sábado, 18 de setembro de 2010

CAPÍTULO 31 – UM MOSAICO DE ACONTECIMENTOS

— Eles sabiam o tempo todo, Júlio! Fui uma idiota! Me fizeram de idiota!
— Minha querida, eu não sei da história, mas desconfio de que Gustavo é um grandessíssimo safado.
Estava tremendo, totalmente sem condição de dirigir. Ainda bem que Júlio apareceu, socorreu-me porque nunca me senti tão sozinha. Quando se está em perigo ou perdida, sempre se espera que a pessoa que você ama esteja com você... mas a pessoa que mais amo é Clarice, que está com Laís, que pensei que me amava.
Fui manipulada. Certamente riam de mim. Quem ria de mim? Gustavo com certeza... Laís o tempo todo, divertiu-se bastante comigo sabendo que eu sofria por Clarice... ela sabia a quem me referia, sabia e estava abraçada a Clarice. Clarice se divertia também? Não sei... a vi me olhar assustada, chocada até. Será que fomos usadas?
Eu vi Clarice diante de mim depois de três anos daquele encontro em que declaramos que não nos separaríamos mais.
Estava cansada de tudo isso, parecia um pesadelo sem fim. Preferiria que nada do que aconteceu acontecesse (nem meu encontro com Clara), só para que eu pudesse ter a mim novamente, pois parece que, aos poucos, ia perdendo o juízo de quem eu era. A dor e a confusão eram imensas.
Não tinha mais Clarice, nem Laís, nem Pedro... só a mim mesma, e eu estava me perdendo.
Júlio respeitou meu silêncio e não me fez perguntas até me deixar na porta de casa. Lá chamou um táxi e disse que voltaria para a festa a fim de encontrar Marcelo.
— Muito obrigada, Júlio. Não sei o que seria se você não me trouxesse.
— Estarei por perto quando precisar. Acabei de me autonomear seu anjo da guarda. – sorriu. — Querida, seja lá o que tenha acontecido, não deixe barato... você não merece.

***

— Laís é uma filha da puta, Clarice! Será que você ainda não enxergou isso?
Nana dirigia em alta velocidade, costurando entre os carros, estava furiosa e descontava sua ira no pedal do acelerador. Chegava à conclusão de que ela estava mais perturbada do que eu.
Como eu estava?
Poderia estar maravilhada com a visão que tive: Fernanda diante de mim, tão linda, tão mulher... os cabelos castanhos claros soltos, repicados cobrindo parte dos ombros nus; os olhos verdes fixos nos meus, os lábios entreabertos torneados pelo batom. O corpo, a roupa, um colar, os brincos e um grande anel na mão direita... como sempre elegante, linda. Ela foi minha há três anos, durante poucas horas, fizemos amor, o amor mais profundo que já experimentei, que mudou minha vida... na verdade, acho que Fernanda a tirou de mim e procuro recuperar o controle dela desde aquele dia.
A mulher do voo estava quase ao alcance das minhas mãos novamente, mas havia uma Laís dissimulando e um marido que se aproximava e, provavelmente, nem imaginava o que aconteceu entre nós.
Mas estou em pedaços. E quando acho que os pedaços já estão bem quebrados, vem outro acontecimento que os quebra ainda mais, para ficar mais difícil colar... e levar mais tempo.
— Você percebeu que Laís estava tentando impedir o encontro de vocês?
— Você não acha isso tolerável, já que vocês mesmos dizem que ela é apaixonada por mim? – respondi em um rompante de raciocínio lógico em meio a toda aquela loucura.
— Mas ela não tem o direito. Ela e Gustavo estão de armação para cima de vocês...
— Nana, Fernanda está casada. Nana, ela não foi ao encontro. – tentei frisar os motivos pelos quais nosso reencontro não causou um abraço apertado.
Nana balançava a cabeça em uma negativa inconformada.

***

— Você não disse que ia dar um jeito de elas não se encontrarem na festa? – perguntei tirando os sapatos com os próprios pés e largando-os pelo tapete da sala.
— Não deu. Aquela Nana atrapalhou tudo! – respondeu passando a palma da mão pelo rosto. — Sua aprendiz de trepada me bateu, sabia?
— Claro que soube! As pessoas adoram um barraco e esse tipo de fofoca chega a todos os ouvidos em questão de segundos. – preparei um drinque que me ajudaria a dormir. — Quase que esse babado acaba com minha festa... e se acabasse, acabaria com você.
— Fiz o que pude, ninguém mandou ficar com as duas. – respondeu pouco se importando, afrouxando a gravata.
— Mas acho que fico com uma, pelo menos. – disse pouco me importando, virando a dose de uísque.
— Acha mesmo?
— Sim. Clarice sabia que eu conhecia Fernanda... Clarice pensa que Fernanda não foi ao tal encontro babaca... Clarice conheceu o marido de Fernanda...
— Você está muito confiante.

***

Peguei meu travesseiro e cobertor e fui dormir no quarto de hóspedes.
Dormir é modo de dizer, claro. Não consegui... de novo.
Chorei, parei de chorar, pensei, chorei novamente, senti raiva, ódio, pena de mim... meu espírito passava por uma tempestade de sentimentos e meu corpo estava exausto, mas não se entregava ao sono.
Lembrei-me do olhar de Clarice. Nos poucos flashes em que o tive nos meus olhos vi espanto e acho que lágrimas. Ela estava linda. Meu coração parou quando a vi, pensei que fosse desmaiar tamanha foi a adrenalina. Aquela mulher com pose de menina universitária não existia mais, pelo menos não ali. Amadureceu, estava mais magra, com a fisionomia mais séria, altiva. Usava uma bengala. Não tive tempo de reparar muito, mas parecia ter habilidade com ela, o que me parecia que a usava há algum tempo.
Ficamos uma de frente para outra por tão pouco tempo, mas tempo suficiente para saber que preciso ter a chance de conversar com ela de verdade porque aquele olhar não era de indiferença ou de um susto passageiro. Não quero mais conversas vazias e constrangedoras ao telefone... Por que Nana fez tanta questão de colocar-me frente a ela... e como Nana sabe de tudo? Todos sabem de tudo, parece que a única que não sabia de nada era eu!
Olhei para o rádio-relógio: três da manhã; três e meia; quatro; quatro e quinze; quatro e meia; cinco... peguei no sono.

Acordei às oito disposta a resolver uma coisa.

***

Campainha?
Quem é capaz de acordar uma pessoa às nove da manhã de um sábado? Pior, tocando a campainha alucinadamente. Pior ainda, a portaria ter permitido isso! Um absurdo...cabeças vão rolar depois disso!
Olhei pelo olho mágico, virei-me de costas para a porta e encostei-me nela não acreditando que já teria de enfrentar isso logo cedo.
Puta que pariu... aturar Fernanda, A amargurada, a essa hora da manhã não dá... Mas vou precisar encará-la de alguma forma. Respirei, abri a porta e sorri.
O tapa foi horrível de dolorido. A mão espalmada no meu rosto com certeza deixou marca. Ainda bem que a festa foi ontem senão não sei o que faria para disfarçar os cinco dedos na minha face alva. Haja base porque, a considerar pela dor, o estrago foi grande.
Fernanda virou a mão na minha cara e disse: — Precisava vir aqui fazer isso, só para começar a reorganizar minha vida.
Fiquei parada olhando para ela com a mão no rosto, mexendo o maxilar porque parecia que ele havia sido tirado do eixo. Eu já estava descabelada porque estava tendo o sono dos justos. Pelo visto ela não conseguiu dormir.
Que pena. Ela não vou conseguir mais pegar.

***

Saí de alma lavada.
Um pouco porque, na verdade, gostaria de matá-la. Incrível como existem pessoas que têm como único objetivo atrapalhar a vida do outro, por puro prazer. Depois de uma noite horrível pude enxergar que Laís atrapalhou bastante um possível reencontro meu com Clarice... O que mais será que ela e aquele almofadinha do Gustavo aprontaram?
Mas, pelo que me parece, Clarice e ela estão juntas. Será que Clarice sabe que Laís me conhece?
Neste exato momento não importa. Voltei para casa e encontrei Pedro tomando café para ir ao clube. Quando me viu passando pela porta assustou-se.
— Dormiu fora novamente? – perguntou depois de alguns instantes com um sorriso irônico no canto dos lábios.
— Não. Acordei cedo para começar a organizar minha vida. – respondi sentando-me diante dele. — A primeira coisa já resolvi, agora precisamos NOS resolver... – olhei-o decidida: — Pedro, quero o divórcio. Amanhã começo a procurar um outro lugar para ficar. Vamos resolver nossas vidas, não podemos mais viver nesse caos.
Ele ficou me observando durante alguns instante e depois levantou-se jogando o guardanapo sobre a mesa.
— Ok. Providencie os papéis.

***

Só consegui pegar no sono depois das seis da manhã.
Nana dormiu em casa e quando me levantei, às onze, ela já tinha preparado o café.
— Está mais calma? – perguntei sentando-me à mesa.
— Essa pergunta é minha. – respondeu enquanto passava geleia nas torradas.
— Ontem, além de tudo, quase morri do coração com você ao volante.
— Desculpa. Estava... estou mesmo furiosa com Laís. – pegou sua xícara de café, enquanto eu preparava a minha, e me encarou tensa: — Laís e Gustavo estavam manipulando vocês... Com certeza Fernanda não sabia que vocês se conheciam. E tem uma coisa que preciso te contar...
Parei de mastigar e a encarei na mesma intensidade. Parei de respirar também quando a vi corando.
— O quê, Nana?!!
Ela respirou fundo e:
— Vi Laís e Fernanda juntas num restaurante na quarta-feira à noite. Estava lá em reunião de trabalho. Não era só um jantar entre amigas, Clara... eu vi Laís beijando o canto da boca de Fernanda e cochichando ao seu ouvido... as duas trocaram carinhos...
Estava pasmada.
— Por que não me contou?!
— Porque tinha certeza de que nesta festa algo aconteceria e eu queria desmascarar essa vigarista, puta de merda, que nem consegue ser sacana sem deixar vestígios por todos os lados.
O café não desceu mais. Levantei-me da mesa e fiquei andando pela cozinha morrendo de raiva por ter sido feita de otária por Laís.
— Não acredito que ela fez isso!! Ela mentiu, me enganou... ela...
— Ela vai ter o que merece, Clarinha... te prometo.
— Vou lá, preciso dizer umas poucas e boas...
— Não. Você vai se preparar para encontrar Fernanda... deixa que cuido de Laís. Prepare-se até segunda-feira.
— Por que até segunda-feira?
— Confie em mim, querida.

continua...

2 comentários:

Mariana Cortez disse...

Tá lá, Ana!
Beijos!! rs

Anônimo disse...

Nossa perfeita a história... Até que enfim as máscaras da Laís estão caindo.

Esperando ansiosamente pela segunda-feira!

Bjs