sexta-feira, 10 de junho de 2011

Capítulo 9: A véspera do aniversário de Renata

— Acho que ela gosta de você...
— Ué, claro que gosta! Somos amigas... Você gosta de mim, não gosta?!
— Não, sua tonta... estou falando de um gostar diferente...
— Ah é?!!! Ela disse alguma coisa???
— Não, mas pude ver em seu olhar, no modo como se comportava quando eu falava de você .
— Lá vem você com o papo-furado de “energias se encontrando”...
— Não zombe da transcendência das coisas.
— Desculpa.
— É sério. Conheço Luciana... ela não demonstrará que está morrendo de paixão por você porque ela foi criada para ser contida, controlar emoções e essas coisas que pessoas chiques fazem. Mas ela sente algo especial por você sim!
— Camila, para! Assim você me enche de esperanças e será pior...
— Desde quando você tem medo?
— Desde que descobri que estou apaixonada por uma amiga...
— Poderia ser eu... seria mais fácil...
— Ah, com certeza! É uma pena mesmo não podermos escolher por quem nos apaixonar. – um momento de silêncio. — Mas você não está apaixonada por mim... está?
— Não.
— Ah bom...
— Só que tem uma coisa, Renata: se quiser conquistar a Lu, terá que sossegar esse fogo!!!
— Como assim?
— Parar. Parar de sair beijando todo mundo que você acha que tem um charme especial. Todo mundo tem um charme especial pra você! Incrível!!! Luciana não gosta disso. Se quiser ter alguma chance terá que conquistar a confiança dela.
— Sim senhora.
As duas estavam deitadas no tapete da sala de Renata. Rê pensava que bem poderia se apaixonar por Camila... seria tão mais fácil, não teria dificuldade nenhuma em dizer isso à amiga e Cá era tão linda... tão sensual nos seus vestidos, nas suas minissaias, blusinhas que deixavam a mostra o contorno de seus seios bem-feitos. Ela transmitia tanta paz, tranquilidade e segurança... seria perfeita. Mas eram tão amigas que mesmo se um dia viessem a fazer amor seria como se não tivesse acontecido. Elas já eram tão íntimas que o contato carnal parecia ínfimo. Camila era demais, o amor fraterno de sua vida.
Camila, do seu lado, pensava o mesmo: como seria uma noite de amor com sua melhor amiga?! Simplesmente não conseguia imaginar. Ela não era preconceituosa e até beijaria uma mulher se sentisse vontade, mas nunca sentiu... muito menos beijar sua amiga gostosíssima, de olhos provocantes cor-de-mel. Já pegou em suas coxas e em seus seios durante as brincadeiras que faziam e deixavam Luciana morrendo de vergonha, mas nunca sentiu tesão... nunca se sentiu atraída por nenhuma das duas. O que rola é uma amizade absurda, coisa de irmã mesmo, de querer o bem, de querer que Renata e Luciana fiquem juntas de uma vez por todas.
— Já pensou em abordar a Lu?! – virou-se para a amiga e ficaram cara a cara. — Mas de uma forma sutil. Ou então, simplesmente, contar o que sente... Luciana te adora, jamais a trataria mal...
— Quando o assunto é Luciana fico completamente insegura...
— Confia em mim. Ela não é mais aquela garota careta de anos atrás. – Camila sentou-se e encarou Renata séria: — Você poderia tentar algo na festa do seu aniversário.
— Como? – perguntava Renata numa súplica.
— Ah, minha querida! Faça sua lição de casa!!!
Renata passou as mãos pelo cabelo em sinal de desespero e sentou-se para encarar melhor a amiga:
— Eu faço lição de casa todos os dias, meu amor! Minha lição é todos os dias antes de dormir pensando nela!!! – as duas começaram a gargalhar e deitaram-se novamente no tapete sem fôlego!
Um dia antes do aniversário de Renata, as três foram numa balada muito ruim. Nem sempre acertamos os programas de fim de semana. Rê estava com o carro e deixou Camila em casa antes da uma da manhã, depois seguiu para o apartamento de Luciana. As duas conversavam sobre o desastre da noite: lugar cheio demais, cheio de pirralhos, lugar quente demais, caro demais, chato demais. Ambas prestavam muita atenção no que a outra dizia... bebiam suas palavras. Quando o silêncio se instaurava, disfarçavam ouvindo a música que tocava no rádio... todas baladinhas para casais.
Ao chegarem à casa de Lu, Renata parou o carro e a olhou sorrindo: “Que linda! Que vontade de beijá-la!”. Lu correspondeu ao seu sorriso: “Meu Deus! Esses olhos me enlouquecem!!!”.
— Quer subir? Está cedo ainda...
“Não acredito! Mas será que vou conseguir me controlar?!” – pensou Renata diante da proposta.
— Bom, tudo bem... acho que podemos bater-papo até mais tarde então... – “eu queria fazer muito mais...”.
Estacionou o carro e subiram conversando trivialidades. Entraram no apartamento e enquanto Luciana ia até a geladeira, Renata respirava fundo e tentava relaxar: “Como ela ainda não percebeu que estou completamente apaixonada por ela?”. Observava a amiga caminhar em direção à cozinha: blusinha branca frente única e saia preta acima dos joelhos, cabelo solto... linda... linda! Rê sentou-se e tentou desviar sua atenção. Poderiam falar de jazz, ela havia estudado muito sobre jazz ultimamente e até comprou alguns CDs. A paixão é capaz de tudo!
Lu foi até a geladeira e ficou alguns instantes apoiada na porta: “Será que fiz bem em convidá-la? Acho que estou pirando!!!”. Pegou a jarra com suco, derramou-o sobre os copos e, depois de respirar fundo, voltou fingindo naturalidade para a sala. Como Renata já era íntima na casa, havia ligado a TV e se acomodado no sofá. Lu ficou na dúvida se sentava ao seu lado ou na poltrona... Resolveu sentar-se junto de Renata.
— Está um calor aqui... – abanou-se Renata levantando-se repentinamente indo até o outro lado da sala abrir a janela. “Deus me dê forças para não perder a cabeça!”. Voltou para o mesmo lugar.
Na TV passava um filme desinteressante, então ficaram “zapeando” enquanto conversavam. Deixaram na MTV. Passava um clipe da Norah Jones.
— Sabia que comprei um CD dela? Ela canta jazz, não é? – perguntou Renata esparramando-se no sofá e encostando-se, sutilmente, em Lu... que também se esparramava... sutilmente.
— Sim, ela é ótima, mas prefiro os tradicionais... John Coltrane, Miles Davis, Billie Holiday...
— Você tem um gosto musical muito refinado... – comentou Renata tomando um pouco do suco.
— Não começa com essa historinha de que sou fresca... – rebateu Lu em tom de brincadeira.
— Nãããooo!!! Não foi uma crítica! É que me interessei em escutar jazz porque você vive dizendo que é muito legal... e realmente é maravilhoso, mas é preciso ter sensibilidade, sentir mesmo a música para que o estilo realmente nos toque.
— E você gostou?
— Amei.
— Então é sensível...
Lu, às vezes, surpreendia Renata. Às vezes insinuava, dizia coisas importantíssimas nas entrelinhas. Ao terminar a última frase olhou Rê nos olhos com firmeza, nem parecia a amiga mais tímida das três. Às vezes Luciana a intimidava e isso a deixava sem fala... e a excitava demais.
— Sim. Por incrível que possa parecer sou sensível sim...
— Posso te fazer uma pergunta? – “Não sei onde estou me metendo, mas... a impulsividade toma conta de mim e preciso aproveitar antes que passe”.
— Claro!
— O que te leva a ficar com tantas pessoas e não se envolver com nenhuma delas?
“Nossa?! Essa pergunta precisa ser respondida com muita cautela...”.
Renata ficou em silêncio por algum tempo enquanto assistia a um clipe qualquer, na verdade apenas olhava para a TV para não ter que encarar Luciana enquanto pensava. Pensava em uma resposta sensata e verdadeira... talvez mais verdadeira do que sensata... Estava com vontade de ser totalmente sincera com Luciana, a garota pela qual estava apaixonada e que assistia ao clipe ao seu lado – quase com a cabeça em seu ombro – e esperava por uma resposta.
— Fico com as pessoas que me atraem de alguma forma: um jeito de olhar, um bom papo, um charme... sei lá. Mas é sempre uma atração momentânea, eu me divirto, a pessoa se diverte e ficamos bem. – uma pausa... um gole... um silêncio... Luciana queria mais. — Tá! Eu me sinto vazia, às vezes, quando fico com uma pessoa e percebo que não a quero mais em pouco tempo... me sinto só, sinto falta de ter alguém sempre comigo. – um ar melancolicamente sincero ao final de sua sincera confissão: — Não tive a oportunidade de amar muitas vezes...
Lu tomou o restante da bebida como se tomasse o restante de sua coragem:
— Você amou Júlia?
“Bom, já que fui sincera até aqui...”
— Sim. Muito. Ela foi meu primeiro amor real e agradeço a ela por isso.
— E você ainda a ama?
— Não. – respondeu com firmeza olhando nos olhos da amiga. — Passou. Foi muito dolorido e cheguei a me revoltar contra o amor, que nos dá tanta felicidade, mas também nos machuca tanto... Fiquei mal, péssima mesmo... mas o tempo é ótimo, estanca a dor, transforma a ferida em cicatriz e aí fiquei bem novamente. – sorriu de maneira meiga ao concluir: — Agora sinto falta de um novo amor.
Luciana permaneceu em silêncio pensando no que Renata havia acabado de lhe confessar. Já haviam conversado bastante sobre vários assuntos, mas nunca sobre o amor e nunca sobre relacionamentos... assuntos tão íntimos. Acabava de conhecer mais um pouco da amiga que sempre lhe pareceu imune a sentimentos tão profundos. Agora descobria que Renata, mesmo em seus relacionamentos relâmpagos, havia sentido muito mais intensamente do que ela, que sempre acreditou no compromisso e na fidelidade.
As duas já estavam em silêncio por algum tempo, olhavam para a TV mas não a enxergavam, quando Renata perguntou:
— E você? Amou seu ex-Namorado?
Lu pensou, movimentou-se no sofá, trocou de posição para ganhar tempo... para encontrar palavras tão sinceras quanto as de Renata.
— Nunca o amei. Se amor é aquele sentimento maior, forte, que faz com que queiramos a pessoa sempre por perto, a fim de dividir tudo e ainda contém sexo, tesão e uma intensa paixão... não, não o amei. Eu gostava muito dele e, com o passar do tempo, me acostumei com a situação. – olhou fixamente para os olhos cor-de-mel de Renata antes de continuar. — Lembra quando você disse que eu vivia de aparências? Pois é... eu vivia. Meus pais o escolheram pra mim e os pais dele me escolheram pra ele. Seríamos o casal perfeito pra dar continuidade aos negócios da família... Como éramos muito novos, acabamos aceitando e ficamos assim durante muito tempo. Ele se sentia envaidecido por me ter como namorada porque os amigos dele me cobiçavam... eu também tinha orgulho de ter um cara bonito como ele ao meu lado. Mas não éramos felizes. Ainda bem que despertei. Dolorosamente, mas despertei. Descobri que ele ficava com várias amigas minhas e hoje eu até o agradeço por ter me feito cair na real. Foi a partir daquela situação que dei um basta na minha vidinha besta.
Renata sorriu com carinho. Sua vontade era pegar o rosto de Luciana entre as mãos e beijar-lhe os lábios, aqueles lábios rosados que lhe diziam coisas tão verdadeiras. Controlou-se, apenas tirou alguns fios do cabelo de Lu que estavam sobre seu rosto lindo.
— Eu sabia que você era muito diferente daquela garota que sempre levava para as festas o Namorado a tiracolo. – Lu sorriu timidamente e Renata se encantou. Era por aquele sorriso que ela esperava. — Você tem um sorriso maravilhoso, mas, naquela época, deixava pra mim apenas o sorriso cínico ou irônico.
As duas começaram a rir e se lembraram do tempo em que trocavam farpas constantes. Acomodaram-se melhor no sofá e esticaram as pernas sobre um pufe que estava no meio da sala. Rê acomodou a cabeça no ombro de Lu, que se arrepiou inteira e sentiu-se excitada... queria abraçar Renata e dizer que estava apaixonada, mas não sabia o que fazer. Em meio a seus pensamentos, ambas adormeceram... e a TV ficou ligada.

continua...

6 comentários:

Anônimo disse...

Perfeito Marianinha, perfeito!

Deusa disse...

PERFEITOOOOO

Mariana Cortez disse...

Hummm, que bom que gostaram... tem mais :D Bjs.

Anônimo disse...

Só sábado mesmo? humhum...

Vanessa disse...

Putz, mto bom reler essa história! É mto fofa! E já tô curiosa pra saber o que vc acrescentou. :)
Continua, continua...rs

Mariana Cortez disse...

Amanhã posto mais um cap., ok? O acréscimo na história não é mt, mas é quente, rsrs. Beijos!