Capítulo 1: Luciana e Renata
Algumas histórias de amor ou ódio, ou amor e ódio, acontecem antes que as protagonistas se deem conta. É como se o Destino convocasse seu servo Cupido e o alertasse para que preparasse as coisas sem o mínimo barulho... devagar, sem chamar a atenção. Preparado o terreno é autorizada a flechada... mas só depois de algum tempo. Planos do Além que vão além de nossa vã consciência. Muitas vezes, somos “joguetes” do Destino... “o que está escrito está escrito...” Foi mais ou menos assim que aconteceu com Luciana e Renata.
Seis anos atrás.
Luciana chegou ao barzinho com o Namorado. Camila estava numa mesa gargalhando com Renata e mais três garotos.
— Camila?
— Lu? Não acredito que veio!!!
Era aniversário de Camila, 22 anos. Vamos à primeira apresentação: Camila, garota extremamente extrovertida, que fazia amizade fácil, em todos os ambientes, com qualquer tipo de pessoa – desde mauricinhos e patricinhas, passando pelas pessoas “esforçadas”, como ela, até bandidinhos arroz-de-festa –, totalmente sociável, sorridente e paz e amor, portanto, em sua festa havia uma fauna exuberante, diversas espécies, para todos os gostos. Andava pelo bar com um copo de batida numa mão e um cigarro na outra a fim de dar atenção aos amigos que vinham de todas as partes. Ah! Ela era estudante de jornalismo e, também, era conhecida pelos diversos admiradores pelo codinome de CUPIDO.
— Imagina que não viria à festa de minha amiga querida!
Fala de Luciana, 24 anos. Amiga de Camila. Enquadrava-se no primeiro tipo de amigos da aniversariante. Uma pati... bom, talvez ela não seja tão pati assim, mas cabe a mim, agora, apenas relatar os fatos. Uma pati que, como toda pati, montada em roupas de grife, acessórios caros e maquiagem de última geração, tornava-se esteticamente linda: loira (melhor dizer um castanho claro, porém, com reflexos), alta, pele lisinha, olhos esverdeados e sorriso de mis. Cursava jornalismo com Camila... interrompeu o curso por um ano para viajar o mundo. E namorava. Namorava há cinco anos o mesmo rapaz mauricinho – peito estufado, gel no cabelo, gingado de menino-rico-que-não-está-nem-aí – como aqueles de seriados norte-americanos. O Namorado não desgrudava e ela não desgrudava do Namorado... os dois formavam um belo casal... os dois lindos, os dois ricos, os dois pretendiam se casar e ter filhos.
— Bom, deixa eu te apresentar o pessoal então. – apontou Camila para a mesa onde estavam mais uma garota e três rapazes. — Esse é o Murilo, o Douglas, o Luís e aquela louca que não para de rir é a Renata. – Renata, ainda gargalhando, ergueu o copo para o casal.
Renata: ia ao psicólogo quando pequena porque seus pais chegaram à conclusão de que era “superativa”. Foi expulsa de algumas escolas por indisciplina, mas sempre passava de ano com boas notas. No momento, tinha 22 anos e ainda não sabia se faria arquitetura ou artes cênicas. Divertidíssima, não se enquadrava em nenhum dos tipos de amigos de Camila... Renata era uma exceção. Conhecida como “pegadora”, beijava a pessoa que estivesse a fim... não beijava quem não estivesse a fim e, por despeito, também era conhecida como “galinha”. Loira, de olhos castanhos claros, nem alta nem baixa, nem gorda nem magra, Renata teria tudo para ser normal, mas não era. Talvez seja seu jeito de olhar, de sorrir, de conversar... talvez o conjunto e aí... poucos eram aqueles que escapavam.
— Acho que alguma coisa é muito engraçada... – comentou Luciana que achou um desrespeito ser cumprimentada por aquela garota que mal conseguia falar de tanto que ria.
— Não liga, é que eles já estão ficando bêbados.
O casal modelo afastou-se um pouco e Camila voltou a circular. Renata continuava na sessão piadas com os meninos até que ótimas músicas começaram a tocar e ela foi para o meio da pista. Ah! Renata adorava chamar a atenção.
A pista estava cheia de amigos de Camila e Renata conhecia todos eles. Dançaram quatro sons consecutivos no maior agito. Ótima festa, ótimo DJ, ótima bebida, ótimas companhias. Renata se divertia porque seu lema sempre foi o batido “viva o presente”. Ela preferia que fosse assim, estar rodeada de amigos e rir muito, não estava na idade de pensar em grandes responsabilidades... pelo menos não naquele momento. Ela já determinou que no próximo ano essas farras diminuíriam porque assumiria um compromisso, faria uma faculdade, encontraria um bom emprego. Todas essas pessoas pensavam que ela só curtia festas... não, ela não curtia apenas festas, sabia que precisaria fazer algo de mais... como direi... de mais... sério. Ela fumava, bebia e fechava os olhos enquanto dançava... sentia quando as pessoas a olhavam e se sentia envaidecida. Sempre dizia: “não se apaixone por mim... ainda não estou preparada”. Ela queria ainda provar muitas bocas antes de se apaixonar.
Alguém tocou seu ombro e ela abriu os olhos. Era mais um amigo, se abraçaram e conversaram um pouco na pista, aos berros, um gritando no ouvido do outro, mas se entenderam. O amigo trazia um amigo, que ela não conhecia... e logo se interessou. Foram apresentados e no caminho para o bar esbarrou em alguém:
— Putz, desculpa! – olhou e lembrou daquele rosto, já o tinha visto... mas não era importante. Foi com o bonitão até o bar pegar uma bebida. Conversa vai conversa vem estavam dando altos beijos!
Luciana quase derrubou o suco em cima do Namorado. “Que garota folgada!” – lembrou-se que foi a mesma que a cumprimentou às gargalhadas... um desrespeito. Tudo bem, Camila conhecia mesmo todo tipo de gente, tinha que relevar. O namorado a abraçava pela cintura enquanto ela olhava o movimento... vez ou outra trocavam uma palavra amorosa e logo se calavam porque o som estava alto. Quase nunca brigavam, se davam superbem... supereducados. Luciana tinha a vida que pediu a Deus: educada nos melhores colégios, sempre foi boa aluna, só infringiu as “leis” poucas vezes... uma vez fumou escondido e outra vez tomou um porre com umas amigas no Guarujá. Depois entrou na faculdade e decidiu, repentinamente – o que não é do seu feitio –, viajar para adquirir cultura. Seu pai pagou um tour pelo mundo e depois de um ano destrancou a matrícula e voltou ao curso. Namorava o Namorado desde os 19 anos... ele também era de boa família e a união geraria bons negócios no futuro e para os futuros filhos. Perfeito. Terminaria o curso de jornalismo para escrever na Caras e casaria com o futuro herdeiro das empresas da família fulano de tal.
Olhou ao redor e viu Renata se atracando com o moreno no canto do bar. Pensou no quanto uma pessoa poderia ser vulgar. “Imagina, não faço isso com meu namorado em público...” e continuava a observar a cena quando Camila se aproximou:
— A Janaína está aí...
— Ah! Já falei com ela. – depois de um instante em silêncio. — Aquela sua amiga parece estar bem louca, né?
— A Rê? Não, ela é assim naturalmente. – e sorriu.
“É uma galinha”, pensou Luciana enquanto correspondia ao sorriso da amiga que a puxou repentinamente pela mão e a levou para a pista.
— Me empresta sua namorada um pouquinho que adoramos essa música. – e foram dançar. O Namorado? Ficou lá.
As duas se divertiram durante as duas músicas ótimas que tocaram e Luciana teve a oportunidade de, por duas músicas, se divertir de verdade... soltar-se, demonstrar felicidade e não se importar tanto com a etiqueta num lugar como aquele. Ela percebeu que poucas vezes divertiu-se tanto... percebeu isso durante o decorrer de duas músicas. Mas logo se sentiu culpada por algo, sentiu que não deveria se comportar assim e voltou para o lado de seu Namorado... mas... seu Namorado não estava no lugar onde ela o havia deixado.
Percorreu os olhos pela multidão e o encontrou no bar. Olhou melhor e com mais cuidado para ter certeza do que via: via a galinha ao lado do SEU Namorado e os dois conversavam. Foi até lá.
Enquanto caminhava observava. Ela tinha um copo nas mãos e sorria, olhava nos olhos, gesticulava e ele sorria também... um sorriso encantador de quem está encantado, também olhava nos olhos. Que absurdo era aquele?! A compostura quase indo pelo ralo.
— Querido, vamos embora?! – esqueceu-se da educação e puxou o Namorado com força, retirando-o dali o mais rápido possível.
— Ei, espera aí, garota?! Não tem educação? – Renata a alcançou e a fez parar.
— Com certeza tenho muito mais educação do que você! – retrucou Luciana olhando nos olhos de Renata.
— O que você acha que eu iria fazer? Roubar seu namorado? – Renata estava indignada.
— Não sei, não te conheço...
— Isso mesmo! Você não me conhece...
— Mas sei da sua fama!
— Olha aqui...
— Opa! Opa! O que é isso meninas!!! É minha festa... pega leve! – chegou Camila entrando no meio das duas e olhando bem nos olhos de Renata que era a mais pavio curto. — Por favor, Rê!
— Não vou estragar sua festa... fica tranquila. – e saiu para o meio da pista.
— Lu, calma aí... a Renata é gente boa...
— É... deu pra notar. – despediu-se da aniversariante e foi embora... com o Namorado debaixo do braço.
“Que ridícula! Achou que eu fosse fazer o que com o namorado dela? Nunca peguei namorado de amiga da minha amiga... Vai para o inferno! Aquela soberba, aquele ar de superioridade... uma patricinha de merda que vem para um lugar como esse mostrar roupas caras e um namorado mauricinho! Nunca vi mais gorda... chega do nada a ainda quer armar barraco pra cima de mim!!! Ninguém merece!!!”
“Uma galinhazinha mesmo! Mal eu viro as costas e ela não perde tempo... cai matando em cima do meu Namorado! Aquele ar de espontaneidade... sorrisos para todos, olhares para todos... descontração irritante! Não passa de uma vazia, disposta a beijar o maior número de bocas possível.”
Essas são Renata e Luciana.
quinta-feira, 26 de maio de 2011
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Um comentário:
Que história magnífica
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