Pedro saiu cedo para a exposição, pois tinha que fazer as fotos que, amanhã, estamparão as páginas dos cadernos de cultura dos principais jornais do país. Não quis ir com ele. Mesmo tendo me esforçado, não conseguiria entrar com ele na festa de Laís.
Arrumei-me com capricho porque queria dar uma chance a mim, esquecer de uma vez por todas Clarice e, se acontecer, estar bem para Laís. Da última vez em que estivemos juntas, eu a senti enciumada quando contei que o telefonema era de Clarice, acho que cheguei a enxergar medo em seu olhar e sua indignação me fez pensar que talvez...
Bom, antes de mais nada preciso estar livre para qualquer envolvimento mais intenso. Quero conversar com Pedro mais uma vez, ele já teve tempo suficiente para amadurecer a ideia do divórcio. Eu não voltarei atrás.
Havia trânsito próximo ao local da exposição, um galpão abandonado que foi todo reformado para se tornar a galeria que abriga as obras dessa exposição. As obras de Laís são meio retrô, tudo a ver com o local escolhido. Essa festa gerou grandes expectativas na imprensa, portanto, claro que todos da área gostariam de estar aqui. Não sei se todos conseguiram, mas os carros estavam se amontoando diante do valet. Encostei o meu na fila e entreguei minha chave. Mas, mal entrei na festa e Gustavo veio em minha direção apressado, pegou-me pelo braço e olhou-me aflito.
— O que aconteceu Gustavo?
— Fê, você não vai acreditar! – estava visivelmente transtornado. — Esqueci uma das obras de Laís no apartamento dela.
— E o que posso fazer para ajudar?
— Por favor, vá até lá e traga-a. Não posso sair daqui, organizei tudo... preciso estar com Laís... e se ela souber que a obra que ela terminou no início da semana não está aqui, sou um homem morto.
O que eu poderia dizer?
— Ok. Vou até lá. – virei-me com pressa e fiz sinal para o manobrista me devolver a chave. Iria o mais rápido que conseguisse.
Quando virei-me para me despedir de Gustavo dei de cara com Nana. Jamais esperaria encontrá-la nesse evento.
— Nana?!
— Olá, Fernanda. – cumprimentou-me com um sorriso, mas não parecia muito espontânea, nem surpresa em me ver. Mesmo assim, olhou-me nos olhos, apertou minha mão e me deu um beijo. Eu, ao contrário dela, estava feliz por vê-la, gostaria de conversar mais com Nana, gostaria de tê-la como companhia naquela festa.
— Não sabia que conhecia, Laís...
— É... talvez conheçamos mais pessoas em comum... – disse-me séria, enigmática, mas não tive tempo de esticar a conversa, pois estava com pressa.
— Preciso fazer um favor para Gustavo. Volto logo. – e saí.
***
São Paulo, como sempre, congestionada. Era uma sexta-feira, nove horas da noite, zona Sul da cidade. Uma bagunça, um milhão de carros querendo encontrar bares, teatros, shoppings, casas noturnas, ou estacionar em alguma brecha da rua. Uma loucura chegar a qualquer lugar... Pensei em voltar, mas não podia deixar de fazer esse favor a Gustavo, e se é importante para Laís... afinal é sua última obra. Liguei o som e continuei na fila de carros, mudando vez ou outra a marcha: primeira, segunda, primeira, segunda. Detalhe: Laís mora na zona Norte.
***
— Conseguiu? – perguntei quando tive oportunidade, depois de muito tempo e cumprimentos, de me aproximar de Gustavo, que observava soberano o movimento no salão lotado.
— Eu disse que dava um jeito. – sorriu me olhando por cima. — Mas, não estranhe quando vir aquela sua estátua de pé quebrado...
Olhei-o interrogativa.
— O que está me dizendo?
— Que disse a ela que esqueci uma obra sua no apartamento e a única que me veio a cabeça foi aquela estátua de pé quebrado que você parou na metade.
Olhei-o fixamente para, em seguida, explodir numa gargalhada e ele também. Aquela obra estava horrível, totalmente fora do que eu pretendia... mas acabou me servindo para alguma coisa. Teria de escondê-la assim que chegasse.
***
Laís estava exuberante. Mais ainda posando para os flashes... Ela sempre adorou bajulações, elogios, tudo isso que alimenta seu ego, a deixa brilhando, feliz... e chama a atenção de todos, iluminando o ambiente.
Estava conversando com Júlio e Marcelo quando, vez ou outra, percebia que ela me procurava com os olhos e, quando eles me encontravam, sorria. Sentia que era importante minha presença ali, via que ela realmente estava feliz, e me sentia bem com isso. Na verdade, meus olhos também procuravam por ela. Acho que Laís vai me conquistar... pelo menos preciso que isso aconteça.
Enquanto ficávamos nesse jogo de olhares e sorrisos insinuantes, eu tentava encontrar Nana, que sumia a todo instante, como se conhecesse metade da festa.
— Nana, onde você se meteu dessa vez? – perguntei segurando-a pelo braço. — Arrumou um caso? – ela não sorriu, estava séria, não parecia estar se divertindo.
— Estava ali na entrada... – respondeu aérea, olhando ao redor.
— Fazendo o quê, criatura?! Aconteceu alguma coisa?
— Ainda não, mas acho que vai... – respondeu me olhando.
— Nana, fala comigo! Por que está assim, tão estranha?
— Tenha paciência, Clara.
E foi se afastando novamente. Muito estranho.
***
Não acredito que consegui chegar!
Levei simplesmente uma hora e quinze minutos para chegar até aqui. Se eu levar esse tempo para voltar, certamente a festa já terá terminado.
Subi até o apartamento de Laís, abri a porta e dei de cara com uma estátua estranha. Só pode ser esta. Estava dentro de uma embalagem de plástico. Olhei ao redor e não vi mais nada que pudesse me causar dúvidas de que era aquela obra que eu tinha que levar.
A volta foi mais tranquila até determinado ponto, mas os arredores do galpão estava muito congestionado e tive que esperar mais meia-hora até conseguir encostar o carro para o manobrista levá-lo. Conclusão, só às onze e dez estava de volta com a obra de Laís.
Peguei a embalagem e entrei no galpão. Imediatamente Gustavo veio até mim.
— Minha querida, muito obrigado! Você salvou minha vida! – segurou-me pela mão e começou a me puxar não sei para onde.
— Gustavo, vou buscar uma bebida e cumprimentar Laís... – tentei me desvencilhar dele para aproveitar a festa.
— Vou levá-la até ela já já, antes quero que você conheça...
— Fernanda?
Olhei por cima do ombro e vi Nana.
— Oi, Nana! – soltei-me de Gustavo e fui até ela.
— Vem comigo? – estendeu-me a mão séria.
— Mas ela vai ali comi... – tentou impedir Gustavo, mas Nana apertou minha mão e senti uma tensão no ar.
— Gustavo, eu a devolvo. Só quero conversar com ela um minuto.
— O que está acontecendo, Ana?
— Depois te explico.
E subimos até o mezanino. Desviamo-nos de uma multidão na escada e quando me vi no andar de cima havia ainda mais gente. Nana continuou a me puxar trombando com algumas pessoas. Atravessamos o espaço e saímos num local ao ar livre, como um terraço.
Vi Laís abraçada a uma mulher.
— Clarice! – chamou Nana.
Clarice?
Laís soltou a mulher e virou-se rapidamente.
A mulher que Laís abraçava era Clarice, que quando viu Nana segurando-me pelo braço paralisou-se apoiada numa bengala.
— Acho que vocês precisam conversar.
***
Quando a voz tensa de Nana me chamou, quase num grito, e me virei, tive que apoiar-me. Ver Fernanda ali, na minha frente...
Laís foi imediatamente cumprimentá-la com um abraço, mas Fernanda, estática, não tirou os olhos de mim. Os meus já estavam cheios de lágrimas e queria muito abraçá-la, sentir que ela estava ali, que era de verdade, mas Laís não parava de falar e as pessoas muito próximas de nós também falavam, falavam... estava ficando tonta com todo aquele barulho.
— Fê, que bom que você veio!
Em seguida Gustavo apareceu ofegante. Nana puxou Laís por uma mão e Gustavo pela outra, mas foi impedida de seguir caminho por um homem grande que se aproximou com uma câmera enorme pendurada no pescoço.
— Fernanda! Pensei que não viria...
Provavelmente era Pedro, marido dela.
Eu estava ali, imóvel quando ela assustou-se com a presença dele e sorriu sem graça.
— Tive um imprevisto.
Laís desvencilhou-se de Nana e veio até mim puxando a manga da camisa do homem grande.
— Clarinha, esse é Pedro, fotógrafo da exposição...
Tentei manter meu foco: Fernanda, mas Laís fez questão de estar entre nós duas, tumultuando, de modo que eu não tinha outra alternativa que não fosse olhar para aquele homem e disfarçar meu tormento: — Prazer. – sorri forçadamente enquanto ele estirava a mão para apertar a minha.
Quando meus olhos se desviaram apressadamente dos dele para voltar aos de Fernanda não a vi mais.
***
— Gustavo, o que você quer comigo? Por que não me deixa em paz? – perguntei descontrolada, enquanto ele me levava escada abaixo.
— Eu só queria te poupar...
Parei no meio da escada e o encarei... começando a entender algumas coisas.
— Me poupar do quê? – perguntei furiosa, a fim de esmurrá-lo também.
— De saber que Laís e Clarice estão juntas. – ele me disse calmo, friamente, analisando minha reação. Filho da ...
— Vocês sabiam... VOCÊS SABIAM O TEMPO TODO!!! – só me dei conta do que tinha feito quando ouvi a palma da minha mão estalar no rosto de Gustavo. Meu sangue subiu com tanta força que perdi completamente a compostura e parti para cima com todo meu ódio. Eu mataria aquele desgraçado e depois enfiaria a mão naquela vaca da Laís! Mas alguém me segurou pela cintura e me levou dali.
Era Júlio que me afastava enquanto Marcelo puxava Gustavo para o outro extremo.
— Preciso ir embora daqui. – disse tonta, enjoada por estar ali.
— Levo você.
***
Laís falava olhando para mim, mas eu não entendia.
Estava transtornada. Tive Fernanda na minha frente e não consegui dizer absolutamente nada. Laís olhava-me enquanto falava e gesticulava para outras pessoas que se juntavam ao nosso redor, senti seus dedos roçando minhas costas e ela gargalhava com alguém próximo. Eu estava com dor de cabeça, sentindo-me sufocada, precisava ir embora. Saí dali, do meio da roda, e Laís me segurou.
— Aonde vai, meu amor?!
Antes que eu respondesse Nana apareceu para me salvar. Passou seu braço sobre meu ombro.
— Laís, vá cuidar da sua festa. – e tirou-me daquele tiroteio de palavras, risadas e música alta.
— Nana, por favor, me tira daqui.
continua...
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
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4 comentários:
Olha, foram mais capítulos das duas sofrendo e se desencontrando do que felizes juntas... Então é o seguinte... Vai ter que dedicar pelo menos uns dois capítulos enormes à lua de mel das duas...rs... Beijos!
PS: Eu te perdôo por me fazer sofrer...rs..
Eu estou com uma vontade de quebrar a cara dessa Laís, já passou da hora da Laura e da Fernanda descobrirem q ela não vale nada.
Concordo com o outro comentário, foram tantos capítulos de sofrimento, que tem q haver pelo menos uns dois (enormes) com as duas felizes.rs
Bjs, parabéns pela história
Oi, meninas!
Pois é... tá sofrido, né? Vejam como são os mal-entendidos e as pessoas que se dedicam a acabar com a felicidade dos outros? Mas a tempestade vai passar, eu garanto, rsrs.
Beijos e obrigada!
Mariana do Socorro, diz prá mim que a senhora sabe que hoje é sábado e portanto, dia de post grandi, grandi, grandi...
Bjkas,
Ana Maria
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