sábado, 11 de setembro de 2010

CAPÍTULO 29 – CONTAGEM REGRESSIVA

— Por que você não atende a merda do celular?
— Estava correndo feito louco atrás dos detalhes da festa de lançamento da sua exposição, portanto, abaixa a bola.
— Querido, não se faça de vítima porque todo esse circo traz muito dinheiro para você também.
— Bom, estou aqui, minha ama. O que deseja?
— Estou com problemas em administrar Clarice e Fernanda.
Quando mencionei o motivo de minha intimação, Gustavo baixou a guarda. Sorriu sarcasticamente, folgou a gravata e relaxou.
— Se metendo em confusão de novo com suas mulheres...
— É... mas antes era só brincadeirinha. – respondi descalçando os sapatos e caminhando em direção à varanda para ver a vista do sol se pondo. Gustavo veio atrás de mim já segurando um copo de uísque.
— E não é brincadeira agora?!
— Eu queria, de fato, ter um relacionamento com Clarice... mas manteria um caso com Fernanda, sem problema nenhum porque Fernanda está com fome, sabe? – ele sorriu malicioso e eu acendi um cigarro. — Mas ainda rola uma coisa forte entre as duas... Elas vão se falar, elas já se descobriram... – agora estava mais pensando alto do que conversando com Gustavo.
— Como assim se descobriram? – perguntou curioso.
— Clarice já sabe que conheço Fernanda, descobriu pelo facebook... um vacilo estúpido e imperdoável meu. Com certeza vai procurar por ela, mas acho que vai na defensiva porque tratei de desmoralizar a burguesinha e dizer que ela também não foi ao tal encontro romântico... disse que Fernanda me confidenciou que o caso que tiveram foi só uma diversão...
— Você é mesmo perigosa... Mas, e se, quando se falarem, Fernanda contar que foi?
— É um risco. Mas tentei persuadir Fernanda... Ela é bem mais fácil de manipular. – traguei com força o cigarro... precisava relaxar.
— Minha questão agora é outra: o lançamento de sexta-feira.
— O que é que tem?
— As duas são minhas amigas, Gustavo! As duas estarão lá!
— Mas Clarice sabe que você conhece Fernanda...
— Mas Fernanda não sabe que conheço Clarice... – saí da varanda nervosa porque, aos poucos, convencia-me de que estava me enrolando demais. Sempre gostei de brincar de gato e rato, mas as mulheres em questão não se conheciam, era muito mais fácil... agora vacilei e tenho que tentar consertar isso afastando-as o máximo que conseguir.
— Posso cuidar de Fernanda. – disse Gustavo lá de fora, sem se virar, observando a cidade escurecendo do alto.
Isso me animou. Gustavo, vez ou outra, tem algumas ideias.
— Como?
— Deixa comigo.

***

Dormi feito uma pedra depois de duas noites em claro. Não há organismo que resista à tanta expectativa que, em seguida, é mergulhada em água fria... congelada. Estava com o corpo todo dolorido depois de umas doze horas de sono profundo. Quando acordei não quis levantar e, então, dormi novamente. Na noite de quinta-feira tive que, finalmente, levantar para atender Nana, que tocou a campainha irritantemente até que eu tivesse vontade de matá-la e, para isso, teria de ir até a porta.
— Cara, o que aconteceu? Estou tentando falar com você desde ontem à noite! – entrou porta adentro bronqueando, olhando ao redor. — O que aconteceu por aqui, Clara? – perguntou surpresa, com voz forçadamente serena, após ver cacos de vidro espalhados por parte da sala e suco esparramado pelo chão.
— Surtei. – respondi simplesmente virando-lhe as costas e voltando para a cama. Claro que ela veio atrás, sentou-se ao meu lado... tirou os fios de cabelo que caíam sobre meu rosto enterrado no travesseiro.
— Me conta tudo desde terça-feira à noite, quando te deixei com uma bomba nas mãos.
Fiquei um tempo em silêncio, precisava recapitular os últimos acontecimentos porque tinha a sensação de ter dormido anos... melhor se fosse assim, e acordasse quando tudo tivesse passado, inclusive dentro de mim. Sem pressa ela esperou, tirou os tênis e juntou-se a mim na cama. Que bom que eu tinha Ana Paula para compartilhar minha vida, alegrias e tristezas. Precisaria mesmo de alguém como ela para me ajudar a carregar a infelicidade. Deus! Estou com muita dó de mim, que péssimo!
Respirei e contei tudo. Desde o momento em que descobri que Laís conhecia Fernanda até o telefonema ontem à noite. Nana escutou-me sem interrupções, mas fazia expressões críticas durante meu relato, refletindo, observando minhas reações.
Chorei novamente, dolorida, e declarei, tendo minha amiga como testemunha, que não ligaria mais para Fernanda, pois comprovei que ela tem uma vida, que seguiu adiante e que me tratou como uma estranha. Não a reconhecia, não era a mulher por quem eu tinha me encantado naquele avião, e teria de encontrar novos motivos que me motivassem novamente para qualquer coisa.
— Que coincidência Laís conhecê-la... – pensou um pouco roendo a unha. — Será que ela não sabia que você e Fernanda...
— Antes de eu contar? Muito pouco provável... Ela me disse que é amiga do marido dela. – lembrei-me do que Laís me contou sobre Fernanda e me senti ainda mais amarga. — Laís me contou que Fernanda teve um caso com um amigo do marido... então achou melhor cortar relações...
— Laís disse isso?!! – Nana franziu o cenho desconfiada. — Desde quando Laís tem esses pudores? Sabemos que a própria já fez coisas muito piores... – levantou-se, calçou novamente os tênis e ficou caminhando pelo quarto. — Laís está muito a fim de você... e se ela estiver inventando...
— Pensei nisso, mas Fernanda confirmou que não foi ao encontro.
— Fernanda não me passa a imagem de uma leviana... – comentou Nana ainda pensativa.
— As aparências enganam...

***

Na quinta-feira, acordei atrasada ainda vestida, atravessada na cama, do jeito que caí na noite anterior. Esqueci de colocar o despertador, fiquei atordoada demais para pensar em alguma coisa, estava, ontem à noite, dominada por um misto de raiva e tristeza: raiva por ela ter me ligado depois de tanto tempo e tristeza por perceber que realmente não tínhamos mais nada a ver uma com a outra. Agora, acordava com uma ressaca na alma.
A sensação era de derrota... mais uma.
Depois de retomar a noção de mim mesma, percorri os cômodos e cheguei à conclusão de que Pedro não havia dormido em casa. Minha vida estava mesmo um caos. Não tinha ânimo de ligar para ele, mas era minha obrigação... poderia ter acontecido alguma coisa. Espero que não, espero que ele tenha tido a noite que tive quando dormi em outro lugar.
Amanhã será o lançamento da exposição de Laís e terei de estar impecável ao lado dele, meu marido, ainda. A artista da exposição? É meu caso atual. Essa é minha vida... e não estou feliz com ela.
***

Sexta-feira.
Finalmente.
Depois de estar entre as mostras dos melhores contemporâneos, das maiores revelações da década, agora sou eu, sozinha, A melhor, A revelação. Um espaço inteiro para minhas obras, para os textos de Clarice apresentando-as.
Finalmente eu tenho tudo. Eu conquistei tudo.
Tirei o dia de noiva. É cansativo mas fui para o spa ficar lá mergulhada em lama, banhos, maquiagem, precisava estar deslumbrante hoje, especialmente hoje, porque a noite é minha. Gustavo foi me buscar e, no apartamento, meu vestido e uma garrafa de prosseco me esperavam.
— Você está linda, querida. Hoje a noite é sua! Divirta-se.
Brindamos e viramos a taça num único gole para esquentar a noite.
— Vou me divertir muito, afinal... há algo mais importante do que isso na vida?
— Claro que não... a vida é SÓ diversão.
Sem a menor pressa me vesti, tomei mais prosseco, olhei-me no espelho e realmente me senti bonita. Não consigo entender porque Clarice não esquece logo a burguesia e fica comigo. Seríamos uma dupla e tanto.
Gustavo estava atrás me olhando pelo espelho, encostado no batente da porta admirando eu me admirar. Ele estava elegante, charmoso... Provavelmente sua carreira também dará um “up” depois dessa exposição. Somos imbatíveis e sei que hoje, mais uma vez, poderei contar com ele.

O galpão estava muito bem decorado, um ótimo gosto, tudo chique, sem afetação. Gustavo cuidou muito bem de tudo. Andei pelo ambiente e cumprimentei os primeiros convidados. A luz fraca, o burburinho das conversas, a bebida, o sorriso das pessoas bonitas deixavam o ambiente intimista, aconchegante, sensual como minhas obras. Passei a ler os textos de apresentação que Clara escreveu para cada conjunto de obras. Ela entendeu tudo, Clarice sabia o que eu sentia e pensava ao produzir cada peça. Perfeito.
Pedro já estava no mezanino fotografando as obras sob a luminosidade que eu queria, meia-luz ou luz de velas. Quando se aproximou para me cumprimentar, vários pensamentos vieram à minha cabeça, inclusive o de que eu estava me deliciando com sua mulher... Sempre achei Pedro lerdinho, nunca enxergou o que está diante do seu nariz.
— Laís, a exposição está linda! Parabéns.
— Tenho certeza de que suas fotos vão deixá-la ainda mais especial. – respondi sorrindo enquanto o abraçava e olhava para Gustavo com cara de tédio.
— E Fernanda, não veio com você? – perguntei oferecendo-lhe uma taça de champanhe que passava por nós sobre a bandeja do garçom.
— Vem um pouco mais tarde. – respondeu com um sorriso triste. Por que será? Será porque sua esposa está comendo fora de casa?!! Não estava com paciência para consolar ninguém... só queria me divertir e, se tiver sorte, beijar Clarice e a mulher dele.
Conversamos algumas amenidades para que eu pudesse observar ao redor sem deixar de estar acompanhada, mas, quando vi Clarice, deixei de ouvir o que Pedro estava me dizendo para vislumbrar aquela mulher tão delicada mas que, ao mesmo tempo, me transmitia uma personalidade, um estilo tão fortes que me intimidavam, que faziam com que eu a respeitasse e a achasse irresistivelmente atraente. Clarice não era o tipo mulherão, era pequena, mas seus gestos, seu modo de olhar me excitavam... estava enfeitiçada. Usava um vestido lindo, listrado de cores vivas, estava com um novo corte de cabelo, os brincos e o colar davam a ela o toque de sofisticação. A bengala deixaria qualquer outra mulher brochante, mas para Clarice tornou-se um amuleto, um charme.
Deixei Pedro falando sozinho e fui em sua direção, encantada pela atenção que ela me dispensava, apaixonada pelo sorriso largo, com olhos brilhantes. Aproximei-me tentando hipnotizá-la também, a fim de que ela me quisesse como a quero. Abracei-a com cuidado, acariciei suas costas, beijei seu rosto demoradamente e acho que seu corpo correspondeu aos meus estímulos porque o senti tenso. Adorei isso.
— Suas apresentações ficaram maravilhosas... – cochichei em seu ouvido e, depois, olhando-a nos olhos: — Preciso retribuir a gentileza. – Clarice correspondeu com um olhar malicioso, observou-me de cima a baixo e me arrepiei, e percebi que ela queria o mesmo que eu.
Não tinha notado Nana ao seu lado. Ela ousou quebrar a mágica daquele instante entrando em nossa frente e abraçando-me para os cumprimentos. Só então me dei conta de que, afinal de contas, eu tinha que dar atenção para as outras pessoas.
Pedi à Clarice que não fosse embora sem falar comigo, queria muito combinar algo com ela ainda naquela noite tão especial para mim. Não vou perdê-la de vista.

Estava dando uma entrevista quando avistei Fernanda chegando... de parar o trânsito. O que faço com essas mulheres?! Mas, imediatamente busquei Clarice com os olhos e não a encontrei próxima. O que vi foi Gustavo, com expressão de assustado abordando Fernanda e dizendo algo em seu ouvido. Em seguida, vi Fernanda fazer sinal para que o manobrista não guardasse o carro. Mas também vi Nana se aproximar e as duas conversarem. Não sabia que se conheciam... Depois de alguns segundos de conversa Fernanda entrou em seu carro e saiu.
Gustavo me procurou com os olhos e, quando me encontrou, sorriu discretamente.

continua...

2 comentários:

Unknown disse...

Mari, vc tá merecendo umas palmadas...rs... Estou impaciente... Faz o seguinte, me coloca na história que eu mesma dou uma surra nessa Lais...rs...

Mariana Cortez disse...

Oi, Pri!
Pois é... a Laís é como uma pedra no caminho... Mas nas histórias a gente sempre pode escrever um final feliz, né? rs.
Tá acabando. Espero que goste.
Beijos. Obrigada por estar acompanhando.