Quem é lésbica?
Quem é lésbica assumida?
Quem é lésbica assumida mais ou menos?
Quem é lésbica no armário?
Quem é lésbica enrustida?
Se fôssemos somar todas essas categorias, acho que um terço das mulheres do mundo, hoje, são gays.
Quantas amigas não se “assumem” depois que você conta quem é? Quantas, vez ou outra, dão uma declaração bombástica depois de algumas cervejas, do tipo: “a Angelina? Nossa! Até eu pegaria!!”
Pois é, as pessoas que habitam esse mundo louco são uma incógnita, e acho legal elas serem assim, pois nos reservam surpresas que tornam nosso dia a dia muito mais emocionante.
Eu me encaixo no “sou lésbica assumida mais ou menos”, mas, pelos indícios que tenho, acho que por pouco tempo (logo mais subo para a primeira categoria). Pensando bem nas categorias que listei acima, acho que já fiz parte de todas elas... e agora, finalmente, estou chegando ao topo! Isso é ser bem resolvida?!
Quando estava na categoria “sou lésbica no armário”, fiz a confissão para minha mãe que se tornou meio “traumática” para mim, mas subi para a categoria “sou lésbica assumida mais ou menos”. A partir daí resolvi escolher as pessoas que merecem compartilhar intimamente da minha intimidade (como, por exemplo, saberem qual é minha orientação sexual).
O tempo passa e relaxo cada vez mais, pois fica cada vez mais claro para mim que sou maior de idade (há algum tempo já), que cumpro com todas as minhas obrigações sociais (mesmo que não concorde com várias delas), que sou muito bem casada e feliz, certamente muito mais resolvida do que muitos dos meus amigos heteros. Outro ótimo ponto é que percebo as pessoas menos preconceituosas e isso é determinante, me enche de fé e esperança na humanidade.
Bom, de qualquer maneira, resolvi, para meu próprio bem, ser discreta e não contar a torto e a direito com quem gosto de estar na cama.
Acontece que é difícil manter uma discrição quando uma das primeiras perguntas de alguém que não te conhece e quer conhecer é: “Você tem namoradO?” É nesse momento que começam as saias justas, o momento crucial de se assumir e passar para a primeira categoria ou descer um degrau e voltar a estar no armário.
Por que não perguntam: “qual o filme que marcou sua vida?” ou “qual é seu signo e ascendente?”. Não, elas sempre querem saber se sua relação sexual está em dia (como um carnê da felicidade). Será que isso é coisa de brasileiro? Talvez a Antropologia explique.
Enfim, quando a pergunta fatal é feita eu já tenho computada minha pesquisa sobre a fulana: é curiosa, é indiscreta e fofoqueira? Geralmente sim, porque uma fulana discreta é sempre sutil na abordagem para investigar sua vida sexual.
No meu trabalho há os dois tipos de fulanas. Dia desses uma delas me ofereceu uma grata surpresa, me fez pensar no quanto as pessoas são mesmo curiosas, mas também no quanto estão mais abertas a “aceitar” com naturalidade o que temos a dizer.
Fomos almoçar juntas depois de uma discussão desgastante sobre trabalho. Estou recente na empresa, ainda no processo de reconhecimento do terreno em que piso. Comecei a conversa ainda falando sobre prazos e problemas, mas logo fui desviada com a justificativa mais do que justa de que em almoço não se fala de trabalho:
— Escuta, você vem de tão longe todos os dias... Que coisa louca morar no litoral! Subir e descer a serra todos os dias!
— Pois é... mas não é mau. Sento na minha poltrona do fretado e vou lendo ou dormindo, garanto que mais confortável do que vocês nesse trânsito absurdo da capital.
— Isso é verdade. Mas, por que você faz isso? Seus pais são daqui, não são?
— Sim. É que mudei de vida, fui morar com uma amiga...
— Mas, ela é sua namorada, não é? Pois só amando muito alguém sobe e desce a serra todos os dias em vez de alugar um apê aqui perto...
— É..., ..., ...
— Ah! Então tá! Que legal!! Vocês tem filhos?
Saiu. Contei e não me pareceu a bomba largada que faz as pessoas engasgarem com o suco nem ficarem vermelhas sem conseguir te encarar. Foi natural e me senti à vontade, e feliz por perceber que o mundo muda e a cabeça das pessoas também. É ótima a impressão (cada vez mais comprovada) que algumas pessoas me passam de que a vida que tenho é minha e faço dela o que bem entender sem que meu caráter e meu desempenho profissional estejam em julgamento.
Essa pessoa, tenho quase certeza, é o retrato de uma sociedade mais madura no que se refere a aceitar o outro como ele é.
Tenho certeza também de que logo mais nenhuma lésbica precisará ser “mais ou menos”, nem estar no armário... nem ser enrustida, pois chegará o momento em que amaremos simplesmente e a pergunta será: “você tem namorado ou namorada?”.
Mari Cortez
19-08-2009
terça-feira, 1 de setembro de 2009
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4 comentários:
Otimas colocações, é realmente muito bom perceber esses sutís avanços na mentalidade das pessoas... Mas a muito o que avançar ainda!!!
Achei muito legal teu blog vou te visitar aqui sempre...
Beijos
Amei!! simplesmente..
e chego a péssima constatação de q a mente humana se desenvolve apenas em certos lugares do planeta!
é maravilhoso dizer 'te amo' pra mulher q estamos e amamos..ser carinhosa com ela tb num local público..muito embora, seja ainda melhor e mais esperto não contar "a torto e a direito com quem gosto de estar na cama"..taí, minha saída.
Os 'avanços' tão modestos e apenas em determinadas regiões do mundo, me fazem crer q a pergunta: "tem namorado ou namorada?", fará parte somente de um querer nosso.Uma doce utopia, talvez..
No mais, Mari, sempre amo sua escrita..sempre tiro qq boa lição dela e agora, não foi diferente.
Bjos,
Susany Rubem.
Oi, meninas!!
Esse texto foi uma crônica meeessmo, algo que acontece comigo e tenho certeza que com vcs também. É apenas a constatação de fatos. Se olhamos com otimismo podemos enxergar mudanças, mas, claro, o caminho é longo.
Mas acho que devagar e sempre vamos conquistando mostrando quem somos e isso é o mais importante.
Um beijo grande!
Mari
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