Com quem?
— E então?
— Então o quê?
— Você gosta, não gosta?
— De ficar com mulheres? Gosto, mas não sempre...
— Mas você está com alguém agora?
— Não, só ficando...
— Então...
— Então o quê?
Não era possível! Giovana estava me fazendo de besta. Com aquele olhão azul e aquela boca de Aline Moraes, estava se fazendo de desentendida de novo... É, não era a primeira vez. Não era possível que ela fosse burra, ela não era, eu sabia. Tirava notas boas nas provas mais complicadas de cálculo, e não escolheria fazer matemática se fosse burra. Matava aula e ainda se dava bem. Lá ia com o copo de vodka... e me deixava falando sozinha, de novo.
Eram nas matanças de aula, quando nos encontrávamos nos bares aqui perto da faculdade, que eu tentava, mas ela se fazia de tonta e eu não ficaria correndo atrás. Chega! Não era possível que ela não tivesse entendido que queria ficar com ela. Não queria casar, só ficar... Nada de mais, não precisava envolvimento. Se bem que, se tivesse... Diziam que ela era ótima, beijava bem pra cacete, tipo aqueles beijos inesquecíveis, que entravam na lista dos melhores de toda uma vida.
Não sabia o que acontecia. Não era feia. Sei que não era porque tinha espelho e porque já tinham me dito que era bonita, homens e mulheres. Era/sou inteligente, descolada, tinha/tenho emprego, era/sou limpinha, mas, enfim... ela não queria nada comigo. Ela sabia que era/sou lésbica, já tinha me visto beijando garotas na balada, até arrumou esquema pra mim na festa de aniversário da Gláucia.
Quando não estávamos em bares ou baladas ela se sentava, às vezes, próxima de mim na sala de aula. Puxava conversa sobre a matéria, falava dos professores, de trabalho, de coisas sérias. Ela me olhava como se estivesse conversando com seu médico (merda!) e eu toda derretida querendo atenção, mas não aquele tipo de atenção. De qualquer forma, ela também nunca disse com todas as letras “desencana, nunca vou beijar você.”, ficava sempre se esquivando, fugindo.
Parei. Tinha/tenho amor próprio.
E parei mesmo.
No começo foi difícil. Nas festas ficava longe, evitava até olhar para a roda em que ela sempre estava falando alto, gesticulando, gargalhando. Fui procurar minha turma. Nas aulas eu deixava que ela se sentasse perto, continuávamos discutindo as coisas sérias, mas tentava olhá-la como se estivesse conversando com a balconista do pet shop, totalmente impessoal. Fui me acostumando a isso e me desacostumando da presença dela.
Foi quando surgiu Cibele, uma caloura do curso de História. Bonita e cobiçada, inclusive por Giovana. Mas Cibele não quis Giovana, quis a mim. Ficamos juntas, estava gostando, talvez estivesse me apaixonando. Cibele era um amor, fazíamos programas incríveis juntas, nos divertíamos realmente. E sentia-me curada de Giovana.
Um dia, numa das festas em que sempre nos encontrávamos, eis a surpresa:
— Oi, Pati... tudo bem?
— Tudo, e com você? Desculpa, mas ainda não fiz aquele trabalho de cálculo...
— Imagina que vou discutir cálculo numa festa...
— E qual o outro motivo que te traria até mim?
— Teve uma época que você queria ficar comigo, lembra?
— Lembro... faz tempo...
— Então...
— Então o quê?
— Você está mesmo namorando sério a Cibele ou está só ficando?
— Ficando...
— Então...
— Então o quê?
E...
Bom, estamos juntas até hoje. Mais de cinco anos, e na mais pura fidelidade.
Com quem vocês acham que fiquei?
Mari Cortez.
30-9-2009.
sábado, 3 de outubro de 2009
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3 comentários:
Eu acho que foi com a Cibele.
A fila anda, né? rs
Exatamente, mais sei la, quanto mais eu leio mais eu mudo de ideia. E esse "a fila anda" pode ser tanto pra uma quanto pra outra.
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