O carro ao lado
Tati estava parada no farol vermelho.
Estava com um braço sobre o volante e o outro apoiava-se na janela, que sustentava sua cabeça pendente, esperando, ainda sonolenta, o farol verde acender.
Ouvia rádio, mas nenhuma música em especial, apenas ocupava os ouvidos e, para os olhos, tinha o céu azul com horizonte claro e sem nuvens de uma manhã calma, quase bucólica... Era sábado sete e meia da manhã, a maioria das pessoas dorme até mais tarde, menos Tati, menos a pessoa do carro ao lado... menos todos os carros que cruzavam a estrada sob o sinal verde, subindo a serra em direção à capital.
Quando o farol abriu, Tati acelerou, mas um louco, provavelmente ainda carregando resquícios da bebedeira de sexta-feira, cruzou seu caminho e ela brecou. Agradeceu ao céu azul não ter confundido o freio com o acelerador, agradeceu estar com o cinto de segurança, mesmo que ele quase a tenha asfixiado. O carro que estava ao lado buzinou longamente, como que gritando, e brigando, e xingando... E foi o fim da manhã bucólica de sábado.
Tati assustou-se. Mesmo estando trêmula por conta do inconsequente, estava mais abalada com o escândalo da buzina que veio feito tiro do carro ao lado. Na verdade, ao lado quase atrás, ou seja, ele (o carro) nem corria o risco de ser atropelado pelo ridículo.
Não conseguiu ver quem dirigia o automóvel robusto, grande, que, depois de berrar, passou por ela após uma breve buzina. Tati entendeu que aquela buzina era uma fala mais mansa, talvez amigável. Talvez o grande carro tivesse tomado suas dores... afinal seu carro era tão pequeno. Sorriu meio sem graça e retribuiu a breve e simpática buzina.
Entraram na estrada, finalmente misturaram-se aos demais carros. A velocidade lá era maior, e Tati estava com pressa. Justamente o carrão que berrou e passou por ela estava atrapalhando sua corrida rumo à aula.
Informações sobre Tati: fazia curso de crítica de cinema aos sábados pela manhã e, durante a semana, trabalhava como cenógrafa. Estava numa fase de querer abraçar o mundo, já que ninguém lhe abraçava...
Tentou ser paciente correndo atrás do carrão, esperando que ele se tocasse e fosse para a faixa da direita, a faixa dos lerdos, ou melhor, a faixa daqueles que não querem estar no limite máximo da velocidade permitida. Encostou um pouco mais, quase ao ponto de ser tão inconsequente quanto o bêbado, pensou em lhe dar farol alto, mas não poderia ser indelicada com o carro que a defendeu daquele outro carro preto, com suspensão rebaixada e cara de mau.
Carro tem cara?
No trânsito carros são pessoas. Há os bonitos, feios, capengas, estilosos, metidos, velhos porém charmosos, os educados, grosseiros, perigosos, amigos... enfim, no trânsito alguns códigos definem o tipo de motorista com o qual se está lidando.
O carrão, aparentemente amigo, deu-lhe passagem; ligou a seta e vagarosamente mudou de faixa. Tati o ultrapassou com seu carrinho mil, mas nem parecia menos potente, já que acabara de colocar o gigante para escanteio.
Cantarolou a música, deu uma olhada na vista de montes verdes e céu azul. Colocou os óculos escuros e olhou pelo retrovisor. O carro grande estava a uns cinco metros atrás dela e não fazia menção de ultrapassá-la. Só estava lá, atrás dela. Tati pensou em sentir medo, afinal, o que aquele carro queria? Por que não a ultrapassava e seguia seu destino? Esses pensamentos passaram a atormentá-la. Tati começou a trocar de faixa para testá-lo, “quem sabe ele não acelera e vai embora”, mas ele só acelerava para não perdê-la de vista.
Em um determinado momento acelerou para ficar exatamente ao seu lado.
Tati queria que o carro abaixasse o vidro para que ela pudesse ver quem dirigia, mas o vidro negro permanecia suspenso e ela realmente começou a ficar com medo. “As pessoas andam tão loucas...”.
No fim da rodovia, pegou uma via expressa e perdeu de vista, no meio de tantos carros, o tal grandão. “Ainda bem...”. Entrou na multidão e a passos, ou melhor, a marchas lentas seguiu a caminho da faculdade distraindo-se com as notícias do fim de semana.
Mas sua tranquilidade não durou muito: misteriosamente o carrão surgiu e pediu com sua buzina “cafa” para Tati o deixar entrar na sua frente. Tati deixou, mas já fazia manobra para entrar na fila ao lado. Não deu certo porque, assim que trocou de faixa o farol avermelhou e ela se viu, novamente, ao lado daquele carro apavorante.
A distância entre os dois era mínima e Tati se preparava para gritar, chamar a polícia e buzinar no congestionamento até que todos aqueles carros tivessem toda a atenção voltada para ela... e aí nada aconteceria.
O vidro do carrão abaixou e Tati fechou os olhos, tamanho era seu medo de ver quem estava ali. Abriu um deles e viu.
Era uma morena estonteante de óculos escuros e um sorriso capaz de parar exatamente aquele trânsito.
Tati abriu o outro olho... e a boca também... e ficou sem saber o que fazer.
— Oi, tudo bem?
— Oi...
— Desculpa a loucura, mas é que já vi esse carro antes, no casamento da Gabriela, semana passada e... a mulher que entrou nele depois da festa era maravilhosa... Era você, não era?
— Eu conheço a Gabriela... e fui ao casamento, mas..., ..., ...
O sinal verde acendeu e os carros que estavam atrás delas começaram a buzinar desesperadamente. A morena simplesmente jogou algo pela janela, que caiu sobre o colo de Tati, e saiu em disparada. Era um celular.
Tati quase não prestou atenção na aula esperando o aparelho tocar. Depois das onze tocou e elas combinaram de se encontrar após a aula, num restaurante, para começarem a se conhecer de verdade.
Mari Cortez
1-9-2009
terça-feira, 1 de setembro de 2009
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