Capítulo 2: Cara e Coroa
Luciana
Luciana saiu furiosa do bar. Noite perdida. Poderiam ter ido jantar num lugar mais calmo, poderiam conversar sobre as viagens que fizeram, sobre a faculdade, sobre o futuro. Era uma mulher que pensava muito no futuro, tanto que esquecia do presente... achava que tudo deveria ser uma prévia para mais adiante, nada servia para ser vivido agora. Importava-se muito com as aparências, mas no íntimo, muitas vezes, sentia vontade de mandar tudo à merda... havia muito com o que não concordava... não apreciava, o tempo todo, as conversas fúteis... gostava de trocar ideias construtivas, de um bom bate-papo animado, mas as pessoas que a cercavam importavam-se mais em ostentar bens, em dizer o quanto gastaram na última balada ou o que comeram no último coquetel de lançamento de um livro qualquer. Muitas das pessoas que conhecia ostentavam clássicos da literatura universal na prateleira, mas não sabiam dizer sobre o que tratavam aqueles belos livros. Ela sabia... tinha prazer em saber, degustava o conhecimento... não era apenas um rostinho bonito. Porém, aquele ditado “digas com quem andas e te direi quem és” encaixava-se na vida social de Luciana. Pobre menina rica contaminada pelos vícios daqueles que a cercavam, todos farinha do mesmo saco e ela, portanto, aos olhos dos outros, não era exceção.
Não sabia dizer se era feliz ao lado do namorado de cinco anos. Sempre dizia que viviam bem, que ele era um “amorzinho”... faziam o sexo morno e convencional, estavam sempre de mãos dadas nas festividades e sorriam, mesmo quando algo não estava tão bem... afinal de contas os outros não precisavam saber dos problemas que afligem um jovem casal. Luciana cuidava dos estudos e do enxoval e o namorado cuidava das empresas e das festas de solteiro. Ela fingia não saber de suas escapadas... ele fingia não saber que ela não era feliz.
Renata
Renata foi para a pista apenas para evitar a briga. Não estragaria a festa da amiga, jamais... não gostava de entrar em brigas, mas, se entrasse, provavelmente não iria querer sair. Se desse uns tapas naquele rostinho de pati tomaria gosto. Sempre valorizou os amigos, sempre os respeitou e era querida por isso. Apesar de ser uma “Don Juan” de saias nunca causou mal-estar entre eles porque sempre tudo foi muito claro: “não se apaixone por mim”. Não era surpresa quando encontrava vários ex-ficantes numa mesma festa e realizava a confraternização entre todos. Ela queria apenas se divertir e que eles se divertissem com ela. Nunca escondeu sentimentos, sempre dizia o que pensava... e sempre dizia que nunca havia amado. Paixão sim, ela se apaixonava por tudo e por todos a todo o momento, mas como a paixão é fugaz, pouco sobrava... ficava o carinho e a vontade de encontrar outra pessoa interessante e assim Renata seguia um ciclo sem fim. Sentia-se invejada pelas outras garotas, por estar sempre rodeada por homens bonitos e cobiçados, sempre estar nos lugares certos nas horas certas, ter amigos em todos os lugares, divertir-se com eles, bater um bom-papo em torno de canecas de chope. Mas, às vezes, se sentia vazia. Faltava algo. Um dia alguém disse que ela era imatura... ficou pensando sobre isso: imatura para o amor? Imatura para o quê? Ela ainda não sabia... mas sentia falta de algo que a preenchesse. Amigos são legais, festas e boas conversas também, mas não é tudo... Renata divagava, pensava e conversava com seus botões... mas essa meditação não durava muito tempo, alguém chegava e perguntava se ela estava com algum problema. Renata não tinha o direito de querer estar só.
A mira do momento era o primo de Camila, ficaram amigos e ela estava apaixonadíssima... toda vez que falavam nele ela se empolgava e já havia arranjado tudo. Ele não teria como escapar... E quem queria escapar? Mas ficou sabendo, também por Camila, que uma garota estava a fim dela e isso mexeu um pouco com sua cabeça. Por isso estava em silêncio, tentando descobrir o que sentia após essa revelação. Sempre observou as mulheres, suas formas sempre a encantaram, mas nunca teve muita vontade de pensar seriamente sobre a possibilidade de beijar outra mulher na boca. Isso a excitava. Os homens não provocavam nela mais do que paixão... de repente uma mulher... quem sabe?! Renata se sentia atraída por todos, homens, mulheres... seu corpo, muitas vezes, a comandava, seus instintos... claro que não resistiria aos encantos de uma mulher. Precisava saber quem era.
Capítulo 3: A iniciação
— É aquela ali. – disse Camila, disfarçadamente, na lanchonete que ficava de frente à faculdade. — Chegou em mim e perguntou se você era minha amiga e quando respondi ela disse sem rodeios que estava muito a fim. – Camila tomava um suco olhando fixamente para Renata, tentando captar o que a amiga pensava a respeito da ousada proposta. A morena conversava com mais algumas garotas do outro lado da rua, mas não tirava os olhos das duas.
Renata ficou séria por um momento olhando para a tal garota... depois sorriu maliciosamente:
— Tudo tem sua primeira vez, não é? – e piscou. Camila sorriu e balançou a cabeça:
— Você é terrível!
Combinaram que o encontro aconteceria numa festa da faculdade. O curso de Jornalismo havia alugado uma chácara e Camila convidaria a tal menina misteriosa que “iniciaria” Renata na homossexualidade... ou não. A partir desse dia Renata não pensava em outra coisa, fantasiava situações, imaginava como seria o encontro e o possível beijo. Era excitante e ela mal podia esperar.
— Você vai à festa? – perguntou Camila na sala de aula para Luciana, que parecia não estar muito bem.
— Acho que não.
— Por quê? O pessoal te adora, a sala inteira estará lá!
— Meu namorado não poderá ir... viajará a negócios...
— E daí?! Vamos nós... eu e você. – esperou por uma resposta da amiga, que não veio. — Lu, na boa... você é grudada demais no seu namorado. Sua vida não tem que girar em torno dele. – Camila virou-se para a frente e Luciana ficou pensando na frase. Profunda a frase...
Depois da aula que ela não assistiu deu a resposta a amiga:
— Vou à festa. A que horas passo para te pegar?
A FESTA
Uma chácara chamada Onde o Judas Perdeu as Botas. Enorme. Linda! Um bang jump, uma cama elástica, som eletrônico, bebida e comida na faixa. Uma multidão, mesmo assim sobravam vários espaços vazios. A chácara era realmente grande.
Renata estava ansiosa... pensou na roupa que usaria. Poucas vezes se importou com esse detalhe. Foi até o guarda-roupa e retirou um jeans de cintura baixa, calçou uma bota e vestiu uma blusinha preta frente única, arrumou o cabelo ainda molhado, passou batom e um pouco de rímel. “Nunca me arrumei tanto para um homem como o estou fazendo para uma mulher... que nem conheço”. Havia chegado a pouco e deu uma espiada, uma olhada geral para averiguar o espaço e as pessoas. Conhecia muitos ali, pegou uma latinha de cerveja, acendeu um cigarro e dirigiu-se a eles sorridente.
Luciana não esperava muito da festa. Decidiu ir e comunicou ao Namorado que pouco se importou. Vestiu um vestido estampado básico, colocou um colar com enfeites de madeira para parecer simples e foi. Passou na casa de Camila na hora combinada. Camilinha a animava, tinha um ótimo papo, era engraçada e logo se viu contagiada... fazia tempo que não ia a uma festa sem a companhia do Namorado. Fazia uns... 5 anos! Camila insistia em dizer que ela estava linda e que tinha que curtir mais, sair com os amigos, beber... descontrair.
Quando chegaram, o estacionamento já estava quase lotado. Camila encontrou Renata algum tempo depois e foi até ela. Luciana reconheceu que aquela garota era a mesma que pretendia roubar SEU namorado naquele dia. “Que droga!”
— Rê?! – Renata se virou e deu um abraço apertado na amiga.
— Menina, como você demorou!
— É que vim com a Lu... Vocês já se conhecem, né? – comentou ironicamente e as duas se olharam sem dizer nada por instantes eternos. Renata sorriu e quebrou o gelo:
— Ah, sim... nos conhecemos. Mas, olha... estou desarmada! – ironizou levantando as mãos para o alto. Luciana correspondeu com um sorriso cínico.
— Fique tranquila porque você não terá quem atacar...
Ao terminar a fala Renata notou a presença da morena logo adiante e, olhando maliciosamente para Camila, retrucou:
— Você é que pensa.
As duas começaram a rir e Luciana sentiu-se incomodada, mas Camila esclareceu a amiga:
— Você acredita que aquela garota está a fim de beijar a Rê?
Luciana olhou para Renata surpresa.
— E você fará o quê?
Renata olhou nos olhos de Luciana de maneira divertida e respondeu prontamente:
— Vou beijá-la, claro!
A garota riu incrédula. Olhou para Camila que confirmou o que aconteceria. Em seguida, Renata saiu em direção à morena que a olhava de longe.
— Não acredito. Sua amiga vai beijar outra mulher?
— É o que parece...
— Nossa! Como é leviana... – comentou com expressão de nojo. Camila sorriu e:
— Não a julgue, Lu... Renata é uma ótima pessoa... ela só está curtindo, assim como a maioria das pessoas faz. Ela é muito mais do que você está vendo.
— Será? – questionou num misto de cinismo e mau humor dirigindo-se à lanchonete montada em um dos espaços da chácara.
As duas conversaram por um longo tempo, colocando em prática o famoso jogo da sedução. Depois seguiram para um lugar escuro e discreto. Renata estava nervosa apesar de não aparentar. Carregava toda a adrenalina da curiosidade, da expectativa... sentia um frio na espinha toda vez que a morena apertava sua mão. Estava extremamente excitada e achava que teria uma “ejaculação precoce”... estava a ponto de estourar quando a morena começou a sussurrar em seu ouvido que ela era linda e que seus olhos a fascinavam há tempos. A morena colocou a mão espalmada na coxa de Renata que foi à loucura e sorria o sorriso daqueles que não sabem o que dizer, apenas sentia o arrepio, o tesão invadindo e tomando conta de seus sentidos. A garota mordeu levemente sua orelha e disse que ela era “muito gostosa”... beijou seu pescoço com lábios carnudos e, sutilmente, passou a mão em seus seios por cima da blusa. “Ela está me provocando...”, foi o que concluiu Renata no alto de sua experiência sexual. Resolveu dar o troco e começou a acariciar as pernas de sua morena que estava de saia e sem mais nada por baixo. O tiro saiu pela culatra e, quando Renata percebeu que não havia uma calcinha que separasse sua mão do sexo daquela mulher, quase desfaleceu de prazer, de tesão... “que garota é essa?!!”. Foi em frente e acariciou o sexo da morena que gemia baixinho e pôde constatar o quanto estava molhada. Renata nunca havia feito nada parecido e lamentou não ter iniciado mais cedo. Estavam no ápice... beijaram-se e Renata chegou à conclusão de que nunca havia provado beijo melhor... nenhum homem havia oferecido a ela tamanho prazer e ela saiu de órbita por várias vezes seguidas... até que não resistiu e foi ao centro de prazer daquela mulher fantástica que mostrou a ela sensações que ela nem sonhava existir. Abriu suas pernas com delicadeza e deslizou sua boca até o sexo daquela morena linda e tããããooo habilidosa. A morena gozou, Renata gozou...como nunca em sua vida.
No lado oposto...
Luciana já havia conhecido algumas meninas “saidinhas”... suas amigas até. Portavam-se como santas mas sempre davam um jeito de aprontar, mas claro que só as amigas mais íntimas sabiam das esbórnias em que se metiam. Mas... essa Renata... não tinha o mínimo pudor, não fazia questão de esconder nada, suas conquistas fúteis, vazias de sentimentos... uma oca, era isso que era. Imagina, beijar outra mulher! “Tá, tá bom, claro que algumas vezes até já pensei... mas... Ahhhh, o que é isso, Luciana!!! Acho que esse ambiente não é bom pra mim. Não é certo, não é legal. Sempre fui fiel ao meu namorado e só de pensar nessas coisas já o estaria traindo. Que horror!!!”. Mesmo tentando fugir de seus pensamentos, seus pensamentos a perseguiam perguntando: “O que, neste exato momento, as duas estariam fazendo naquele lugar escuro e deserto?!” – para fugir de seus pensamentos pecaminosos, decidiu ir conversar com seus amigos.
Renata saiu, literalmente, da moita. Saiu primeiro, depois de se arrumar e se abanar... “que calor dos infernos!” – respirou fundo para encarar a festa que apenas começava e “como começava bem...”. Procurou por Camila, mas não a encontrou. Resolveu pedir uma cerveja bem gelada e sentou-se próxima a um dos canteiros para pensar em tudo o que havia acabado de acontecer. Viu mais adiante Luciana rodeada de amigos. Nunca a tinha visto sorrir e ela tinha um sorriso lindo! “Putz, agora estou olhando diferente para todas as garotas!” – pensou divertida. Mas, era sério... Luciana sempre tão cheia de frescuras, com medo de se soltar, de gargalhar, de falar alto... ela e aquele namorado... o namorado que nem tem nome... era apenas O Namorado. Que chatice! Mas, ela sorria... alguns garotos a olhavam com adoração, um deles buscou um suco para ela. Uma garota contava algo confidencial perto de seu ouvido e ela dispensava toda sua atenção. Dava para perceber que Luciana era uma boa amiga, querida por eles, tratada com carinho e respeito... ela olhava nos olhos das pessoas: “gosto de quem olha nos olhos, mas, definitivamente, não nos demos bem.”. Com Renata sempre acontecia isso, ou a amavam ou a odiavam. Estava acostumada com declarações de amor e repulsas... isso nunca foi um trauma.
De repente viu Camila se aproximar da roda já meio bêbada e sem batom: “entendi o sumiço”. Renata se levantou e foi até lá. Não conhecia todos que estavam ali... aquele era território de Luciana e sentiu-se um pouco deslocada. A garota do Namorado a observou de canto de olho e a ignorou, continuou conversando com a amiga que lhe contava algum “causo” escandaloso e se divertiam com a história. Logo as atenções eram todas para Camila, que contava suas “peripécias” na festa. Na pista, após várias tentativas do jogador de malabares de beijá-la, ela acabou ficando com o cuspidor de fogo. As meninas morriam de rir enquanto os carinhas faziam piadas... tudo virou uma piada e até Luciana se divertiu. Depois do relato emocionante das aventuras de Camila o pessoal começou a dispersar: uns a fim de caçar, outros de dançar e beber, outros de irem à fila do banheiro etc. Sobraram as três, mas Renata já estava encontrando uma maneira de sair dali. Quando se preparava para se afastar Camila a puxou:
— Opa! Aonde pensa que vai?! – perguntou com a voz meio mole, de quem já havia entornado todas. — Pode sentar aqui e me contar o que aconteceu atrás daquela moita ali ó! – e apontava para o lugar com expressão maliciosa. Luciana fechou-se em sua habitual “educação” e:
— Bom, meninas... podem conversar à vontade que vou até ali...
— Não, não e não... fica aqui, Lu! Já que você sabe do que se trata ouve também... – Camila a puxou e as três se sentaram no canteiro... a música ao fundo era animada e a noite estava maravilhosa. Tudo ia muito bem.
Renata, obviamente, não contou detalhes, mas o pouco que contou deixou Camila boquiaberta e Luciana roxa. As duas amigas desinibidas se divertiam muito com tudo aquilo... já a namorada do Namorado estava um pouco sem graça. Renata pensou que Luciana não ia mesmo com a sua cara: “onde está aquele sorriso?! Ela me odeia! Que triste!” após o irônico pensamento, não resistiu e provocou:
— E aí, Luciana? O que achou de minha primeira experiência lésbica?
Camila esboçou um sorriso sarcástico enquanto observava a reação da amiga pati.
— Acho que cada um faz de sua vida o que quiser... – respondeu vagamente Luciana olhando nos olhos de Renata, que correspondeu.
— É... também acho isso. Faço o que quero de minha vida e não devo satisfações a ninguém. Não preciso de aparências...
— Concordo. Cada um leva sua vida como acha melhor.
Camila, que ainda não havia perdido seu senso de percepção, percebeu um clima tenso se formando e, como era adepta das boas energias, tentou amenizar a coisa:
— Ah! Lu! Foi apenas uma experiência... estamos na idade de experimentar, de curtir, aproveitar... se não estamos violentando nem desrespeitando ninguém, acho que não há nada de errado.
Mas Luciana não tirava os olhos dos olhos de Renata, que a provocava sem dizer uma só palavra.
— Acho mesmo que algumas pessoas têm necessidade de se autoafirmar, de se sentir desejada a todo momento. Também acho que isso faz parte do crescimento de alguém... – comentou com um sorriso irônico e isso chateou Renata que desejava sim um sorriso, mas não aquele.
— Está dizendo que sou imatura?
— É um modo de interpretar...
Renata tirou os olhos dos olhos de Luciana, sorriu cinicamente olhando para o céu estrelado e atacou:
— Falou a senhora experiência...
— Não estou dizendo que sou experiente, apenas meus valores são diferentes.
Renata voltou a encará-la séria:
— No que você acha que é melhor do que eu? Na sua forma de viver? Você acha que seus valores são melhores do que os meus? Só porque você na-mo-ra há dez mil anos e eu beijo várias bocas em um mês? – Luciana ficou sem reação e Renata não perdeu tempo: — O fato de você ter um relacionamento estável não significa muita coisa... porque, enquanto você está na barra da calça do SEU NAMORADO eu estou descobrindo a vida, provando do que ela me oferece para poder escolher.
Lu se recompôs:
— É um ótimo pretexto para justificar sua vulgaridade...
Quando Renata abria a boca para retrucar.
— Paaara! Parem vocês duas!!! Eu não estou em condições de apartar brigas, portanto, parem com essa discussão ridícula senão vou vomitar!
Renata se levantou, mas, antes de sair, foi até Luciana e a encarou bem de perto:
— Prefiro ser quem sou a me esconder atrás de uma máscara como a sua.
Saiu caminhando calmamente. Mais adiante encontrou um rapaz e, conversando, seguiram em direção à pista de dança.
— Você também pega pesado, hein, Luciana?! – reclamou Camila quase sóbria.
— Desculpa, Cá, mas essa sua amiga é insuportável.
continua...
quinta-feira, 26 de maio de 2011
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