Depois do sexto minuto...
Eu era da turma há anos, mas, como ela era grande, tinha afinidades com uns e menos com outros. Saía sempre com a Fabi, a Luana, o Julio e a Mariana.
A Mariana..., ..., ...
Pois é... a Mariana... Eu era apaixonada por ela. Uma paixão platônica, totalmente. Éramos amigas. Não as melhores porque não sou tão cruel comigo mesma, mas o suficiente para estar por perto.
Ela namorava a Fabi, muito gente boa... A Fabi eu conheço desde adolescente, estudamos no mesmo colégio e eu a adoro. Supergentil, engraçada... é atriz de teatro. Tem todo o jeito pra isso. Tem um jeito de olhar, um sorriso de personagem de novela, mas é simplesmente Fabi e seu carisma.
Seu jeito combinava com o da Mari, que é superatenciosa, superbem-humorada, superamiga de todos... superlinda. Eu a conheci numa balada, a Fabi a apresentou: “Essa é a Mari de quem tanto falei.” Estavam as duas lindas de mãos dadas, tão felizes que os olhos faiscavam amor. Os meus também faiscaram, mas foi depois do sexto minuto de conversa. Que amor era ela! Que bem articulada, que sorriso constante, que olhos que encaravam com desprendimento, que gestos largos que complementavam sua fala que vinha de maneira tão intensa, e viva. Linda!
Ela se deu bem com todo mundo e todos se “apaixonaram” por Mariana, mas acho (e apenas acho) que ninguém se apaixonou como eu, com a vontade de querê-la por perto constantemente, pra tocá-la, tê-la pra mim... Mas ela era namorada da minha amiga: “Namorada de amiga minha é homem...”
Péssimo, eu sei, mas tinha de ser assim.
Então, colocava-me no meu lugar de observadora minuciosa, que se precavia pra não carregar a paixão tão explícita nos olhos; não estragaria a amizade que tínhamos, curtiria o tempo que fosse necessário aquele sentimento terno até que eu pudesse transferi-lo para um amor concreto.
Às vezes ela me chamava: “Sofia!”
Adorava. Não dava na pinta, óbvio, fingia que qualquer uma me chamava, mas meu coração sorria toda vez que sua voz se dirigia a minha adrenalizada pessoa.
Uma conversa que nunca esqueci:
— Sofia, você sabe o que significa seu nome?
— Dizem que significa sabedoria.
— É, já ouvi dizer, mas prefiro o outro significado...
— Qual?
— Que Sofia é o lado feminino de Deus.
Não me lembro se comentei alguma coisa... só me lembro de uma leve vertigem em decorrência da fala que instigou as borboletas que borboleteavam em meu estômago. Naquele momento, meus olhos vazaram paixão (contida na lágrima que escapou, mas ela não viu) e eu saí de mim. Só consigo me lembrar dela dizendo isso com imensa calma quando estávamos sentadas na areia com o pessoal, à noite, ao redor de uma fogueira. A maioria cantava e bebia, e nós conversávamos, e eu viajava... e me apaixonava... Ela não tinha a mínima noção do quanto era especial pra mim.
Anos depois daquela conversa, a galera alvoroçou no MSN, orkut, nos e-mails. A fofoca era: “Fabi e Mariana não estão mais juntas.” Li várias “discussões” a respeito, mas não me meti e não soube o que senti ao saber daquilo. Elas eram tão boas juntas, nunca as vi brigar, nunca presenciei um mísero mal-estar entre elas... Foi um choque saber que até um casal assim se separava um dia.
Depois de lê-las como manchete de fofoca barata, encontrei Fabi no teatro. Ainda estava se sentindo estranha, disse que ainda não sabia muito bem o que fazer com os momentos do seu dia que, antes, continham Mari. Explicou-me que o encantamento havia passado, que os olhos não brilhavam mais quando se olhavam, mas ainda existia muito carinho e amizade.
No dia seguinte encontrei a outra versão no supermercado: “A Fabi sempre vai fazer parte da minha vida, só que, agora, de outra maneira...” Mariana até reagiu bem quando soube que a ex estava saindo com a nova colega da companhia de teatro.
Soubemos que a cia. lançaria uma nova peça e fomos todos convidados para a festa na casa do tal diretor.
Em meio à música, a bebidas e muitas pessoas, encontrei Mari numa roda de amigos, peguei uma cerveja e sentei-me de frente pra ela. Ela sorriu levantando o copo pra me cumprimentar à distância.
As pessoas conversavam, riam e se iam, deixando-me a sós com Mari. A sós com tanta gente ao redor empunhando cotovelos, cheiros e vozes... mas me sentia sozinha com ela e, pela primeira vez, tomei a iniciativa da conversa:
— Sabe qual o significado de Mariana?
— Não... qual é?
— Quer dizer querida, amada...
— Ultimamente não estou me sentindo muito amada...
— Você sempre será muito amada...
— Pelos meus amigos?
— Não...
Quando diria “por mim”, aquele mesmo pessoal que nos deixou, voltou como o furacão que varreu minha coragem. Chegaram com copos de bebida pra nós duas e muitas gargalhadas vindas de um acontecimento que queriam nos contar.
Não aguentei ficar ali após quase me declarar pra mulher que amo há anos. Senti-me desorientada, sem graça, sem chão. Senti como se eles tivessem retirado de mim a única chance de dizer.
Disfarcei mal e saí da sala desesperada pelo ar da noite lá fora.
Segundos depois senti a mão de Mari sobre meu ombro.
— O que você ia dizer?
Olhei-a e, como naquele dia, quando tivemos aquela conversa, meus olhos vazaram paixão e... amor, amor por ela ter saído de dentro daquela casa e estar ali olhando pra mim luminosa.
— Ia dizer que sou apaixonada por você. Faz tempo... Sempre fui, desde o sexto minuto em que te conheci.
Ela me olhou e seu brilho também vazou, e me abraçou com força. Senti meu coração sorrir e eu sorria também porque ter aquele abraço era tudo o que eu queria ter naquele momento.
Mari Cortez
1-07-2009
sábado, 18 de julho de 2009
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3 comentários:
Gostei de sua literatura!
Boa discrição.
é... Paixões são sempre muito complicadas, imagino o quanto foi ‘embaraçada’ essa paixão acompanhada de uma amizade ou tendo que ser acompanhada de amizade!
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