sábado, 4 de setembro de 2010

CAPÍTULO 28 – COMO ESTRANHAS

Não conseguia prestar atenção em absolutamente nada do que minha mãe dizia. Mais de uma vez ela chamou por mim e perguntou se eu estava no mundo da Lua. Não, mamãe, eu estava ligando, depois de três anos, para Fernanda e precisava mesmo estar sozinha porque você não iria entender nada... porque ninguém tem noção do que passei e como estou (bom, acho que Nana tem). Minha mãe interrompeu um “processo” tenso e a sequela foi o desencadeamento de um estresse imenso, e de um medo também, porque não sabia se seria capaz de ligar novamente, agora que sei que meu número está gravado no celular dela.
Penso que, se meu número está gravado lá, e se ela o reconheceu, cabe a ela dar o segundo passo. Na verdade, não cabe nada porque a situação é delicada. Primeiro: ela pode simplesmente ignorar a ligação por simplesmente não saber de quem é o número, afinal, quais as chances de alguém se lembrar de um número que não vê há três anos? Segundo: ela pode estar me achando uma verdadeira idiota por ter desaparecido por tanto tempo e ter dado as caras só agora, e mais, nem ter sido capaz de dizer um “oi”.
Patética a situação.
Quando a campainha tocou, derrubei o celular (ainda bem que não quebrou). Quando abri a porta e vi mamãe, minha expressão de decepção a decepcionou e fiquei tentando reverter o mau jeito, sem sucesso, pois ela falava comigo e eu não escutava.
Argumentei que estava cansada, desacostumada com as aulas, com os planejamentos de aulas, enfim... bilhões de desculpas. Ela disse que me perdoava e começou a me mostrar roupas que comprou para mim na viagem que fez a Nova York. Meus gestos foram mecânicos e meu coração saltava toda vez que o celular tocava. Nana, Marcelo e Luana me ligaram e sentia-me exausta de tanta tensão.
Achei que ela não fosse embora nunca mais, achei que a qualquer momento diria: “Querida, já que está cansada, vou ficar aqui alguns dias cozinhando e arrumando as coisas para você”. Teria um enfarto a qualquer momento se ela não saísse porta afora. Reconheço tudo o que mamãe fez por mim e a amo enlouquecidamente, mas preciso estar só para pensar no que fazer.

Agora tomo um banho demorado, retardando minhas próximas ações porque todas elas estão envoltas ao questionamento: voltar a ligar para Fernanda ou esperar que ela me ligue?
Quando liguei tinha um texto na mente: dizer que depois de muito tempo encontrei seu cartão e me vieram lembranças boas do dia que passamos juntas.
Não pretendo confundi-la, nem estragar seu casamento... na verdade, acho que não faria isso de modo algum, já que sei que ela não foi ao encontro, ou seja, o que passamos não significou muito para ela. Estava magoada, mas a vontade de ouvir sua voz era maior. Ter seu número de telefone novamente, depois de tanta espera, e não fazer nada seria um desperdício, seria covardia não ouvir o que ela tem a me dizer... ou não.
Peguei o celular várias vezes e desisti de ligar no último algarismo. Meu coração estava alucinado. Coitado. Mais uma noite sem dormir...
Estava na cozinha preparando um lanche quando o aparelho tocou novamente na sala. Tentei alcançá-lo o mais rápido que consegui.

Era ela.

Tentei me acalmar um pouco. Deixei que o celular tocasse e isso não era parte de nenhuma estratégia, era medo.
— Alô.
Silêncio do outro lado. Tentei novamente:
— Alô...
Não me responde, mas só pode ser ela.
— Fernanda? Fui eu, Clarice, quem ligou mais cedo..., ... lembra-se de mim? – perguntei com cautela para não afastá-la.
— Clarice... não pensei que você ligaria...
As frases iam ficando pela metade. Tentava conter minha emoção em ouvi-la e quase não consigo porque um nó forte se formava em minha garganta e minha voz falhava. Fernanda também parecia surpresa, parecia que também não sabia bem o que dizer... sua voz não me passava a segurança de antes.
— Pois é... – sorri. — Muitas coisas aconteceram desde aquela viagem.
— Sim... muitas coisas...
— ...
— ...
— Desculpa ligar, talvez tenha sido um impulso inconsequente... talvez eu não devesse ligar...
— Achei estranho... depois de tanto tempo...
Estávamos totalmente embaraçadas. Aquele texto que ensaiei falar não saía. Não tinha coragem de dizer que encontrei seu cartão por acaso porque não era verdade, mas também não posso dizer que o estava procurando há três anos sem que, para isso, tenha que dizer o motivo. Não quero dizer (até porque ela também não foi), não quero atrapalhar o que ela construiu, não quero que tenha pena de mim.
Resolvi mudar de assunto, apenas saber como ela estava, apesar de querer saber muito mais.
— Como você está, Fernanda?
— ...
— Fernanda?
— Estou bem, Clarice... trabalhando bastante...
Tentei arriscar:
— Desculpa não ter ido ao encontro...
— ...
— ... eu deveria ter avisado... mas...
— Não se preocupe, Clarice, também não fui.
Como doeu ouvir isso.
— Não?
— Não. Então... acho que estamos quites.
— Sim. Pensei que tivesse te magoado, mas acho que me sinto mais aliviada sabendo que você também não foi...
— Por isso está ligando hoje?
Não tive como não rir.
— Bom... não sei ao certo... acho que queria ouvir sua voz...
— Então você não sabe por que ligou?
Senti uma certa irritação em sua voz.
— Liguei porque senti saudades.
Não resisti. Não estava mais conseguindo me segurar.
Ela riu do outro lado da linha. A sensação que eu tinha era de vazio, de que tudo tinha perdido o sentido. Ela também não foi ao encontro, então, o que estávamos fazendo? Que besteira eu ter ligado para ela!
Ficamos em silêncio por algum tempo e, já que tinha feito a besteira, achei por bem fechá-la com chave de ouro:
— Fernanda, por que você não foi ao encontro? – perguntei à queima roupa. Ela manteve o silêncio por um instante infinito e me respondeu seca, com a voz segura da empresária de sucesso:
— Provavelmente pelo mesmo motivo que você.
As lágrimas saltaram dos meus olhos. Só tinha que controlar meu tom de voz para que ela não percebesse que estava chorando.
— Ok. Só queria saber... – parei por um momento para respirar e encerrar aquela conversa surreal. — Eu queria apenas retomar o contato. Foi ótimo falar com você... Desculpa se te incomodei.
— Não me incomodou. Foi bom ouvi-la.
— Certo. Então, até mais.
— Até.
Desligou.
Toda a tensão absurda que sinto nos dois últimos dias tomou a proporção de dor por todo meu corpo... e toda minha alma. Chorei com força, com raiva, com toda tristeza que há em mim. Joguei o copo com suco na parede da sala e caí sobre o tapete a fim de morrer, de ficar imóvel novamente porque a dor era a mesma que senti naquela cama de hospital. Queria dormir e acordar somente quando essa dor, exaustão imensa, tivesse passado.
Deixei que as lágrimas caíssem, lavassem meu rosto. Preciso tirar Fernanda de mim de uma vez por todas.

***

Corri para o quarto. Pedro não estava.
Peguei o celular da bolsa decidida a ligar. Tinha que aproveitar meu acesso de coragem... Mas não seria boba. Vou apenas saber o que Clarice quer comigo... Mentira. Na verdade quero ouvi-la, saber se continua com aquele tom alegre, divertido na voz... quero aquecer meu coração. Porém, não posso deixar a emoção me dominar... totalmente. Clarice foi sacana comigo... me deixou esperando em um aeroporto do outro lado do mundo e, nem ao menos, me ligou para dizer que não estava a fim de aparecer ou inventar qualquer desculpa esfarrapada. Agora essa ligação não completada... ridículo.
Lavei o rosto, apertei minhas mãos como se isso fosse suficiente para impedir que elas parassem de tremer. Só não sei o que fazer para que meu coração desacelere. Respirei fundo e digitei os números.
Minha voz sumiu ao ouvir a dela me chamando. Deus! Que saudade. Tive que respirar mais fundo e tapar minha boca para que ela não percebesse a explosão do choro. Impossível não perder o controle depois de ouvi-la tão doce. Era um fio de voz... não senti a alegria, mas acho que ela estava tensa, talvez tenha se arrependido de ter ligado... mas era tarde.
Pensei em desligar, não achei que fosse conseguir dizer algo sem que ela reparasse na minha voz trêmula e chorosa. Mas consegui manter contato à medida que percebia que ela também estava embaraçada.
Perguntou se eu me lembrava dela... Chega a ser engraçado. Realmente ela não tem noção do que causa em mim. Da mesma maneira, não faz ideia de como despertou minha raiva quando perguntou sem rodeios por que não fui ao encontro. O que ela queria que eu respondesse? De verdade eu me sentiria uma idiota se dissesse que fiquei lá uma eternidade esperando por ela. Tenho que, pelo menos, tentar manter a cabeça erguida.
No fim de uma conversa sem muito nexo, mas surpreendente, sentei-me na cama para recaptular cada fala e tentar encontrar nelas algum sinal, de alguma coisa, que me fizesse crer que ainda temos uma chance.

continua...

Um comentário:

Unknown disse...

Nossa amiguinha, quanto mau entendido... Quanta sacanagem da tal Laís e quanta idiotice dessas duas...rs... Tá me dando nso nervos... Faça com que elas esclareçam tudo logo e juntas dêem uam surra na Laís...rs... Seria a glória...rs... Beijos!