No domingo tratei de passar na casa dos meus pais, depois de meses de fugas, fingimentos e disfarces, e dizer claramente, com todas as letras, que não darei a eles o neto que tanto querem e que estava me divorciando de Pedro. Sim, eu sou uma ovelha negra, assim como na música da Rita Lee.
Ouvi um sermão em conjunto e um individual, cada um defendendo a importância da família, do casamento como auge da vivência humana e da “função” de um filho nesse mecanismo programado. Eu os ouvia e pensava: “eles não fazem ideia do que estou passando, muito menos do que preciso para ser feliz.” Depois de perceberem que eu estava irredutível, amenizaram o tom, mas os olhares ainda me acusavam: “fracassada”.
No caminho de volta passei, por acaso, por dois plantões de venda de imóveis na zona Sul da cidade e comecei a fazer as contas de tempo e dinheiro que precisaria para me mudar.
Júlio me ligou mais de uma vez e convidou-me para tomar alguma coisa num bar qualquer para conversar sobre qualquer coisa, ou sobre o que aconteceu na sexta-feira. Agradeci imensamente o carinho, a preocupação, mas voltei para casa a fim de reorganizar minhas coisas.
Olhei um bilhão de vezes para o celular, mas resolvi que aquele não era um bom dia de ligar para Clarice.
Na segunda levantei-me cedo, tomei um bom café e liguei para meu advogado, que deu início à papelada do divórcio. Sentia-me vazia, como uma casa sem móveis, mas prestes a ser mobiliada do meu jeito... agora eu escolheria o que iria dentro de mim, seria do meu gosto. Ou seja, estava vazia, mas com uma vontade imensa de recomeçar.
Às dez fui para a agência, assinei contratos, notas e consultei minha agenda. Logo mais teria reunião com Nana.
— Oi, Nana. – cumprimentei-a assim que fechei a porta da sala de reunião atrás de mim.
— Oi, Fernanda. – respondeu levantando-se e olhando-me com ansiedade.
Eu também estava ansiosa e muito curiosa, mal conseguia olhar para ela... mas não queria transmitir isso naquele momento. Só depois do trabalho terminado quero saber como ela sabe de minha história com Clarice e desde quando ela e Laís estão juntas.
Sentei-me próxima a ela.
— Você me trouxe o restante das ilustrações?
Parece que Nana foi chamada de volta à Terra com minha pergunta.
— Nana?
— Oi, desculpa. Estão aqui. – atrapalhadamente retirou da enorme pasta o resto de material. Enquanto folheava, observava, analisava e anotava, sentia os olhos de Nana não sobre o trabalho avaliado, mas sobre mim. Continuei o que fazia tentando me concentrar, mas, assim que fechei o material, larguei a caneta sobre a mesa e perguntei o que estava explodindo em mim:
— Nana, como você sabe o que houve entre mim e Clarice? – perguntei de repente encarando-a, com a voz trêmula.
Parece que ela já esperava a pergunta, à queima-roupa. Nana suspirou, desviou-se do meu olhar, dedilhou sobre a mesa antes de começar.
— Você me contou, Fernanda. Você me disse que esteve na Espanha em 2004. Eu já sabia a história de Clarice detalhadamente, então, foi só juntar as peças... época em que você esteve em Madri, seu nome... enfim...
— Você, amiga dela, juntou peças depois de tanto tempo? Não era mais fácil a própria Clarice ter me ligado e dito que foi apenas uma diversão? Que relação você tem com essa história?
— Nenhuma, sou apenas a melhor amiga de Clarice que prometeu ajudá-la.
— Ajudá-la por quê? Por que precisou juntar peças?
Nana deu um meio sorriso e voltou a me olhar.
— Depois que descobri que você era a Fernanda que Clarice procurava, levei seu telefone a ela.
— Ela tinha meu telefone, Nana. Eu tinha o dela e tentei ligar várias vezes, mas nunca consegui falar. – estava ficando nervosa porque não entendia. — Mas ela deve ter perdido, jogado fora e se arrependido, sei lá.
— Ela perdeu, sim, no atentado terrorista ao metrô de Madri.
— Ela não estava em Madri naquela manhã, ela vinha de Barcelona... marcamos no aeroporto.
— Clara voltou na noite anterior com uma amiga. Ficou hospedada em Madri até pegar aquele metrô às sete e meia para te encontrar, Fernanda.
Suspendi a respiração e senti uma vertigem. Um nó na garganta me impedia de dizer qualquer coisa. Antes que Nana terminasse, tudo se esclarecia e eu sentia morrer por dentro de tanto remorso. Baixei a cabeça com as mãos no rosto.
— Você pode imaginar por que ela não foi te encontrar. Mas não faz ideia do que foi a vida de Clarice após esses dois acontecimentos: te conhecer e estar naquele metrô justamente no dia em que voltariam juntas para o Brasil. – Nana fez uma pausa e seu tom de voz mudou: — Se bem que você não foi...
— EU FUI! EU FUI! – disse desesperada, explodindo em um choro copioso. — Eu disse que não fui porque durante todo esse tempo guardei um ressentimento absurdo, achei que ela não tinha aparecido porque tudo foi muito mais importante para mim do que para ela...
— Você não acreditou no amor dela...
— Nana, ela me disse que viria de Barcelona... depois tentei ligar angustiadamente, sem retorno... – estava sem ar.
— Não havia mais celular, Fernanda, nem seu cartão com telefone... nem nada. Clara ficou em coma durante semanas, demorou anos para estar como agora.
— A bengala...
— É... provavelmente ela carregará essa “lembrança” para o resto da vida.
— Meu Deus.
Ficamos em silêncio por um instante. Eu só conseguia chorar, e Nana me estendia lenços de papel.
— Desde que Clarice recuperou os movimentos e voltou a ser independente, dona de suas vontades, seu único objetivo era te reencontrar para dizer que cumpriu o prometido, ou pelo menos tentou. – Nana segurou forte minha mão e me olhou com olhos lacrimejantes. — O que aconteceu a partir desse objetivo traçado por ela foi uma sequência de coincidências que ajudou vocês a se reaproximarem.
— Preciso vê-la.
— É para já.
***
Acordei ansiosa na segunda-feira.
Nana tinha me pedido para esperar, mas até quando? Precisava, sim, confiar nela e fazer tudo o que mandasse porque essa pessoa simplesmente encontrou Fernanda, passou-me seu telefone e colocou-me diante dela. Nana deveria trabalhar para a Interpol.
Tomei um bom banho, arrumei-me, tentei ler, assistir televisão e preparar aula. Não consegui me concentrar em nada. Só planejava duas coisas: dizer poucas e boas para Laís e conversar de verdade com Fernanda porque precisávamos esclarecer muitas coisas: ela está de fato com Laís? Ela, afinal, é casada ou não? Mantém um relacionamento aberto? Tantas coisas que não entendo... Parece que a única que entende tudo perfeitamente é Nana e está trabalhando como operária para me entregar esse quebra-cabeça pronto.
Mamãe me ligou e conversamos, mas nada funcionava direito na minha mente perturbada (até me esqueci que ela se convidou para vir almoçar comigo antes de ir a uma consulta médica). Estava impaciente, morrendo de vontade de pegar minha bolsa, chamar um táxi e ir para o apartamento de Laís cuspir na cara dela. Nojenta. Ela sabia do meu caso com Fernanda, a vaca estava com nós duas! Ela retardou um encontro, ela jogou e se divertiu com a nossa história de maneira tão sórdida, insensível. Que deprimente.
Ao meio-dia mamãe apareceu e eu havia me esquecido que ela apareceria. Preparei alguma coisa rápida, conversamos amenidades e, óbvio, ela percebeu que eu estava diferente, muito agitada e quis saber o que se passava. Pedi para ela esperar, assim como eu estava esperando acontecimentos acontecerem.
Dei-lhe um beijo no rosto e ela se foi.
Cruzava os dedos enquanto ouvia música. Liguei para Nana algumas vezes, mas ela não atendeu.
Não aguentava mais. Peguei minha bolsa e me dirigi à porta quando o interfone tocou. Era Nana subindo. Larguei a bolsa novamente e esperei andando em círculos na frente da porta.
Campanhia.
Abri e Nana, sorridente, ficou diante de mim, parada à porta.
— Entra criatura, vai ficar parada aí?! – Nana não sabia a hora de brincar. Virei-lhe as costas e caminhei em direção à sala.
— Clarinha, trouxe alguém para você.
Quando me voltei para a porta Fernanda estava lá, com olhos e nariz vermelhos. Acho que meu sorriso foi se abrindo aos poucos, mas não consegui me mexer, minhas pernas simplesmente travaram e só conseguia me apoiar na bengala.
— Bom, o serviço de entrega precisa resolver algumas coisas, portanto, fiquem à vontade. – Nana colocou Fernanda para dentro e fechou a porta atrás de si.
— Acho que agora conseguiremos falar e ouvir... não há barulho. – Fernanda começou.
— Sim... e não estamos voando. – respondi encantada, com meu coração disparado, gritando de alegria. Ela sorriu e se aproximou devagar.
— Precisa de ajuda? – perguntou olhando para a bengala.
— Não, eu e ela já somos íntimas... mas podemos nos sentar.
Sentamo-nos e eu não conseguia parar de olhar para ela feito boba. Estava me controlando, apertando as mãos para não abraçá-la e sentir seu corpo, que me fazia uma falta tão absurda que doía. Estar diante de Fernanda era como encontrar meu oásis no deserto depois de anos de procura, de caminhada (a metáfora é ridícula, mas é isso mesmo).
Ela, de repente, ficou séria me observando, com os olhos transbordando. Fechou os olhos e chorou. Esperei pacientemente ela encontrar seu momento. Eu também chorava por dentro, mas de alegria... meu prêmio estava ali, diante de mim... não teria mais que ter pressa, nem ir a lugar algum.
— Clara, eu queria que você me desculpasse por duvidar...
Foi o que ela disse. Percebi que mais do que os desencontros e os mal-entendidos, o que a perturbava era seu próprio sentimento.
— Como você poderia saber...
— Eu poderia ter ido em busca de você. Se, de fato, eu não ficasse lamentando meu ego ferido, teria descoberto que você estava entre as vítimas do atentado.
— Fernanda, isso agora não importa... talvez na época você não estivesse segura dos seus sentimentos porque também não foi ao encontro... mas está aqui agora e tantas coisas aconte...
— Eu fui, Clara. Estive lá te esperando. Quando você não apareceu e tentei te ligar e você não me respondeu achei que tudo tivesse sido passageiro... não acreditei em você quando disse que queria voltar comigo para ficarmos juntas... fiquei magoada todo esse tempo, não me importei com os motivos que pudessem tê-la impedido de estar lá.
Meu choro era de alívio. Ela esteve lá.
Aproximei-me de Fernanda e, delicadamente, fui me enlaçando em seu pescoço para abraçá-la com força. Um contentamento, um conforto, uma paz indescritíveis tomaram conta de mim enquanto soluçávamos juntas, abraçadas, como se o tempo não tivesse passado. Meu coração pulava, soltava fogos, gargalhava e eu passava uma de minhas mãos em suas costas, consolando seu choro, seu desabafo.
Ficamos assim durante muito tempo, em silêncio, até que nos acalmássemos. Depois, segurei seu rosto, enxuguei suas lágrimas e dei-lhe beijos delicados espalhados sobre sua face enquanto seus olhos verdes me olhavam sorrindo.
— Fernanda, durante todo esse tempo, não deixei de te amar.
continua...
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
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4 comentários:
Mariana dos aflitos, que "diliça" encontrar sua postagem.
Gradicida e já com saudades de sua escrita. Reta final, né não?
Beijokas
Finalmente essas duas se encontraram, agora vc tem que faze pelo menos uns dois capítulos (enormes) só de felicidade para essas duas, afinal, elas já sofreram demais.
Quero ver tb, elas colocaram a vaca da Laís contra a parede.rs
Parabéns pela história.
Bjs
Hoje tem capítilo,né? Ainda mais esse tão esperado capítulo.rs
Mariana das lembranças, só passei para lembrá-la que hoje é sábado e amanhã é terça-feira, então, esquece não da postagem grandi, grandi...
Bjkas,
Ana Maria
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