Capítulo 4: A distância e o tempo
— Acho sua amiga pati uma insuportável! – esbravejava Renata na casa de Camila após o almoço. — Que metida! Quem ela pensa que é pra dizer que sou vulgar... minha vontade era enfiar a mão na cara dela naquele dia na festa...
Camila lia um livro de poemas deitada no carpete do seu quarto. Melhor não interromper a amiga em seu momento de fúria... era bom colocar para fora energias negativas para depois reenergizar.
— Está me ouvindo?
— Sim.
— Então diz alguma coisa!
A Menina Energia fechou o livro calmamente e olhou tranquilamente para Renata.
— Acho que as energias de vocês não vibraram.
— Ah! Para com essa conversa chata de energia... – Renata estava impaciente naquele dia. Deveria ser TPM. Camila resolveu mudar de assunto.
— E a morena? Te ligou? – percebeu que a fisionomia da amiga se transformou... iluminou-se toda.
— Ligou, menina! Marcamos de nos encontrar amanhã à noite. O nome dela é Júlia... linda a Júlia. Ela é divertida, sempre bem-humorada, gosta de bater-papo, beber... tem cada história! – Camila observou o modo como Renata se referia à nova “amiga” e, como cupido que era – mesmo sem ter consciência disso –, logo notou:
— Você está apaixonada!!! – Renata tomou um susto e levantou-se como quem queria fugir.
— Quê?! Tá louca, Camila?! Lógico que não... imagina...
— Sei...
Dias depois, no lado oposto
— Sua amiga pegadora adora me provocar! Consegue tornar o ambiente insuportável com aquele jeito de não-estou-nem-aí...
Camila estava na casa de Luciana imprimindo um trabalho que fizeram juntas. Virava as páginas calmamente a fim de deixar a amiga exorcizar sua indignação.
— Está me ouvindo?
— Sim.
— Então, o que acha?
— Acho que vocês têm uma implicância interessante...
— O que quer dizer isso?
— Ainda não sei...
Luciana ficou calada pensando nas palavras de Camila. A amiga, às vezes, dizia coisas pela metade... parecia que pensava alto. Isso a irritava, mas, antes que expusesse uma possível irritação, Camila perguntou:
— E o seu namorado?
— Vai bem.
Divagações de um Cupido
“Nossa! Que ânimo ao falar do tal Namorado... aquele com quem ela namora há cinco anos. O casal modelo que desfila sempre sorridente e amável. O que acontece com o casal modelo na intimidade?” – Camila pensava enquanto ia para casa. Andava pelas ruas sem pressa, observando o movimento, pensando... “E a Rê... nitidamente apaixonada por uma mulher que mal conhece... e tentando fugir de seus sentimentos, batendo o pé e dizendo na minha cara que não está apaixonada coisíssima nenhuma. Prefere continuar alimentando relacionamentos relâmpagos e vazios. Essas minhas amigas...” – Como já disse, Camila era conhecida como “cupido” porque já havia juntado vários amigos... também já foi dito que ela era muito querida por todos e se relacionava muito bem. O Destino a colocou como cupido, a intermediária do amor – lindo! – mas ela mesma não tinha consciência disso... ela possuía o dom de unir as pessoas mas não sabia, foi apenas enviada para essa missão. Mas, cupidos também precisam cuidar da vida, não é verdade? E ela já estava cuidando da sua.
A distância
E cuidou. Camila cuidou de sua vida. Terminou a faculdade e decidiu que queria fazer pós fora do Brasil. Decidiu que queria entender as relações internacionais – essas relações sempre tão estressantes... desejava levar um pouco de boas energias ao mundo –, arrumou as malas e preparou as coisas lá longe, na Inglaterra. Há algum tempo ela vinha pensando em se dedicar seriamente à profissão. As grandes baladas terminariam, afinal de contas, já não era mais uma adolescente. A cupido embarcou e deixou para trás suas amigas opostas: Luciana e Renata. Não havia mais um elo entre as duas... o elo/cupido partiu para a Inglaterra. Que cupido irresponsável!
O tempo
O Tempo. Responsável pelo caminho que traçamos, caminhamos pelo caminho e o Tempo nos coloca obstáculos e nos proporciona conquistas. O Tempo é mocinho e vilão. Há sempre uma luta entre o Tempo e os seres concretos, concretos assim como Nós.
O Tempo, impiedoso, agiu sobre nós durante seis anos e, claro que Luciana e Renata não escaparam das ações impiedosas Dele. O Tempo melhor amigo e pior inimigo.
Luciana
Lu mudou. Seis anos mudam a vida de qualquer um que pretenda algo, que não tenha medo de correr atrás, mesmo que não se saiba do quê. Mas, às vezes, acontecem fatos que nos obrigam a mudar... foi assim que Luciana mudou.
Logo depois que ela e Camila terminaram a faculdade e a amiga foi morar na Inglaterra, Luciana achou que seria hora de se casar, afinal, ela seguia a “ordem” cronológica dos acontecimentos decorrentes na vida de uma mulher tradicional. Era hora de se casar, já que agora tinha um diploma nas mãos e poderia ser jornalista da Caras. Conversou com o Namorado e decidiram, sem muito entusiasmo, que já era mesmo hora de dar um passo adiante.
Noivaram em grande estilo e marcaram a data do casamento para dali a três meses. Enquanto isso ela preparava o enxoval e ele... sumia. O Namorado tomava chá de sumiço e Luciana ficava cada vez mais intrigada, mas não poderia comentar com seus pais, pois diriam que era “coisa” da cabeça desocupada dela; não tinha mais Camila para confidenciar... mas, na verdade, nunca confidenciava... seus pais sempre a ensinaram a não dividir com outras pessoas problemas particulares.
Um dia um sopro de ousadia acometeu a intrigada noiva que ousou pegar seu carro e ir atrás do Namorado a fim de sanar suas desconfianças. Esperou na frente do escritório por algumas horas. Quando ele saiu ela o seguiu e uma sensação de aventura tomou conta da tão comedida Luciana... “isso é bom!” – ela pensava... engatinhando seus primeiros passos sozinha. Viu quando ele parou diante de um prédio luxuoso e viu também quando, depois de alguns minutos, uma bela mulher entrou em seu carro e partiram – se ela enxergava bem, aquela mulher era uma de suas amigas fúteis. Luciana, mais feliz pela aventura do que decepcionada com o Namorado, continuou sua perseguição até um motel do centro da cidade. Ela desligou o carro e ficou ali, encostada no banco... sem chão. Seu único objetivo de vida até o momento era o casamento... agora nem isso ela tinha.
Ela esperou o momento adequado para romper com o Namorado. Trancou-se com ele num lugar bem discreto e gritou... ela nunca havia perdido a compostura, mas desceu do salto e o chamou de “cachorro-filho-da-puta”! Ele a olhou desconcertado, jamais imaginaria que sua futura esposa era uma desequilibrada... Ela xingou a sua mãe!!! Se fez de vítima, disse que não havia feito nada de mais e que, na realidade, a amava e que as outras eram apenas diversão. Luciana jogou o cinzeiro na cabeça do Namorado, que, a partir daquele momento, era ex-Namorado. Ele foi embora lhe prometendo uma camisa de força e ela se jogou na cama aos prantos, indignada por ter sido traída há mais de três anos. Chorou, chorou... esvaiu-se em lágrimas e ficou quieta pensando em algo, qualquer coisa. O que fazer? Por onde recomeçar?
Foi recriminada pelos pais e eles também acharam que a menina dos olhos deles estava enlouquecendo. Não... não... Luciana estava crescendo, ainda engatinhava sozinha. Luciana começou a enxergar, ver que se encontrava presa numa redoma, que parecia uma boneca de porcelana, sempre bem vestida, sempre sorridente para os outros poderem apreciá-la, como se estivesse exposta numa vitrine. Sentiu-se usada, manipulada... um nada, apenas um objeto apreciativo. Ela tentava mostrar isso para seus pais e para seus amigos mais próximos, mas eles não enxergavam nada que estivesse diante do nariz... olhavam apenas para seu próprio eixo. Se Camila estivesse por perto a entenderia. Lembrou-se de uma frase da amiga: “Lu, na boa... você é grudada demais no seu namorado. Sua vida não tem que girar em torno dele.” Camila, sua guru! Mas ela não estava lá... ligou para ela e conversaram... Camila ficou felicíssima pelas atitudes de Luciana, a incentivou, a apoiou... mas estava tão longe. Correspondiam-se por meio de e-mails enooormes, mas nem sempre Camila tinha tempo, aliás, ela quase nunca tinha tempo. Lu ficou triste, cercada por pessoas fúteis, vazias... e ela queria tanto aprender fora daquele mundo que foi seu por 26 anos. Entrou em depressão.
Fechou-se, dormia 15h por dia... quase não comia. Passava horas no quarto, lia, escrevia... pensava. Foi obrigada a ir ao médico, tomar remédios. Camila ligou meses depois porque percebeu que as mensagens de e-mail cessaram e descobriu o estado da amiga. Brigou com ela, esperneou no aparelho, exigiu que a amiga reagisse, que tinha que andar com as próprias pernas e parar de se sentir coitada! “Luciana, para de frescura!!! Você não pode desistir justo agora que sua vida tá dando uma guinada!!! Venha para cá... vamos morar juntas, vamos passar fome juntas aqui!!!” e Luciana voltou a rir... Camila era sensacional! Decidiu que não iria para a Inglaterra... teria que passar por tudo aquilo sozinha. Decidiu procurar um emprego. Não foi até a Caras, foi até um jornal de bairro e ofereceu seus serviços, não exigiu remuneração, apenas a oportunidade de aprender a profissão na prática. E aprendeu.
Quase um ano depois estava trabalhando num jornal de porte médio como jornalista do caderno de cultura e, como passou a ganhar seu próprio dinheiro, resolveu ter seu próprio apartamento. Mais uma crise em casa, pais horrorizados. Luciana acabava de assinar o atestado de ovelha negra da família. Brigou – estava ficando boa nisso –, deixou claro que não assumiria as empresas do pai, que não gostava da vida que levava e decidiu mudar. Alugou um pequeno apartamento próximo ao trabalho e assim Luciana já caminhava sozinha.
Fez pós e, aos 29 anos, já possuía uma ótima colocação no jornal. Fez novos amigos, frequentava festas, gargalhava e falava alto... E como gostava de tudo isso! Como era boa a vida fora da redoma! Quanto tempo havia perdido. Não sentia falta de um namorado... teve um por mais de cinco anos e, definitivamente, não sentia falta... nunca se sentiu estimulada em assumir um outro compromisso porque ficou marcado nela um namoro frio, sem atrativos, acomodado... a vida tinha tanto a lhe oferecer... Não pensava em relacionamentos sérios, mas tinha seus casinhos rápidos e isso a deixava em êxtase. Imagina se Luciana pensaria em “casinhos” há cinco anos! Nem pensar!
Luciana mudou muito. O Tempo pode mesmo ser seu melhor amigo.
Renata
Renata, a senhora não-se-apaixone-por-mim, estava de quatro por Júlia. Como ela mesma disse um dia: “Tudo tem sua primeira vez, não é?” – pois é... Renata provou da paixão, aquele preparado químico que cega as pessoas e faz com que se tornem volúveis, meio que desligadas do planeta Terra.
Após aquele encontro quente entre Renata e sua iniciadora no mundo das entendidas, encontraram-se mais algumas vezes até que a iniciada percebeu-se incontrolavelmente seduzida e disposta a tudo para ficar com Júlia. Júlia estava... digamos... empolgada com Renata, afinal sua aluna era extremamente aplicada e uma delícia; certamente, Júlia também havia aprendido muito durante aquele estágio. As duas resolveram namorar e no começo tudo foi lindo: um ano de altas emoções sexuais em lugares diversos, um ano de divertidas bebedeiras e festas longe de casa, um ano de cinema, teatro, confidências... um ano de cama e fidelidade. Bom, fidelidade, por incrível que pareça, por parte de Renata... porque Júlia não era tããããooo fiel assim. Renata decidiu fazer faculdade... queria estar no mesmo nível que a namorada, que terminava o curso de Hotelaria. Rê entrou no curso de Turismo porque sonharam montar uma pousada em Maresias. Ainda bem que a Apaixonada se identificou com o curso e o concluiu mesmo quando levou um pé de Júlia.
Foi num fim de semana. Júlia estava distante há meses e Renata cobrava atenção e cobrava e cobrava... até que Júlia disse que não estava mais a fim. Rê ficou estática, parada no meio da sala com um cigarro queimando entre os dedos: “Como assim?” – ela não entendia, não compreendia que o amor da sua vida estava dizendo que não a amava, que havia sido legal o tempo que passaram juntas mas... infelizmente. “Como assim?” – “Assim, Renata: acabou!”. Júlia saiu e Renata ficou. As duas dividiam o apartamento, depois cada uma voltou para a casa de seus pais. Ela não acreditava... ainda tentou, pediu que Júlia ponderasse, mas não adiantou. Ficou mal, muuuito mal. Camila um dia ligou para ela e descobriu o rompimento. Renata falava pausadamente, como quem ainda estava em estado de choque. Camila ouvia e evitava falar sobre energias, trocavam e-mails enormes, mas Renata, às vezes, sumia... aí Camila ficava preocupada e ligava. Renata estava deprimida. “Puta que pariu! Agora que descobriram a depressão todo mundo quer ficar deprimido?!” – esperneava a amiga inglesa ao telefone enquanto Renata chorava. “Rê, você nunca se entregou! Por favor, volte a beijar bocas e descubra outra paixão!!! Vem pra cá, vamos juntas aos shows daqui... se você quiser posso até beijar uma garota!!!” – Renata riu depois de meses chorando. Camila era mesmo fantástica. Resolveu reagir.
Terminou a faculdade e, como já era estagiária num hotel, conseguiu efetivação e vez ou outra era convocada pelas filiais desse hotel em outros estados do Brasil. Foi nessas viagens que voltou a “pegar” todos e todas e, agora, em rede nacional.
Alugou um apartamento, comprou um carro e tornou-se completamente independente. Era um orgulho para ela, aos 28 anos, estar estabilizada financeiramente. Bom, amorosamente, não estava estabilizada nem desestabilizada... apenas não estava. Voltou a curtir as baladas, mas sem envolvimentos, talvez tenha se tornado um pouco fria depois de tudo o que passou quando amou de verdade... sentia medo do amor porque sua única experiência mostrou que ele machuca muito e ela gostava de estar bem, feliz.
continua...
quinta-feira, 26 de maio de 2011
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