente na questão do preconceito (não quero fazer dessas linhas um discurso panfletário), acho que entendi o que ela quis dizer.
De repente, para ela (que viu na TV clipes em que mulheres se beijam, que ouviu dizer que o amigo do amigo apresentou seu namorado numa festa, que passou pela Paulista e viu, de relance, uma das maiores paradas gay do mundo), ser gay é simplesmente uma questão de moda, é febre que a maioria adere como se adere a uma roupa ou a um estilo de música. Depois que passa, volta-se ao “normal”.
Na minha modesta opinião, acho que os heteros têm medo de dividir espaço com pessoas que começam a expor seus gostos, modos e costumes para o mundo, acho que eles pensam que ser gay contagia, que se clipes, outdoors, novelas e paradas continuarem mostrando o quanto os gays são legais, assim como os héteros são, vão todos aderir ao “movimento”.
Não tenham medo. O que passamos no momento não é febre, nem pega. Passamos por uma transição, a transição da visão “convencional” para a visão ampla, diversa. Estamos a caminho da igualdade (mesmo sabendo que para a igualdade ainda há um longo caminho), lugar em que as pessoas amam sem precisar rotular seu amor e sem se preocupar com rótulos que possam colocar nele.
Não se assustem, heteros, no mundo cabem todos nós.

Mari Cortez
11-05-2009
[1] O que é ser convencional? Depende... assunto longo para outra discussão...

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